Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, é uma
peça clássica do teatro brasileiro, escrita em 1955 e publicada em
1957. Virou minissérie de televisão e ganhou uma versão para o cinema,
ambas dirigidas por Guel Arraes.
A trama da peça é
permeada de peripécias mirabolantes. O herói ou o anti-herói da peça, o
amarelinho João Grilo, se mete e, ao mesmo tempo, envolve todo mundo em
infinitas trapalhadas, que começam em uma cidadezinha do interior e
continuam depois da morte, nos limites do purgatório e do inferno. João
Grilo é um herói típico da linhagem picaresca da literatura de cordel
nordestina, da mesma família espiritual de Cancão de Fogo e Zé do
Telhado, personagens que dão nó até em pingo dágua.
Em o Auto da Compadecida, Ariano
Suassuna consegue realizar uma magnífica síntese de duas tradições: a
dos autos da era medieval e a da literatura picaresca espanhola. Na era
medieval, a cultura era indissociável da religião, mesmo porque a
Igreja controlava tudo com mão de ferro. A Igreja cultivava os autos
dramáticos de devoção aos santos para doutrinar e tolerava os autos
cômicos para divertir o povo. A tradição da literatura picaresca
espanhola vem da cultura popular e chega ao ápice no Dom Quixote, de
Cervantes. O pícaro é o personagem astuto, esperto, sagaz, velhaco, que
quer enganar os homens, deus e o diabo, e ainda pedir o troco.
Vemos que os personagens masculinos expressam o tipo "machões", mais na
verdade alguns eles são muito medrosos, principalmente quando se
envolve a figura de forças superiores. O livro mostra a esperteza de
muitos personagens também, é o caso de João Grilo, que aplica vários
"golpes" ao decorrer da história, dando uma de personagem malandro e
aproveitador dos idiotas e ingênuos.
Como se vê é uma
tradição cultural riquíssima que veio parar no nordeste brasileiro e se
encarnou na pele de João Grilo. Esta passagem da narrativa do plano da
vida na terra para o do purgatório, do inferno e do céu, é típica da
cultura medieval. Ela está presente na Divina Comédia, poema de Dante,
a obra prima da cultura medieval. Só que, como sempre, as classes
populares deram uma versão mais divertida e esculhambada desta passagem
para o outro lado da vida.
Ao escrever o Auto da Compadecida,
Ariano Suassuna buscou inspiração precisamente nos folhetos de cordel
ouvidos e lidos nos tempos da infância e, ao mesmo tempo, estabeleceu
ou reestabeleceu conexões com essas fontes da tradição medieval e
picaresca, da Divina Comédia, de Dante, e do Dom Quixote, de Cervantes,
dois dos seus autores preferidos.
Em Auto da Compadecida podemos sentir a força poética e popular da peça, o catolicismo que ela transmite, a simplicidade dos diálogos.
A estrutura teatral e os tipos vivos fazem desta obra um exemplo raro
na dramaturgia brasileira. Vemos os tipos de personagens nordestinos, e
vemos também o tipo bem brasileiro neles, que é o de "dar conta do
recado" com o famoso "jeitinho" brasileiro. Aqui vemos a forma de
criação dos personagens segundo o autor: "Meus personagens ora são
recriações de personagens populares e de folhetos de cordel, ora são
familiares ou pessoas que conheci. No Auto da Compadecida, por exemplo,
estão presentes o Palhaço e João Grilo. O Palhaço é inspirado no
palhaço Gregório da minha infância em Taperoá. Já o João Grilo é o
típico nordestino 'amarelo, que tenta sobreviver no sertão de forma
imaginosa. Costumo dizer que a astúcia é a coragem do pobre. O nome
dele é uma homenagem ao personagem de cordel e a um vendedor de jornal
astucioso que eu conheci na década de 50 e que tinha este apelido."
Linguagem
O autor não propõe, nas indicações que servem de base para a
representação, nenhuma atitude de linguagem oral que seja regionalista.
Busca encontrar uma expressão uniforme para todas a personagens, na
presunção de que a diferença entre os atores estabeleça a diferença nos
chamados registros da fala.
A composição da linguagem é a
mais próxima possível da oralização, isto, é, o texto serve de caminho
para uma via oral de expressão. Os únicos registros diferentes correm,
com indicados no próprio texto, por conta do Bispo, personagem
medíocre, profundamente enfatuado, como se nota nesta passagem: "Deixemos isso, passons, como dizem os franceses";
de Manuel (Jesus Cristo) e da Compadecida (Nossa Senhora), figuras
desataviadas, embora divinas, porque são concebidas como encarnadas em
pessoas comuns, como o próprio João Grilo:
Manuel:
Foi isso mesmo, João. Esse é um dos meus nomes, mas você pode me chamar
de Jesus, de Senhor, de Deus... Ele / isto é, o Encourado, o Diabo /
`gosta de me chamar Manuel ou Emanuel, porque pensa pode persuadir de
que sou somente homem. Mas você, se quiser, pode me chamar de Jesus".
A
compadecida: Não, João, por que iria eu me zangar? Aquele é o versinho
que Canário Pardo escreveu para mim e que eu agradeço. Não deixa de ser
uma oração, um invocação. Tem umas graças, mas isso até a torna alegre
e foi coisa de que eu sempre gostei. Quem gosta de tristeza é o diabo.
Quatro denominações de personagens referem-se a determinados
condicionamentos regionais: João Grilo, Severino do Aracaju, o
Encourado (o Diabo) e Chicó. Quanto ao Encourado, o autor dá a seguinte
explicação: este é o diabo, que, segundo uma crença do sertão do
Nordeste, é um homem muito moreno, que se veste como um vaqueiro.
Na estrutura da peça, isto é, na forma final do texto é que se revela o
estilo do autor, concebido com o a linguagem através da qual ele cria e
comunica sua mensagem fundamental.
A peça apresenta quinze personagens de cena e uma personagem de ligação e comando do espetáculo.
Personagem principal: João Grilo
Outras personagens:
Chicó, Padre João, Sacristão, Padeiro, Mulher do Padeiro, Bispo,
Cangaceiro, o Encourado, Manuel, A Compadecida, Antônio Morais, Frade,
Severino do Aracaju, Demônio.
Personagem de ligação: Palhaço
Situação / Personagens / Conteúdo da situação
1ª - João Grilo Chicó Padre João: a bênção do cachorro da mulher do
padeiro.Expediente de João Grilo: o cachorro pertence ao Major Antônio
Morais.
2ª - João Grilo Chicó Antônio Morais Padre: chega o
Major Antônio Morais.Expediente de João Grilo: o Padre João está
maluco, benze a todos e chama todo mundo de cachorro.
3ª - João
Grilo Padre MulherPadeiro Chicó Sacristão Bispo: o testamento do
cachorro morto.Expediente de João Grilo: o cachorro morto, encomendado
em latim e tudo mais, deixa no seu testamento dinheiro para o
Sacristão, para o Padre e para o Bispo.Fonte do dinheiro: o Padeiro e
sua mulher.
4ª - João Grilo Chicó Mulher: a mulher do
Padeiro lamenta a perda de seu cachorro.Expediente de João Grilo:
arranja-lhe um gato que descome dinheiro. Vende-o e afaz seu lucro.
5ª - João Grilo Chicó Bispo Padre Padeiro Frade Sacristão Mulher
Severino (do Aracaju) Cangaceiro: o assalto do cangaceiro Severino do
Aracaju.Expediente de João Grilo: a gaita que fecha o corpo e
ressuscita. A bexiga cheia de sangue.Evento especial: todas as
personagens morrem, inclusive João Grilo. Salva-se Chicó
6ª
- Palhaço João Grilo Chicó Todas as demais personagens Demônio O
Encourado Manuel: ressurreição no picadeiro do circo. O Julgamento pelo
Demônio, pelo Encourado e por Manuel (Cristo).Expediente de João Grilo:
forçar o julgamento, ouvindo os pecadores.
7ª - Todas as
personagens. A Compadecida: condenação dos pecadores, Expediente de
João Grilo: apelo à misericórdia da Virgem Maria.
Nota-se
que em todas as seqüências a presença de João Grilo é fundamental. Daí
a afirmação de que a peça gira em torno dessa personagem, do ponto de
vista estrutural.
Personagens
João Grilo: é
uma figura típica do nordestino sabido, analfabeto e amarelo. Habituado
a sobreviver e a viver a partir e expedientes, trabalha na padaria,
vive em desconforto e a miséria é sua companheira. Sua fé nas
artimanhas que cria, reflete, no fundo, uma forma de crença arraigada
na proteção que recebe, embora sem saber, da Compadecida. É essa
convicção que o salva. E ele recebe nova oportunidade de Manuel
(Cristo), retornando à vida e à companhia de Chicó. É uma oportunidade
inusitada de ressurreição e retorno à existência. Caberá a ele provar
que essa oportunidade foi ou não bem aproveitada.
A dimensão de
sua importância surge logo no início da peça quando as personagens são
apresentadas ao público pelo Palhaço. Apenas duas personagens se
dirigem ao público. Uma, a chamado do Palhaço, a atriz que vai
representar a Compadecida, e João Grilo:
Palhaço: Auto da Compadecia! Umas história altamente moral e um apelo à misericórdia.
João Grilo: Ele diz "à misericórdia", porque sabe que, se fôssemos julgados pela justiça, toda a nação seria condenada".
Mas a importância inequívoca de João Grilo na estrutura da peça define-se a partir do fato de que as situações do Auto da Compadecida são todas desenvolvidas por essa personagem:
1ª) a benção do cachorro, e o expediente utilizado: o Major Antônio Morais.
João
Grilo: "Era o único jeito de o padre prometer que benzia. Tem medo da
riqueza do major que se péla. Não viu a diferença? Antes era " Que
maluquice, que besteira!", agora "Não veja mal nenhum em se abençoar as
criatura de Deus!".
2ª) a loucura do Padre João, como justifica para o Major Antônio Morais.
João
Grilo: /.../ "É que eu queria avisar para Vossa Senhoria não ficar
espantado: o padre está meio doido"./.../ "Não sei, é a mania dele
agora. Benzer tudo e chama a gente de cachorro".
3ª) o testamento do cachorro.
João
Grilo: "Esse era um cachorro inteligente. Antes de morrer, olhava para
a torre da igreja toda vez que o sino batia. Nesses últimos tempos, já
doente para morrer, botava uns olhos bem compridos para os lados daqui,
latindo na maior tristeza. Até que meu patrão entendeu, coma a minha
patroa, é claro, que ele queria ser abençoada e morrer como cristão.
Mas nem assim ele sossegou. Foi preciso que o patrão prometesse que
vinha encomendar a benção e que, no caso de ele morrer, teria um
enterro em latim. Que em troca do enterro acrescentaria no testamento
dele dez contos de réis para o padre e três para o sacristão".
4ª) o gato que "descome dinheiro".
João
Grilo: "Pois vou vender a ela, para tomar lugar do cachorro, um gato
maravilhoso, eu descome dinheiro" /.../ "Então tiro. (Passa a mão no
traseiro do gato e tira uma prata de cinco tostões). Esta aí, cinco
tostões que o gato lhe dá de presente".
5ª) a gaita que fecha o corpo e ressuscita.
João Grilo: "Mas cura. Essa gaita foi benzida por Padre Cícero, pouco antes de morrer".
6ª) a "visita" ao Padre Cícero.
João Grilo: "Seu cabra lhe dá um tiro de rifle, você vai visitá-lo. Então eu toco na gaita e você volta" .
Essa situação decorre da anterior, mas pode ser considerada com o independente.
7ª) o julgamento pelo Diabo (o Encourado).
João Grilo: "Sai daí, pai da mentira! Sempre ouvi dizer que para se condenar uma pessoa ela tem de ser ouvida!".
8ª) o apelo à misericórdia (À Virgem Maria).
João Grilo: "Ah, isso é comigo. Vou fazer um chamado especial, em verso. Garanto que ela vem, querem ver?".
Chicó:
Companheiro constante de João Grilo e, especialmente, seu diálogo.
Chicó envolve-se nos expedientes de João Grilo e é seu parceiro, mais
por solidariedade do que por convicção íntima. Mas é um amigo leal.
Padre João, o bispo e o sacristão: Essas
personagens, embora de atuação diversa, estão concentradas em torno de
simonia e da cobiça, relacionada com a situação contida no testamento
do cachorro.
Antonio Morais: É a autoridade decorrente
do poder econômico, resquício do coronelismo nordestino, a quem se
curvam a política, os sacerdotes e a gente miúda.
Padeiro e sua mulher: Encarnam, um lado, a exploração do homem pelo homem e, de outro, o adultério.
Severino do Aracaju e o Cangaceiro:
Representam a crueldade sádica, e desempenham um papel importante na
seqüência de número cinco, porque nessa seqüência matam e são mortos.
Com isso propicia-se a ressurreição e o julgamento.
O encourado e o demônio: Julgam,
aguardando seu benefício, isto é, o aumento da clientela do inferno. É
importante verificar que representam, de alguma forma, um instrumento
da Justiça, encarnado em Manuel (O Cristo).
Manuel: É
o Cristo negro, justo e onisciente, encarnação do verbo e da lei. Atua
como julgador final dos da prudência mundana, do preconceito, do falso
testemunho, da velhacaria, da arrogância, da simonia, da preguiça.
Personagem a personagem têm seu pecado definido e analisado, com
sabedoria e com prudência.
A compadecida: É Nossa
Senhora, invocada por João Grilo, o ser que lhe dará a Segunda
oportunidade da vida. Funciona efetivamente como medianeira, plena de
misericórdia, intervindo a favor de quem nela crê, João Grilo.
Estrato metafísico
1. Vinculado à Igreja Católica e à idéia da salvação.
2. O Palhaço realiza, nessa peça, o papel do Corifeu, no teatro
clássico, e sua intervenção corresponde à parábase da comédia clássica
– trecho fora do enredo dramático em que as idéias e as intenções ficam
claramente expressas:
Palhaço: "Ao escreve esta peça,
onde combate o mundanismo, praga de sua igreja, o autor quis ser
representado por um palhaço, para indicar que sabe, mais do que
ninguém, que sua lama é um velho catre, cheio de insensatez e de
solércia. Ele não tinha o direito de tocar nesse tema, mas ousou
fazê-lo, baseado no espírito popular de sua gente, porque acredita que
esse povo sofre, é um povo e tem direito a certas intimidades".
"/.../ Espero que todos os presente aproveitem os ensinamentos desta
peça e reformem suas vidas, se bem que eu tenho certeza de que todos os
que estão aqui são uns verdadeiros santos, praticantes da virtude, do
amor a Deus e ao próximo, sem maldade, sem mesquinhez, incapazes de
julgar e de falar mal dos outros, generosos, sem avareza, ótimos
patrões, excelentes empregados, sóbrios, castos e pacientes".
Problemática da obra
Pela estrutura da peça, podemos notar que sua intenção clara e expressa
é de natureza moral, e de moral católica; e que os componentes
estruturais do texto revelam personagens que simbolizam pecados
(maiores ou menores), que recebem o direito ao julgamento, que gozam do
livre-arbítrio e que são ou não condenados.
Percebe-se, de
outro lado, que a preocupação maior reside em compor um auto de
moralidade, ao estilo quinhentista português (modelo Gil Vicente), mas
seguindo alinha do teatro dirigido aos catecúmenos, do Padre Anchieta.
Para tanto, a peça se embasa em determinadas tradições localistas e
regionalistas do folclore, com vistas à sua sublimação como instrumento
pitoresco de comunicação com o público (que, no caso, seriam os
catecúmenos).
Com isso, nota-se que a realidade regional
brasileira, especificamente a realidade nordestina, está presente
através de seus instrumentos culturais mais significativos, as crenças
e a literatura de cordel.
O autor não pretende analisar essa
realidade brasileira, mas a partir dela moralizar os homens, isto é,
dinamizar nas usas consciências a noção do dever humano e da
responsabilidade de cada um em relação a seus semelhantes e em relação
a Deus, onisciente e onipresente.
Como proposição estética, o Auto da Compadecida
procura corporificar a criação artística, o teatro em particular, devem
levar o povo, a cultura desse povo a ele mesmo. Daí o circo, seu
picadeiro e a representação dentro da representação.
Percebemos que, menos do que essa realidade regional e cultural de um
povo, o que importa é criar um projeto que defina idéias e concepções
universais (as da Igreja, no caso) com o fim de conscientizar o
público. Por esse motivo a realidade regional nordestina é, no caso,
instrumento de uma idéia e não fim em si nessa.
Criar um
texto teatral é, antes de tudo, criá-lo para uma encenação, daí a
absoluta liberdade que o autor dá para qualquer modalidade de
encenação. O próprio texto final da peça, como editado, é o resultado
da experiência colhida a representação pública.
Resumo
A história descreve as aventuras de Chicó e de seu amigo João Grilo.
Chicó trabalha com o padeiro e sua mulher Dora que está preocupada com
a cachorra que adoeceu. Dora manda chamar o padre para benzê-lo. O
padre está irredutível. Diz que não benze a cachorra. A cachorra morre
e o casal exige que seja feito um enterro em latim.
João Grilo
fala ao padre que a cachorra deixou um testamento, com 3 contos de réis
para as obras da igreja. O padre faz o enterro. Quando o bispo
descobre, Grilo fala que a morta deixou também, 6 contos de réis para a
arquidiocese. O bispo então aceita o dinheiro e concorda com o padre.
Grilo pede emprego ao Major e consegue o trabalho, acertando três
charadas que lhe são feitas. O patrão pede que vá buscar sua filha que
acaba de chegar de viagem.
O cangaceiro Severino e seu bando
reúnem-se para atacar a cidade. Rosinha, a recém-chegada filha do
Major, desperta o interesse dos homens da cidade. Assim que sai da
igreja com a benção do bispo, encontra Chicó e se interessa por ele.
Seu pai, porém, pretende que ela volte a Recife casada e receberá um
dote.
Grilo arma um plano para ficar com o dinheiro. O plano
consiste num duelo entre Vicentão e o Cabo 70, ambos interessados por
Rosinha. Isso liberararia o caminho para Chicó casar-se com a moça.
Grilo marca um duelo entre Vicentão e o Cabo e quando Chicó aparece, um
foge do outro, dando a impressão de Chicó venceu o duelo e os outros
fugiram com medo dele. Rosinha aceita casar-se com ele. Chicó e Grilo
visitam o Major. Grilo diz que o amigo é doutor, advogado e tem muitas
fazendas, uma em Serra Talhada. O Major pergunta se ele pretende casar
e Rosinha é chamada e diz que gosta de outro. Ao ver Chicó, diz que se
casa na próxima semana. Grilo espertamente propõe uma reforma na igreja
para a celebração do casamento. Mas como o doutor está sem dinheiro,
seu futuro sogro oferece a quantia como empréstimo, pedindo como
garantia a fazenda de Serra Talhada. Grilo diz que não precisa; o noivo
é homem de palavra e que se ele não pagar em uma semana, o coronel pode
arrancar-lhe uma tira de couro das costas.
O dinheiro é dado à
igreja e dividido entre o padre e o bispo, que fica com a maior parte.
João Grilo tem então a idéia que salvará seu amigo: uma bexiga de
sangue será colocada por baixo de sua camisa e sua morte será forjada.
Rosinha fingirá tristeza e encontrará com Chicó para fugirem. O
assassino será João Grilo, que se vestirá de cangaceiro para enganar a
todos. Assim, Chicó entra na padaria de Dora fingindo valentia. Mas, um
grande tiroteio acontece na cidade; cangaceiros, liderados por
Severino, estão atacando a população. Chicó, não percebe o equívoco e
entra na igreja pensando tratar-se de João Grilo. Severino, já roubou a
padaria, tirou o dinheiro da igreja e se prepara para matar a todos.
Grilo, que entra na igreja, é também jurado de morte e Severino dá a
ordem de execução. Severino resolve matar pessoalmente Chicó e João
Grilo. Grilo oferece ao cangaceiro uma gaita que tem o poder de
ressuscitar os mortos e a troca por sua vida e de Chicó. Severino é
morto e quando a gaita não tem efeito nenhum, o comparsa do cangaceiro
mata João Grilo. Chicó chora e retira o dinheiro que está em seu bolso,
que havia pego de Severino.
As pessoas que estão mortas
encontram-se em um lugar para esperar seu destino. O Diabo aparece mas
João Grilo apela para Cristo, esperando que este o salve. O Cristo
apresentado é negro e destrói o preconceito de todos. Os personagens
são julgados e como estão prestes a seguir para o inferno, João, mais
uma vez apela: chama Nossa Senhora, a Compadecida. O padeiro e sua
mulher são absolvidos por terem perdoado um ao outro na hora final; o
padre e o bispo, têm o mesmo benefício, porque abençoaram o carrasco.
Os quatro vão para o purgatório.
Severino se livra através de
Jesus, que lembra que este é incapaz de pensar nos seus atos, pois viu
seus pais morrerem aos oito anos de idade. Nossa Senhora, pede uma
chance a Grilo. Jesus consente e ele volta da morte. Pregando uma peça
em Chicó, Grilo finge-se de morto. Depois, acorda, assustando o outro e
pergunta do dinheiro. Chicó diz que prometeu o dinheiro a nossa
Senhora, caso João Grilo se salvasse. Este, bravo, concorda em pagar a
promessa.
Contando com a coragem de Chicó, Rosinha pede para
marcar o casamento. Depois da cerimônia, a porca é quebrada, mas o
dinheiro, velho e fora de circulação não poderá saldar a dívida. O
Major é impedido de tirar o couro de Chicó, pela astúcia de Rosinha e
de João Grilo, que alegam que no contrato não há a palavra sangue. O
pai manda a filha embora e a deserda.
No final, os três amigos
voltam para a estrada, conversando sobre riqueza e a pobreza; encontram
com um mendigo, Cristo disfarçado, que pede a única comida que eles
têm. Dividindo o pedaço de bolo com ele, João Grilo fala que nunca viu
um Jesus negro e Chicó, se lembra de uma história... Um seu amigo uma
vez morreu e foi para o céu...
|