Não Encontrou? Pesquise Aqui!

A Estilística

ESTILÍSTICA

Manaus, AM, 06 de março de 2002.


 
"Pudera eu fazer que os que mandam aumentassem os seus conhecimentos sobre o que devem mandar, e que os que obedecem encontrassem um novo prazer em obedecer, e considerar-me-ia o mais feliz dos mortais" (Montesquieu)

Ensaio

Buscamos neste estudo, expor conceitos acerca da Estilística, enquanto forma de análise de uma obra literária, apresentando – em poucas linhas – o seu surgimento, desenvolvimento e métodos, materializados nos propósitos dos principais estudiosos do assunto, dentre eles, Charles Bally e Leo Spitzer.a) O surgimento da estilísticaDesde Platão até o aparecimento do Romantismo, prevaleceram entre nós as noções da antiga retórica, confundindo a estilística com a parte da gramática que estuda as figuras, o que acarretou na omissão da crítica estilística voltada para os estilos individuais com supedâneo nas pesquisas lingüísticas.A partir da Estilística idealista de Leo Spitzer, seguida por Damaso Alonso e seu homônimo Amado Alonso, somando ainda com Helmuth Hatzfeld, que os estudos da expressão literária começaram a tomar impulso, dando início a uma reformulação crítica do nosso processo literário, ainda atrelada a conceitos ultrapassados, como a historiografia, de tradição positivista, ainda presa à noção de épocas, gêneros, espécies, preocupada com os aspectos exteriores à obra, ou seja, feita de um modo mecânico e burocrata.Com o surgimento de novos gêneros, novas tendências, sobretudo, de novas idéias, além da natural exaustão da criatividade pelos modos arcaicos exigidos na retórica, sem, contudo, esbarrar a capacidade criativa do artista. Com a renovação imposta pelo romantismo, surge também a contestação da autoridade da retórica, o que dá azo ao surgimento de uma nova retórica, alterando por completo o conceito de linguagem e estilo, com premissas assentadas no conteúdo psicosocial da linguagem e na consideração dos atos volitivos que encerram os estilos individuais, é a estilística, fundada numa dicotomia; de um lado aparece a estilística da expressão ou estilística descritiva, a qual relaciona a forma e o pensamento geral; do outro lado, a estilística individual, também chamada estilística genética, voltada para a crítica da expressão com fins literários. a) Lingüística e EstilísticaCumpre-nos esclarecer que não se pode confundir lingüística e estilística, não obstante as duas tenham um certo parentesco e a gênese no estudo das palavras. Numa análise puramente lingüística de uma obra literária, só podemos destacar os elementos lingüísticos, ou seja, isolamos apenas as funções lingüísticas sem indicar quais traços as tornam também unidades estilísticas, entretanto, aplicando-se os métodos lingüísticos, teríamos conhecimento objetivo do seu duplo papel, como elementos tanto do sistema lingüístico como do estilístico.A fim de evitar a confusão entre um e outro, faz-se mister reunir primeiramente todos os elementos que apresentam traços estilísticos para submetê-los depois a análise lingüística, excluindo-se todos os outros (estilisticamente não pertinentes).b) Estilo e EstilísticaPara Francisco da Silveira Bueno, professor Catedrático de Língua Portuguesa da Universidade São Paulo, Estilo "é o conjunto das qualidades de expressão, características de um autor ou de uma época" e estilística é "o tratado de diferentes formas ou espécies de estilo e dos preceitos que lhe concernem" (1976, p. 534, FENAME);Já para Michael Riffaterre, "Estilo é o realce que impõe à atenção do leitor certos elementos da seqüência verbal, de maneira que este não pode omiti-los sem mutilar o texto e não pode decifrá-los sem acha-los significativos e característicos ( o que ele racionaliza reconhecendo uma forma de arte, uma personalidade, uma intenção. Etc)". (in A Estilística Estrutural, Editora Cultrix, p. 32)Para Buffon "São as idéias que formam o fundo do estilo... o estilo é apenas a ordem e o movimento que pomos em nossos pensamentos". (Apud, Pierre Guiraud, in A Estilística, traduzida para português pelo Professor Luiz Toledo Machado, P. 49);O próprio Pierre Guiraud, conclui (p. 49), que "O estilo é o homem".Com base nos conceitos supra transcritos, concluímos que a Estilística tem como objetivo estudar as diferentes formas de estilo, posto que cada autor/artista, traz intrínseco a sua forma de criar arte, ou seja, o seu estilo, e dele é inafastável, tornando-se mesmo sua marca registrada, por exemplo, Franz Kafka em relação à metamorfose, ao fantástico; Machado de Assis e a loucura, a traição, Gregório de Matos e a irreverência; Augusto dos anjos e seus versos macabros.c) As Duas EstilísticasDidaticamente dividida em dois ramos, o da expressão que considera as estruturas e seu funcionamento dentro do sistema da língua, altamente dependente da semântica, sendo, portanto, descritiva; e outro, que determina as suas causas, chamada genética, e se aparenta com a crítica literária, a qual é o principal objeto do presente estudo.d) Os principais autores e seus pensamentosPara CHARLES BALLY, sucessor de Saussure na cátedra de lingüística geral da Universidade de Genebra, nas suas obras mais célebres: Tratado de Estilística Francesa e Estilística Geral, é o conteúdo afetivo da linguagem que constitui o objeto da estilística, ou seja, o que importa não é o que se diz, mas a maneira como se diz. Na obra A Estilística, Pierre Guiraud, traduzida para o português por Luiz Toledo Machado, representa bem este conceito (p. 74) "Quando damos uma ordem, por exemplo, podemos dizer: "faça isto", sem nenhuma entonação, permanecendo no plano da pura comunicação;, ou então: "por favor, faça isto" expressando assim, respectivamente nosso desejo, nossa esperança, nossa impaciência.Bally dividiu o estudo dos caracteres em dois princípios que permitem delimitar e em seguida identificar os fatos da expressão em efeitos naturais e efeitos por evocação. Os NATURAIS, são aqueles que naturalmente expressam certas categorias do pensamento, por exemplo, os diminutivos que expressam gentileza e a fragilidade e que um aumentativo possua valor pejorativo; já nos efeitos por EVOCAÇÃO, as formas refletem as situações nas quais se atualizam e extraem seu efeito expressivo do grupo social que as emprega.Vale ressaltar, por importante, que este efeito em muito se parece que com a antiga Roda de Virgílio usada na Retórica, ou seja, a linguagem a ser utilizada, varia de acordo com o público que se quer atingir.Já Léo Spitzer, filólogo alemão contemporâneo, especializado em estilística, em sua publicação, Interpretação Lingüística das Obras Literárias, foi um dos primeiros a conceber uma crítica baseada nos caracteres estilísticos da obra, exerceu sua atividade nos mais variados campos, todavia, ganhou notoriedade como estudioso de uma doutrina estilística original; recusou a divisão tradicional entre o estudo da língua e o estudo da literatura; ao analisar qualquer obra, buscava conhecer a sua essência e a partir daí, a originalidade da forma lingüística, ou seja, no estilo.Atribui-se a Spitzer, os seguintes métodos:1) A crítica é imanente a obra, ou seja, são inseparáveis, e é a partir desta – e somente desta – que aquela extrairá suas próprias categorias, sem se deixar influenciar por qualquer aspecto exterior à obra.2) — Toda obra constitui um todo, e no centro deste todo, encontramos o espírito do seu criador, implicando dizer, que este espírito é exatamente o princípio de coesão interna da obra.3) — Todo detalhe deve permitir que penetremos no centro da obra, aliás, isto é uma coisa natural do leitor, em qualquer motivo, índice, informe, etc, este procura a chave da trama, acabando por adentrar até o âmago da obra.4) Penetra-se na obra mediante uma intuição. Na verdade o bom leitor é sempre aquele que investiga todos os aspectos de uma obra, buscando a cada momento elucidar os nós encontrados no decorrer da leitura e com isso vai desvendando a trama, através da sua intuição em contraste com as pistas deixadas pelo autor, o que é uma coisa fascinante.5) A obra assim reconstruída está integrada no conjunto. Para Spitzer, "Cada sistema solar constituído pelas diferentes obras pertence a um sistema mais vasto. Há um denominador comum para o conjunto das obras de uma mesma época e de um mesmo país. O espírito de um autor reflete da sua nação". (Apud Pierre Guiraud, in A Estilística, p. 111), acreditamos que a materialidade desta assertiva está nos estilos de época. 6) Esse estudo é estilístico: toma seu ponto de partida num rasgo da língua, para Pierre Guiraud, "isso é arbitrário; poderíamos da mesma forma partir de qualquer outro caráter da obra. Muitas vezes, porém, Spitezer abandona rapidamente esse ponto de partida lingüístico; e é bem larga a ponte que lança entre a lingüística e a história literária." (P. 112).7) O traço característico constitui um desvio estilístico individual. Ou seja, cada autor é tem sua forma de escrever, a qual muitas vezes se afasta do uso normal da língua, mas que não chega a ser uma incorreção, posto que é este aspecto que define a sua característica.8) A estilística deve ser uma crítica de simpatia. Na verdade este conceito nos remete à idéia de que a estilística tem como um dos fundamentos o respeito à criação e à criatura, não estando preocupada em encontrar os defeitos (com relação aos padrões usuais de análise literária), mas sim, em entender o estilo daquele autor e a sua fidelidade com a sua criação. RECURSOS DA ESTILÍSTICA LITERÁRIAA estilística literária considera o signo poético em suas duas faces de significante e de significado e a análise estatística tanto pode partir do significante para o significado, com em sentido inverso;Spitzer considera que o estudo da estilística deve ter como objeto a organização verbal da obra literária, o modo como o escritor utiliza a língua para realizar uma obra de arte.A EXPRESSIVIDADE DO EXTRATO FÔNICOA expressividade do extrato fônico de um texto, sempre emana das iterações fônicas que ele apresenta. O estudo dessas iterações deve considerar dois aspectos diferentes: o elemento inerente e o racional.O ELEMENTO INERENTE:Corresponde a um aspecto qualitativo, à peculiar individualidade do som que permite perceber, num texto literário, a expressividade de um fonema, tomado isoladamente, entretanto, isto não é uma regra, tampouco, deve-se de imediato fazer esta correspondência. Exemplificando:Vogais abertas (dilatação) — a, é, ó — sugerindo alegrias, entusiasmos e muitas outras intensidades emocionais correlatas, vejamos:Café com pãoCafé com pãoCafé com pãoVirge Maria que foi isso maquinista?Agora sim Café com pãoAgora simVoa, fumaçaCorre, cercaAi seu foguistaBota fogoNa fornalhaQue eu precisoMuita forçaMuita forçaMuita força Oô...Foge, bichoFoge, povoPassa pontePassa postePassa pastoPassa boiPassa boiadaPassa galhoDe ingazeiraDebruçadaNo riachoQue vontadeDe cantar!Oô....Quando me prenderoNo canaviáCada pé de canaEra um oficiaOô...Menina bonitaDo vestido verdeMe dá tua bocaPra matar minha sedeOô...Vou me embora, vou me embora,Não gosto daquiNasci no sertãoSou de OuricuriOô...Vou depressaVou correndoVou na toda Que só levoPouca gentePouca gentePouca gente(Manuel Bandeira, Trem de Ferro)Vogais fechadas (retração) — ê, ô, i, u — denotam mistério, terror, tristezas, sentimentos íntimos, sensações recolhidas.  O teu seio que em minha mão Tive uma vez, que vez aquela! Sinto-o ainda, e ele é dentro dela O seio-idéia de Platão (Manuel Bandeira, p. 242)Vogais anteriores – e, ê – dão a idéia de claridade, luz e seu declínio..., mas também podem ser no sentido inverso, vejamos:"Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens." (Fernando Pessoa, em "O Eu Profundo")Vogais posteriores — o, ô – sugerindo sombra, escuridão e seu domínio....A bombaé uma flor de pânico apavorando os floricultoresA bombaé o produto quintessente de um laboratório falidoA bombaé estúpida é fero triste é cheia de rocambolesConsoantes bilabiais e labiodentais — p, b, m, f, v – sugerindo idéias suaves, ternuras, coisas macias....  Abelhas:Gotas de luz e perfume, leves, tênues, delicadas, acesas no doce lume de purpúreas alvoradas. Pingos de ouro cristalinos alados na esfera, ondeando, dispersos por entre os hinos da natureza vibrando. Sorrisos aéreos, soltos, flavas asas radiantes, que levam consigo envoltos da aurora os sois fecundantes.Depois de mais três quadras, vêm estas finais: Ah! quanto são adoráveis os favos que elas fabricam. Com que graças inefáveis; Se geram, se multiplicam. Nos afãs industriosos que enlevo, que encanto vê-las com seus corpos luminosos d'iriante brilho d'estrelas. E nas ondas murmurosas dos peregrinos adejos vão dar ao lábio das rosas o mel doirado dos beijos.(Cruz e Sousa, Poesia e Pensamento)Consoante linguodental — t, d — sugerindo idéias definidas, firmes afirmações, incisivas, ordens...
Teu corpo é tudo o que brilha,
Teu corpo é tudo o que cheira...Rosa, flor de laranjeira...(Manuel Bandeira, p. 60)Consoantes alveolares vibrantes — r, rr — nos remetem a idéias fortes, definidas persistentes....;  Sem ambições de amor ou poder,Nada peço nem quero e – entre nós -, andoCom uma grande vontade morrer.(Manuel Bandeira, p. 269)Já as velares – quê e guê – denotam rigor, seriedade, percussão:"Criei em mim várias personalidades. Crio personalidades constantemente. Cada sonho meu é imediatamente, logo ao aparecer sonhado, encarnado numa outra pessoa, que passa a sonhá-lo, e eu não." (Fernando Pessoa)
Elemento relacional:
Corresponde ao aspecto quantitativo, ou seja, a expressividade dos fonemas, no texto literário, é obtida pelo seu posicionamento ou pela iteração. Essa variação relacional pode servir de base à determinação do ritmo e do metro e também constrói as chamadas figuras fônicas, vejamos alguns exemplos:ALITERAÇÃO – Repetição de um fonema no início de vocábulos ou simetricamente dispostos no interior dos mesmos:Melopéia do ventoVozes veladas, veludosas vozes, volúpias dos; violões, vozes veladas, vagam nos velhos vórtices velozes dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas... (Cruz e Souza, in em Violões que choram, 1897)  COLITERAÇÃO – Seqüência de fonemas homorgânicos (p-b-m, f-v, t-d, q-g, c-z, chê-jê), um grande exemplo desta figura fônica é o "Trem de Ferro", no qual os fonemas se alternam fazendo lembrar o barulho de um trem, em todos os momentos, ou seja, da saída, passando pela frente do observador/poeta e sumindo na direção do seu destino.ASSONÂNCIA — repetição da vogal tônica ou vocábulos com consoantes iguais e vogais distintas. Amar o perdidodeixa confundidoeste coração.Nada pode o olvidocontra o sem sentidoapelo do Não.As coisas tangíveistornam-se insensíveisà palma da mão.Mas as coisas findas,muito mais que lindas,essas ficarão.(Carlos Drumond de Andrade) CONSONÂNCIA — Correspondência entre as vogais tônicas e de todos os sons que lhe seguem.O corpo noutro corpo entrelaçado, fundido, dissolvido, volta à origem...(Carlos Drumond de Andrade)ANÁFORA — repetição de um vocábulo no início das frases:Quero antes o lirismo dos loucos O lirismo dos bêbados O lirismo difícil e pungente dos bêbados O lirismo dos clowns de Shakespeare (Manuel Bandeira)A cadência das vogais se relaciona com o ritmo. Não obstante ser possível obter nas consoantes, peculiares as imitações mais precisas, as vogais são mais sonoras e, sobretudo, adequadas para a percussão. A percussão sugestiva, inexistente quase na música clássica, invadiu a música moderna, e está presente na poesia mais freqüentemente. Aqui está uma seqüência de versos de Cruz, martelando vogais:Croto selvagem, tinhorão lascivo, planta mortal, carnívora, sangrenta, da tua carne báquica rebenta a vermelha explosão de um sangue vivo.

Bibliografia

BUENO, Francisco Silveira, Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, 10ª edição, FENAME, 1976);
RIFFATERRE
Michael, A Estilística Estrutural, Editora Cultrix
GUIRAUD
. Pierre, A Estilística, Editora Mestre Jou;
BANDEIRA
, Manuel, Estrela da Vida Inteira, Editora Record
NICOLA
, José, Literatura Portuguesa da Idade Média a Fernando Pessoa, Scipione)
MESQUITA
, Roberto Melo, Gramática da Língua Portuguesa, Saraiva, 1996.
SAMUEL
, Rogel (org) Manual da teoria literária, 13ª edição, Petrópolis, Vozes, 1985.
FILHO
, Domício Proença. Estilos de época na Literatura, através de textos comentados, 15ª edição, São Paulo, Ática, 1995 

Outros Links