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Narrado em 18 capítulos, em que o último funciona como um epílogo, Inconfidências Mineiras – Uma História Privada da Inconfidência, trata da trajetória de personagens históricos que viveram nas Minas Gerais do século XVIII, em meio ao período mais turbulento da colônia – a ameaça da Derrama – que deveria provocar o levante popular, a Inconfidência, liderado pelo grupo dos conjurados, do qual fizera parte Alvarenga Peixoto, esposo de Bárbara Heliodora, protagonista desse relato que se equilibra entre crônica histórica e narrativa literária. Tudo é contado a partir das lembranças da irmã de Bárbara Heliodora: Iria Claudiana, narradora homodiegética desses relatos, que envolveu várias personalidades históricas e literárias: Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa, Joaquim Silvério dos Reis, Alvarenga Peixoto, e claro o próprio Joaquim José da Silva Xavier – Tiradentes – alçado à condição de herói nacional de todos as horas, a partir daquela data.
Importante porque não se prende apenas aos fatos da História factual oficial ensinada nas escolas, o livro combina o relato de grandes eventos do período à narração da vida diária e comezinha dos colonos em seus costumes mais corriqueiros, num período de total submissão à metrópole, em que tudo era proibido aos brasileiros, desde a produção de gêneros alimentícios até a aquisição de livros.
Trata-se de uma outra visão, entre tantas narrativas em prosa e verso, sobre o período da conjuração mineira, mas desvendando mitos criados ao longo da nossa tradição histórica e literária. Sobretudo o grupo dos inconfidentes, que parecia estar muito mais preocupados na resolução de seus problemas pessoais do que necessariamente em criar um movimento nacionalista nos moldes da Revolução Francesa, ou inspirado no Movimento acontecido nos estados americanos do norte.
A história é contada num tempo memorial. Os fatos relatados já ocorreram. A narrativa é deflagrada a partir do recebimento em carta da notícia da morte de Bárbara Heliodora. Como Bárbara, muitos dos que viveram aquela história também já estavam mortos. Outros foram exilados em terras de África para nunca mais. A partir da carta, Iria começa a desfiar todo um rosário de fatos que marcaria pelo sofrimento grande parte dos membros de sua família na história das Minas Gerais, em meio ao movimento inconfidente.
2. Enredo
2.1 O ouvidor
D.
Iria Claudiana Umbelino recebe em sua casa na Vila de Campanha, Minas
Gerais, carta avisando-lhe da morte de sua irmã Bárbara Heliodora, em
São Gonçalo do Sapucaí. A partir disso, mesmo tentando esquecer uma
história que deveria ficar perdida nos becos da memória, dona Iria
começa a remontar fatos de sua infância e juventude, em São João d’El
Rey, passados ao lado da irmã, agora morta.
A
história se inicia com a descrição do ambiente da infância, com suas
casas, a matriz de Nossa Senhora do Pilar, com seus altares talhados em
ouro, os chafarizes, o pelourinho, a cidade cortada pelo córrego Tejuco
com duas pontes velhas e no alto do morro a Casa de Fundição, de onde
saiam barras de ouro, do qual um quinto seguia, em tese, para Portugal.
Mas a história também se inicia no momento de declínio do período
aurífero:
“A
grande corrida do ouro era coisa do passado. As lavras rendiam cada vez
menos e muitos mineradores se afogavam em dívidas, na esperança de inda
encontrar novas minas. [...] Um novo tipo de riqueza surgia em Minas
Gerais. Uma riqueza que, em vez de ser levada para Portugal, ficava por
ali mesmo, servindo a gente da terra. Abriam-se pastos, plantava-se
cana e algodão, colhia-se milho, a mandioca, feijão, arroz e trigo.
Muitos fiavam e teciam em suas fazendas o algodão que cultivavam,
fabricavam cachaça, açúcar, queijos, farinha e calçados. Já não se
importava tanta mercadoria do reino e os empresários portugueses
perdiam mercado.”
Era
nessa São João d’El Rey, antigo Arraial Novo, promovido à vila depois
da Guerra dos Emboabas, na rua da Prata, que ficava a casa do Doutor
José da Silveira e Sousa, português abastado com lavras de ouro e
lavouras de cana-de-açúcar, advogado formado em Coimbra, casado com D.
Maria Josefa da Cunha Bueno (descendente direta do bandeirante Amador
Bueno). De família grande, 11 filhos, dez naturais e uma adotiva
(Joaquina, José Maria, Ana, Iria Claudiana, Mariana, José Inácio,
guilhermina, Bárbara Heliodora, Marta Inácia, Tereza e Francisca). Iria
nascera nessa casa, era a sétima filha do Doutor Silveira. Guardara dos
primeiros anos da infância a lembrança da voz forte de sua mãe a dar
ordens aos escravos e de seu pai, lembrava das cócegas que a barba lhe
fazia. Mais próxima em idade dos irmãos Mariana e José Inácio, Iria
pouco brincava com Bárbara, nove anos mais velha. Misturavam-se a esse
passado lembranças terríveis, pesadelos de uma época de perseguição e
tortura: “era uma cabeça sem corpo, espetada num poste, coberta de
moscas, a pele a despregar-se das carnes, que vira na praça a caminho
da missa, quando tinha seis anos.” A casa do Doutor Silveira sempre
cheia, e entre as visitas mais constantes estava o português Matias
Gonçalves Moinhos de Vilhena, de família nobre, viera fazer o Brasil,
como se costumava dizer na época. Era o padrinho de Iria.
Por
essa época chegara à vila o novo ouvidor da comarca do Rio das Mortes:
o doutor Inácio José de Alvarenga Peixoto. Advogado, poeta, de trinta e
três anos era um homem elegante, bem vestido e de maneiras refinadas.
Era mais um freqüentador da casa do doutor Silveira. Alvarenga ficara
fascinado pela beleza de Bárbara e ela pelas histórias que o ouvidor
contava.
Doutor
Silveira e Dona Josefa ficaram preocupados pelo encanto que já dominava
Bárbara. Alvarenga Peixoto apesar de rico, com muitos teres e haveres,
era esbanjador e corria a notícia de que deixara muitas dívidas no
Reino. Sua máxima era dizer “ – É impossível ao mesmo tempo ter e gastar; quanto a mim prefiro gastar.”
Sócios em vários negócios com Alvarenga, doutor Silveira não havia como
proibir a frequência do poeta a sua casa. Assim, a aproximação entre
Bárbara e Alvarenga ia ficando cada vez mais perigosa. Restava-lhe os
conselhos a filha, mas Bárbara já namorava escondido com a conivência
de Teresa e das Mucamas, que lhes arranjavam modos para os encontro às
escondidas entre os amantes.
Mas
a freqüência à casa do doutor Silveira também era motivado por outros
assuntos. Iria ainda muito pequena acompanhava os serões de seu pai com
os visitantes tentando entender as discussões sobre ouro e impostos.
Ali o descontentamento era geral. Até mesmo os portugueses, como o dono
da casa e seu mais próximo compatriota, o capitão Matias, sentiam-se
prejudicados. Os governantes a borda do Tejo a exigir o mínimo de cem
arrobas anuais do quinto do ouro. Os brasileiros e abrasileirados
portugueses de cá a lutarem contra a injustiça de sustentar a duras
penas o luxo de seus patrícios em Lisboa.
Havia, portanto, um clima de descontentamento geral com a situação:
“Se o imposto, como o seu próprio nome o dizia, representava um quinto de todo o ouro extraído, como enviar 100 arrobas à metrópole, se a produção havia caído a menos de 300.- Acabou-se a riqueza fácil do ouro e diamantes [...]- Essa
é a riqueza que mais interessa a Portugal, mas não é a única que a
terra oferece, temos que produzir outros bens, comida principalmente,
que é consumida aqui mesmo.
- E
também instalar indústrias. [...] precisamos fabricar panos, louças,
para não gastar na importação de produtos portugueses o ouro que ainda
se extrai.”
Apimentava
essa discussão a declaração de independência das colônias inglesas na
América do Norte. O excesso de impostos fora a causa para a revolução
contra os ingleses, agora uma nação: Estados Unidos da América.
Esses
assuntos não chegavam ao entendimento de Iria, muito nova, mas Bárbara,
já moça, discutia-os encabulando os homens da sala, numa época em que a
educação patriarcal destinava as mulheres às rezas e os bordados: “mulheres deviam contentar-se com bordados e rezas, pensavam”.
2.2 O doutor surdo
Perto
de completar 20 anos, Bárbara torna-se mãe solteira. Nasce Maria
Ifigênia. Na vila não comentavam outra coisa que não o nascimento da
filha bastarda do doutor Alvarenga Peixoto. Submetido ao escândalo e a
humilhação, doutor Silveira caminhava pelas ruas fingindo não ouvir os
comentários maldosos. Quem mais levantava mexericos sobre a situação
era o vigário Villasboas, apregoando-se defensor da moral, na verdade
vingava-se de ter perdido a compra da fazenda Paraopeba num leilão.
Villasboas queixara-se ao governador de que a compra fora irregular, e
chegara até a contratar o maior advogado de Minas, o doutor Cláudio
Manuel da Costa.
Para
aumentar a angústia do doutor Silveira, Maria Inácia estava de namoro
às escondidas e José Maria, de quinze anos, era visto nas tavernas em
más companhias.
2.3 Vila Rica
Em
Vila Rica viva num confortável palácio o governador dom Rodrigo de
Menezes. Viera ao Brasil com dupla missão: a de impedir que os colonos
fabricassem produtos que concorressem com os portugueses e a de
aumentar a produção de ouro com fins a elevar a arrecadação do quinto.
Vila Rica era a menina dos olhos da coroa. Setenta anos após sua
fundação havia-se encontrado ouro de cor escura, mas de bom quilate,
por isso passara a chamar-se de Ouro Preto. E nela e em torno dela tudo
se desenvolvia. A vila virou cidade, com suas ladeiras calçadas de
pedra, sobrados construídos com requinte, muitas igrejas, adornadas com
muito ouro, aproveitando a habilidade do mestre Antônio Francisco
Lisboa. Mas o desenvolvimento trouxe violência, crimes, aventureiros.
Mas
dom Rodrigo verificou logo a sua chegada que as minas já estavam
mortas. Melhor seria aproveitar outras riquezas que na terra havia,
como o ferro. Dom Rodrigo procurava ser justo e relacionava-se aos
colonos para ouvir-lhe as queixas e aspirações. Entre esses colonos
estava o doutor Silveira que empreendera viagem até Vila Rica, em
companhia de dona Josefa e das filhas a fim de apresentá-las ao
governador. Enquanto o doutor Silveira e Alvarenga tratavam do processo
da fazenda Paraopeba junto ao governador, que afinal dera-lhes ganho de
causa, dona Josefa e as filhas, instaladas numa hospedaria,
divertiam-se com o movimento da rua e faziam passeios e visitas pela
cidade.
Dom
Rodrigo e sua esposa dona Maria José convidaram para o batizado de seu
filho mais novo os Silveira e Alvarenga Peixoto. Este aproveitou a
ocasião para declamar um poema dedicado ao menino. Dona Josefa e as
filhas sentiam-se intimidadas com a nobreza. Bárbara aparece ao lado do
poeta de braço dado. O que, aliás, provocou o protesto de muitas
senhoras presentes. Os mexericos foram tantos que o governador
aconselhou Alvarenga ao casamento, que ficara acertado no retorno a São
João d’El Rey. Os Silveira aproveitaram a estada em Vila Rica
freqüentando reuniões e até indo ao teatro assistir a uma peça de
Alvarenga Peixoto: Enéias no Lácio. No camarote conheceram o novo
ouvidor de Vila Rica, Tomás Antônio Gonzaga, rapaz louro de maneiras
aristocráticas, doutor em leis por Coimbra, além de magistrado também
era poeta. Gonzaga convidara os Silveira e Alvarenga para reunião em
sua casa. Onde apreensivos discutiram notícias chegadas do reino. Entre
elas, o término da gestão de dom Rodrigo e a chegada do novo governador
Luís da Cunha Menezes, que se constituía uma ameaça à fortuna dos ricos
senhores de Minas Gerais. A situação a qual se encontrava a colônia
desagradava a todos:
“A coroa pouco se importa com o bem de seus súditos, sejam eles lusos ou brasileiros”.
Com a queda da produção aurífera, os contratantes de ouro fechavam os olhos ao contrabando para compensar a queda de lucros. “até os oficiais e soldados do Regimento dos Dragões, que deveriam patrulhar as fronteiras, participavam do negócio.”
2.4 – Finalmente Casada
Bárbara
e Alvarenga finalmente casam-se. A cerimônia fora discretamente
celebrada na capela dos Silveira pelo Padre Toledo. Durante o jantar
que se seguiu após a cerimônia discutia-se problemas políticos de cunho
pessoal:
2.5 – Bárbara Bela
Mas
a alegria de Bárbara é curta. Abandonada por Alvarenga que vivia
ausente, inspecionando as fazendas, Bárbara passa por sérias
dificuldades financeiras. Com credores à porta, obrigada a vender suas
jóias, porque Alvarenga dificilmente lembrava-se de enviar dinheiro
para as despesas. Em cartas e poemas Alvarenga queixava-se da distância:
Bárbara bela
“Bárbara bela
Do Norte estrela,
Que o meu destino
Sabes guiar,
De ti ausente,
Triste somente
As horas passo
A suspirar.
Isto é castigo
Que Amor me dá.
Por entre as penhas
De incultas brenhas
Cansa-me a vista
De te buscar;
Porém não vejo
Mais que o desejo,
Sem esperança
De te encontrar.
Isto é castigo
Que Amor me dá.”
Mas
eram apenas cartas e poemas. Nas oportunidades que havia o poeta
recolhia-se a Vila Rica para encontro com os amigos, deixando a esposa
esquecida, sempre à espera de mais um filho. Mas em seu retorno, tudo
era perdoado, esquecido. Pelo menos desta vez, o poeta “assistira” ao
nascimento de Tristão, seu segundo filho.
Alvarenga
promovia jantares, saraus, falava de muitos projetos que cobririam a
esposa de ouro. Esta deseja apenas que o poeta permanece no cargo de
ouvidor com salário garantido. Nas reuniões Alvarenga falava do novo
governador: Luís da Cunha Menezes. Era bem pior do que se imaginava.
Trouxera consigo uma corja à qual se juntara um coletor de impostos que
enriquecera rapidamente desde de sua chegada à colônia: Joaquim
Silvério dos Reis. Dom Luiz demitira vários comandantes dos Dragões,
afastara Cláudio Manuel da Costa da secretaria do Governo, e nomeara
gente sua para fiscalizar as estradas. Era um meio de facilitar o
tráfico, do qual lucrava sempre uma parte. Entre os demitidos estava o
Alfares Joaquim José da Silva Xavier, conhecido pela alcunha
depreciativa de o Tiradentes. Este prometia uma revolta contra o
governador.
2.6 – Marília de Dirceu
Em
1786, Vila Rica fora tomado por grandes festas, ordem de D. Maria I,
rainha de Portugal, para celebrar o casamento de príncipe herdeiro D.
João com a princesa espanhola Carlota Joaquina. Alvarenga conseguira
convite e Bárbara deixara os filhos aos cuidados de sua família.
Além
das festas a vila comentava os amores entre Gonzaga e Maria Dorotéia,
três anos mais jovem que Iria. Gonzaga que desafiara o governador em
defesa do dr. Bernardo da Silva Ferrão, pai de Maria Dorotéia, agora
dedicava versos a sua amada. Mas as diferenças entre o ouvidor
(Gonzaga) e o governador (Luiz da Cunha Menezes) não se resumiam ao
caso do sargento-mor (pai de Dorotéia). Havia o caso do Brito
Malheiros, culpado de um crime, mas o governador mandara soltá-lo;
havia queixa de corrupção contra o governador e outras diferenças
vindas desde os tempos em que se conheceram na Metrópole.
2.7 – Tempos Difíceis
No
retorno de Vila Rica, Teresa, filha adotiva dos Silveira, morrera no
parto de seu primogênito, e o rebento morrera alguns dias depois. Então
viúvo, Matias, homem maduro e de posses, era um marido potencial para
Iria, que já completara 18 anos. E que ao lado de Maria Inácia não
tiraram os olhos dos oficiais nas festas de Vila Rica. Além de Bárbara
que esperava João Eleutério, terceiro filho, já Francisca e Joaquina
haviam casado. Ana aos trinta anos ia ficando, Mariana inda aos 12 anos
não provocava inda preocupações. O problema era Maria Inácia. Alvo dos
falatórios, desde os dezoito anos namorava. E agora com as visitas
freqüentes do Dias Coelho, tenente dos Dragões, aos Silveira para
negócios com Alvarenga, agora coronel, existia uma enorme preocupação.
Dessa preocupação dos Silveira, nascera o filho de Maria Inácia com
Dias Coelho. O menino foi entregue a adoção dos Oliveira Lopes que não
podiam ter filhos. Alvarenga chamou Dias Coelho de pulha e José Inácio
(irmão de Maria Inácia) queria um duelo com o tenente.
Por
essa época surgem As cartas chilenas, poemas anônimos, que condenava o
notório despotismo do governador Luiz da Cunha Menezes. As cartas
escritas para satirizar as arbitrariedades e abusos do governador
utilizavam artifícios para esconder os personagens e os locais por trás
de pseudônimos:
“Apenas, Doroteu, a noite chega,Ninguém andar já pode, sem cautela,Nos sujos corredores de palácio,Uns batem com os peitos noutros peitos;Outros quebram as testas noutras testas;Qual leva um encontrão, que o vira em roda;E qual, por defender a cara, fura,Com os dedos que estende, incautos olhos. [...]Não temas, Doroteu, que não é nada,Não são ladrões que ofendam, são donzelas Que buscam aos devotos, que costumam Fazer, de quando em quando, a sua esmola.”
Mas
era possível reconhecer Chile e Santiago como o ambiente das Minas
Gerais e de sua capital Vila Rica. Assim como era possível identificar
o Fanfarrão Minésio como o governador de Minas e Silverino, seu aliado
Joaquim Silvério dos Reis. As cartas eram escritas de Critilo (Gonzaga)
para Doroteu (Cláudio Manuel da Costa), seu interlocutor. Há nas cartas
um prólogo citando versos do poeta latino Horácio: “Quid rides mutato nomine, de te fabula narratur...”
quase todos sabiam que as cartas provavelmente eram da autoria do
ouvidor Gonzaga. Ele e o governador continuavam desentendidos. Mas o
governador vingou-se demitindo Gonzaga de algumas funções e nomeando
Silvério dos Reis em seu lugar. Mas Gonzaga estava de casamento marcado
com Maria Dorotéia e apenas esperava autorização da Rainha. Depois se
mudaria para Bahia, onde o esperava um novo cargo.
2.8 – Cresce o Descontentamento
Após
a demissão do administrador da Paraopeba, que saqueara a fazenda, José
Maria, irmão de Bárbara, fora colocado em seu lugar. Em suas mãos a
fazenda de Alvarenga ia de mal a pior. Bárbara muda-se para São Gonçalo
do Sapucaí, d’onde poderiam levar uma vida mais barata e Alvarenga
poderia administrar melhor seus bens.
A
mudança coincide com a chegada do novo governador: Visconde de
Barbacena. Barbacena viera com ordens de cumprir o quinto. Ou seja, cem
arroubas de ouro deveriam ser enviadas a Portugal. Essa quota anual nem
sempre era atingida. E havia grande rumor de que seria decretada a
derrama. A cobrança dos atrasos de uma vez só. A dívida era de 538
arroubas:
“ – 538
arroubas! Não existe tanto ouro na capitania, mesmo que cesse o
contrabando, que mandem fundir todas as jóias das mulheres e coroa dos
santos.”
Mas
havia outras ordens a cumprir: diminuir os impostos sobre os utensílios
de ferro para incentivar a mineração, aumentar os impostos sobre todos
os demais produtos vindos de Portugal, proibir severamente as
indústrias locais, cobrar as dívidas dos contratantes. De um modo geral
todas as dívidas deveriam ser executadas. Havia um descontentamento
geral e a certeza de que se Barbacena cumprisse suas ordens muitos
estariam definitivamente arruinados.
2.9 – Um Noivado
Iria
torna-se noiva do filho do capitão Matias, velho amigo de seu pai. Iria
já contava vinte e um anos e não havia interesse particular dela por
ninguém. Então em conversa com Matias Vilhena o doutor Silveira falara
do desejo de ver as famílias unidas. Era uma forma também de evitar
novo escânda-lo. Depois de Bárbara, quando os Silveira insistiram para
que Dias Coelho, pai do filho de Maria Inácia, se casasse, ele se negou
dizendo que os Silveira eram uma casa de mães solteiras. Agora era
inimigo da família.
2.10 – A Conjura
Alvarenga
agora frequenta em casa de Freire de Andrade as reuniões que tramam a
independência de Minas Gerais. Embora as reuniões tivessem a presença
de homens doutos em leis e poesia, como Tomás Antônio Gonzaga e Cláudio
Manuel da Costa, as discussões eram mesmo sobre a situação política e
econômica da colônia. Frequentava as reuniões o doutor José Álvares
Maciel e seu amigo Tiradentes. Maciel era recém chegado da Europa, de
onde voltara com idéias avançadas:
“O
doutor Maciel crê que o futuro das nações está na industrialização e no
comércio. [...] vejam o que aconteceu aos portugueses: levaram todo o
ouro do Brasil e pouco lhe resta, entregaram tudo aos ingleses, para
pagar pelos produtos que não fabricam, e só agora acordaram e passaram
a produzir sedas, papéis, botões e outras coisas.”
Maciel
fervoroso pregava contra a exploração. Cláudio anda em cima do muro e
nem aderia nem deixava de participar das reuniões. Gonzaga
aristocrático não admitia ficar no mesmo ambiente em que um simples
Alferes pudesse ser ouvido como um igual:
“Só loucos embarcariam numa revolução que contava com um fracassado e inculto tirador de dentes entre seus chefes.”
Nas
ocasiões que Tiradentes comparecia, Gonzaga retirava-se para a varanda
do palácio de Freire de Andrade, localizado à rua Direita, em Vila
Rica. Além dos doutores compareciam o padre Rolim e o padre Toledo.
Ambos conheciam que uma das diretrizes da política de Barbacena era
diminuir o dízimo da Igreja e investigar a fortuna dos padres.
Rodrigues de Macedo, banqueiro, Silvério dos Reis e Abreu Vieira,
apesar de portugueses como Gonzaga, aderiram ao grupo porque os
inconfidentes iriam cancelar todas as dívidas com a Fazenda Real, da
qual os três eram devedores.
Quando
Alvarenga retornava. Discutia com o sogro as idéias de independência. O
doutor Silveira lembrava-lhe dos episódios de 1720, quando Filipe dos
Santos fora enforcado e esquartejado por liderar um motim para impedir
a cobrança do quinto. Mas Alvarenga voltara a Vila Rica, e hospedado na
casa de Gonzaga, frequentava assiduamente as reuniões.
Era
o ano de 1788. Alvarenga novamente pai, João Damasceno, contraira novas
dívidas para o batizado do filho e para a festa de Santa Bárbara.
Gonzaga fora o padrinho do menino e a festa realizada na casa do padre
Toledo. Bárbara sentia-se feliz:
“Comparou-se
com outras mulheres; quase todas casadas por conveniência, dividiam
teto e marido com as amantes escravas. Que importavam as humilhações
sofridas no passado, ou que vivessem afogados em dívidas Havia
desposado o homem que amava e soubera conservar seu amor, seria sempre
sua Bárbara Bela.
2.11 – Acertos Finais
Em
1789, começam os preparativos para a revolução. Os conjurados, certos
da vitória, contavam com o apóio das capitanias de São Paulo e Rio de
Janeiro, onde havia adeptos. De fora, receberiam ajuda de França e
Inglaterra. Mas havia um impasse: os escravos. Todos os conjurados, até
Tiradentes que era o mais pobre, possuíam escravos, e a grande maioria
não aceitava abrir mão deles:
“Outro
se indignava: - Aqui estamos porque a Coroa quer confiscar nosso ouro
e, antes mesmo de existir , a república quer confiscar nossos escravos!”
Outro
problema era o que fazer com os padres se estabelecida a república:
ficara decidido que o dízimo seria empregado em obras de caridade em
prol do povo, mas nada impediria que os religiosos continuassem com
seus bens adquiridos ao longo dos anos ou até mesmo que abrissem
negócios particulares.
Instituída
a República, as dívidas com a Fazenda Real seria perdoadas, os
contratos de exploração de diamantes seria para os brasileiros, as
famílias numerosas receberiam ajuda do governo. O doutor Cláudio Manuel
redigiria a constituição e o doutor Gonzaga seria o presidente
provisório da República, até que se convocasse eleições gerais. Mas
tudo isso só daria certo quando a derrama fosse anunciada. Maciel que
era assessor do governador ouvira falar da derrama para o mês seguinte,
fevereiro. Com a derrama haveria uma indignação geral que apoiaria o
movimento revoltoso.
2.12 – O Fracasso
Mas
a derrama foi suspensa (25 de março). E com ela “foi-se por água
abaixo” a inconfidência. O governador ciente de que não havia ouro em
Minas nem para meia derrama convencera D. Maria e seus ministros de que
era impossível. Entretanto, a cobrança dos débitos dos contratantes com
a Coroa permanecera. Entre os devedores um desesperara-se enormemente
sem ter meios de obter o perdão da dívida: Joaquim Silvério dos Reis.
Sem o perdão de sua dívida, Silvério, que doara dinheiro para a munição
dos inconfidentes, estava virtualmente arruinado.
O
clima era tenso nas Minas Gerais. Gonzaga suspeitava de alguma coisa
estava sendo tramada. Os conjurados suspeitavam de um Judas porque
Barbacena havia concedido privilégios aos Dragões, além de nomear
alguns conjurados menos importantes para cargos no governo. Freire de
Andrade e Maciel se portavam de modo estranho. Tiradentes fugira para o
Rio, outros também haviam fugido. Os que ficaram viviam assustados,
sobretudo Alvarenga. Em seguida começa a caça às bruxas: Tiradentes
havia sido preso no Rio e Cláudio Manuel da Costa preso em Vila Rica.
Alvarenga estava preso. Já era maio de 1789.
Em meio a esse turbilhão, Iria havia se casado, na matriz do Pilar, com o cel. Matias Gonçalves Moinhos de Vilhena.
2.13 – O Inquérito
O
período de caça às bruxas em Minas Gerais continuava. Após a prisão de
Tiradentes e Gonzaga, ambos enviados para a Ilha das Cobras, no Rio de
Janeiro, para lá também fora Silvério dos Réis, Cláudio Manuel da Costa
preso nas dependências da casa de Rodrigues de Macedo, que agora
funcionava como prisão, padre Rolim e Macedo fugidos. Cláudio Manuel da
Costa, após confissão, aparecera morto por enforcamente. O tenente Dias
Coelho andava caçancdo e predendo gente para todos os lados. Os que
podiam pagar caro, ficavam fora do inquérito, os que não, eram
torturados.
Bárbara
assistira ao confisco e bloqueio de seus bens, logo depois se mudara
para São Gonçalo do Sapucaí, passando a viver modestamente, servida de
algumas escravas que D. Josefa cedera.
2.14 – A Condenação
Após
três dos eventos que abalaram Minas, o julgamento, 18 de abril de 1792,
condenou à forca Tiradentes, Maciel, Freire, Oliveira Lopes e Luiz Vaz
de Toledo. Mas a rainha, D. Maria I, suspendera a sentença e comutara a
pena. Quatorze réus foram condenados ao degredo em África, entre eles
Gonzaga e Alvarenga. Silvério dos Réis fora solto e recebera de volta
seus bens, acrescidos da Ordem de Cristo. Rodrigues de Macedo a poder
de muito ouro não fora sequer chamado a depor. E Tiradentes fora o
único condenado. Bode expiatório de todo o processo. O alferes fora
enforcado, seu corpo repartido, sua cabeça salgada foi levada para
Minas Gerais a servir de exemplo a futuras conjuras.
2.15 – Uma Mulher Solitária
Após
o confisco definitivo de seus bens, Alvarenga fora enviado para Angola,
onde foi vitimado por febres tropicais. Aos trinta e cinco anos,
infeliz e sem fortuna, Bárbara lutava para não ver seus filhos lançados
á miséria.
2.16 – Ocaso
Doente
e já velho doutor Silveira morre, após ter várias propriedades
confiscadas. Maria Inácia, Ana e Joaquina também já estavam mortas.
Dona Josefa ficara com o com sobrou: a casa, objetos pessoais (muitos
dos quais vendidos para sobrevivência) e alguns escravos. Iria e Matias
Vilhena, também tivera prejuízos, e foram viver em Campanha, perto de
São Gonçalo, onde morava Bárbara. Associada com Rodrigues Macedo, após
receber de volta escravos e parte das terras da fazenda Boa Vista,
vivia melhor que antes, quando era possuidora de muito bens.
2.17 - ... depois da Inconfidência
Bárbara
Heliodora terminou seus dias em São Gonçalo do Sapucaí, foi enterrada
ao pé do altar da Matriz. Maria Ifigênia morreu aos dezessete anos de
uma queda de cavalo, em 1796. Tristão Antônio e João Damasceno
tornaram-se cadetes. Tristão morreu ainda jovem e solteiro sem deixar
filhos. João Eleutério casou-se e se espalharam por toda a Minas
Gerais.
Iria
e Matias tiveram 12 filhos. Todos casaram e espalharam-se adotandos
vários sobrenomes. O filho bastardo de Maria Inácia e Dias Coelho foi
reconhecido pelo pai e herdou sua fortuna.
Tomás
Antônio Gonzaga, degredado para Moçambique, casou-se com a filha de um
rico traficante de escravos. Faleceu aos 63 anos, em 1807. Maria
Dorotéia jamais se casou. Viveu sempre na mesma casa, onde morreu em
1853 com mais de 80 anos. Foi enterrada com seu vestido de noiva. Os
padres Rolim e Toledo, depois de cumprirem sentença, foram transferidos
para conventos. Joaquim Silvério dos Réis voltou para Lisboa e
retornaram com a corte de D. João VI. Morreu no Maranhão.
Tiradentes
teve várias amantes e de uma delas nasceu Maria Joaquina. A cabeça de
Tiradentes ficou exposta três dias, depois sumiu. Sua casa foi demolida
e no lugar construíram o marco da infâmia. O Provável local do
enforcamento de Tiradentes é o cruzamento da avenida Presidente Vargas
com a rua Senhor dos Passos.
PERSONAGENS:
Vigário
Villasboas: vigário de São João d’El Rey, metido em mexericos, irmão do
poeta Bazílio da Gama. Disputou o amor de Joana de Lencastre com o
poeta Alvarenga Peixoto.
Créditos ao Prof. Túlio - João Pessoa - PB
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