Entrar
Sem conta? Criar Conta!

Não Encontrou? Pesquise Aqui!

Pesquisa personalizada
Principal seta Resumos de Livros seta Resumos P seta Patativa do Assaré: Uma voz do Nordeste
Patativa do Assaré: Uma voz do Nordeste Imprimir E-mail
Escrito por Lemuel Araújo   
Índice de Artigos
Patativa do Assaré: Uma voz do Nordeste
Página 2
Patativa do Assaré: 
Uma voz do Nordeste
Sylvie Debs*

O que faz a força e o sabor da poesia de Patativa do Assaré é, sem dúvida, o vínculo indestrutível entre o poeta, o sertão e o público.

Patativa do Assaré, cujo verdadeiro nome é Antônio Gonçalves da Silva, nascido no dia 5 
de março de 1909 na Serra de Santana, pequena propriedade rural da prefeitura de Assaré, ao sul do estado do Ceará, inclui-se na linhagem dos cantadores sertanejos de quem ele mantém a tradição. Oriundo de um meio muito modesto, descobre a literatura através dos folhetos de cordel e dos cantadores, repentistas e violeiros do Nordeste. Casado, pai de nove filhos, dedicou sua vida aos trabalhos dos campos de Assaré. 

Segundo filho de um agricultor pobre da região do Cariri, havendo perdido muito jovem a visão em um dos olhos em conseqüência de uma doença, órfão de pai aos oito anos, Antônio Gonçalves da Silva é, naturalmente, conduzido a ajudar sua mãe e sua família participando dos trabalhos nos campos, meio de subsistência tradicional para os habitantes dessa região.

 Escolarizado durante seis meses quando tinha doze anos, ele reconhece que seu mestre, 
embora extremamente atencioso e generoso, era precariamente letrado e não sabia ensinar a pontuação. É assim que ele aprende a ler sem ponto nem vírgula, como se o ritmo das palavras fosse dado unicamente pela voz. Esta estranha aprendizagem, em realidade, é apenas a expressão profunda da oralidade que caracteriza a cultura popular e a tradição dos poetas-repórteres. 

Como a maior distração do jovem Antônio era ler ou escutar seu irmão mais velho e ler os 
folhetos da literatura de cordel, ele descobriu muito cedo sua vocação poética e iniciou, ao 
contato desta literatura, a composição de versos: “De treze a quatorze anos comecei a fazer versinhos que serviam de graça para os serranos, pois os sentidos de tais versos eram o 
seguinte: brincadeiras de noite de São João, testamento do Judá, ataque aos preguiçosos que deixavam o mato estragar os plantios da roça, etc.”
 
Aos dezesseis anos, adquire uma viola de dez cordas e decide fazer improvisações segundo a tradição sertaneja dos violeiros, tratando de todos os assuntos. Põe-se a cantar por prazer, na esperança de ser convidado para as festas: comemoração de santos, casamentos e participou 
assim da vida local: “A poesia sempre foi e ainda está sendo a maior distração da minha vida. 
O meu fraco é fazer verso e recitar para os admiradores, porém, nunca escrevo meus versos. 
Eu os componho na roça, ao manejar a ferramenta agrícola e os guardo na memória, por 
mais extenso que seja”, confessa ele. 
Assim, se ele continuou a entregar-se às improvisações pelo prazer, a poesia que ele cria 
está intimamente ligada ao ritmo do trabalho quotidiano, acompanhando os gestos dos 
trabalhos do campo e composta mentalmente ao longo dos anos, demonstrando 
impressionante capacidade de memorização.

No dia 23 de março de 1995, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso rendeu uma 
homenagem pública ao poeta popular, cego, conferindo-lhe a medalha “José de Alencar” 
quando de sua passagem a Fortaleza (Ceará) para a celebração de seu octogésimo 
sexto aniversário. 
Nessa ocasião foi lançado o disco Patativa do Assaré: 85 anos de poesia. 

..... A justaposição deliberada de alguns elementos de uma sucinta biografia põe em perspectiva a denominação de “Mestre da poesia popular” conferida pelo ensaísta e cineasta Rosemberg Cariry, que largamente contribuiu para a divulgação de sua obra. Assim, através da evocação do itinerário pessoal do poeta e da análise de seus textos mais representativos, propomo-nos a apresentar as características essenciais da poesia popular, examinada aqui em uma dimensão mais larga, aquela da cultura popular nordestina. 

Um poeta itinerante

Aos vinte anos, na ocasião de uma visita ao vilarejo de um primo materno, este último, 
encantado pelas improvisações de Antônio, pediu autorização à sua mãe para que lhe 
permitisse seguir com ele para o estado do Pará. 
Nesta ocasião ele conheceu o escritor cearense José Carvalho de Brito, que lhe consagrou um capítulo em seu livro intitulado O Matuto cearense e o Caboclo do Pará. Além disto, este publica os primeiros textos de Antônio Gonçalves da Silva em O Correio do Ceará para o qual ele colaborava. 

Estes textos foram acompanhados de um comentário nos quais José Carvalho de Brito comparava a poesia espontânea de Antônio Gonçalves da Silva à pureza do canto da patativa, pássaro do Nordeste. 
Foi assim que nasceu o pseudônimo de Patativa e para distingui-lo de outros improvisadores, acrescia o topônimo de sua vila natal: Assaré. 

Em Belém continuou suas improvisações em companhia de outros poetas como Francisco 
Chapa, Antônio Merêncio e Rufino Galvão. Ao termo de cinco meses, não resistindo 
mais aos ataques de saudades, ele decidiu tornar a viver no Ceará.

A consagração oficial

De volta a Assaré, retomou os trabalhos do campo aos quais dedicou o resto de sua vida. 
Havendo sido notado pelo latinista José Arraes de Alencar, é convidado a publicar seus 
textos, Patativa do Assaré argumentou que não era mais do que um pobre agricultor e que não dispunha, portanto, de meios de publicar sua obra. 
José Arraes de Alencar lhe propõe uma solução: ele se encarregaria das negociações com 
o editor Borçoi no Rio de Janeiro e Patativa do Assaré lhe reembolsaria os custos da 
impressão com o produto da venda dos livros. 
É assim que surge a sua primeira compilação Inspiração nordestina, em 1956. 
O sucesso da antologia lhe permitiu uma segunda edição em 1966, enriquecida de novos 
textos: Cantos de Patativa. Nesta ocasião, ele passou quatro meses no Rio de Janeiro; 
entretanto a venda de seus livros se deu essencialmente no Ceará.

A divulgação da obra

Em 1970, o professor José de Figueiredo Filho publicou uma nova coletânea de poemas acompanhada de seus comentários: O Patativa do Assaré
Em 1978, a partir da iniciativa do professor Plácido Cidade Nuvens, foi publicada 
pela Editora Vozes a compilação Cante lá que eu canto cá, considerada até hoje como 
a compilação da maturidade. 
Em 1988, surge uma nova antologia de textos de Patativa do Assaré, intitulada 
Ispinho e Fulô sob a direção de Rosemberg Cariry, que compreende uma seleção 
de textos publicados nos folhetos, jornais, revistas ou discos, produtos de numerosos 
recitais feitos pelo país. 

Mais recentemente, na ocasião de seu octogésimo sexto aniversário, a Secretaria de Cultura 
do Estado do Ceará publicou uma coletânea de textos em homenagem ao poeta 
(Aqui tem coisas) que salienta sua originalidade, sua ancoragem na oralidade, graças 
à prática da improvisação e à técnica de desafios poéticos. 

...... Assim, Patativa do Assaré, enquanto mestre da poesia oral, nunca tentou publicar 
um texto com seus próprios meios, mas foi sempre publicado pelos admiradores de sua obra. 
Da mesma forma, ele continua a ser solicitado tanto pelos amadores quanto pelos especialistas 
da cultura popular, não somente brasileiros mas também estrangeiros, que se interessam 
ao mesmo tempo pelo processo de criação e de transmissão desta tradição nordestina.



UMA APROXIMAÇÃO DA POESIA POPULAR 

A denominação “poesia popular” foi muitas vezes associada a um certo número de 
representações negativas que a situam no lado da literatura menor por oposição à Literatura. 
As conotações mais correntes que lhe são conferidas são aquelas das simplicidade dos temas abordados e das idéias tratadas, facilidade de versificação e banalidade das rimas, ingenuidade 
dos sentimentos expressos, falta de originalidade e de criatividade, pobreza de vocabulário, 
riqueza estilística limitada, simbólica indigente. 

.....o povo é capaz de se exprimir espontaneamente: “A poesia natural e puramente natural possui ingenuidade e graça, por onde ela se compara à principal beleza da poesia perfeita segundo a arte......[ Montaigne] 

No contexto nordestino, é preciso recordar que a poesia popular inscreve-se na tradição 
oral desta região do interior: um de seus principais agentes, o cantador, proveniente do meio 
rural, em geral analfabeto, improvisa ou narra, graças à sua memória prodigiosa, “a história 
dos homens famosos da região, os acontecimentos maiores, as aventuras de caçadas e de 
derrubas de touros, enfrentando os adversários nos desafios que duram horas e noites inteiras, numa exibição assombrosa de imaginação, brilho e singularidade na cultura tradicional”. 

A versificação utilizada, em geral a sextilha hexassilábica ou a décima heptassilábica de 
rimas contínuas, parece mais ser a expressão de uma técnica de memorização do que a 
expressão de uma forma poética erudita, a serviço da transmissão de um “saber simbólico: 
ciência, cultura popular, tradição”. Daí, a escansão dos poemas propriamente é muitas vezes surpreendente pela sua falta de preocupação expressiva: “Nenhuma preocupação de desenho melódico, de música bonita. Monotonia. Pobreza. Ingenuidade. Primitivismo. Uniformidade… 
Não se guarda a música de colcheias, martelos e ligeiras. A única obrigação é respeitar o ritmo do verso”. A declamação se atém ao essencial: a narrativa dos acontecimentos. 

Sem dúvida, conviria debruçar-se mais adiante sobre as temáticas abordadas para 
aperceber-se de que, sob esta aparente ingenuidade, esconde-se uma profunda experiência 
da vida quotidiana que confere uma dimensão simbólica determinante à sua obra...... “o que 
nos toca do nosso folclore não é ele ser a obra “de quem não sabe”, mas, ao contrário, 
nascer do sofrimento e da alegria, da malícia e do coração daqueles que sabem muito bem. 
Eles sabem o que é ter fome ou dor de amor, ir à guerra quando não se queria ou trabalhar 
com a última das forças. E estes encontram muito precisamente, ao longo do tempo, 
palavras insubstituíveis para manifestar sua dor ou sua felicidade, para embalar suas 
mágoas ou exprimir sua cólera”.

Restituindo-se a obra de Patativa de Assaré ao contexto sertanejo, considerando a 
influência das tradições dos trovadores, dos repentistas, dos violeiros e da literatura de 
cordel, é forçoso reconhecer na voz do poeta popular o eco dos sofrimentos, das alegrias 
e das desgraças da população nordestina do sertão: “Poesia telúrica, colhida da terra, dos 
roçados como se estivesse apanhando feijão, arroz, algodão, ou quebrando milho e 
arrancando batata e mandioca. 

Sua inspiração não é fruto de estudos. Ela germina dentro de si como a semente nas 
entranhas da terra”. Testemunha um modo de vida, elabora uma identidade. Por isto, ele é apresentado como o “verdadeiro, autêntico e legítimo intérprete do sertão”. 

Com efeito, uma das dimensões mais marcantes da obra de Patativa do Assaré é a 
preocupação de descrever a vida quotidiana do sertão e, através deste testemunho, protestar 
o reconhecimento da dignidade, da integridade e da modéstia do camponês sertanejo por 
oposição à arrogância do cidadão urbano ou do brasileiro do sul. 

Parece que a afirmação de sua própria identidade passa mais freqüentemente pelo confronto 
com o outro, como chama atenção o título da compilação: Cante lá que eu canto cá. 
Esta última, composta a partir de uma seleção de textos feita pelo próprio autor com a 
intenção de definir suas preferências literárias. 


Apresentação da obra
Patativa do Assaré, um poeta da oralidade 


Na condição de herdeiro da tradição nordestina, os primeiros esboços da obra de Patativa 
do Assaré, improvisações e encomendas, conforme ressaltamos, são marcados pelo aspecto 
lúdico e comemorativo: poemas de circunstância, ligados aos acontecimentos sociais, 
religiosos, em relação direta com o presente, únicos e efêmeros: festas de Santos, 
casamentos, aniversários. 
Poesia improvisada a partir de um esboço tradicional, poesia repetitiva por suas formas 
e temas, personalizada em função de seu destinatário. Poesia declamada ou cantada, ela 
participa plenamente da vida da comunidade: “age falando, cantando, representando, dançando 
no meio do povo, nos terreiros das fazendas, nos pátios das igrejas nas noites de 
“novena”, nas festas tradicionais do ciclo do gado, nos bailes do fim das safras de açúcar, 
nas salinas festas dos “padroeiros”, potirum, ajudas, bebidas nos barracões amazônicos, 
espera de “Missa do Galo”; ao ar livre............. Convém ressaltar que Patativa do Assaré entregando-se sempre a este gênero de improvisações, uma parte importante da obra não 
foi nem será, nunca portanto, transcrita. 
......Assim, os primeiros versos de Coisas do meu sertão são transcritos conforme seguem: 

“Seu dotô que é da cidade 
por “Senhor Doutor que é da cidade 

Tem diproma e posição
Tem diploma e posição 

E estudou derne minino 
E estudou desde menino 

Sem perdê uma lição”
Sem perder uma lição” 

.....a linguagem cabocla - o linguajar da rude gente sertaneja é tão crivado de erros, de 
mutilações e acréscimos, de permutas e transposições, que os vocábulos, com freqüência, se desfiguram completamente, sendo imprescindível um elucidário para o leitor não habituado 
a essas formas bárbaras e, ao mesmo tempo, refeitas de típico e singular sabor”. 
Essas marcas da oralidade confirmam a origem rural do poeta e reforçam o caráter sertanejo 
do universo descrito. 
O registro de língua utilizado, a alteração das palavras, o vocabulário regional conferem 
a estes textos todo o sabor e originalidade da língua do interior das terras, do sertão. 

Último elemento essencial a ser observado.... Não havendo jamais escrito texto algum 
e dotado de uma notável capacidade de memorização (é capaz de recitar qualquer uma de 
suas composições, qualquer que seja a sua Antigüidade), e a pratica da improvisação em 
todas as circunstâncias: “A agilidade do improviso, o inesgotável repertório de situações, 
as respostas instantâneas às sugestões recebidas acentuam o repentista à capela (…). 

Métrica, ritmo e rima fluem com a naturalidade com que enuncia seu canto. 
O que ele diz é transcrito para o papel, mas continua fiel aos códigos da transmissão oral”. 
É freqüente que o poeta, após haver perguntado o nome e algumas informações sobre as 
pessoas que vêm vê-lo, improvise um pequeno poema no qual traça um retrato de seu 
visitante, apesar de sua cegueira. Muito atento durante as discussões, sua habilidade lhe 
permite apoderar-se da personalidade de seu interlocutor. 
A voz permanece para ele o instrumento privilegiado do conhecimento e da comunicação. 

… Uma leitura mais abrangente da obra descobre também a presença de personagens 
tradicionais do sertão: o vaqueiro, o caboclo, o roceiro, o caçador, o mendigo, sem esquecer 
os animais familiares como o cavalo, o boi e o cachorro. 
É preciso ressaltar, enfim, a grande variedade de personagens que habitam os poemas e 
que são nomeados de forma tradicional e popular, seja por referência ao pai (Zé Geraldo), 
à mãe (Zé de Ana), ou à atividade profissional (Ciça do Barro Cru). 

...... Quanto à estrutura mesma dos textos, eles estão muito próximos do modelo da fábula: 
conduz o leitor à abertura, narra, formulação da moral no desfecho. 


Raymond Cantel já havia, por sua vez, sublinhado largamente as intenções moralistas da 
literatura popular nordestina: “Os sentimentos tradicionais, a família e o amor do próximo 
são celebrados, mas trata-se, antes de tudo, de ensinar ao sertanejo, sempre distraindo-o, 
que se ele não souber resistir aos impulsos de seu temperamento, ele terá 
de suportar as conseqüências”. 
Patativa do Assaré explica a origem de certas composições por estas mesmas razões: 
melhor que punir um de seus netos desobedientes ou um menino da vizinhança que lhe havia enganado para melhor roubá-lo, ele optou por recorrer à poesia, com o duplo objetivo de 
expor publicamente aquele que cometeu uma falta (punição que ele julga mais eficaz do 
que um acerto de contas cara a cara) e ensinando-o, ao mesmo tempo, o perdão e a 
boa conduta. Esta atitude de sabedoria popular constitui um ensinamento moral prático 
que toma suas referências no quotidiano. 

É assim que Patativa do Assaré preenche sua função de educador tanto junto às crianças consideradas por ele como um elemento fundamental “A criança, para mim, é a maior 
riqueza do mundo”

Patativa do Assaré afirma sua solidariedade com a luta dos sertanejos pelo reconhecimento 
de seus direitos e com a reivindicação de uma reforma agrária que lhe permitiria ter um 
nível de vida mais digno: “A temática social que domina sua poesia está assentada em 
aspirações universais de justiça e igualdade, sem qualquer refinamento ideológico”. 

Agricultor, ele denuncia a morosidade dos políticos que jamais tentaram eliminar a seca, 
flagelo maior do Nordeste, que é a origem das constantes migrações de sertanejos: 
“A seca pertence ao império da natureza, mas pode ser resolvida pelo homem. 
Em países de clima igual ou pior que o nosso, o problema de abastecimento de água foi superado. 


 
< Anterior   Próximo >