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Os Melhores Contos - Rubem Braga Imprimir E-mail
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Os Melhores Contos - Rubem Braga
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O AUTOR

Rubem Braga nasceu no dia 12 de janeiro de 1913, em Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo, filho de Francisco de Carvalho Braga e Rachel Cardoso Coelho Braga. As lembranças da infância em Cachoeiro, cercadas de lirismo, inundam as crônicas do “velho Braga”. Em textos como “Praga de menino” , “Lembrança de Zig” ou “O Cajueiro”, narrados na primeira pessoa, a infância na cidade natal é recontada de forma explícita e amorosa. Em outros, como “Tuim criado no dedo” e “Negócio de Menino”, sua memória de caçador de passarinhos ecoa nas personagens infantis.
Em 1928 começa a escrever, já como cronista, no jornal Correio do Sul, fundado, em sua cidade natal, por seus irmãos Jerônimo e Armando. No mesmo ano, muda-se para Niterói, e lá conclui o curso secundário. No ano seguinte, matricula-se na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, em que cursa os dois primeiros anos. Em 1931, transfere-se para Belo Horizonte, Minas Gerais, onde conclui, em 1932, o curso de Direito. No início desse ano, publica sua primeira reportagem no Diário da Tarde. Passa a escrever crônicas e cobre a revolução constitucionalista para os Diários Associados. Como os Diários eram favoráveis à revolução, seus artigos eram censurados e Rubem Braga acaba sendo preso, ainda aos 19 anos, sob a acusação de espionagem.
Logo solto, transfere-se, em 1933, para São Paulo, onde escreve crônicas para o Diário de São Paulo. Nesse jornal, tem como colegas Antônio de Alcântara Machado e Mário de Andrade, dos quais se torna grande amigo. O primeiro, ao se mudar para o Rio de Janeiro, em 1935, o convida para trabalhar no Diário da Noite. Após a morte precoce de Alcântara Machado, ainda em 1935, Braga transfere-se para Recife, Pernambuco, onde trabalha na página policial do Diário de Pernambuco e funda o jornal Folha do Povo, anti-getulista. Ainda no mesmo ano, muda-se para Porto Alegre e acaba retornando ao Rio de Janeiro, empregando-se no jornal de esquerda A Manhã.
Na onda de repressão que sucedeu a malograda tentativa de golpe comunista de 1935 -- retratada por Rubem Braga em crônicas como “Diário de um subversivo” , “Era uma noite de luar” e “Os perseguidos” -- o jornal A Manhã é fechado e Rubem Braga perde o emprego. Mas, em 1936, publica O Conde e o Passarinho, seu primeiro livro, reunindo crônicas selecionadas. O livro é recebido com entusiasmo, e marca o início de uma carreira singular na literatura brasileira: a do cronista que deixa as páginas efêmeras dos jornais para eternizar suas crônicas em livro.
Entre 1936 e 1944, Braga passou anos difíceis, arrumando empregos esporádicos em jornais de Belo Horizonte, do Rio e de São Paulo, sempre fugindo da repressão do Estado Novo. Em 1944 é enviado à Europa como correspondente de guerra pelo Diário Carioca. Acompanha a Força Expedicionária Brasileira em sua campanha na Itália até o fim da Segunda Guerra Mundial. Ao retornar ao Brasil, publica o livro Com a FEB na Itália, reunindo suas melhores crônicas do período. Esse livro faria enorme sucesso, consagrando definitivamente o nome de Rubem Braga como um grande escritor brasileiro.
Passa os anos seguintes trabalhando em jornais no Rio e em São Paulo - suas constantes viagens entre as duas cidades aparecem na crônica “Um braço de mulher”, passada na ponte aérea. Ainda em 1946 cobre a primeira eleição de Juan Perón, na Argentina. Passa o ano de 1950 como correspondente do Correio da Manhã em Paris. Em 1955 é nomeado chefe do Escritório Comercial do Brasil, em Santiago do Chile, cargo em que permanece apenas alguns meses, retornando a Brasil e ao jornalismo. No ano seguinte cobre a reeleição do presidente Eisenhower, nos Estados Unidos.
Em 1960, funda, com o amigo Fernando Sabino, a Editora do Autor. Entre 1961 e 1963, serve como Embaixador do Brasil em Marrocos, na África. Como sempre, regressa a Brasil e ao jornalismo. Entre 1967 e 1971 torna-se novamente sócio de Fernando Sabino na Editora Sabiá. Em 1975 é contratado pelo departamento de jornalismo da TV Globo, onde permanece até morrer, no dia 19 de dezembro de 1990.
Vivendo em inúmeras cidades, trabalhando em incontáveis jornais, Rubem Braga colecionou uma infinidade de amigos durante a vida. Ao completar 50 anos, recebeu esta homenagem de um certo amigo poeta, que não podemos deixar de registrar:



RUBEM BRAGA, PROFESSOR DE LUCIDEZ
Carlos Drummond de Andrade
Rubem Braga tinha 18 anos e já se impusera como cronista em Belo Horizonte. Fazia no jornal "Estado de Minas" uma coluna de leitura obrigatória. Sempre andejo, lá um dia viajou, deixando de escrever. Mas o jornal resolveu engambelar os leitores, publicando uma crônica de outro, com assinatura dele. Braga leu e telegrafou ao diretor Afonso Arinos: "Não useis meu santo nome em vão".
Impossível usar o nome de Braga dando a sensação da prosa de Braga. Ela é patenteada. Seus elementos -- sensualidade, ternura, anarquismo, tédio, poesia, humour --, soltos, são manipuláveis por qualquer um. Reunidos, formam um composto especificamente braguino, que até dispensa assinatura. E como ele tem imitadores! Imitam, apenas.
Lembro-me muito do cronista jovem, esquivo e desconcertante. Ele namorava uma mocinha loura da Secretaria do Interior, e não era raro ver o relato dos tristes ou alegres passos do seu idílio, sob forma de crônica. Ninguém ousara fazer isso antes e ninguém pensava em estranhá-lo, pois era deliciosamente bem feito. Braga se tornou menestrel de todos os namorados sem expressão artística, e até dos que haviam namorado há muito tempo e voltavam a sentir o gosto da coisa, através do lirismo dele.
Pois um rapaz assim, apaixonado (à sua maneira) pela loura filha do Clarindo, um dia nos aparece correspondente do jornal no "front" da Revolução Constitucionalista de 1932, e logo se boqueja que ele era um espião terrível dos paulistas entre mineiros, espião que seria conveniente prender, submeter a corte marcial e, quem sabe, fuzilar. Oh, imaginação! (Mas a cara dele era meio russa, não sei.) Numa crônica, Braga confessa: "Eu era espião; era espião da vida no meio da morte. A guerra era demasiado estúpida para não me fazer sorrir, eu não reconhecia aliados nem inimigos; apenas via homens pobres se matando para bem dos homens ricos; apenas via o Brasil se matando com armas estrangeiras". Quem via essas coisas, sem a névoa passional que perturbava tanta gente, era um mocinho de 19 anos, que escreveria aos 34: "Eu observo as coisas com dois olhos que, embora castanhos e mesmo tirantes a verde, vêem este mundo com bastante clareza".
E esta é a qualidade mestra e inesperada de Braga: lucidez. Um homem que diz tantas coisas absurdas ou surrealistas pode lá ser bom observador da vida? Perfeitamente. Sempre que necessário, Braga emite juízos ponderados sobre fatos políticos, econômicos, sociais, e se nem sempre ou quase nunca sua opinião coincide com a opinião estabelecida ou vitoriosa, isto nada prova contra a justeza da sua visão intelectual e o seu bom senso; prova apenas que tais atributos não gozam de muito favor na coletividade.
Não é, porém, a clareza da apreciação de Braga, ante os acontecimentos por assim dizer jornalísticos, que impressiona. É sua clareza diante da vida em si, e das coisas naturais. Como espião da vida parecendo chateado, mas interessadíssimo -- anota os maravilhosos fenômenos da primavera e do verão, que passam despercebidos ao comum, e extrai deles o máximo proveito existencial. As artes da caça, da pesca e do amor, a observação constante do vento noroeste, o contato com praia e águas correntes, água corrente ele mesmo, a notícia de passarinhos, insetos, frutas, paisagens, a celebração quase litúrgica das graças e mistérios da mulher (para ser gentil, um dia ele me disse em carta que gostaria de me presentear com uma pequena fragata e quatro ou cinco mulheres), o dom de sentir, valorizar e distribuir a natureza como um bem de que andamos todos cada vez mais precisados -- esta a lição de Braga, "lição de insaciável liberdade e gosto de viver", que é grato proclamar no dia em que o admirável professor completa cinqüent'anos com a naturalidade, o gosto da vida e da terra, e o intenso sentimento poético e humano que tinha aos dezenove.

17 de janeiro de 1963


A Obra

A obra de Rubem Braga, escrita durante 62 anos de vida jornalística, não se resume aos livros que publicou. Neles, o “velho Braga” reuniu apenas uma pequena parcela das cerca de 15 mil crônicas que escreveu. Destinadas ao jornal, veículo de consumo imediato e de permanência efêmera, a maior parte de suas crônicas ainda está por ser reunida em livro.
Rubem Braga foi “o primeiro a elevar a crônica ao nível da mais alta categoria literária ”, como o colocaram Antonio Candido e José Aderaldo Castello. Poeta bissexto, Braga foi o primeiro escritor brasileiro a notabilizar-se única e exclusivamente através das crônicas. Seus poemas só foram reunidos em volume em 1980, quando já era um escritor consagrado. Nunca escreveu romances ou contos, e mesmo o livro “Melhores Contos de Rubem Braga” reúne exclusivamente crônicas.
Para chegarem a ser publicadas em livro, as crônicas de Rubem Braga passavam por um criterioso processo de escolha. Só aquelas que considerava realmente as melhores sobreviviam. Essas, por sua vez, eram novamente peneiradas e, melhores das melhores, eram republicadas nas antologias. Primeiro as 50 melhores, depois as 100 e finalmente as 200 Crônicas Escolhidas, livro que reúne, de fato, a parcela mais significativa de sua obra.
Seus livros publicados foram:

 O Conde e o Passarinho, 1936.
 O Morro do Isolamento, 1944.
 Com a FEB na Itália, 1945.
 Um Pé de Milho, 1948.
 Um Homem Rouco, 1949.
 50 Crônicas Escolhidas, 1951.
 Três Primitivos, 1954.
 A Borboleta Amarela, 1955.
 A Cidade e a Roça, 1957.
 100 Crônicas Escolhidas, 1958.
 Ai de Ti, Copacabana, 1960.
 A Traição das Elegantes, 1967.
 200 Crônicas Escolhidas, 1977.
 Livro de Versos, 1980.
 Recado de Primavera, 1984.
 Os Melhores Contos de Rubem Braga, 1985.
A Crônica
A crônica não é um gênero maior, já escreveu Antonio Candido. Graças a Deus, completa o crítico, porque sendo assim ela fica perto de nós. (...) Na sua despretensão, humaniza; e esta humanização lhe permite, como compensação sorrateira, recuperar com a outra mão uma certa profundidade de significado e um certo acabamento de forma, que de repente podem fazer dela uma inesperada embora discreta candidata à perfeição.
Fruto do jornal, onde aparece entre notícias efêmeras, a crônica é um gênero literário que se caracteriza por estar perto do dia-a-dia, seja nos temas, ligados à vida cotidiana, seja na linguagem despojada e coloquial do jornalismo. Mais do que isso, surge inesperadamente, como um instante de alívio para o leitor fatigado com a frieza da objetividade jornalística.
De extensão limitada, essa pausa se caracteriza exatamente por ir contra a tendências fundamentais do meio em que aparece, o jornal diário. Se a notícia deve ser sempre objetiva e impessoal, a crônica é subjetiva e pessoal. Se a linguagem jornalística deve ser precisa e enxuta, a crônica é impressionista e lírica. Se o jornalista deve ser metódico e claro, o cronista, segundo Décio de Almeida Prado, se tem em mente algum fim, algum objetivo -- o pressuposto é que não possua nenhum -- deve conduzir-nos a ele sem que percebamos, movido, aparentemente, pelo método menos metódico que existe: o do assunto puxa assunto.
Se o jornal é frio, na crônica estabelece-se uma atmosfera de intimidade entre o leitor e o cronista, que refere experiências pessoais ou expende juízos originais acerca dos fatos versados.
A crônica não é, portanto, apenas filha do jornal. Trata-se do antídoto que o próprio jornal produz. Só nele pode sobreviver, porque se nutre exatamente do caráter antiliterário do jornalismo diário.

A Importância de Rubem Braga

Em 1989, cerca de um ano antes de sua morte, Rubem Braga escreveu, em sua coluna da Revista Nacional, uma das mais ácidas descrições do ofício a que dedicou toda a vida, o de cronista: Respondo que a crônica não é literatura, e sim subproduto da literatura, e que a crônica está fora do propósito do jornal. A crônica é subliteratura que o cronista usa para desabafar perante os leitores. O cronista é um desajustado emocional que desabafa com os leitores, sem dar a eles oportunidade para que rebatam qualquer afirmativa publicada. A única informação que a crônica transmite é a de que o respectivo autor sofre de neurose profunda e precisa desoprimir-se. Tal informação, de cunho puramente pessoal, não interessa ao público, e portanto deve ser suprimida.
O que a auto-ironia corrosiva do "velho Braga" não deixa transparecer é a elevação de status que a sua própria obra propiciou à crônica no Brasil durante os últimos 60 anos. De subliteratura, passou a ser considerado um gênero literário respeitável e digno de estudo. E já era tempo. Afinal, a crônica vem sendo praticada assiduamente, no Brasil, por muitos dos nossos maiores escritores, desde que os jornais passaram a ser centros importantes da vida cultural e intelectual no país.
Em 1854, o então jornalista José de Alencar começa a escrever uma seção diária no Correio Mercantil, intitulada Ao Correr da Pena, em que comenta os mais variados assuntos da vida do Rio de Janeiro e do país. Esses textos leves de temática cotidiana, com pitadas de lirismo e, muitas vezes, humor, podem ser considerados os precursores da crônica moderna. Seguindo esta mesma linha, Machado de Assis contribuiu durante toda a sua carreira com crônicas para diversos jornais.A produção do Machado cronista se inicia já em 1859 e se estende até 1904, com raras interrupções. Sua produção mais madura e interessante foi publicada na colunas do jornal Gazeta de Notícias, em que contribui de 1881 a 1904: Balas de Estalo (1883-1885), Bons Dias! (1888-1889) e principalmente na célebre coluna A Semana (1892-1897).
No final do século XIX vários escritores se destacaram como cronistas. De fato era na produção de crônicas, muitas vezes diárias, que ficcionistas como Artur Azevedo, Coelho Neto e Medeiros de Albuquerque, ou poetas como Olavo Bilac - seguramente um dos nossos mais férteis cronistas, chegando a escrever, durante anos, mais de uma crônica diária para diferentes jornais - encontraram seu ganha-pão através da literatura.
No início do século, destacam-se as crônicas do jornalista João do Rio, hábil repórter, que descreviam com vivacidade as ruas agitadas do Rio de Janeiro na belle époque. Na São Paulo do início do Modernismo, Menotti del Picchia e Antônio de Alcântara Machado valeram-se de suas produções de cronistas para divulgar os ideais da Semana de Arte Moderna.
Rubem Braga, portanto, não inventou a crônica entre nós. Quando, em 1936, surge seu primeiro livro de crônicas, o gênero já tinha uma longa e fértil história nesse país. No entanto, na obra de todos os escritores citados acima, de José de Alencar a Antônio de Alcântara Machado, a produção de crônicas figura sempre como uma parcela de menor valor, como uma produção efêmera e secundária. Olavo Bilac, por exemplo, escreveu muito mais crônicas do que poemas em sua vida, mas é sempre lembrado como um poeta que se dedicou a um "gênero menor" apenas para se sustentar.
Já Rubem Braga, como bem o colocou José Paulo Paes, é um caso único de autor que entrou para nossa história literária exclusivamente pela sua obra de cronista. Com uma visão entre lírica e irônica da vida, e um estilo admiravelmente dúctil e pessoal, logrou ele, como ninguém, dar nobreza literária ao gênero .
Conferiu ele tanta nobreza ao gênero que este passou a ser tratado em condições quase iguais ao seu "irmão mais elevado", o conto. E foi além. Como o colocou Jorge de Sá, diluindo as fronteiras entre os gêneros crônica, conto e poema em prosa, Rubem Braga consagrou a crônica como um gênero literário ficcional que muitas vezes se confunde com o conto, diferenciando-se apenas na densidade do tratamento temático e na construção de personagens: se o conto se concentra na complexidade das relações e em jogos de linguagem mais elaborados, a crônica mantém sua aparência de conversa fiada estabelecida entre o cronista (ele mesmo narrador) e o leitor virtual.
A inclusão das -- segundo seu próprio autor, subliterárias -- crônicas de Braga em um coleção como a de Melhores Contos, da Editora Global, que inclui autores como Machado de Assis, Clarice Lispector, Eça de Queirós e Mário de Andrade, reforça essa idéia. As crônicas de Rubem Braga selecionadas pelo Prof. Davi Arrigucci Jr. transformaram-se, assim, num passe de mágica e de imprecisão terminológica, nos Melhores Contos de Rubem Braga. Mas não deixam de ser crônicas e nem por isso deixam de ser literatura da mais alta qualidade.
Os Melhores Contos De Rubem Braga (1985)
Este volume é uma antologia de crônicas de Rubem Braga selecionadas pelo professor Davi Arrigucci Jr.. Reúne 39 crônicas na seguinte ordem:
Síntese dos Enredos
1. Tuim criado no dedo - Menino, durante férias em cidade do interior, cria um tuim, o menor dos periquitos brasileiros, "no dedo", ou seja, o ensina a obedecer seus chamados e deixa-o viver livre, fora da gaiola. Quando a família retorna a São Paulo, o tuim foge e é aprisionado por outra família. Recuperando-o, o menino corta-lhe as asas. Mas, no instante seguinte, o tuim é devorado por um gato.

2. Diário de um subversivo - No "remoto ano de 1936", durante a perseguição getulista aos comunistas após a Intentona de 35, o narrador apresenta sua fuga da repressão, em forma de diário, do dia 15 de fevereiro ao dia 1o de março. Adotando pseudônimo, finge-se alienado em conversas com integralistas que vivem na pensão onde mora. Procurado pela polícia na pensão, é auxiliado por velho conhecido, Edgar, que o abriga em sua casa. Ao poucos vai se envolvendo com a mulher de Edgar, Alice. Afirma que se "tivesse qualquer coisa com essa mulher, seria o último dos canalhas." Termina a crônica afirmando laconicamente: "Sou."

3. A moça rica - Relincho de cavalo desperta em pescador humilde a memória de uma moça rica que viera do Rio. Usando calças, caçando e pescando, a moça de início o assusta, mas, em seguida, ao cantar, o encanta. Dois anos mais velha do que ele, pára um dia na praia solitária para conversar com o rapaz, que, assustado e ingênuo, esquiva-se de suas tentativas de aproximação e deixa escapar a chance de se envolver com a moça bonita e rica.

4. O jovem casal - Casal jovem espera o bonde. Lutam contra a miséria vivendo em uma pensão barata e suja. Vivem na feiúra de uma "vida estreita". Não podem pegar o ônibus por ser muito caro, sofrem de dores de cabeça e dentes, mas tratam-se com carinho e amor. Pára, à sua frente, um automóvel de luxo com um casal. A mulher diz, no momento em que o carro partia, que iria comprar um anel por quinze contos. O rapaz ouve isto como se fosse um soco em seu estômago mal alimentado. Com esse dinheiro, poderia pagar anos de pensão e aliviar o sofrimento de sua amada. Chega o bonde.

5. Negócio de menino - Diálogo entre um menino e o narrador, vendedor de passarinhos. O garoto vai intercalando perguntas sobre os pássaros e pausas até pedir ao narrador um passarinho de presente e depois sair correndo.

6. Coração de mãe - Marina e Dorinha são irmãs e moram com sua mãe, dona de pensão no bairro do Catete, no Rio de Janeiro. Loiras, de olhos azuis, vivem cantando. Certa noite, as moças chegam já de madrugada e "um pouco tontas". A mãe, dona Rosalina, briga com as filhas. No dia seguinte, ouve Marina ao telefone referindo-se a ela como "a velha" e as expulsa de casa. Na rua, o "cavalheirismo do bairro" se manifesta e as moças recebem várias propostas de ajuda dos "bondosos homens". Porém, são interrompidos pela mãe, que manda as filhas de volta para casa. Conclusão do narrador: não há nada no mundo como o coração de mãe.
7. Marinheiro na rua - De madrugada, na rua deserta, um "pequeno marinheiro" bate à porta de um edifício às escuras, observado do alto e à distância pelo narrador. O som da batida chega uma fração de segundo após o gesto, o que desperta no narrador uma recordação da infância e, depois, uma série de idéias, como a suspeita de que talvez o marinheiro fosse seu filho ou ele mesmo e dentro do prédio estivesse sua amada. A porta não abre e o marinheiro, cansado de bater, segue pela calçada até o narrador o perder de vista. O narrador olha, então, para a fachada do prédio e todas as luzes se acendem. O edifício fica maior e começa a se mover como um grande navio, partindo lentamente.

8. O homem da estação - Numa aldeia, na França, o narrador procura hospedagem para passar a noite. Ninguém lhe dá abrigo. Anda pelo campo e um homem de bicicleta pára e lhe pergunta se precisa de alguma coisa. Responde que não achou lugar para dormir e está indo para outra aldeia. O homem indica ao narrador onde fica a estação da estrada de ferro em que trabalha e informa que virá um trem em duas horas. Quando chega na estação, o homem lhe preparou uma cama e lhe oferece vinho. O narrador bebe "em silêncio à saúde de um homem que não teme nem despreza outro homem.
9. Falamos de carambolas - Narrador conta uma conversa com uma amiga (?) em um bar. Falam de sorvetes e frutas até que ele pergunta o que o médico disse. Ela responde vagamente que era uma síndrome e não iria se enganar. O narrador afirma que é pessimismo dela. Ela nega, hesita, mas não pronuncia o nome da doença, para alívio do narrador. Mudam de assunto e, enquanto conversam, o narrador pensa que é insuportável saber que ela morreria. Ela critica o seu bigode e ele pergunta por que ela não toma conta dele. Ela "ri uma risada... clara, alegre, ... como o cristal..., que se parte tão fácil."
10. Era uma noite de luar - O narrador conta sobre uma noite, na época da repressão do Estado Novo, em que foi levar notícias à Marina, mulher de Alberto, um militante comunista preso. Descreve as precauções que tinha que tomar e a conversa com Marina, que está sem dinheiro, solitária, triste e cansada de se esconder. Durante a conversa, o narrador abre uma banda da janela para jogar o cigarro e comenta que o luar está bonito. Ela se aproxima da janela e ele abre a outra banda. Então ela fecha a janela com brutalidade, chama-o de estúpido, pois "está sozinha desde a prisão do marido", manda-o embora, atira-se na cama e começa a chorar.

11. Viúva na praia - Narrador conta que viu a viúva na praia com o filho e deitou-se na areia para contemplá-la. Conhecera vagamente o marido dela no café da esquina, onde soube que ele ficara muito tempo doente antes de morrer. Descreve a beleza da mulher e pensa que, se fosse ele o marido, ficaria ressentido ao saber que, poucos dias depois da sua morte, um estranho estaria olhando o corpo de sua mulher, mesmo que discretamente. Mas ele é o outro homem, está vivo, e sente-se, por isso, superior. Descreve a viúva depois de um mergulho e conclui que o sol ama a viúva.

12. A navegação da casa - O narrador é um senhor, brasileiro, que saiu do hotel e está numa casa antiga, em Paris. É abril, início da primavera. Seus amigos fazem uma festa. O narrador sente-se alegre e diz que a casa parece uma velha fragata tripulada por bêbados. Quando a festa termina, anda sozinho pela casa, imaginando os invernos difíceis que os antigos moradores lá passaram. No dia seguinte está muito frio. Os amigos chegam e ele acende todas as lareiras. As luzes são apagadas e o narrador - diante do fogo - imagina que lá estão também os fantasmas dos antigos amigos. Lembra de um sagüi - presente para a sua noiva, que ele, por distração, deixara morrer de frio em Belo Horizonte, assim como "matamos, por distração, muitas ternuras". Por fim, pensa em meninos, "em um menino".

13. Aula de inglês - Crítica ao famoso "método Berlitz", de ensino de línguas através de perguntas e respostas. A professora pergunta em inglês, ao aluno (o narrador), se determinado objeto é um elefante. Após uma cuidadosa análise, ele responde que não. Pergunta, então, se é um livro; prontamente o narrador responde que não. Pergunta se é um handkerchief (lenço), palavra que o aluno não conhece, mas acha antipática e responde que não. À última pergunta, se é um cinzeiro (ash-tray), o aluno responde que sim. A reação eufórica da professora faz o narrador sair satisfeito da sua primeira aula. Pensa em comprar um cachimbo inglês e, se encontrasse o embaixador britânico, imagina "entabular uma longa conversação", em que diria que o cachimbo não é um "ash-tray".

14. Caçada de paca - O narrador conta que uma conversa sobre paca o levou a abandonar a rede, onde descansava, embaixo da mangueira e sair à noite para caçar paca, acompanhado por Anti. Depois de muito andar na noite escura, subindo e descendo morro, pensam que viram uma paca, atiram e matam um cachorro. Discutem se havia paca mesmo, mas na verdade estavam bêbados. Chegam de madrugada e as mulheres ainda riem deles. Para o narrador, Deus fez o domingo, o brasileiro armou a rede e o Diabo inventou a paca.

15. A partilha - Dois irmãos se separam e o narrador transcreve o que um deles, o mais velho, diz, enquanto fazem a partilha dos objetos da casa. Ele deseja ficar com a rede, o retrato da mãe e, principalmente, o canivete do irmão mais novo. Enquanto argumenta, as características de cada um vão sendo descritas, do ponto de vista do mais velho, que sabe pescar e lidar com o canivete, além de fazer os consertos da casa. O mais novo ganha mais dinheiro, escreve cartas e tem namorada. Através do monólogo, nota-se que o mais novo ameaça o irmão com o canivete e este lhe dá o conselho de nunca puxar canivete para outro homem, pois é arma de menino. É melhor dar um tiro com garrucha. Diz que se o matasse naquele momento estaria matando um inimigo, não seria como ele "que levantou a arma contra um irmão". Pega o canivete, reclama que o irmão não presta nem para limpá-lo, mas é bom para outras coisas e despede-se.

16. Noite de chuva - Homem está em casa em noite de temporal, após um dia difícil. Antes de dormir, pensa que há muitos anos adia consertar as coisas, dos dentes a um caso sentimental. Começa a dormir quando Joaquina Maria, "negra velha" que lavava as suas roupas, bate na porta e pede ajuda para tirar o corpo do neto dos escombros do barraco, que fora derrubado pelo temporal. Nada está funcionando na cidade. Deixa a velha na entrada da casa, tenta parar uns carros, bebe uma bagaceira e conta a história num botequim , sentindo que era ridículo o que fazia. Volta para casa pensando que de nada ia adiantar se conseguisse telefonar, pois não conseguiria assistência com aquela chuva. Encontra a velha chorando e diz secamente que arrumou tudo "para amanhã de manhã". Ela vai embora, com um ar desamparado.
17. Os perseguidos - Durante a repressão do Estado Novo, o narrador, acompanhado de Moreira, que ficara um mês preso e fora torturado, chegam ao apartamento indicado. O narrador "tem pena e desgosto" de Moreira, que está sujo e mal vestido. Uma empregada de uniforme os atende, pede que entrem e se sentem. É uma sala luxuosa com uma janela imensa com vista para o mar, que surpreende o narrador: o mar dos ricos é mais amplo, puro e azul do que o mar dos pobres, visto lá embaixo. O narrador inspira o ar salgado e limpo e tem a impressão de que aquele ar não é dele e ele nem o merece, já que o ar dos pobres é quente e parado, com poeira e fumaça.
18. A mulher que ia navegar - Mulher é observada pelo narrador, enquanto se desenrola, numa roda de intelectuais, conversa sobre pintura. Além da mulher e do narrador, participam da roda o marido dela, “todo bovino”, um pintor, uma senhora, um físico e uma outra senhora desquitada. A mulher, junto à janela, está atenta às mudança de cor em seu braço, provocadas por um anúncio luminoso de um edifício em frente. Quando o marido refere-se a certo pintor com uma palavra vulgar, a mulher o olha com "menos zanga do que tédio" e o narrador sente que ela se preparava para enganá-lo, como "um belo barco prestes a se fazer ao mar". Ela procura e escolhe o físico para ser o “ piloto de longo, longo curso” com quem vai navegar.
19. Força de vontade - Narrador conhece comerciante em hotel em Foz do Iguaçu. Ele não tem vícios, é solteiro e mora em São Paulo, com os pais. Durante a conversa, o comerciante comenta que está realizando o último dos seus três ideais: visitar pelo menos um país estrangeiro. Outro ideal, já cumprido, era ter um diploma. Depois do jantar, o narrador cumprimenta o comerciante por ter realizado seu ideal “em duplicata”, afinal visitara dois países, Argentina e Paraguai. O comerciante afirma que provou a sua força de vontade e que, para isso, passara por muitas dificuldades. Mais tarde, o narrador o convida para um passeio de carro, ele recusa e fica no saguão do hotel. Quando o narrador volta para buscar a sua lanterna, o comerciante está com um ar “vazio como quem não tivesse coisa alguma a fazer na vida e acabasse de descobrir isto”.
20. O espanhol que morreu - Em um bar no bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, o amigo do narrador é confundido com um espanhol, já falecido, que freqüentava o lugar, era amigo de todos e amado de Sueli. As mulheres, Sueli e Betty, dizem que são idênticos, com a mesma cara triste e jeito de falar. O amigo do narrador se aborrece, diz que “não é espanhol, não trabalha no comércio e nem sequer está morto”. As mulheres contam casos do Espanhol e como foi o seu enterro. O garçom pergunta se ele é irmão do Espanhol. Quando saem, algumas mulheres acompanham os amigos até a escada e o narrador diz ao amigo que aquela despedida era o enterro dele. O amigo, bêbado, sai andando na chuva, falando espanhol e some. O narrador o procura, mas não o encontra e conclui que “na verdade ele é o Espanhol, e morreu”.
21. O rei secreto de França - Em Paris, na primavera, o narrador tem um encontro marcado com uma mulher. Enquanto espera chegar a hora, visita o túmulo de Maria Antonieta e conversa, distraído, com o guarda do lugar. Está ansioso e pensa que se sentia o rei secreto da França porque a “mais fina e bela mulher da França” viria ao seu encontro. Corre ao casarão, local do encontro, toma mais dois conhaques. A mulher chega e diz que aquele seria uma despedida, pois partiria para “remotas suécias”. Ao sair, vai telefonar, enquanto ele entrega a chave do apartamento 14 à velha “concierge”e paga em dobro. A velha diz para ele nunca perder uma mulher como aquela. A mulher sai da cabine, ele beija a sua mão, ela entra no táxi chorando e o narrador a descreve como “a futura Rainha da Suécia, das distantes suécias e noruegas do nunca mais.”

22. Visita de uma senhora - O narrador atende a porta e entra uma moça bonita. Segue-se um diálogo em que o narrador responde “claro” às três primeiras perguntas. A mulher afirma que ele não a conhece, que mora no bairro, é casada, já tinha visto o narrador na praia e pergunta se ele só sabe dizer “claro”. Diz que há muito tempo lia o que o narrador escrevia, e que uma vez ele escreveu algo como se conhecesse todos os segredos dela. Depois pergunta se ele é homem mesmo, chama-o de cínico e afirma ser uma pena ele ser tão velho Então o narrador pergunta o que ela deseja, ela responde que “que gosta muito do marido” e de repente começa a chorar. O narrador sugere que ela vá embora. Ela retoca a pintura, despede-se e vai “embora para nunca mais”.

23. Praga de menino - O narrador conta que, quando menino, ele e seus amigos jogavam bola na rua, em frente à casa das irmãs Teixeiras. Elas eram “suas inimigas” porque brigavam com eles devido ao barulho que faziam e o receio de que quebrassem alguma das inúmeras janelas da casa. Um garoto trouxe uma bola maior e colorida e um dia essa bola quebrou uma vidraça. Uma das irmãs, depois de brigar com eles, cortou a bola com um canivete. Os garotos se vingaram entrando na casa delas quando não havia ninguém, fizeram uma grande bagunça e roubaram um anel sem valor, uma lata de goiabada, uma faca de cozinha e um martelo. Ninguém descobriu quem foi. Os meninos nunca mais jogaram bola diante da casa das Teixeiras e deixaram de cumprimentar aquela que havia cortado a bola. O narrador não sabe se ela foi feliz, mas “se foi, é porque praga de menino não tem força.”

24. Um braço de mulher - Em um vôo Rio de Janeiro-São Paulo, o narrador ocupa-se em acalmar uma senhora sentada ao seu lado, aflita porque o avião, sobrevoando São Paulo, demora a descer. Quando sugere trocar de lugar com a amiga da senhora, ela diz que prefere ter um homem ao seu lado. Ele sente-se útil e responsável. A senhora se acalma e o narrador começa a pensar que realmente estava demorando muito para pousar. Tem a idéia de que a morte deveria ser assim: um nevoeiro imenso... para sempre”. No entanto, a senhora volta a se preocupar e o narrador de repente repara que ela tem um braço “belo, harmonioso e musculado”. Então sente-se despertar, e a idéia da morte, antes agradável, agora é “uma coisa sem a delicadeza e o calor, a força macia de um braço ou de uma coxa...” No aeroporto, o marido da senhora agradece formalmente ao narrador, que se sente um intruso, como se tivesse traído aquele senhor. A senhora lhe dá um pequeno sorriso, “vagamente cúmplice”. O narrador diz que certamente não a verá mais, mas vai demorar para esquecer de seu belo braço que, “durante um instante, foi a própria imagem da vida”.

25. Conto de Natal - Despedidos da fazenda em que trabalhavam, casal de colonos com filho de seis anos caminha em direção à Fazenda Boa Vista, a duas léguas e meia do lugar em que se encontram. A mulher está grávida de oito meses. Começa a chover, ela não pode mais andar. Conseguem carona num carro de bois e chegam à noite na fazenda, que está fechada. Alojam-se junto a um burro e a uma vaca num lugar coberto. Durante a noite, o menino nasce. O carreiro chega e lembra que é Natal. O marido, Faustino, sugere à mulher que chamem o recém-nascido de Jesus Cristo. A mulher não acha graça. O menino de seis anos chama o pai para ver o irmão, embrulhado em trapos em cima do capim. O pai olha. A criança está morta.


 
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