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Copo d'água no sereno
O copo no peitoril convoca os eflúvios da noite.
Vem o frio nevoso da serra. Vêm os perfumes brandos do mato dormindo. Vem o gosto delicado da brisa.
E pousam na água.
Nova casa de José
José entra resmungando no Paraíso. Lança os olhos em torno: -- Pensei que fosse maior. O azul das paredes está desbotado. Então é isto, o Céu?
Os anjos entreolham-se: Ah, José! Estávamos tão contentes com sua vinda... José procura o recanto menos luminoso para encastelar-se com sua canastra: -- Ninguém me bula nisto. O serafim-ecônomo sorri: -- Sossegue, José. Aqui todas as coisas viram essência. Você terá a essência de sua canastra.
A taciturnidade de José causa espécie aos velhos santos que pulam carniça, brincam de roda: -- Não quer vir conosco? A amarelinha vai ser uma coisa louca... Leve aceno de cabeça e: -- Obrigado (entre dentes) é resposta de José.
São Pedro coça a barba: como fazer José sentir-se realmente no Paraíso? É sua casa natural, José foi bom, foi ríspido mas bom. Carece varrer do íntimo de José as turvas imagens de desconfiança e solidão. -- Não há outro remédio, suspira São Pedro. Vou contar-lhe uma piada fescenina.
E José sorri ouvindo a piada.
A puta
Quero conhecer a puta. A puta da cidade. A única. A fornecedora. Na Rua de Baixo onde é proibido passar. Onde o ar é vidro ardendo e labaredas torram a língua de quem disser: Eu quero a puta quero a puta quero a puta.
Ela arreganha dentes largos de longe. Na mata do cabelo se abre toda, chupante boca de mina amanteigada quente. A puta quente.
É preciso crescer esta noite a noite inteira sem parar de crescer e querer a puta que não sabe o gosto do desejo do menino o gosto menino que nem o menino sabe, e quer saber, querendo a puta.
Poemas escolhidos de Boitempo II
A montanha pulverizada
Chego à sacada e vejo a minha serra, a serra de meu pai e meu avô, de todos os Andrades que passaram e passarão, a serra que não passa.
Era coisa dos índios e a tomamos para enfeitar e presidir a vida neste vale soturno onde a riqueza maior é a sua vista a contemplá-la.
De longe nos revela o perfil grave. A cada volta de caminho aponta uma forma de ser, em ferro, eterna, e sopra eternidade na fluência.
Esta manhã acordo e não a encontro. Britada em bilhões de lascas deslizando em correia transportadora entupindo 150 vagões no trem-monstro de 5 locomotivas - trem maior do mundo, tomem nota - foge minha serra, vai deixando no meu corpo a paisagem mísero pó de ferro, e este não passa.
Ferreiro
Filho do ferro e da fagulha fulgurando na forja formidável o seu fole afrouxo e sua força em face do fiscal e da folhinha de papel
Doido
O doido passeia pela cidade sua loucura mansa. É reconhecido seu direito à loucura. Sua profissão. Entra e come onde quer. Há níqueis reservados para ele em toda casa. Torna-se o doido municipal, respeitável como o juiz, o coletor, os negociantes, o vigário. O doido é sagrado. Mas se endoida de jogar pedra, vai preso no cubículo mais tétrico e lodoso da cadeia.
Verbo Ser
Que vai ser quando crescer? vivem perguntando em redor. Que é ser? É ter um corpo, um jeito, um nome? Tenho os três. E sou? Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito? Ou a gente só principia a ser quando cresce? É terrível, ser? Dói? É bom? É triste? Ser: pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas? Repito: ser, ser, ser. Er. R. Que vou ser quando crescer? Sou obrigado a? Posso escolher? Não dá para entender. Não vou ser. Não quero ser. Vou crescer assim mesmo. Sem ser. Esquecer.
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