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Lírica amorosa
Castro Alves transformou a poesia lírico-amorosa do romantismo, mudando a concepção temática do amor. Seus poemas, muitas vezes de fundo autobiográfico, destacam-se pelo vigor da paixão, pela intensidade na expressão do sentimento e da experiência amorosa realizada também no plano físico, enquanto desejo e envolvimento sentimental e carnal. Isso o diferencia dos poetas das gerações românticas precedentes, cuja poesia se dirige a uma amada distante, idealizada, intocada e etérea. A amada do poeta é de carne e osso, não é fruto da imaginação adolescente, como para os poetas que o antecederam. O poema O "Adeus" de Teresa é um exemplo dessa amada, que passa a noite com o eu lírico...:
Uma noite... entreabriu-se um reposteiro... E da alcova saía um cavaleiro Inda beijando uma mulher sem véus... Era eu... Era a pálida Teresa! "Adeus" lhe disse conservando-a presa...
E ela entre beijos murmurou-me: "Adeus!"
... e "tem o pé no chão", como no poema Adormecida:
Uma noite, eu me lembro... Ela dormia Numa rede encostada molemente... Quase aberto o roupão... solto o cabelo E o pé descalço do tapete rente.
A paixão concreta, ardente e fecunda por Eugênia Câmara influenciou sua visão poética do amor. Essa visão pode ser classificada não só como sentimental, mas também como sensual, entendida como uma poesia que apela aos sentidos (sensorial). É desse período o poema O Gondoleiro do Amor, em que a descrição da amada é carregada de uma sensualidade sem precedentes no romantismo brasileiro:
Teu seio é vaga dourada Ao tíbio clarão da lua, Que, ao murmúrio das volúpias, Arqueja, palpita nua;
Como é doce, em pensamento, Do teu colo no languor Vogar, naufragar, perder-se O Gondoleiro do amor!?
A experiência do amor com a atriz inspirou seus mais belos poemas de esperança, euforia, desespero e saudade, como É Tarde. Pela primeira vez, a poesia é motivada pela paixão e pelo envolvimento do poeta, e a dor não se traduz em lamentos e queixas. Seu sentimentalismo amoroso é maduro, adulto, e se realiza em sua plenitude carnal e emocional. Castro Alves transforma a realidade imediata da sua experiência amorosa em criação poética e utiliza-se, para traduzir esse movimento de união entre vida e arte, de metáforas (imagens) ligadas à natureza, como revela o poema Aves de Arribação:
É noite! Treme a lâmpada medrosa Velando a longa noite do poeta... Além, sob as cortinas transparentes, Ela dorme, formosa Julieta!
Entram pela janela quase aberta Da meia-noite os preguiçosos ventos E a lua beija o seio alvinitente -- Flor que abrira das noites aos relentos.
O Poeta trabalha!... A fonte pálida Guarda talvez fatídica tristeza... Que importa? A inspiração lhe acende o verso Tendo por musa -- o amor e a natureza!
E como o cactus desabrocha a medo Das noites tropicais na mansa calma, A estrofe entreabre a pétala mimosa Perfumada da essência de sua alma.
Resumindo, a poesia lírico-amorosa de Castro Alves, reunida em Espumas Flutuantes, diferencia-se dos românticos anteriores pela visão poética do amor como sentimento plenamente vivenciado e concretizado no plano emocional e no plano físico. O amor é descrito com vigor, desejo e sensualidade, através de metáforas da natureza. A mulher amada é real, de carne e osso e a paixão envolve e motiva o poeta a traduzir o relacionamento amoroso em versos.
Herança
Em vários poemas de Espumas Flutuantes, principalmente os de temática existencial, evidencia-se ainda a influência do ultra-romantismo, de seu conterrâneo Junqueira Freire e Álvares de Azevedo. As traduções de Lord Byron, (ao lado das de Vitor Hugo) e algumas das epígrafes das poesias indicam a importância dessa herança no fazer poético de Castro Alves. No entanto, - se na geração do “mal-do-século”, a tônica era o pessimismo, o sentimento de impotência diante da morte iminente, que, muitas vezes, representava uma saída para o tédio da vida -, a visão de Castro Alves da existência é bem diferente: demonstra uma imensa paixão pelo mundo, e a vida é vista com otimismo e prazer. Na verdade, o poeta lamenta deixá-la, quando ameaçado pela doença que o levaria à morte, pois viver é “glória!”, “amor!”, “anelos!”. Enquanto Álvares de Azevedo afirma: “Eu deixo a vida como deixa o tédio / Do deserto, o poento caminheiro”, Castro Alves “retruca”, no poema Mocidade e Morte, escrito aos 17 anos, após as primeiras manifestações da tuberculose:
Oh! Eu quero viver, beber perfumes Na flor silvestre que embalsama os ares (...) Morrer... quando este mundo é um paraíso, E a alma um cisne de douradas plumas: Não! O seio da amante é um lago virgem... Quero boiar à tona das espumas.
Para Álvares de Azevedo, a vida é um deserto. Para Castro Alves, um paraíso. Em Quando eu morrer, escrito em março de 1869, pouco antes de falecer, ele repudia a morte, que afasta o morto do calor dos sentimentos da vida:
Quando eu morrer... não lancem meu cadáver No fosso de um sombrio cemitério... Odeio o mausoléu que espera o morto Como o viajante desse hotel funéreo (...) Ei-la a nau do sepulcro -- o cemitério... (...) Ali ninguém se firma a um braço amigo Do inverno pelas lúgubres noitadas... No tombadilho indiferentes chocam-se E nas trevas esbarram-se as ossadas...
Como deve custar ao pobre morto Ver as plagas da vida além perdidas, Sem ver o branco fumo de seus lares Levantar-se por entre as avenidas!...
E mesmo tratando da morte, Castro Alves lhe dá movimento e dinamismo ao comparar os mortos, nesta mesma poesia, a:
Emigrantes sombrios que se embarcam Para as plagas sem fim do outro mundo
Castro Alves traduziu Byron, Musset e outros poetas que influenciaram o ultra-romantismo da geração anterior. Porém, ao mesmo tempo em que traduzia seus poemas, escrevia poesias como Aves de Arribação, A uma estrangeira e outras, que demonstram uma reação poética aos traduzidos. Suas traduções estavam muito ligadas às circunstâncias e sentimentos vividos no momento, mas também representavam uma satisfação às solicitações da época. Traduzir bem era um ponto de honra porque demonstrava cultura refinada e familiaridade com os mestres do pensamento universal “Sou Don Juan!”, exclama Castro Alves em Os Três Amores. Em Os Anjos da Meia Noite, adotando atitude tipicamente donjuanesca, dedica sonetos para uma sucessão de sete mulheres. Daí supor que o Byron que inspirou Castro Alves parece que foi muito mais o amante da liberdade, o nobre inglês que foi lutar, heroicamente, pela independência da Grécia - e que escreveu o escandaloso poema Don Juan -, do que o byronismo difundido pela geração romântica precedente, através das traduções francesas adocicadas de Alfred de Musset, caracterizado pelo aspecto mórbido e pessimista de se relacionar com a vida.
Resumindo: Ainda há, em Castro Alves, influência da geração byroniana, anterior a ele. Mas o poeta baiano encara a morte - e a vida - de outra maneira: não é o escape, a solução para a dor vivente de Álvares de Azevedo, e sim o fim do movimento e da alegria de viver. Herda de Byron mais a atitude donjuanesca do que a tendência ao lamento.
Paisagem de palavras
É preciso destacar a presença da natureza na poesia de Castro Alves, permeada de imagens “naturais”, tanto da Terra quanto do Cosmos. Sua poesia unifica o sentimento do poeta ao sentimento da natureza, como em Aves de Arribação. Mas é principalmente nos poemas de exaltação diante dos espetáculos naturais, como Sub Tegmine Fagi, que a paisagem surge com intensa plasticidade, descrita com a sensibilidade característica do poeta, predominantemente visual. Castro Alves, nesses poemas descritivos, traça belos retratos paisagísticos, antecipando a linha descritivista pictórica da poesia parnasiana, como em Murmúrios da Tarde:
Ontem à tarde, quando o sol morria, A natureza era um poema santo, De cada moita a escuridão saía, De cada gruta rebentava um canto, Ontem à tarde, quando o sol morria.
Resumindo: Em Espumas Flutuantes temos descrições vívidas e plásticas da natureza brasileira que antecipam a preocupação descritivista de poetas do Parnasianismo, como Alberto de Oliveira e Olavo Bilac.
As marcas do estilo
Poucos poetas utilizaram, na língua portuguesa, tantas reticências, travessões e pontos de exclamação quanto Castro Alves. A cada página do livro, os exemplos se sucedem:
Tanta descrença!... Tanta angústia!... Tanta! -- Boa noite! --, formosa Consuelo!...
Através destes recursos gráficos, o poeta procura reproduzir a oralidade do discurso exaltado da praça pública ou das declamações nos palcos. As reticências indicam as pausas dramáticas que reforçam a ênfase discursiva marcada pelos pontos de exclamação. Já os travessões têm dupla função. Por vezes aparecem, como as reticências, como marcas de pausa na elocução:
Mulher -- de lábio pálido -- e olhar -- cheio de luz.
Em muitos outros momentos, aparecem como marca do discurso direto, apresentando uma fala que se dirige a um interlocutor específico:
-- Quem bate? -- “A noite é sombria!” -- Quem bate? -- “É rijo o tufão!...”
Resumindo: O estilo retórico condoreiro se traduz na linguagem escrita através dos sinais de pontuação, como as reticências, os travessões e os pontos de exclamação!...
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