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Madame Pommery - Hilário Tácito Imprimir E-mail
Escrito por SOS Estudante.com   
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Madame Pommery - Hilário Tácito
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"Não suporto, nem por idéia, que se possa algum dia taxar de romance, novela ou conto, uma história verdadeira que, por amor da verdade, tanto trabalho me custou: vigílias sobre desconformes documentos, peregrinações e inquéritos aborrecidos. Pois bem sei que similhantes afrontas são o prêmio de quantos se aventuram por mares nunca dantes navegados."

1. Quase-biografia de um quase-desconhecido:
Quem é, afinal, Hilário Tácito, autor de Madame Pommery, autor bissexto, pouquíssimas obras publicadas, engenheiro de profissão?
Anote: Hilário Tácito chamava-se, na verdade, José Maria de Toledo Malta, era engenheiro conceituado em São Paulo, mas nascera em Araraquara, interior do estado, no dia 27 de março de 1885. Morreu em 1951, quando tinha 66 anos, na capital paulista.
Era engenheiro civil formado em 1908 pela Escola Politécnica de São Paulo e seu primeiro trabalho foi na Companhia Mogiana de Estrada de Ferro, em Campinas. Nomeado, em 1911, engenheiro da Repartição de Águas e Esgotos de São Paulo, na 1 a. Seção Técnica, passou a ocupar, logo depois, para o Escritório Técnico, aposentando-se em 1942.
Era um especialista em cimento armado, tendo projetado uma rede de irrigação para a cidade ( o Observatório da Água Branca, a Ponte sobre o rio Tamanduateí, o Reservatório da Lapa e mais a Barragem Pedro Beicht); após aposentar-se, abriu um escritório de consultoria sobre emprego de cimento armado e foi responsável por inúmeros edifícios construídos em São Paulo dos anos 30 e 40, entre eles o Edifício Martinelli.
Enxadrista, amigo de Lobato, trabalhou com ele na redação da Revista do Brasil, de propriedade do escritor.
Autor de inúmeras obras sobre a utilização de cimento armado na construção civil, Toledo Malta publicou um único romance, Madame Pommery, em 1920, pela Revista do Brasil.

2. Uma obra pré-modernista:
O autor deve ser inserido no Pré-Modernismo, fase de transição entre o final do Realismo e do Naturalismo brasileiros e o Modernismo iniciado em 1922. Madame Pommery apareceu em 1920 e, como anotou Wilson Martins, crítico literário,
"é um romance de maus costumes, inspirado na prostituição elegante de São Paulo (...) é um romance local e datado, mas, ainda assim, curioso como documento social e salutar como obra de desmistificação, mais novela picaresca que romance, no sentido comumente aceito da palavra."
Pré-Modernismo é escola literária?
Bem, a resposta é não; trata-se de denominação genérica que abriga, entre os anos de 1902 e 1922 um conjunto de produção de alguns autores: na prosa, Euclides da Cunha ( Os Sertões, em 1902, marcam o início dessa transição), Lima Barreto, Graça Aranha e Monteiro Lobato; na poesia, Augusto dos Anjos.
Para Alfredo Bosi, em sua História Concisa da Literatura Brasileira, "Creio que se pode chamar pré-modernista ( no sentido forte de premonição dos temas vivos em 22) tudo o que, nas primeiras décadas do século, problematiza a nossa realidade social e cultural."
Inserido historicamente num tempo de grandes transformações sócio-político-culturais da Primeira República, o Pré-Modernismo abriga desde os problemas relativos à imigração, dos negros e da industrialização, até os impasses políticos do poder; além disso, é preciso observar também que uma primeira Grande Guerra aparecerá de permeio, o que afeto a relação do homem com o mundo, consigo próprio e com a própria literatura.
É nesse período, chamado "belle epoque", que o homem brasileiro tomará consciência plena da transformação do país: o Brasil velho vai se aproximar da modernidade e cria-se, sobretudo em São Paulo, a concepção do "novo": de um lado a burguesia agro-pecuária, industrial poderosa, do outro o proletariado. Há luxo e refinamento, mas há pobreza e desigualdade.
Madame Pommery foi, quando publicado, um romance de grande sucesso, exaustivamente lido e comentado; no entanto, poucos anos depois, caiu no mais absoluto esquecimento, só sendo revisitado no início desta década, quando um grupo de estudiosos da linguagem e Teoria Literária ligado à Universidade de Campinas.
Leia abaixo alguns trechos do artigo de Júlio Castañon Guimarães, usado como Introdução no romance que ora analisamos, 5 a. edição, editado pela Fundação Casa de Rui Barbosa e Editora da Unicamp, em 1997:
"No caso de Madame Pommery, vale, porém, lembrar o depoimento de Leo Vaz, quando diz que o romance de Hilário Tácito "foi, ao tempo, um dos mais rumorosos sucessos de livraria"da Editora de Monteiro Lobato, não só pelo seu caráter de sátira, mas também pelo seu estilo. Lawrence Hallewell também se refere ao romance como "História picaresca de uma elegante prostituta judia dentro da haute-bourgeoisie de São Paulo, dizendo ainda que o "livro pretendia ser uma sátira, mas marcou sua passagem como um grande succès de scandale".
De um lado, estão as referências ao sucesso momentâneo do livro, embora Tristão de Ataíde comente que, "em São Paulo, em torno dele, se a muralha de silêncio". Comentário que não contradita as outras referências: ao escândalo se teria respondido com o silêncio. O certo , porém, é que ao longo de sete décadas o sucesso esmaeceu e o romance alcança agora apenas sua quarta edição, tendo havido também uma adaptação teatral. De outro lado, o sucesso ligava-se ao aspecto documental ( irreverente) do romance, não deixando provavelmente de ser levado em conta o estilo (revelador do autor culto e de prestígio intelectual). Mas a significação e a eficácia da conjunção desse estilo e desse aspecto documental só mais tarde seriam devidamente explicitadas. Madame Pommery é sobretudo encarado como documental quando o classificam como romance de costumes de modo expresso ou com uma qualificação que já acentua a mescla da ireverência e do estilo culto, o que se verifica quando se fala de "maus costumes". Para Wilson Martins, Madame Pommery é um
romance de maus costumes, inspirado na prostituição elegante de São Paulo e no qual não é difícil perceber a influência de José Agudo, tanto nas qualidades e defeitos quanto no tipo de observação e nas intenções satíricas ( Toledo Malta era Hilário Tácito assim como José Agudo era o Juvenal Paulista). Madame Pommery é um romance local e datado, mas, ainda assim, curioso como documento social e salutar como obra de desmistificação, mais novela picaresca que romance, no sentido comumente aceito da palavra.
(...) Mais do que o aspecto "curioso"e de "desmistificação"( o que ainda se inclui no caráter documental), pede atenção o que é apontado pelo crítico quando diz que se trata mais de "novela picaresca"que de "romance". Está aí, efetivamente, um dos problemas centrais postos pela obra de Hilário Tácito. Sob o signo da ironia a lógica do avesso, nas palavras de seu autor -, Madame Pommery é um romance que cria cenas de grande humor, não apenas pelas situações a que expõe seus personagens, mas sobretudo pelas situações a que expõe a própria narrativa.
De modo insistente, o narrador de Madame Pommery faz duas afirmações: tudo o que narra é pura realidade; o texto diante do leitor é uma crônica ( história) e não um romance ( ficção), embora a veracidade já seja ironizada no nome do alegre historiador ( Hilário Tácito). De fato, não se pode negar o lado autenticamente documental, sendo possível até identificar o que foi despistado com trocas de nomes ( mas nem por isso se deve procurar ler a obra como uma romance à clef, mesmo porque o desvendamento de certas identidades hoje pouco ou nada significaria). Isto credencia a crônica. Ao mesmo tempo a narrativa desvia-se com freqüência do relato proposto e incorpora variadas digressões, inclusive aquelas, já referidas, em que se aborda a condição dessa narrativa. Na maioria das vezes, as digressões são citações literárias de natureza erudita em apoio a comentários de caráter histórico, sociológico e psicológico. Madame Pommery configura-se, assim, como um ( romance-) ensaio ( de costumes).
(...) Aceito como relato de costumes, Madame Pommery, no entanto, sempre suscita uma certa oscilação no tocante à sua definição: "história picaresca", "pretendia ser uma sátira", "intenções satíricas", "mais novela picaresca que romance"etc. O artigo com que Tristão de Ataíde recebeu o romance de Hilário Tácito intitula-se diretamente "Sátira". O crítico atenta de modo especial para a questão do gênero, dedicando-se a tratar o romance segundo sua maior ou menor adequação à classificação de sátira:
Mas o livro do Sr. Hilário Tácito não é um romance. Todo romance é, por definição, uma obra autônoma e de ficção. E nem um nem outro caráter distingue este volume. Será, talvez, como quer o autor, uma crônica histórica , sui generis... uma sátira de costumes.
(...) Mário Chamie, em artigo incluído em A Linguagem Virtual, chama a atenção para a importância de Madame Pommery em diversos níveis. Atenta para o problema do gênero e para o fato de o romance incorporar citações e valer-se da linguagem erudita, concluindo: "Aí começa a sua sabida contradição, que é a sua maneira de ser satírico. Ali começa a paródia, que é a sua maneira de pôr em crise os gêneros literários e um linguajar que não acompanha mais a dinâmica dos tempos novos. Além das questões fomais, Mário Chamie salienta também a nova temática de Madame Pommery: "Penso que Hilário Tácito é o nosso primeiro escritor a lançar as coordenadas básicas de uma literatura cujo centro de interesse crítico passou a ser a aristocracia rural paulista em estado de desagregação."
(in Madame Pommery, Hilário Tácito, 5a. Edição, Ed. da Unicamp/Fund. Casa de R. Barbosa, 1997, p. 13 e ss.)

3. Estrutura do romance:
Madame Pommery está composto por 8 capítulos contados por um narrador atento, satírico e irremediavelmente debochado que, ao iniciar seu romance , escreve um prefácio assemelhado ao de Memórias Póstumas de Brás Cubas: cheio de ironia. São Paulo é a Botocúndia, cidade que está se industrializando e que precisa sair da mesmice. Para tanto, vai contar com o trabalho de Madame Pommery, uma prostituta de origem judaico-polonesa que chega a São Paulo e funda ali um prostíbulo freqüentado por coronéis, políticos e intelectuais, ensinando a todos a beber champanha .
O tempo narrativo da obra é o início do século XX e das grandes transformações sociais naquela capital. O espaço é São Paulo.
O livro está dividido em oito capítulos e tem seqüência temporal, com flash-backs como cortes que nos remetem a um tempo anterior ao da ação.

4. Os capítulos um a um:
Prefácio:
Madame Pommery
Crônica muito verídica e memória filosófica de sua vida
Feitos e gestos mais notáveis nesta cidade de São Paulo
Com o perfunctório esboço biográfico em que pela primeira vez se registram as lendas e anedotas mais abonadas sobre o nascimento, infância e educação da mesma conspícua senhora;
baseada em documentos inéditos, memórias próprias e no testemunho respeitável de várias pessoas abalizadas que mais se avantajaram no seu trato e intimidade;
obra necessária ao perfeito entendimento de muitos fatos particulares, assim políticos como sociais, que resultariam, sem ela, de impenetrável obscuridade para o futuro historiador, e, por isso,
dedicada ao Instituto Histórico e Geográfico, à Academia Paulista de Letras, à Sociedade Eugênica e mais associações pensantes de São Paulo;
composta
por
Hilário Tácito
( natural da Botocúndia)
em
1919

Primeiro Capítulo:
Em que trata o autor da história e dos motivos que teve para escrever.
Usando uma ironia tão aguda e demolidora quanto à de Machado de Assis em Memórias póstumas de Brás Cubas, o narrador nos apresenta o livro e as suas finalidades:
"Cousa nova há de parecer a muita gente que este livro, cujo propósito declarado é narrar a vida de uma personagem tão principal como Mme. Pommery, logo no começo se extravie do seu reto caminho, trocando assunto de tamanho momento por outro apagado e tão pouco interessante, como seja a personalidade incógnita do autor. "
Vai mais longe na ironia ferina, e nos faz lembrar Brás Cubas outra vez quando o narrador ressalta o valor de seu trabalho, de si mesmo e daquilo que se propõe produzir antes mesmo que nos apresente à personagem principal, promovendo sua auto-valorização:
"É verdade, conquanto nem todos os saibam, que Jesus, filho de Siraque, também começa nas Escrituras tratando de si próprio. Mas este escriba era um simples tradutor; ao passo que eu, por ser autor, sou muito mais do que ele. Donde decorre a superioridade deste livro sobre o Eclesiástico da Bíblia."
Adverte-nos que não pertence à "classe de peralvilhos das letras, que ao desejo insensato de parecer originais tudo sacrificam: o bom-senso, a compostura e até a decência. São , estas, qualidades, ao contrário, que, juntamente com a simplicidade e a clareza, sei estimar acima de quaisquer outras."
Promete endereçar correspondência ao Secretário do Interior, a fim de que as regras de boa conduta que aqui apresente sejam adotadas em nossas escolas públicas.
E garante:
"Convençam-se todos. Este livro é um livro honesto e de boa-fé. Se eu quisesse, ter-lhe-ia dado aquela epígrafe de Montaigne: "C'est icy un livre de bonne foy, lecteur." Não lha dei porque não quis, porque embico com epígrafes e, também, porque já esperava, de princípio, que havia de fazer mais tarde esta citação; e sou grande inimigo de repetir coisas que já disse. Se, entretanto, o leitor achar nisso conveniência ou mérito, não lhe vedo inscrevê-la agora no frontispício, com a condição de que a copiará muito exatamente e sem trocar a ortografia."
Convém observar aqui que o narrador subestima a capacidade intelectual do leitor, tal como o faz Brás Cubas no seu Prólogo. Da mesma forma que Machado, também em função metalingüística, conversa com os leitores, embora os subestime logo de início ao recomendar que, numa frase tão simples, em francês, não haja erro de ortografia se se pretender copiar a citação de Montaigne no frontispício da obra. ressalta, no entanto, ainda que satiricamente, a sua pretensa humildade. Observe:
"Com isso depara-se-me a ocasião de observar que a boa-fé, o amor à sinceridade, é o que me leva a tratar de minha humilde pessoa neste capítulo inicial. Pois não quisera, por maneira nenhuma, inculcar-me por outrem, diverso do que sou naturalmente; e preciso provar, de certo modo, que não careço por completo daquelas qualidades, tais, que façam de mim um cronista não desproporcionado para registrar as altas e maravilhosas aventuras de Mme. Pommery."
E, por fim, como narrador, declara:
"E sou tal, em suma, que Mm. Pommery não achará razões maiores para se envergonhar do seu cronista."
Segundo capítulo:
De como era a cidade de São Paulo e das graves incongruências que na mesma se notavam no tempo em que chegou Mme. Pommery.
O narrador reafirma que obra destinada a uma celebridade evidente deve ser escrita com o auxílio de método científico. Faz comentários de como certos autores empolam seu estilo e de como, "Hoje em dia, querem-se os fatos logicamente ligados uns aos outros e o conjunto deles enraizado fortemente na terra, donde surgem; de maneira que, da sua perfeita urdidura e apoio natural, resulte, não algum cipoal inextricável, de galhos ressequidos, mas uma árvore cheia de vida, com seus ramos, flores e frutos. "
A observação não passa de fina ironia, vez que o estilo do narrador é cheio de tortuosos descaminhos, citações e aproximações.
Mas é neste capítulo também que o narrador nos apresenta, em definitivo, a Mme. Pommery:
"Mme. Pommery desembarcou um belo dia em São Paulo, com as suas roliças enxúndias, quatro cançonetas realejadas, um fato de toureador e dois baús. Começou pobremente. Depois cresceu e se multiplicou; granjeou fortuna, importância e honrosa fama, alargando-se cada vez mais por toda a terra seduzida o insidioso influxo de sua personalidade.
Ora, é claro que eu não poderei contar inteligentemente o que na cidade de São Paulo Mme. Pommery tem obrado, sem dizer: 1o.) o que fez Mme. Pommery em relação a São Paulo; 2o.) o que São Paulo fez a Mm. Pommery."
Roga ao Conselheiro Acácio (!) que o valha e põe-se a observar que "naquele tempo era tudo diferente"; e afirma que toda a mocidade boêmia, libertina, elegante ou perdulária se reunia no Cassino todas as noites.
Os fuxicos envolvem o Sequeirinha , que recebia uma fortuna incalculável de mesada e a gastava inteira com "aquela bêbada".
E anuncia:
"Andavam as cousas assim, nesta lástima, quando aportou Pommery por estas bandas."
O café estava em crise, não havia muito dinheiro, mas Pommery, ainda em início de carreira, começava a ganhar dinheiro com a prostituição, o que escandalizava os moralistas.
Os rapazes tomavam cereja, desabituados da champanha que era considerada cara; mas Madame Pommery via essas coisas e meditava, tentando achar um jeito de modificar os costumes da época.
No Hotel dos Estrangeiros, Pommery começara tristemente: dançava, cantava, dizia bobagens, mas tinha 35 anos... No início, sequer conseguia um "pato"que lhe pagasse comida, ficava solitária.
Observava coisas disparatadas, costumes nem um pouco refinados. Um dia,
"Às quatro da manhã subiu para o quarto, como quem sobe numa nuvem. E o salão em peso, homens e mulheres, acompanhavam-na e bebiam champanha. Mme Pommery subia pelas escadas acima cavalgando no bojo de uma colossal garrafa de champanha, carregada sobre os ombros dos homens, encasacados, vergados e sorridentes. A garrafa monstruosa despejava champanha às espadanas. Inumeráveis raparigas, belas, alegres, seminuas, enchiam, dançando, as taças de cristal fino; bebiam como bêbadas, e com trejeitos lascivos, com brejeiras negaças, levavam-nas aos lábios sôfregos dos heróicos porta-garrafas."
Era apenas um sonho e Pommery vomitou cerveja Antarctica...
Mas era supersticiosa e se pôs a pensar o que teria sido aquele sonho, achando que o seu lugar era ali, e que iria mudar aqueles hábitos rudes dos homens de São Paulo.

 
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