Análise da obra de Lispector:
A Hora da Estrela
A Hora da Estrela de Clarice Lispector, é um “romance” diferente de todos os já lidos, isso se deve ao fato de a escritora fazer um jogo de personagens, tentando até mesmo se excluir como narradora, mas que por fim, acaba por se contradizer mostrando realmente quem era, além
de narradora, também personagem na figura de Rodrigo
(narrador-personagem criado por Clarice); Rodrigo que também as vezes
se confundia com Macabéa, personagem criada por ele (e consequentemente
por Clarice), já que essa (Macabéa) é criada e levada a morte por essa descrição, descrição marcada com uma linguagem que a desfigura e a constrói ao mesmo tempo.
Na
verdade, a expressão “romance” supra citada, foi propositadamente posta
entre aspas, pelo motivo de que a própria autora, não sabia, ou melhor,
não queria, classificar sua obra como romance, ou como novela, enfim,
pois para Clarice, não mais importava essa questão de classificação em
gêneros, para ela o texto apenas existia, seu encaixe em determinado
gênero não iria mudar nada, o que está escrito, está escrito e pronto,
cada leitor é que deveria tirar suas próprias conclusões.
Os leitores de A Hora da Estrela podem estar se perguntando o porquê de Clarice ter criado
Rodrigo para narrar a história de Macabéa, isso ocorreu porque ela queria narrar de forma distante,
sob o ponto de vista masculino, já que se fosse a narração feita por
uma mulher, com certeza teríamos um cunho mais sentimental, e não era
esse o interesse de Clarice, ela refletia. muito sobre a situação de
submissão das mulheres, ela achava que a felicidade só acontecia ao lado de um homem, por isso também a história é narrada por um homem, para que fosse afastada de todo esse sentimentalismo lacrimoso das mulheres, “homem não chora”.
Clarice
Lispector, sofria muito com a posição dos críticos, que diziam que sua
obra não estava de acordo com o esperado na época. Argumentavam que
suas produções não tinham um cunho social, que era o que marcava os
textos daquele momento. Na verdade, toda a obra de Clarice não tinha
mesmo essa preocupação, ela escrevia e pronto, não procurava escrever
sobre o que os outros estavam acostumados a ouvir, ou querendo ouvir.
Desde nova, quando escrevia histórias infantis ao jornal de
Pernambuco, seus textos não eram publicados, por se tratarem, segundo o
editor do jornal, de textos muito fragmentados e complicados.
É relevante pontuar, que a obra de Clarice realmente não é simples de se ler, ela requer uma certa reflexão do leitor, as cenas não estão descritas de forma tão explícita, de modo que não nos leve a uma reflexão mais profunda, no entanto, em A Hora da Estrela, Clarice tentou “retratar”
um pouco essa questão social, não de forma tão explícita, mas sim nas
entrelinhas. Pode-se notar isso, quando ela, por exemplo, fala do
médico, médico de pobres, que como acontece no dia-a-dia odeia o que faz, e as pessoas menos favorecidas têm que se submeterem a esse tipo de serviço, com esse tipo de “profissional” que não está satisfeito com o que faz e com a quantia que recebe.
Percebe-se também, essa questão citada acima, na própria história de Macabéa, que é a história
de milhares de nordestinos (pobres), que vem para a cidade grande tentar ser alguém na vida,
ocupar
o seu espaço, e o que acontece? Nada de novo acontece, vêem e, na
maioria das vezes, passam por situações piores do que as que viviam no
interior, em sua terra natal.
Se essas pessoas eram pouco importantes, insignificantes onde viviam, serão mais ainda na cidade
grande, na capital, onde cada um quer saber de si, onde cada um tem que
“se virar”, onde amizade, solidariedade, são palavras que não existem.
Essas pessoas passam a ser apenas mais um dentre tantos; são pessoas substituíveis, que tanto faz morrerem ou não, existirem ou não.
É justamente sobre essa questão da inutilidade, do “ser mais um”, que trata o “romance” A
Hora da Estrela, que mostra esse processo de massificação a que todos
estamos submetidos. Nessa narração, ou melhor, metanarrativa, a autora
quer justamente nos levar a essa reflexão, afinal, quem somos? Para que
vivemos? Qual é o nosso papel na sociedade? Será que fazemos falta, ou somos apenas mais um? Somos importantes? Será que no fundo, também não somos uma Macabéa da vida?
Quando lemos o livro, muitas vezes rimos da personagem Macabéa, mas será que no fundo, bem
lá no fundo não nos parecemos com ela? Quantas vezes não sabemos quem
somos e o que estamos fazendo nesse mundo? Também não vamos empurrando
a vida com a barriga, e seguindo um rotina fatigante, achando que é assim mesmo, que assim está correto, está bom. Imaginamos que
a única diferença que temos de Macabéa, é que nós, ainda por cima,
reclamamos dessa vida e ‘Maca” não, ela não tinha essa consciência,
para a personagem, tudo estava bom, perfeito, até o momento em que a
cartomante através da linguagem lhe mostra o futuro, felizmente (ou infelizmente) ela teria um destino.
É
mister, deixarmos claro, que Macabéa, não tinha a oportunidade de ter
uma outra perspectiva, tinha que agir assim mesmo, porque ela era um
ser excluído da sociedade, e esta, não dava margem para que ela fosse alguém na vida. No entanto, as vezes, Macabéa dava-nos a entender que tinha um
pouco, mesmo que muito raramente, consciência de sua inutilidade,
quando por exemplo, Olímpico pergunta à ela sobre seu nome, e ela diz
que não tem importância, que ela não é importante, ou quando acordava
pela manhã e imagina, quem sou eu? E respondia: sou virgem, datilógrafa
e gosto de coca-cola, (ela, sempre procurava lembrar quem era, já que
os outros não percebiam, até mesmo para ela própria não se esquecer).
Mas a percepção concreta dessa sua inutilidade ela não tinha, aliás,
ela nunca aprendeu a pensar, só repetia o que ouvia dos outros,
principalmente da rádio relógio, que ensinava uma “cultura” inútil.
Maca
era ingênua, a tal ponto que chegava a agradecer e pedir desculpas
quando os outros a ofendiam, ela era apenas mais uma, ia a lugares
comuns e sonhava em ser uma estrela de cinema, apesar, é importante
deixar claro, de ela estar (demonstrar) satisfeita com sua situação.
Temos esse ponto em comum com a personagem, de querermos ser uma “estrela de cinema”, também nós
sempre temos o desejo de ser alguém, nunca estamos satisfeitos com o
que somos. Apesar de, vou reforçar mais uma vez, que Macabéa, não tinha
essa consciência, ela desejava e pronto, do mesmo modo que comia,
trabalhava e ouvia rádio, era apenas, mais uma atitude e não um desejo obsessivo, um objetivo de vida.
Aliás, objetivos, perspectiva, ambição, eram sentimentos que Macabéa nunca teve, ela, sempre
foi construída como a ausência de tudo, ou seja, a que não tem. Ela é um não, idéia de nada, ela
não
tem família, não tem namorado, não tem dinheiro, não tem sensualidade
(ela só se descobre sensual depois das palavras da cartomante).
Olímpico, o namorado de Maca, era também um nordestino que havia vindo
tentar uma vida melhor no Rio de Janeiro, mas diferente de Macabéa, ele
queria crescer na vida, mesmo por meios ilícitos, e ela nem isso
queria. Na verdade Maca, só ao entrar em contato com a cartomante é
que começa a refletir, se é que se pode dizer isso, sobre sua
existência, Madama Carlota foi a única que achou seu nome bonito, que a
chamou de florzinha, foi a primeira vez que foi reconhecida como gente,
apesar de percebermos que Carlota fazia isso, porque era seu papel
iludir as pessoas, encher “os miseráveis” de esperança.
Ao ouvir
a cartomante, Macabéa se sente grávida do futuro, é a primeira vez que
lhe vem a mente, uma certa perspectiva, um destino, que como sabemos é
trágico. Justamente quando ela imagina que vai começar a viver é que
a morte lhe toma a vida. Mesmo assim, é relevante deixarmos claro, que
mesmo acidentada, atropelada, Macabéa em sua ingenuidade se senti feliz
e acredita que sua vida está mudando para melhor, pobre sabe ela que
sua vida está terminando, aliás, podemos tirar a conclusão de que de
certo modo ela estava correta, quem sabe com a morte física ela não
poderia viver, já que enquanto estava viva ela simplesmente vegetava,
era apenas “ cabelo na sopa”.
A idéia conclusiva que podemos
chegar é que a única saída para Macabéa, era nada mais, nada menos que
a morte, esse é o destino de todos (morte física), apesar de muitos já
estarem mortos antes mesmo de morrem literalmente, principalmente essas
pessoas excluídas, Macabéa só foi alguém, só foi percebida no mundo,
quando foi atropelada, atrapalhando o tráfego, como já dizia Chico
Buarque, em sua música Construção. Na verdade somos o nada, como
Macabéa, só somos percebidos por um instante, quando a vida nos coloca
nessa situação que é a morte, enfim, nesse momento encontramos nosso
lugar, mesmo que na calçada (que não é a da fama, mais uma comum), que
por um instante se torna o palco, o picadeiro, o cenário de um
estrelato. Macabéa enfim, consegue ser vista, sentir-se gente, uma
verdadeira estrela.
No próprio momento de sua morte física, é
que Maca se sente mulher, sente um gozo por si, é a primeira vez que se
toca e se abraça como sentindo uma estima por si mesma, é o ápice, o
clímax da narrativa. Aliás, a morte se torna a personagem principal desse metarromance. A morte é a única
figura que consegue dar um fim a essa história, se não terminasse
assim, não teria fim, pois a todo momento Rodrigo já nos deixa claro e
nós também já, de certa forma, imaginamos que não resta a Maca um
outro destino senão esse, e que é o final de todos nós. De repente só
morrendo é que podemos sentir e descobrir quem somos (éramos).
Muitos filósofos, já desde a antigüidade, vem tentando descobrir quem somos, e na verdade nunca se chegou a uma conclusão, essa é uma pergunta que nunca terá uma resposta, somos o que
vivemos e pronto, e se isso está correto ou errado, não sabemos, talvez
um dia possamos descobrir, como Macabéa, mas isso ninguém sabe. Apenas
vamos vivendo, e afinal, o que é a vida senão uma busca constante?
Constatamos, também, que como Macabéa, muitas vezes, estamos vegetando, já estamos mortos, mesmo estando vivos, pois como já dizia Charlie Chaplin “O homem não morre quando deixa de viver, mas sim quando deixa de amar”. Toda essa narrativa também nos remete, com toda certeza, a própria história de vida de Clarice Lispector, desde cedo perde a mãe, assim como Macabéa que não lembrava dos pais, também veio do nordeste para tentar a vida no Rio de
Janeiro, e por fim Clarice também, principalmente após sua separação,
seu acidente com o cigarro (apartamento pegando fogo) e com sua doença
(câncer no útero), não tem mais um objetivo na vida, uma meta, uma
perspectiva, apenas espera sua morte física, porque sua morte interna
já havia ocorrido a muito tempo.
Macabéa, Rodrigo, Clarice, representam todos nós, um nada, que vivemos em busca de entender o que somos, e quando descobrimos é tarde demais, como sempre, descobrimos tudo tarde demais. Somos pó e ao pó iremos voltar. Na verdade, cada um constrói a sua história, boa ou
ruim, mas constrói, quem somos nós para julgarmos Clarice, Rodrigo ou
Macabéa? Se somos como eles, simples mortais que temos que lutar
diariamente, para sobrevivermos nessa labuta constante que é a vida em
sociedade. Quantos de nós também não queríamos uma cartomante, mesmo
que charlatona, para nos dá uma esperança, para nos transformar em
alguém, para também como Macabéa, deixarmos de ser ausências apenas. Será que somos o que queremos, ou simplesmente queremos ser.
Quantas vezes, quando estressados, não gostaríamos de ser como Maca simplesmente, não pensar em nada e achar que tudo está muito bom? Mas não, temos essa tendência a complicar as coisas, a reflexão, ao estresse.
São
essas reflexões que todo o tempo Clarice quer nos repassar, que são
também, como já havia citado, suas próprias reflexões, e acho que muito
mais do que retratar a realidade, ela conseguiu levar-nos a uma introspecção,
a um estudo sobre nós, nossa vida e a sociedade. Clarice foi mestre,
conseguiu escrever de forma diferente, nova, sem ser rebuscada, até
mesmo porque o narrador-personagem Rodrigo, não podia escrever de forma
erudita para poder se aproximar da personagem Maca. Esse não é um livro
comum, e não foi escrito para qualquer um ler, na verdade, o “romance”, não tem público, como alguns críticos e o próprio Rodrigo nos deixa entender.
A própria sugestão de vários títulos foi inovador, tudo nesse livro nos remete a algo novo, segundo
Gotlib, o livro se divide em cinco histórias, sendo que a última só
quem lê o “romance”, descobrirá, Gotlib nos remete novamente aos
títulos, que se formos ler o livro sob a perspectiva de determinado
título, teremos uma história nova, aliás, sempre que lemos novamente
uma obra, independente de mudarmos ou não o nome dela, temos uma nova
visão, pois como já dizia, se eu não me engano, Heráclito, “Não nos banhamos duas vezes no mesmo rio”. A cada leitura é um nova
descoberta, e a autora quer justamente deixar ao leitor esse trabalho
de reflexão, de construção. Nós leitores temos que tirar nossas
próprias conclusões.
E é justamente por isso, que a história se torna interessante, até mesmo porque, como já citei várias
vezes, nós mesmos nos identificamos muito com os personagens desse
metarromance. Estamos constantemente buscando essa “Hora da Estrela”,
muitas vezes também não nos encaixamos em lugar nenhum, a autora quer
deixar isso bem claro, que não existe no mundo lugar para pessoas como Macabéa.
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