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O Enfermeiro - Machado de Assis Imprimir E-mail
Escrito por SOS Estudante.com   


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O conto, sabemos, é uma espécie literária própria do gênero narrativo. A origem do conto perde-se na poeira da noite do tempo, pois podem-se encontar estruturas semelhantes na literatura árabe, indiana e chinesa e mesmo em narrativas orais de povos ágrafos (que desconhecem a escrita), primitivas tribos africanas e indígenas das Américas.
Machado de Assis é um dos expoentes do moderno conto brasileiro. Alguns críticos chegam mesmo a afirmar que, de sua produção literária, o primeiro lugar cabe aos contos.
Em “O Enfermeiro”, observa-se o profundo pessimismo quanto ao comportamento humano. A obra de Machado é notória por várias razões e uma delas é o desencanto com que analise o ser humano. A crítica irônica, o meio riso atravessado no canto dos lábios, um certo “dar de ombros” de desprezo e desencanto parecem ser as atitudes do autor diante do comportamento do homem flagrado em situações cotidianas. É como se dissesse: “É assim mesmo!... Não adianta esperar nada melhor dessa espécie desprezível...”
O personagem protagonista é o narrador. Inicia afirmando que está à morte, deixando com isso, no leitor, a crença de que se está diante da confissão de um moribundo, portanto digna de todo o crédito. O ponto de vista, interno, como acontece também em Don Casmurro, deixando, na verdade uma grande dúvida no espírito de quem lê e julga: pode-se confiar em um sujerito que conta a sua própria história? Não estaria ele “forçando a barra” para minimizar sua culpas, se é que há culpas?
O espaço e o tempo são bem definidos. São constantes as referências ao relógio, aos dias da semana, aos meses. O cenário é uma pequena cidade do interior do estado do RJ com leves referências à corte. Tal fixação reflete em desvalor do cenário e da duração da narrativa, em benefício da ação propriamente dita, fulcro principal das narrativas da natureza do conto.
Nesse espaço restrito e nesse tempo limitado, movem-se os protagonistas: Procópio e o Coronel Felisberto. São personagens esféricos pela evolução em complexidade no no decorrer da narrativa. Procópio ora se apresenta como um homem religioso e temente a Deus, ora ele mesmo se confessa incrédulo. Felisberto é completamente imprevisível tanto pela ação contrária ao protagonista quanto pela surpresa que revela ao final de sua vida.
Procópio é contratado como enfermeiro de um velho – Felisberto – ranzinzo e sádico. Sofre, pacientemente, nas mãos do velho. As agressões, a princípio verbais e descabidas passam a físicas chegando mesmo a ameaças de morte que conduzem Procópio a um estáfio tal de desespero e revolta que ele termina por matar Felisberto, um acesso de incontrolável ira. Para sua surpresa, o velho o havia instituido seu herdeiro universal e ele, ironicamente, beneficia-se do ato criminoso.
Consumado ao assassinato, Procópio passa por maus momentos, apavorado com a punição que viria inexoravelmente, reza, manda rezar missa, teme a tudo e a todos. Mas aos poucos, racionaliza e justifica seu crime, acreditando mesmo que não houve crime, mas apenas um desentendimento maior, entre Felisberto e ele, que teve como corolário a morte, já anunciado pelas inúmeras doenças e achaques de que padecia o velho.
É importante notar que o processo de justificativa do ato criminoso dá-se pela modelagem da consciência moral pelo interesse, que tudo justifica. Presente também um tema caro a Machado: a discussão da loucura. Os delírios de Felisberto e as visões de Procópio, antecipando uma punição que não veio, inserem-se na categoria do delírio de Brás Cubas, nas Memórias Postumas, e na loucura de Quincas Borba, no livro homônino, passando pela casa verde do Dr. Simão Bacamorte, do conto O Alienista.
 
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