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Amar, Verbo Intransitivo Imprimir E-mail
Escrito por SOS Estudante.com   


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Amar, Verbo Intransitivo
Mário de Andrade

Resumo

O Livro: "Amar, Verbo Intransitivo" relata a vida cotidiana de um rapaz que teve a sua história constantemente alterada devido a preocupação do seu pai em relação as descobertas do mundo exterior, exigindo em sua própria casa uma professora que pudesse ensinar ao seu filho mais velho, Carlos, tudo o que se relaciona ao amor.
Mário de Andrade ao escrever este livro, preocupou-se com a importância que se dá à fala brasileira, onde tentou exprimir o nosso português oral, falado no Brasil e usou expressões mais controladas pela Gramática.
A ousadia de Sousa Costa é incorrigível, pois o amor não deve ser comprado e muito menos ensinado por outra pessoa, deve acontecer naturalmente sem intervenções de alguém de fora ou até mesmo da família.
Neste livro é possível analisar que Mário de Andrade não participa da história, mas faz referências a si mesmo sem intervir de maneira direta na obra, fazendo com que a história fique mais interessante.
Finalmente podemos perceber que o livro traz referências alemãs, devido aos estudos adiantados de Mário de Andrade, tendo como objetivo a atenção do leitor; e possuindo também uma rica literatura romântica e principalmente moderna.

Mário de Andrade publicou Amar, Verbo Intransitivo em 1927, um ano, portanto, antes de Mamaíma. Embora, muito distintos entre si, tais livros tem algo em comum: é a importância que se dá à fala brasileira. Amar, Verbo Intransitivo tenta exprimir o português falado no Brasil, nossa língua oral. Mas o predomínio da oralidade não é absoluto. Na verdade há uma mistura entre expressões orais e outros níveis expressivos mais controlados pela gramática. Isto já se vê na primeira página:

"Elza viu ele abrir a porta da pensão. Páam... Entrou de novo no quartinho ainda agitado pela presença do estranho. Lhe deu um olhar de confiança. Tudo foi sossegando pouco a pouco. Penca de livros sobre a escrivaninha, um piano. O retrato de Wagner. O Retrato de Bismark."

Reparemos nas expressões do cotidiano paulista: viu ele (em vez de viu-o), Páam (onomatopéia), lhe deu (começando a frase com pronome oblíquo), penca de livros. Isto sem falar nas duas últimas frases, que são curtas, "telegráficas": O retrato de Wagner. O retrato de Bismark.
Algumas dessas expressões, são erros gramaticais, cometidos intencionalmente; outras são formas não aceitas nos códigos cultos da linguagem. Todas elas, porém, procuram realizar aquele projeto do Modernismo da busca de uma frase dinâmica, às vezes primárias, e até certo ponto irreverente. No caso do romance de Mário de Andrade, o que se busca é a fala despreocupada da classe média urbana de São Paulo.
Digno de nota é o gênero que Mário escolheu. Por que o romance? A resposta mais simples é que o material que ele queria trabalhar não caberia num conto. Mário queria desenvolver o tema do amor, o da liberdade feminina, o tema da arte, e o tema da aclimatação da cultura e da imigração alemã no quadro da vida urbana brasileira. É muita coisa. Isto só caberia num romance, pequeno, sim, mas romance.
Outra questão é o foco narrativo. Por que Mário não escolheu o foco da terceira pessoa, isto é, aquele foco que o narrador chama a atenção sobre os outros e faz esquecer a si mesmo? Ora, exatamente por causa disso. Mário queria comentar ocorrências, analisá-las, mostrar que era ele quem estava dando as opiniões. Não só. Queria também exprimir a emoção que a história lhe estava dando. Então o foco da primeira pessoa era o mais indicado. Mário conta a história freqüentemente faz referência a si mesmo, porém não participa da história.
Mas por que a temática alemã? Por que não a italiana, a espanhola ou a portuguesa, que eram menos distantes? Por várias razões. A primeira seguramente a mais simples, é que Mário estava bem adiantado nos seus estudos da língua alemã. Quando nós decidimos estudar uma língua, a nossa emoção fica ocupada por essa língua. A segunda razão estava que o temperamento alemão, tão diferente do latino, oferecia observações interessantes para um escritor empenhado em criar situações novas. Mas a razão mais forte talvez esteja na riqueza da literatura alemã, não só a romântica, mas também a moderna. A Alemanha teve, na passagem do século XVIII para o XIX, um grupo de poetas e filósofos de qualidade realmente impressionante. Bastam, para citar dois, os nomes de Schiller e Goethe, figuras, aliás, adoradas por Elza, personagem principal do romance de Mário de Andrade. Isto sem falar nos músicos, como Brahms e Wagner. A Alemanha teve também um belo movimento modernista, e dentro deste foi notável a importância do estilo chamado expressionista. O expressionismo vai constituir um dos motivos centrais de Amar, Verbo Intransitivo. Mário de Andrade gostava muito desse estilo. A pesquisadora Maria Luíza Ramos chega mesmo a sugerir que a figura de Elza, a professorinha que vai ensinar sexo ao menino da família paulistana, é na verdade uma homenagem à grande poetisa judia Else Lasker-Schüler. Esta exerceu o papel de proa no movimento expressionista alemão. Lembremos um de seus poemas:

DESPEDIDA

Você não veio com a noite
Ver meu casaco de estrelas.
E quando batiam na minha porta,

Batia o meu coração.
Esse coração pendurado,
Na boca de tua porta.

Minha grinalda rosa de fogo se apaga.
Eu pintei de groselha o céu
Com sangue do meu coração.
Mas você não veio com a noite.
Eu boba te esperava com os meus sapatinhos de ouro.
(Tradução: Antonio Medina Rodrigues)

Ora, nesse poema esta um dos princípios básicos do expressionismo, a saber, o desejo de pintar as emoções, não para deformá-las ou ocultá-las, mas para exprimir sua intensidade. O expressionismo quer exprimir os movimentos do mundo interior. Costuma a mostrar as dores e os sofrimentos da alma através dos tons, das cores, de maneira a tornar nítido e marcante o sofrimento. É que o expressionismo acredita que as emoções tenham tons, cores, formas, e que estas qualidades picturais não deformam, ao contrário, realçam claramente os estados de alma. Sob esse ponto de vista, o expressionimo é o contrário do impressionismo. O impressionismo valoriza o tom vago, sugestivo, indeterminador, como foi, por exemplo, o movimento simbolista em poesia. Mas o expressionismo, ao contrário, não abre mão de um certo apelo realista. Ora, é com este núcleo de sentimento, cor e realismo que Mário de Andrade quer trabalhar o tema de um amor que nasce entre a professora Elza e o seu aluno adolescente, e é isto que faz a "lição de amor", para lembra o título dado a adaptação desse romance para o cinema. Em si mesmo, esse caso é idílico, romântico. Mas o cenário familiar de classe média paulistana, o tema algo chocante do "ensino sexual" e os impedimentos morais de todo tipo vão dar ao idílio um embaraço que só se pode traduzir no clima realista.
Não imaginemos, porém, que o romance fala apenas de um amor atípico. Afinal o idílio entre Elza e Carlos serve também como base para Mário de Andrade focalizar a questão do amor de um ponto de vista mais filosófico. A questão é a seguinte: Pode-se ensinar o amor? Pode-se aprender sexo como se aprende uma disciplina qualquer, sem resultados danosos para a alma? Sexo é distinto de amor? Toda essa preocupação teórica - que já foi assunto de grandes diálogos, entre filósofos gregos na Antigüidade (sobretudo Platão) - vai repontar aqui e ali no romance de Mário de Andrade. Mas a questão da educação também está envolvida. Como orientar a educação sentimental e afetiva? O livro não nos dá respostas definitivas. Ele apenas nos apresenta um caso que nos leva a pensar. No que faz muito bem. Deixa o leitor fazer a escolha.
O romance de Mário de Andrade é também perpassado pela questão da arte, particularmente da música e da poesia. Finalmente, há também uma preocupação em descrever o estranho caráter germânico: afinal, a professorinha alemã achava plenamente natural existirem "lições de amor", um coisa completamente escandalosa para a maioria das pessoas. Alguns conflitos da professora Elza vêm da naturalidade com que ela encara sua estranha profissão, e também da perplexidade com que ela de repente se viu apaixonada. Há também um quadro psicológico da reação dos pais, e das três irmãs de Carlos (Maria Luísa, Laurita e Aldinha). Como há também um certo machismo no menino, que a crítica já chegou a apontar.

Enredo

Acordo entre Sousa Costa e Elza: A lição de amor

A primeira cena do livro nos apresenta os entendimentos de Sousa Costa, pai de Carlos, e Elza, ou seja, Fräulein (pronuncia-se Fróilain, senhorinha). Elza insiste em que a mãe do menino também deveria saber os termos do acordo que ambos estavam fazendo:

"- Desculpe-me insistir. É preciso avisá-la. Não me agradaria ser tomada por aventureira, sou séria. E tenho 35 anos, senhor. Certamente não irei se sua esposa não souber o que vou fazer lá. Tenho uma profissão que uma fraqueza me permitiu exercer, nada mais nada menos, é uma profissão."

Elza, foi, enfim, para a casa de Sousa Costa, onde há tempos já trabalhava um criado japonês. Ela ganharia oito contos. Seus primeiros pensamentos apalpando o futuro:

"Ganhava mais oito contos... Se o estado da Alemanha melhorasse, mais um ou dois serviços e podia partir. E a casinha sossegada... Rendimento certo, casava." Uma das coisas que logo estranhou, foi a vacilação na pontualidade das pessoas. Depois, ela ouvirá um refrão que vai se repetir ao longo do livro:

"- Mamãe! Mamãe! Olhe o Carlos!" - Era o menino, importunando sua irmã. Isto o mostra, de certa forma, numa fase pré-adolescente. "Se rindo do chuvisco dos tapinhas, carregando a irmã no braço esquerdo. Carlos ofereceu a mão livre à moça. Voz Paulista, certa de chegar ao fim da frase. Olhos francos investigando.
- Bom dia. A senhora é a governanta, é?
Ela sorriu, escondendo a irritação.
- Sou (...)
Elza consolava a pecurrucha, com meiguice emprestada. Não sabia ter meiguice. Mais questão de temperamento que de raça, não me venha dizer que os alemães são ríspidos. Tolice! Conheci!. (...)
Elza é filho chegando do sítio ou mãe que volta de Caxambu. Membro que faltava e de novo cresce. Começara como quem recomeça, e a tranqüilidade aplainou logo a existência dos Sousa Costas, extraindo as últimas lascas da desordem, polindo os engruvinhamentos do imprevisto."

O Imaginário de Elza:
Homem da Vida, Homem do Sonho

Elza, governanta e professora, fazia passeios curtos com as crianças, tomava de cada uma as lições, levava-os ao cinema. O narrador observa que os alemães têm vocação para a vida regrada.
Sousa Costa, chefe da família, descendia de portugueses. Tinha fábrica de tecidos no Brás e por desfastio se dedicava a criação do gado caracu. Sua mulher, mais alta que ele, era dona Laura.
Fräulein Elza tem as primeiras impaciências com a indolência de Carlos no aprendizado do alemão. Fräulein lia demais. Como definir o espírito do alemão? "No filho da Alemanha tem dois seres: o alemão propriamente dito, homem do sonho e homem da vida, espécie prática do homem do mundo que Sócrates se dizia". O primeiro é religioso, ou filósofo, ou idealista. Já o segundo é prático, e se adapta a qualquer situação. "Culpa de um, culpa de outro, tornavam a vida insuportável na Alemanha. Mesmo antes de 14 a existência arrastava difícil lá. Fräulein se adaptou. Veio para o Brasil, Rio de janeiro (...) Agora tinha que viver com os Sousa Costas." No intervalo desses comentários, o narrador aproveita para ponderar que a culpa da guerra também a tinham os demais países da Europa: "... convenha comigo que todos esses europeus foram uns grandessissímos canalhões."

 

 

 

 

Sintomatologia Amorosa

Carlos começa a interessar-se de fato pela língua alemã. E também queria aprender piano.
Fräulein Elza têm seus momentos de divagação, pensa no amor, na música de Brahms e Wagner, fica seu pensamento entre a tendência do homem da vida e a do homem do sonho. Julga que os alemães são de raça mais sadia que os portugueses, os negros e os índios. Mais uma vez reponta uma pergunta-refrão: "É coisa que se ensine o amor?". O narrador, crê que não. Fräulein crê que sim. Fräulein tinha poucas relações na colônia. Preferia ficar em casa, lendo Schiller e Goethe. Tinha contudo, alguns amigos e todos lamentavam a situação da Alemanha do Kaiser, agora no poderio francês.
Entrementes, a cada dia mais e mais Carlos se mostrava sensualmente atraído por Fräulein: "O caso evolucionava com rapidez. Muita rapidez, pensava Fräulein. Mas Carlos era ardido, tinha pressa. Por outra, não é que tivesse pressa exatamente, porém não sabia somar (...) Ele compreendeu enfim, devido aquele fato lamentável apagado pela esponja dos arcanjos [masturbação], que gostava mesmo de Fräulein.
Mas na verdade Carlos nem sabia bem o que queria. Fräulein é que sentia se quebrar. Tinha angústias desnecessárias, calores, fraqueza. Em vão o homem do sonho trabalhava teses e teorias. Em vão o homem da vida pedia vagares e método, que estas coisas devem seguir normalmente até o cume do Itatiaia." As lições, sobretudo as canções alemãs de amor, que Elza pede para Carlos traduzir, são um mote do despertar da sensualidade nela, que ainda se inclina a disfarçar. Numa dessas lições, porém, ela não pode se conter. "O rosto se apoiou nos cabelos dele. Os lábios quase que, é natural, sim; tocaram nas orelhas dele. Tocaram por acaso, questão de posição. Os seios pousaram sobre um ombro largo, musculoso, agora impassível escutando. Chuvarada de ouro sobre a abandonada Barca de Dânae... Carlos... eta arroubo interior, medo? Vergonha? Aterrorizado! Indizível doçura... Carlos que nem pedra. Fräulein escreveu com a mão dele em letras palhaças: "Tiefe ruth" ("repousa profundamente") .

A Inocência da Mãe e os Remendos do Pai...

D. Laura, que não sabia do acordo de seu marido com Elza, vai pedir a esta que abandone a casa. Sousa Costa teve que explicar-se a sua esposa e à Fräulein:

"- Queira desculpar, Fräulein. Vivo tão atribulado com os meus negócios! Demais: isso é uma coisa de tão pouca importância!... Laura, Fräulein tem meu consentimento. Você sabe: hoje esses mocinhos... é tão perigoso! Podem cair nas mãos de alguma exploradora! A cidade... é uma invasão de aventureiras agora! Como nunca teve! COMO NUNCA TEVE, Laura... Depois isso de principiar... é tão perigoso! Você compreende: uma pessoa especial evita muitas coisas. E viciadas! Não é só bebida não! Hoje não tem mulher da vida que não seja eterômana, usam morfina... E os moços imitam! Depois as doenças!... Você vive na sua casa, não sabe é um horror! Em pouco tempo Carlos estava sifilítico e outras coisas horríveis, um perdido! É o que eu te digo, Laura, um perdido! Você compreende... meu dever é salvar o nosso filho... Por isso! Fräulein prepara o rapaz. E evitamos quem sabe? Até um desastre!... UM DESASTRE!"

O moral de Elza: Defesa da Profissão

Estas palavras convenceram a D. Laura de que Fräulein deveria permanecer. Mas Fräulein se defende: "Não sou nenhuma sem-vergonha nem interesseira! Estou no exercício duma profissão. É tão nobre como as outras. É certo que o senhor Sousa Costa me tomou pra que viesse ensinar a Carlos o que é o amor e evitar assim muitos perigos, se ele fosse obrigado a aprender lá fora. Mas não estou aqui como quem se vende, isso é uma vergonha (...) e o amor não é só o que o senhor Sousa Costa pensa. Vim ensinar o amor como deve ser. Isso é o que pretendo, pretendia a ensinar pra Carlos. O amor sincero, elevado, cheio de senso prático, sem loucuras. Hoje minha senhora, isso está se tornando uma necessidade desde que a filosofia invadiu o terreno do amor! Tudo o que há de pessimismo pela sociedade de agora! Estão se animalizando cada vez mais. Pela influência às vezes até indireta de Schopenhauer, de Nietzsche... embora sejam alemães. Amor puro, sincero, união inteligente de duas pessoas, compreensão mútua. E um futuro de paz conseguido pela coragem de aceitar o presente."

Consuma-se a Lição
e a Professora Sai Ferida

O narrador, depois de saudar o advento de Freud, e de defender sua personagem da possível pecha contraditória, proclama: "NÃO EXISTE MAIS UMA ÚNICA PESSOA INTEIRA NESTE MUNDO E NADA MAIS SOMOS QUE DISCÓRDIA E COMPLICAÇÃO." Por fim, ante as desculpas de Sousa Costa, Fräulein decide ficar. É então que ela e Carlos se entregam um ao outro. "Carlos não viveu esses três dias". E isso de certa forma fez com que amadurecesse depressa. Já começa a não bulir com as irmãs, a quem torturava com suas sintomáticas brincadeiras. Agora está interessado apenas em Fräulein. "Carlos sai cuidadoso do quarto de Fräulein. Caminha na maciota. Todo cuidado é pouco, não? Com os pés de onça ele pisa. Nem um ruído fará, não vá acordar alguém... Carlos reflete. E sabe que essas coisas ninguém deve descobrir". E os encontros se repetem. Mas começam os ciúmes de Fräulein.
"- Ninguém? Você não me engana, Carlos. Então hei de acreditar que fui a primeira?
- Você foi a primeira! A única!

A Precipitação dos Acontecimentos

Mário de Andrade se esforçará por mostrar que os ciúmes de Fräulein podem ser contraditórios ou estranhos, mas são humanos, naturais. Note nesta passagem de monólogo interior como as coisas se explicam mais claramente: "Professora de amor... porém não nascera para isso, sabia. As circunstâncias é que tinham feito dela a professora de amor, se adaptara. Nem discutia se era feliz, não percebia a própria infelicidade. Era, verbo ser (...) Porém que uma outra tivesse movido o menino a primeira vez... lhe desagradava. Conservaria sempre pelos anos a sensação logo vencida mais imortal de que tinha lhe passado a perna". O cenário familiar se arrasta um pouco com a doença de Maria Luíza, que preocupava a família. Fräulein foi uma enfermeira impecável, dedicada, embora não tivesse simpatia por ela. Com a melhora da menina, a família viaja toda para o Rio, onde aproveita todas as belezas e oferendas do litoral. Onde, aliás, continuam as intimidades de Carlos e Fräulein:

"- Carlos
- Estou aqui Fräulein!
- Não faça assim! Podem ver...
- Ficaram no automóvel... Ninguém vê!"

Na volta do Rio recomeçaram os encontros noturnos, que bom! Carlos evoluía rápido. Fräulein tinha já seus despeitos e pequenas desilusões. Por exemplo: ele demonstrava já de quando em quando preferências brasileiras e outras individuais que contrastavam com a honestidade clássica do amor tese. Tese de Fräulein. Se eu contasse tudo, a verdade, mesmo dosada, viria catalogar este idílio entre os descaramentos naturalistas, isso é impossível, não quero (...) Fräulein é que não compreende esse divagar sublimado. Corrosivo, ela pensa. No dia seguinte principia matutando com o desfecho, vem vindo a hora de acabar. Cumpriu a missão dela, o que sabia ensinou. O homem da vida e o homem do sonho passeiam braços dados. Quatro contos para cada um. Vamos tomar um chope. Fräulein sente uma fraqueza, sorri de amorosa. Pobre Carlos, vai sofrer... Vem uma revolta: que sofra! E ela Então? Grande Alemanha sem recursos, desmantelada. Tudo rapidamente. Porém permanece um desejo mole pelo rapaz. Talvez a ensombre um arrependimento. O homem da vida afirma: Não. E vira o chope".
"Entre Sousa Costa e Fräulein se convencionara, desde o princípio, que aquilo não podia acabar sem um pouco de violência. A mairo lição estava mesmo no susto que Sousa Costa pregaria no coitado. E então lhe mostraria os perigos que nessa aventuras de amor pecaminoso, pecaminoso? Correm os inexperientes. Vocês todos já sabem quais são. Isso divertira muito Sousa Costa, representar a cena lhe dera um gostinho. Sousa Costa queria muito bem ao filho, é indiscutível, porém de amores escandalosos dentro da própria casa dele, lhe repugnava bastante. Não é que repugnasse propriamente... fazia irritação. Está certo irritava Sousa Costa. O filho era dele, lhe pertencia. Que se entregasse a uma outra e ele sabendo, teve ciúmes, confesso. Se sente como que corneado! Tal era a sensação inexplicável de Sousa Costa pai".
Fräulein sabia, mais do que outra pessoa que aquelas lições de amor estavam chegando ao fim. Tinha combinado isso com o pai de Carlos. Só não queria que fosse um final brando, camuflado. Sousa Costa se prepara para encenar o seu papel. Vai fingir ao filho de que não sabia de nada, para surpreendê-lo com toda força possível. E assim aconteceu, com pressões, ameaças. Carlos que batera inutilmente a porta de Fräulein, se desespera e é retirado por sua mãe. Sousa Costa lhe dissera que aquilo era uma loucura, que podia até mesmo ter um filho com Fräulein... Que Fräulein recebera o dinheiro para fazer o que fez...

O Epílogo e a Ironia Final

Os dois amantes se despedem timidamente, fracamente. Fräulein pensa em ir para Santos, ou ir para o Rio de Janeiro. Carlos procura distrair-se, vai ao teatro, não agüenta, sai no meio do ato. Fräulein que havia partido, ocupa toda a sua imaginação e seu desejo. Carlos sofria demais com a separação. E sai pelas ruas. "A noite de outubro esgotado pingava uma garoa fina na gente. Carlos anda ao atá. Tomou mesmo o chope? Não sabe mais, andava. Ah, se soubesse aonde ele estava! Cercava os punhos, batia as pernas um joelho no outro, se machucando. Anúncio luminoso, parou, não podia mais. Jungiu o corpo com os braços ásperos, querendo se partir pelo meio. Aonde ir? Restaurante MEIA-NOITE. Pra casa? Pro inferno? Pra acabar duma vez com aquilo! Apertou mais o corpo, uma palavrinha apertou : Suicídio. O subconsciente, que prestidigitador! Tira da carne as coisas mais inesperadas! A gente não pensa - Jornais do Rio! Correio da Manhã, País, Gazeta... - Não quer, bruscamente espirra uma palavra sem razão. Suicídio? Carlos não se suicidará nunca, sosseguem, a palavra pulou sem ser chamada. Pulou, caiu no chão. Carlos não se abaixa para erguê-la. Quem passa enxerga aquele rapaz parado na esquina, se apertando com os braços pelo meio do corpo, que posição esquisita! Foram pensando que era dor de barriga. Não era não. Era jeito de perguntar, taquarambo. Uma resposta já sabida: não, não sabemos onde Fräulein está". Com o passar dos dias começa mesmo o processo de idealização poética da amada por que passam os homens apaixonados. Mas procurou também esquecer, atirar-se ao esporte às amizades.
Fräulein, contudo, voltará a aparecer num curto espaço do final do romance. Era Carnaval. Avenida Paulista. Lá estava Fräulein tentando ensinar amor para mais um jovem, desta vez, o tímido Luís de dezessete anos, que, sem dúvida, não fazia gosto de Fräulein como Carlos fizera. A professora de amor trabalhava, enfim, para mais de uma família. Mas, no fundo, Fräulein ainda sonhava com um homem seu, ou seja, seu pensamento ainda se inclinava para o homem do sonho, contra o realismo do homem da vida. "Queria alguém de puro, de humilde, paciente, estudioso, pesquisador. Chegaria da Biblioteca, da Universidade...". Isto ela estava pensando quando viu Carlos, que passava com uma holandesa. Atirou-lhe uma fita de serpentina, que lhe pegou na testa. Carlos cumprimentou-a de longe. Ela magoou-se um pouco, mas logo se recuperou, e retoma o fio quebrado de suas atenções para com o novo aluno. Era preciso recomeçar sempre.

Análise Crítica

Mário de Andrade apresenta em seu romance uma situação que, como todos sabem ,é bastante objetiva: uma família, para proteger seu filho de eventuais aventuras, decide contratar uma professora que lhe dê as primeiras lições de amor. Isto é objetividade pura. Mas também é ignorância familiar, que não sabe calcular as conseqüências.
Mas, se o quadro das funções ou dos papéis está tão objetivamente distribuído, o quadro da intimidade vai apresentar uma dimensão até certo ponto contrastante com o esquema básico do livro. Porque é estranho que a professora, depois de tanta experiência ainda se apaixone e tenha ciúmes inexplicáveis. Sobretudo se lembrarmos o modo com Fräulein serena, fria e germanicamente costuma cumprir com suas obrigações. Mário de Andrade, como sabemos, tentou defender sua personagem da acusação de contraditória. E se justifica com base em psicologia moderna, sobretudo Freud. Aliás, as intervenções psicologistas do narrador são uma das características centrais do livro. E nem sempre são bem sucedidas. Elas de certa forma demonstram que a ação não se sustenta por si mesma, e que a narrativa está pedindo socorro teórico. Outro dos caminhos que Mário de Andrade escolheu para fugir da pobreza espiritual da família média paulistana, bem como a limitação natural do assunto, foi a exploração do imaginário de Elza. E, ao que parece, esta é a parte que mais me convence no livro. Porque sob esse aspecto, Mário consegue realmente criar a impressão de uma figura humana comovente. Não quando Elza age. Mas quando Elza tem seus escapismos, quando pensa num casamento na Alemanha, quando hesita entre o espírito e a prática, quando se sente humilhada, quando tem suas raivas, quando fica entre ir embora ou permanecer.

 
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