Entrar
Sem conta? Criar Conta!

Não Encontrou? Pesquise Aqui!

Pesquisa personalizada
Principal seta Resumos de Livros seta Resumos P seta Pedagogia Empreendedora
Pedagogia Empreendedora Imprimir E-mail
Escrito por vanessa   

Este texto descreve o conteúdo e relata resultados da aplicação da metodologia

Pedagogia Empreendedorai para o ensino de empreendedorismo na Educação Básica,

vinculada a tecnologias de desenvolvimento social local sustentávelii. O presente artigo

alerta ainda para o risco de práticas educacionais nesse campo reproduzirem processos

que alimentam as diferenças sociais, discorre sobre a importância do capital social para o

afloramento do espírito empreendedor e para a ação empreendedora e aborda o

empreendedorismo sob a ótica da democracia, cooperação e rede, consideradas, ao lado

do empreendedorismo, como aminoácidos do desenvolvimentoiii. Após o teste-piloto em

2002, a Pedagogia Empreendedora foi contratada e aplicada em 93 municípios

brasileirosiv, atingindo um público composto por cerca de 9.000 professores, 240.000

alunos, com repercussões em uma população de 2,5 milhões de habitantes.

 

Palavras-chave: empreendedorismo, cultura, sonho individual e sonho coletivo, capital

social,desenvolvimento local, desenvolvimento humano e social, sustentabilidade,

crescimento econômico, miséria, renda, conhecimento, poder, políticas concentradoras

de renda, empreendedorismo coletivo.

 

Trabalho

  

Criação de um conceito

Considerado pela teoria econômica clássica como uma "força externa" (Drucker, 1987)

  

— figurando entre outros “imponderáveis” como clima, governo, política, pestilência,

guerras —, o empreendedor passou a ser considerado o principal ator do

desenvolvimento econômico depois que, na década de 1930, Joseph A. Schumpeter,

retomando o pensamento do precursor Jean-Baptiste Say (1767-1832), voltou o foco de

sua teoria para o tripé “empreendedor, inovação e crescimento econômico”.

A partir de então, foi desvelado um segredo que tem a idade da civilização:

a capacidade do ser humano de ser protagonista do próprio destino, de agir

intencionalmente para modificar sua relação com o outro e com a natureza e

de se recriar constantemente. Uma vez destampada a panela do tempo, o

estudo do empreendedor atraiu a atenção de especialistas de diversas áreas.

Não só economistas, mas também educadores, psicólogos, sociólogos,

administradores, pesquisadores das áreas de ciências exatas. Tal miscelânea

de bagagens teóricas — cada qual com seus paradigmas, metodologias,

padrões de análise, experiências, conteúdos — não poderia produzir senão

visões diferenciadas sobre o tema, o que explica a diversidade de definições,

visões, abordagens que contribuem para o seu enriquecimento. Esse novo

olhar sobre a capacidade empreendedora nos permitiu transportá-la do seu

berço original, a empresa — sem dele sair — para todas as atividades

humanas. E, ao mesmo tempo, nos levou a ver o empreendedor como uma

 
 

forma de ser e a identificar que o modo de ser define o empreendedor,

independentemente do campo em que atue. Por isso mesmo, qualifiquei o

empreendedorismo como “uma forma de ser” (DOLABELA, 2003),

defendendo a extrapolação da ação empreendedora para todas as atividades,

lucrativas ou não-lucrativas. A percepção de que a geração do espírito

empreendedor tem origem em valores, visão de mundo, práticas e relações sociais de

 

uma dada comunidade é, talvez, uma das mais significativas conquistas desse campo,

 

cujo transbordamento conceitual possibilitou a identificação

empreender que representa o ventre de todas as demais

empreendedorismo coletivo, que visa a geração do capital social.

de uma

manifeforma

stações:

de

o

Uma visão abrangente de empreendedorismo

 

Embora tenha abordado o tema depois de Richard Cantillon (1680-1734), Sayv é

considerado o precursor de Schumpeter e o pioneiro do empreendedorismo na história

econômica. Say fazia uma distinção entre empreendedores e capitalistas (...), associando

os empreendedores à inovação e vendo-os como agentes da mudança. (...) entretanto, foi

Schumpeter quem realmente lançou o campo do empreendedorismo, associando-o

claramente à inovação. (...) A essência do empreendedorismo está na percepção e no

aproveitamento das novas oportunidades no âmbito dos negócios, (Filion, 1999). .A.

Timmons, definiu o empreendedor como "alguém capaz de identificar, agarrar e

aproveitar oportunidades, buscando e gerenciando recursos para transformar a

oportunidade em negócio de sucesso" (Timmons, 1994).

O canadense Louis Jacques Filion, autor da teoria visionária sobre empreendedorismo,

ampliou o âmbito de ação do empreendedor ao perceber que “o empreendedor imagina,

desenvolve e realiza visões” (Filion, 1991a e b). Essas três concepções talvez possam

sintetizar as centenas que existem nesse campo de estudo pré-paradigmático em que

praticamente não há consensos estabelecidos. Mas, se existem divergências ou diferentes

formas de conceituar, todas têm em comum a preocupação de estudar alguém que cria

uma empresa ou gera riquezas materiais. Como já vimos, essa intencionalidade não

atende ao propósito da Pedagogia Empreendedora, que desvincula o conceito de

empreendedor de uma atividade específica e o relaciona a uma forma de ser — algo

ligado a estilo de vida, visão de mundo, protagonismo, inovação, capacidade de produzir

mudanças em si mesmo e no meio ambientevi, meios e formas de buscar a auto-

realização, incluindo padrões de reação diante de ambigüidades e incertezas.vii

 

A formulação do novo conceito

Utilizando o pensamento de Timmons e Say e ampliando a perspectiva apresentada pela

teoria visionária de Filion, proponho o seguinte conceito:

 

“É empreendedor, em qualquer área, alguém que sonha e busca transformar seu

sonho em realidade”.

 

O sonho a que refere o conceito é o sonho estruturante, assim chamado porque pode dar

origem e organização a um projeto de vida, articulando sinergicamente desejos, visão de

mundo. Tal concepção abrange todos os tipos de empreendedores — o que atua na

empresa, no governo, no terceiro setor, seja na posição de empregado, seja na de

dirigente, autônomo ou proprietário —, pois o toma como uma forma de ser,

independentemente da área em que possa atuar., valores, competências, preferências,

auto-estima. Sonho estruturante é o sonho que se sonha acordado, capaz de conduzir à

 
 

auto-realização. Ele responde à seguinte pergunta, formulada pelo senso comum: “Qual éo seu sonho na vida?”. É aquele desejo que faz brilhar os olhos quando se fala nele.

Qualquer pessoa, em qualquer condição, tem a capacidade de formular sonhos, porque

esse é um atributo da natureza humana. Sem qualquer alusão a diferentes classificações

propostas por outros campos de estudo e especificamente para efeito do desenvolvimento

conceitual, sonhos de outros tipos são vistos como “sonhos periféricos”viii ao âmbito da

Pedagogia Empreendedora, ou seja, sonhos que, isoladamente ou em conjunto, não têm o

potencial de fundamentar um projeto de vida ou de gerar auto-realização. Não obstante

a natureza variada dos sonhosix estruturantes, estes são os que podem passar pelo

processo “sonhar e tentar realizar”. E, embora se saiba que os sonhos que não

chegam a produzir energia (emoção) suficiente para levar o sonhador à ação não

sejam sonhos inertes, para a nossa teoria, o sonho só assume caráter estruturante

quando contém energia para impulsionar o indivíduo a tentar realizá-lo. Quando me

refiro a "energia", estou considerando o impulso que, disparado pela emoção, produz

mudanças que levam à concretização do sonho.2 Emocionar-se, portanto, é transportar-se

para um estado em que a forma de ver e sentir o mundo e perceber as próprias

capacidades se transformam em disposição para agir. Assim também o sonho, que, para

ser estruturante, deve provocar ação, que se configura como tentativa de realização, e ter

o potencial de provocar a auto-realização do indivíduo. Ao ser concebido, o sonho pode

não se referir a algo concreto ou se traduzir de imediato em projeto de ação. Em geral, o

sonho se manifesta em modos de relação sócio-afetiva: contribuir para a construção de

justiça social, para eliminar a pobreza, para disseminar conhecimentos...Agir para

conquistar sua independência, poder traçar o próprio destino, construir um futuro melhor

para a família, tornar-se respeitável e assim por diante. Esse tipo de abstração depende do

sonhador e do estágio em que se encontra. Uma criança de 6 anos, por exemplo, tenderá a

formular sonhos concretos: desejo tal brinquedo. Já no caso do adulto, para se tornar

concreto, o sonho deve se transformar em uma visão, um projeto de ação, uma idéia de

empreendimento. Nada do que envolve o sonho é estático ou permanente. A

representação da realidade feita pelo indivíduo e sua história de vida irão estimular tanto

os sonhos quanto as visões. Mas, enquanto os sonhos são fortemente induzidos pelo

sistema de valores, incluindo modelos e papéis sociais, a visão é instigada por situações,

circunstâncias, habilidades, competências, conhecimentos, comportamentos. Por essa

razão, a visão deve ser construída e reconstruída permanentemente, guardando

congruência com as mudanças experimentadas pelo modo de ser do indivíduo.x O sonho

estruturante pode ser transitório, porque influenciado e determinado pelas constantes

mutações do próprio ser. Tanto o sonhador quanto o sonho, portanto, são dinâmicos.

Enquanto dura (ou até ser substituído ou metamorfosear-se em outro), o sonho

estruturante dá significado à vida do indivíduo. Somente o próprio sonhador pode

distinguir entre sonhos estruturantes e periféricos. Ele faz isso ao avaliar a intensidade da

emoção que o sonho produz. Ou seja, um sonho estruturante tende a persistir e

autoprover-se da carga de emoção necessária à sua realização.xi Na tentativa de

realização do sonho, o indivíduo faz ajustes permanentes entre sua própria essência e sua

capacidade de realizar o sonho estruturante, entre o autoconhecimento e o potencial de

auto-realização que o sonho pode aportar — não é por outra razão que, ao mencionar o

fator “conceito de si”, Filion (1991 a e b) se refere à importância da auto-estima. Isso

quer dizer que, ao buscar laboriosamente a realização do sonho, o indivíduo faz, erra,

 
 

reavalia, transforma-se, transforma o próprio sonho e faz novamente, numa dinâmica

autocriativa que significa a contínua produção de si mesmo, por meio do constante

intercâmbio de componentes que caracteriza os seres vivos.xii Indivíduo e meio compõem

uma totalidade. Ao estabelecer uma relação de reciprocidade com o meio, o indivíduo é

autor de si mesmo, absorvendo de forma idiossincrásica as perturbações do ambiente,

que o obrigam a um permanente esforço de adaptação e readaptação para restabelecer o

equilíbrio. Isso sempre se repete no ciclo “sonhar e buscar a realização do sonho”, em

que o indivíduo dirige sua relação com o meio. O empreendedor faz a lapidação

constante da compatibilidade entre seu ego e a proposta de auto-realização representada

pelo sonho estruturante, assim como com o ambiente em que seus trabalhos se

processam.

 

Sonho coletivo: a inspiração de sonhos individuais

 

Uma comunidade que sonha, composta por indivíduos cujo sonho é realizar

 

o sonho da comunidade, é uma ameaça para os que tentam preservar a

estrutura de poder e impedir mudanças. Nesse sentido, sonhar é perigoso.

Fernando Dolabela (2003). Se o sonho é individual na sua concepção, é coletivo na

sua finalidade, uma vez que deve necessariamente oferecer (e não subtrair) valor para a

comunidade. Mesmo sendo individual na concepção, o sonho é fortemente influenciado

pelo etos da comunidade a que pertence o sonhador. Além do mais, na sua realização, o

sonho é também coletivo, porque fruto da cooperação de vários atores, recursos,

elementos.xiiiConsiderado sobre esse pano de fundo, o conceito de empreendedorismo de

que trata este texto propõe, no seu âmago, a intencionalidade da geração de melhoria na

qualidade de vida de uma coletividade, e não apenas de valores exclusivamente

individuais e econômicos. Nesse sentido, o que define o empreendedor — um ser a um

tempo autônomo e cooperante — é sua capacidade de identificar e aproveitar

oportunidades em seu campo de atuação, gerando valores para a comunidade sob a forma

de conhecimento, bem-estar, liberdade, saúde, democracia, riqueza material, riquezaespiritual etc. É por isso que a educação empreendedora deve explicitar uma vontade e

apoiar-se em racionalidades compatíveis com tal desiderato.

 

Mas como surgem os sonhos?

A natureza do sonho individual é fortemente determinada pelos valores da

cultura a que pertence o sonhador. Por que isso? Porque não se concebe um

sonho individual não referenciado ao sistema social do indivíduo.xiv

Impregnado pelos valores da sua cultura, cada indivíduo, por representar o

mundo de forma particular, pela especificidade de sua história pessoal, pelos

processos próprios de construção do eu e de relacionamento com os outros e

com o mundo, irá produzir sonhos diferenciados. Se o sonho é determinado

pela cultura e se nosso objetivo é tomar o processo educacional para eleger e

radicalizar valores éticos que não estiveram e ainda não estão presentes na

nossa sociedade — valores baseados no amor e na cooperação, pelos quais

as ações dos indivíduos devem sempre visar a comunidade, melhorando a

qualidade de vida, aumentando a liberdade, gerando e distribuindo renda,

riqueza, conhecimento e poder —, é consistente dizer que estamos diante de

uma proposta de mudança. Sendo a sociedade a fonte de geração de sonhos

 
 

individuais, ela traz em si a capacidade de formular e procurar realizar seus

próprios desejos, de configurar aspirações quanto ao seu futuro. O sonho

coletivo pode ser definido como a imagem que uma comunidade constrói de

si no futuro — imagem esta formada a partir da convergência das múltiplas

e diversas imagens dos seus integrantes e associada a um projeto específico

e viável de sua transformação em realidade por meio da dinamização dos

potenciais humanos, sociais e naturais da própria comunidade. Como fonte,

alimento e moldura dos sonhos individuais, o sonho coletivo é o ambiente sociocultural

que inspira os sonhos individuais, definindo as possibilidades de variações quanto à sua

natureza, ao grau de diversidade, à distribuição de poder, às potencialidades de geração e

acumulação de riquezas, à forma de usar os recursos naturais disponíveis. Sonhos

individuais e coletivos se imbricam. Fazem parte também do sonho coletivo as condições

concebidas e praticadas por uma sociedade para construir o mundo dos que vivem e dos

que viverão; a sua maneira de se organizar, estabelecendo critérios para as relações entre

as pessoas, promovendo a conversação para a construção da cooperação; a sua

capacidade de resolver conflitos de forma democrática, de liberar e acolher a emoção que

define o humano. Sonhos coletivos enriquecidos pela diversidade social em todas as suas

formas, pelas alternativas oferecidas de mobilização social para a solução dos próprios

problemas, pela abundância de opções tecnológicas provavelmente irão inspirar e criar

condições de maior humanidade e de uma rica multiplicidade de sonhos individuais.

Sonhos coletivos fundados na aceitação do outro, na liberdade, no processo de

negociação para o consenso no que diz respeito a decisões relativas à construção do

futuro provavelmente inspirarão o surgimento de empreendedores que terão como sonho

a realização do bem comum. Do mesmo modo, ensejarão sonhos individuais de

contribuição para a coletividade aquelas sociedades que construíram e desenvolveram

conhecimentos sobre si mesmas e sobre o mundo, que estimularam as manifestações

coletivas da emoção e do sonho, do humor e da aventura, das crenças e da esperança, e

que, ao cultuar o passado, preparam-se para a reinvenção do futuro, para a construção do

novo. Em contrapartida, comunidades que não geram auto-estima coletiva, que não

constroem valores compatíveis com suas raízes e adequados à sua própria evolução, que

não elegem o coletivo como objeto central da sua construção humana, social e

econômica, que confundem individualidade com individualismo, que perdem a

capacidade de se indignar diante de desigualdades gritantes de condições de renda,

conhecimento e poder, provavelmente continuarão a produzir em seus integrantes a

capacidade de construir sonhos voltados para a conquista e proteção de espaços e poderes

diferenciados e para a preservação de divisórias sociais que garantam as conquistas

individuaisxv. O sonho coletivo é a visão de futuro de uma comunidade. Representa a

vontade coletiva construída através da interação que respeita a legitimidade do outro, que

acolhe, dá coerência e unicidade às diversas vontades individuais. Sendo produto de

pacto comunitário, o sonho coletivo será capaz de provocar mudanças nos valores e

crenças, na capacidade de organização e nas práticas coletivas que caracterizam aquela

comunidade. Pode ocorrer que, em determinado momento, uma comunidade não tenha

formulado seu sonho coletivo. Pode acontecer que sonhos realizados no passado não

tenham sido repactuados, renovados, substituídos. Pode ser que obstáculos

intransponíveis na tentativa de realização do sonho coletivo se tenham cristalizado na

memória da comunidade, diminuindo sua auto-estima e conduzindo-a a um processo de

estagnação e desistência, que é igual a fracasso. Pode ser que, pelo vazio de

empreendedores, a comunidade não tenha se reinventado. Seja qual for a situação, será

 
 

tarefa de todos os seus integrantes construir o sonho coletivo. Porém, criar as condições

para a construção do sonho coletivo e para a busca de sua realização é trabalho para um

tipo especial de empreendedor: o empreendedor coletivo.

 

O empreendedor coletivo e desenvolvimento

Sob a ótica da Pedagogia Empreendedora, empreendedor coletivo é aquele que tem como

sonho promover o bem-estar da coletividade, a melhoria das condições de vida de todos.

Em outras palavras, chamo de empreendedor coletivo o indivíduo capaz de aumentar a

capacidade de conversação de uma comunidade, ampliando ou criando a conectividade

entre seus diversos setores, gerando o capital social, que é insumo básico do

desenvolvimento, e cujo trabalho consiste em criar as condições para que a comunidade

desenvolva sua capacidade de sonhar. Não cabe aqui desenvolver o conceito e a ação do

empreendedor coletivo, em virtude dos objetivos do presente trabalho. Obviamente, não

se nega a existência de sonhos construídos em uma comunidade hierarquizada, com forte

concentração de poder, conhecimento e renda. Contudo, estes só podem representar o

sonho de uma parte de seus membros (o grupo dominante), cujo desejo é manter e

melhorar as próprias posições previamente conquistadas. Isso equivale a dizer que, em

ambientes nos quais é alta a concentração de poder, dificilmente será construído um bom

estoque de capital social. Sociedades com estruturas fortemente centralizadas terão

dificuldades de desenvolver sua capacidade de conversação, que conduz à percepção de

que os indivíduos, unidos e com certo grau de autonomia, serão capazes de promover seu

próprio desenvolvimento e regular os seus conflitos de forma não-autoritária. Assim, a

tarefa de construção de sonhos autenticamente coletivos implica muitas vezes o

redesenho dos processos relacionais que delineiam o etos comunitário, para que sejam

reconhecidas a capacidade e a legitimidade da associação e da organização de todos em

torno do objetivo de resolver os problemas da comunidade e construir seu futuro. Ao

fazerem isso, os membros da comunidade estarão gerando o que se chama de capital

social. O sonho coletivo se realiza, então, através do capital social existente na

comunidade, cuja construção também é tarefa do empreendedor coletivo. Na sua

formulação substantiva, qualquer sonho coletivo deve (pois essa é a intencionalidade

ética do conceito) perseguir a construção permanente do que pode ser chamado de

desenvolvimentoxvi da comunidade.

Essa concepção implica, desde logo, o pressuposto da inclusão social — ou acesso das

massas marginalizadas à cidadania — e a constatação de que o crescimento econômico,

embora necessário, não é suficiente se não for sustentável e não se orientar para uma

distribuição equitativa de seus frutos, compreendendo a riqueza produzida, mas também

conhecimento e poder (entendido como capacidade e possibilidade de influir nas decisões

públicas). Assim sendo, tudo indica que o desenvolvimento está relacionado a outros

tipos de capital — humano, social, empresarial e natural —, além daquele vinculado a

renda, bens e serviços. Devido ao âmbito do presente texto, cabe-nos esclarecer somente

 

o que entendo sobre capital social.

Capital social

O capital social pode ser entendido como a capacidade dos membros de uma comunidade

se associar e organizar em torno da solução de seus problemas e da construção de sua

prosperidade social e econômica. Como vimos, ele é o elemento formador do sonho

coletivo e supõe cooperação, pois, existindo esta, o bem coletivo poderá ser colocado

acima das divergências causadas por vontades individuais conflitantes.

 
 

Pedagogia Empreendedora: o trabalho de véspera indispensável ao desenvolvimento

Tendo sido concebida com base em um novo conceito de desenvolvimento social que se

faça de forma integrada, sustentável e includente —, a Pedagogia Empreendedora toma a

construção do sonho coletivo como a primeira etapa no caminho do protagonismo

comunitário na definição do seu futuro. Assim, por tratar da formação de capital humano

e social, a implementação da Pedago gia Empreendedora é um trabalho de véspera à

aplicação de tecnologias de desenvolvimento.

 

Escola como referência de comunidade

Tendo como estratégia de implementação a utilização da rede de ensino já existente,

pública ou privada, a Pedagogia Empreendedora toma a escola como uma das referências

de comunidade, considerando-a um lócus de aprendizado da capacidade de construção do

futuro. Nesse sentido, a escola é o próprio futuro. Na Pedagogia Empreendedora, a

comunidade participa ativamente como educadora e como educanda. Ela é a fonte e o

destino da educação. Para a construção do coletivo, porém, a educação deve reconhecer e

preparar individualidades capazes de, dialeticamente, "refazer" a realidade que não mais

atende aos interesses da coletividade. Por isso, é imprescindível que o educando

desenvolva uma relação com a realidade que seja questionadora e reflexiva. A Pedagogia

Empreendedora é um ambiente para a construção conjunta do conhecimento, e não para

sua transferência linear; um ambiente de preparação para a vida, e não de formação para

um emprego, uma ocupação funcional. Condições favoráveis para o educando

desenvolver o sentimento de competência e fortalecer a auto-estima advêm da sua

imersão em um sistema de aprendizagem que tenha como eixo as relações que ele

estabelece consigo mesmo e com o mundo, possibilitando uma formação significativa,

que leva em conta suas bagagens existencial, cognitiva, afetiva, social. Ao se reconhecer

fortalecido em sua individualidade e perceber que, pela construção e realização do seu

sonho, poderá simultaneamente protagonizar ações para o desenvolvimento da

comunidade à que pertence, o indivíduo se constitui como ser autônomo capaz de

cooperar e liberar sua força criadora.

 

Raízes culturais -fatores condicionadores da metodologia

 

A concepção da agenda de desenvolvimento de um país afeta o papel que se espera do

empreendedor, assim como os de todos os demais atores da sociedade. Daí a importância

de levar em conta que, no Brasil, a educação empreendedora deve incluir

necessariamente o aumento da capacidade de gerar capital social e capital humano. Se

não for assim, continuaremos a negar a participação de grandes camadas da população no

processo de gerar renda e usufruir as riquezas. Essa é uma das razões que inviabilizam a

importação de experiências de países que atingiram patamares de distribuição de renda,

bem-estar social, democracia, geração de capital humano e social superiores aos nossos e,

conseqüentemente, construíram uma percepção de empreendedorismo e de prioridades

sociais que não se aplicam a nós. Estágios sociais diferentes sugerem propostas

específicas de ação empreendedora, que, por sua vez, requerem estratégias educacionais

próprias. O nosso tecido cultural, rico e criativo pela sua diversidade, injusto por sua

história, livre e alegre por sua visão de mundo, fornece os fundamentos que dão vida à

Pedagogia Empreendedora e à proposta de sua aplicação na educação básica.

 

Outros condicionantes

 
 

Mesmo sendo tema fora do âmbito analítico deste texto, não se pode deixar de mencionar

 

o chão em que está plantada a Educação Básica brasileira, ameaçada por tentativas

históricas de esterilização ideológica e política, pela ausência de construção cidadãxvii e

democrática, pela distância da comunidade e desvalorização do mestre. Some-se a isto, a

inconsciência da importância de temas que constituem a essência da formação

empreendedora: o estudo das oportunidades e o desenvolvimento do conceito de si e da

capacidade de formular e realizar sonhos.

Construção ética

Por se autodefinir como uma pedagogia voltada para o desenvolvimento, a presente

estratégia pedagógica vincula os resultados do sonho individual à geração de valores

humanos e sociais (e não só econômicos) para a comunidade. Em outras palavras, o

empreendedorismo que nos interessa é aquele capaz de gerar e distribuir renda,

conhecimento, poder e riqueza. Assim sendo, o sonho deve promover a cidadania, a

cooperação, a democracia, a humanidade, enfim. A melhoria das condições de vida da

comunidade deve ser o alvo dos resultados do sonho individual.

 

O sonho individual deve submeter-se ao sonho coletivo, constituindo elemento de

construção e consolidação de valores éticos da comunidade.

 

Descrição da metodologia

A Pedagogia Empreendedora não se propõe a ser uma metodologia educacional de uso

amplo. Restrita ao campo do empreendedorismo, conviverá com as diretrizes

fundamentais de ensino básico adotadas no ambiente de sua aplicação. A estratégia

didática irá materializar-se pela apresentação de duas propostas de ação aos alunos: a

formulação do sonho e a busca de sua realização. Tomadas como uma unidade

indissociável, as duas ações compõem o eixo do auto-aprendizado e acompanharão o

aluno a partir dos quatro anos de idade, a cada série, ao longo dos catorze anos da

educação básica, de tal forma que a tarefa pedagógica consistirá em movimentar o ciclo

“sonhar e buscar realizar o sonho” a cada ano letivo. O programa curricular será iniciado

com a pergunta: "Qual é o seu sonho e como buscará realizá-lo?". Ao fim do ano letivo, o

período de trabalho será encerrado com a apresentação individual dos alunos: "Aqui está

a descrição do que fiz para formular meu sonho e o caminho e o esforço que desenvolvi

buscando realizá-lo".

 

A linguagem da Pedagogia Empreendedora

A Pedagogia Empreendedora utiliza uma linguagem simples, clara na comunicação de

seus conteúdos e que se apóia em duas ferramentas auxiliares no processo de construção

de conhecimento pelo próprio aluno: a) As perguntas, que são formuladas em torno da

matriz: qual é o seu sonho e como você vai realizá-lo? e os elementos de suporte

mencionados por Filion (1991a e b)xviii, que preparam o aluno para sonhar e buscar a

realização do sonho e que constituem o sistema de atividades usado pelo empreendedor

para realizar o seu trabalho. A Pedagogia Empreendedora é uma estratégia destinada a

dotar o indivíduo de graus crescentes de liberdade para fazer sua escolha. A criança, ao

formular seu sonho e tentar transformá-lo em realidade, assumirá o controle de todo o

processo e suas conseqüências, analisando a viabilidade do sonho e sua capacidade de

gerar auto-realização. Ela assume o controle e a responsabilidade, em graus compatíveis

com seu grau de maturidade, por meio de exercícios que a acompanham da pré-escola ao

nível médio.

 
 

O ciclo do aprendizado empreendedor pode ser descrito da seguinte forma: Primeiro

momento: O indivíduo desenvolve um sonho, projeta a imagem de um futuro onde deseja

chegar ou estar ou ser. Segundo momento: Ele busca realizar o sonho e, para isso,

identifica e aprende o que for necessário para realizá-lo. A natureza da relação entre os

dois momentos irá determinar o nascimento e a intensidade do caráter empreendedor. Ela

produz a necessidade do saber em suas várias formas: saber conhecer, saber fazer, saber

ser e saber conviver. Esse conhecimento a que chamo "saber empreendedor" (e que Carl

Rogers batizou de “aprendizagem significativa”), será adquirido em contexto de

realização de desejos e, portanto, de prazer. A caminhada em direção ao sonho — ou

busca constante de realização do sonho — é a fonte de geração e manutenção do nível

emocional que dá ao indivíduo a capacidade de persistir, de continuar apesar dos erros e

das dificuldades. A habilidade de tentar, de aprender com os erros e, portanto, de evoluir,

constitui a própria construção do saber empreendedor.

 

A busca de realização do sonho xix

A dinâmica pedagógica é dada pela ação que integra os dois momentos do ciclo de

aprendizado do empreendedor: o sonho e a busca de sua realização. Ao envolver-se na

tarefa de realização do sonho, o indivíduo estará ponderando a adequação entre o sonho,

tudo o que o cerca e o seu próprio eu. Para isso, buscará, de forma auto-suficiente,

aprofundar conhecimentos sobre si mesmo e sobre o ambiente do sonho, aumentando sua

consciência sobre o mundo e os outros. Como o sonho, o eu e o ambiente sofrem

mudanças e se alteram permanentemente; desse modo, a construção do conhecimento é

dinâmica, o que lhe empresta força pedagógica. Imaginar um sonho pode ser tarefa

bastante simples. Mas adequá-lo ao “sistema ecológico de vida” do indivíduo (Filion &

Dolabela, 2000) exige algumas habilidades. E buscar realizá-lo conduz a conquistas

crescentes que dizem respeito a um maior entendimento do mundo. Essa dinâmica nos

diz que a formulação e a busca de realização do sonho é um processo sem fim, dado que

deve absorver e contemplar as mudanças ocorridas na vida do sonhador e no ambiente do

sonho. Assim, forma-se um movimento em espiral ascendente, no qual todas as partes

mantêm relações de causa e efeito. A conexão entre sonhar e buscar realizar o sonho é a

essência do processo. Nada mais importante do que ela, porque irá redefinir os dois

elementos: de um lado, o sonho (em constante mutação); de outro, habilidades,

competências e recursos para realizá-lo (em constante evolução). Nada é estático,

portanto. Nesse processo, o agente habitua-se a lidar com situações caracterizadas pela

incerteza — indefinição e imprevisibilidade são elementos constitutivos do ambiente

empreendedor — e também com a criatividade, que leva à inovação e permite caminhar

com mais objetividade rumo à realização do sonho. O autor do sonho estará sempre

diante da pergunta: “Qual é o próximo passo?”. E sabe que ele, somente ele, poderá dar a

resposta que levará à ação. Em suma: o processo pedagógico vai se dedicar

principalmente à conexão entre o sonho e sua realização, pois esta, em suas várias

formas, contém o elemento dinâmico que irá construir permanentemente o sonhar e o

realizar, alterando-os de acordo com o aprendizado feito na tentativa de estabelecer a

ligação entre as duas instâncias.

 

Material didático

O material didático colocado à disposição de professores e alunos

compreende o livro Pedagogia Empreendedora, para os professores, contendo os

princípios teóricos e metodológicos; os livros A ponte mágica, (alunos de 10 a 15 anos) e

O segredo de Luísa, (para os alunos a partir de 16 anos) ambos romances didáticos que

 
 

oferecem também ao professor uma leitura privilegiada, em que poderá se inspirar para

conceber viagens pedagógicas inovadoras; Mapa dos Sonhos, para os alunos, que se

constitui no livro de trabalho do aluno de todas as séries. Nele o aluno irá formular os

seus sonhos, as suas propostas empreendedoras e descrever os caminhos para a sua

realização; Cadernos, para os professores, obra composta por 14 volumes, um para cada

série da educação Básica, contendo trabalhos para o desenvo lvimento dos sistemas de

suporte mencionados por Filion.

 

Elementos da metodologia

A metodologia, nos seus principais elementos:

  

• utiliza o professor da própria instituição, que conhece a cultura da casa, dos alunos e

do meio ambiente onde cada unidade está inserida;

• dinamiza conhecimentos já dominados pelo professor;

• é voltada para a prática, sendo de fácil implementação

• não se trata de uma receita, um passo a passo: a metodologia é recriada pelo professor

na sua aplicação, respeitando a cultura da comunidade, dos alunos, da instituição, do

próprio professor;

• possui material didático específico e inédito, construído inteiramente para a realidade

brasileira

• agente de mudança cultural;

• permite a rápida disseminação da cultura empreendedora, sendo concebida para ser

aplicada em larga escala, com alta dispersão geográfica;

• não cria a necessidade de formação de "especialistas"; não gera dependência da escola

a consultores externos;

• integra professores de áreas diferentes;

• baixíssimo custo: não duplica meios e esforços;

• a comunidade participa intensamente, como educadora e educanda;

• considera a escola como umas das referências de comunidade;

• é geradora de capital humano e social;

• apóia-se na geração do sonho coletivo, na construção do futuro pela comunidade;

• tem como alvo a construção de um empreendedorismo capaz de gerar e

(principalmente) distribuir, renda conhecimento e poder.

A metodologia de disseminação

Não se trata de uma estratégia pedagógica destinada exclusivamente a preparar os

alunos para criar uma empresa. A metodologia, concebendo o empreendedorismo como

uma forma de ser, mais do que uma forma de fazer, irá desenvolver o potencial dos

alunos para serem empreendedores em qualquer atividade que escolherem: empregados

do governo, do terceiro setor, de grandes empresas, pesquisadores, artistas, etc.. E

também, evidentemente, para serem proprietários de uma empresa, se esta for a sua

escolha. Cabe ao aluno, e somente a ele, fazer opções profissionais e decidir que tipo de

empreendedor irá ser. Com uma abordagem acentuadamente humanista, a metodologia

elege como tema central não o enriquecimento pessoal, mas a preparação do indivíduo

para participar ativamente da construção do desenvolvimento social, através da

cooperação, cidadania e da geração e (principalmente) da distribuição de renda,

conhecimento e poder, com vistas à melhoria de vida da população e eliminação da

exclusão social.

A disseminação da Pedagogia é feita através de seminários oferecidos aos educadores,

nos quais eles conhecem a proposta e se preparam para oferece-la aos alunos em sala de

 
 

aula. A implementação é feita de baixo para cima, ou seja, nunca é um processo imposto.

Cabe em última análise ao professor de sala de aula, e não à direção, decidir se irá ou não

adotar a proposta. Não poderia ser de outra forma, já que a proposta da Pedagogia

Empreendedora é essencialmente democrática e, por não tratar-se de conteúdo cognitivo

tradicional, exige que o professor esteja autenticamente motivado e convencido da

adequação e efetividade da proposta metodológica. Por outro lado, experiências na

educação, de implementação compulsória, têm demonstrado alta taxa de rejeição. Os

aspectos políticos não são menosprezados na implementação, já que não se trata de um

tema de conteúdo exclusivamente técnico.

 

Teste piloto

Para o teste piloto, em 2002, foram escolhidas localidades e situações que oferecessem

experiência diferenciada em termos de cultura, extrato social, contexto econômico. Os

testes foram feitos no município de Japonvar, MG (6 escolas) Belo Horizonte, (8

escolas), Santa Rita do Sapucaí (MG) (todas as escolas das redes públicas municipal,

estadual e particular, Guarapuava-PR, (todas as escolas da rede pública municipal), Três

Passos-RS, (todas as escolas da rede pública municipal) e São José dos Campos-SP,

(todas as escolas da rede pública municipal.

 

Os resultados da aplicação das metodologias de ensino e disseminação. Números

Experiência inédita tanto em termos brasileiros como mundiais, a partir de setembro de

2003 a Pedagogia Empreendedora foi implementada em 86 cidades do Paraná,

(selecionadas entre aquelas de IDH abaixo de 0,800), integrando um grande projeto de

desenvolvimento local realizado pelo Sebrae-PR.

Até agora a Pedagogia empreendedora foi implementada em 93 cidades, envolvendo

cerca de 8.400 professores e 224.000 alunos, com repercussão em uma população de 2,5

milhões de habitantes.

 

Conclusões

Os resultados apresentados pela aplicação da metodologia Pedagogia são

extraordinários e apontam para uma potencial revolução na educação básica do país. A