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Quarup - Antônio Callado (2) Imprimir E-mail
Escrito por SOS Estudante.com   
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Quarup - Antônio Callado (2)
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Ramiro desvia a expedição e chega à tribo onde o suiá dissera haver uma mulher branca. Mas todo seu entusiasmo acaba quando vê à sua frente uma mulher albina, de olhos descoloridos, pele transparente. Não era Sônia.
Fontoura adoece de malária. Seu fígado, ruim de tanta cachaça, ainda tem que aguentar mais bebida.
Depois de muitas dificuldades, chegam , finalmente , ao Centro Geográfico do país. Fontoura está quase morrendo, mas insiste em erguer o padrão, o marco do coração do Brasil:
"Quando chegaram ao pé do padrão, Fontoura pôs os joelhos no chão e leu:
• Centro Geográfico do Brasil, latitude dez graus e vinte minutos sul, longitude cinqüenta e três graus e doze minutos a oeste de Greenwich.
Fontoura caiu de cara no chão, as mãos para frente, o ouvido colado à terra enquanto inquietos bandos de formiga lhe cobriam os dedos e o pescoço.
• Nando! — gritou Francisca — Levanta, Fontoura, levanta!
• Ponha o seu ouvido na terra — disse Fontoura.
• Para quê? Levanta!
• Mas na impossibilidade de erguer Fontoura, Francisca se curvou, deitou o rosto sobre as formigas enlouquecidas, sentiu viva e feroz a terra de Levindo.
• Está ouvindo? — disse Fontoura.
• O quê?
• O coração.
• Estou ouvindo — disse Francisca — Agora, levante, Fontoura.
• Você ouviu bem?
• Ouvi, ouvi, agora vamos.
Escutar o coração do país, o coração do país.
Mas o coração do país está corroído pelas "saúvas", metáfora usada também por Lima Barreto ( em Triste Fim de Policarpo Quaresma) e Mário de Andrade ( em Macunaíma). Metáfora perigosa sobre o idealismo, representado por Fontoura, e a corrupção e a dissipação de objetivos ( representada por Ramiro).
ParteV — A Palavra
Este capítulo inicia-se quando Nando, em Pernambuco, assiste a uma aula de Francisca. Sente-se emocionado vendo o trabalho dela, ensinando o que para eles sequer existia: palavras, daí o nome do capítulo. Ela alfabetiza os camponeses no Movimento Cultura Popular; com a ajuda de um slide, projetando as sílabas na parede:
"Vários camponeses leram juntos:
• Eu.
Outro slide e disseram:
- Re...
• Pensem em classe e clamor — disse Francisca enquanto colocava o slide com o pronome e o verbo.
• Eu re — disse um camponês.
• Eu remo! — disse outro.
• Eu sei professora, eu sei Dona Francisca. EU RECLAMO! "
Francisca instiga a imaginação deles:
"- Reclamar vocês todos sabem o que é — disse Francisca.
Os camponeses riram.
• Só que precisam reclamar cada vez mais. Reclamar tudo a que vocês têm direito. Direito também vocês sabem o que é. Direito que todo homem tem de comer, de ganhar dinheiro pelo trabalho que faz, de votar em quem quiser em dia de eleição.
• O voto é do povo — disse um camponês.
• O pão é do povo — disse outro.
• O pão dá vida e saúde ao povo — disse outro."
Nando se emociona ao vê-la assim, ensinando ao povo, ao seu povo.
Francisca ensina, ainda, o que é Declaração dos Direitos Humanos e o que é Constituição do Brasil. Assegura que em nenhum país a Constituição "tire o voto do povo, por exemplo, proibindo o voto de quem é pobre, ou preto, ou coisa assim. Não permite que exista o cambão, por exemplo,. Quem trabalha para um patrão tem direito a salário, em dinheiro do país. Assim é que os brasileiros têm seus direitos garantidos por uma...
-Constituição — disse um camponês."
Tinham voltado do Xingu; antes, haviam ficado um tempo no Rio, amando-se doidamente num quarto de hotel. Ao chegar no Recife, Nando se acomodara na casinha de praia que herdara dos pais.
Os dois eram, agora, apenas amigos. Com a chegada ao Recife e seu envolvimento com os camponeses, viera para ela as obrigações que Levindo lhe legara: servir o povo, estar ao lado dele. Quer casar com Francisca, mas isso esbarra na questão Levindo:
"- Você sabe do meu compromisso — disse Francisca- a outra pessoa de minha vida.
• Que outra pessoa?
• Pessoa? Não sei se é. Os mortos são o quê?
• Francisca! Pelo amor de Deus!
• Não consigo, Nando, não consigo. Não posso te amar aqui, onde ele viveu. E não, por favor! Não diga isso!
• O quê?
• Não proponha que a gente vá embora daqui. Levindo não pode morrer completamente, sabe? Eu tenho pensado, como eu penso nisto, nele, em você, em nós, nele e em mim, o tempo todo, o tempo todo. Já vasculhei tudo, tirei todas as pedras do lugar, me virei do avesso. Eu me chamei de fingida, de reles, tive vontade de cuspir na minha cara no espelho. Eu disse a mim mesma que se o Levindo estivesse vivo eu ia amar você também, tenho certeza. Então, por que fingir de viúva agora, e viúva só aqui, onde ele viveu? Viúva e desconsolada depois de tudo o que eu fiz com outros homens e de todo o amor que eu dei a você? Estou querendo enganar quem? Me apresentar assim a quem?"
Nando também se põe a trabalhar ao lado de Januário , o líder dos camponeses, de Otávio , de Padre Gonçalo e do governador ( Miguel Arraes). Januário tinha plano de conduzir os camponeses a uma rebelião contra os usineiros. Estamos em pleno governo de João Goulart.
Nando participa ativamente do trabalho junto às Ligas Camponesas e tem como amigos os camponeses, prostitutas, pescadores.
As lutas entre camponeses e usineiros se recrudescem. Manuel Tropeiro, homem lutador, é presença constante na casa de Nando. Ele conhecia bem os caminhos para possíveis fugas, era um homem consciente de que havia necessidade de luta armada.
Francisca continua sua missão de ensinar e fazer entender, a cada um dos camponeses, o valor social das criaturas da "massa".
O padre Hosana tinha sido libertado, depois que sofrera julgamento por matar D. Anselmo. Nando o encontra e fica sabendo que ele ganha a vida com o sítio, vivendo com a prima. Hosana ressalta que Nando, "a menina dos olhos de D. Anselmo" tinha desapontado o velho. Pede perdão a Nando. Hosana sente-se absolvido de tudo quando Nando o perdoa.
Januário mergulha na clandestinidade.
Há lutas entre camponeses e militares, desaba o mundo em Pernambuco.
É nesse capítulo que presenciaremos o Golpe Militar de 64. Entre os presos pelo regime, está Nando, que passa a ser torturado também, tomando choques, é preso numa câmara frigorífica. O tenente que o prende lá afirma que "russo não sente frio, está acostumado com a Sibéria."
Mas Nando é solto. Padre Gonçalo propõe uma fuga. Nando entende que vai sair do país, mas Gonçalo nega:
"- Vim buscá-lo, Nando. Vamos fugir.
O coração de Nando bateu apressado.
• Você conseguiu passaporte?
• Passaporte? Você não está pensando em sair daqui! Não me diga que está, Nando.
• Você é que me veio falar em fugir.
• Fugir para dentro da gente, Nando, não para a casa dos outros! Lá a gente só pode viver do lado de fora, feito um gravatá. Você, pelo menos, e eu, e mais uns poucos, não podemos tratar isto aqui como se fosse um acampamento. Todo mundo na beira d'água, apanhando sol na praia."
Nando revela, então, que Francisca partira para a Europa. Ele fica no país.
A palavra de Francisca cessara, mas os frutos teriam continuidade...
6. A Praia
Nando recolhe-se à casinha da praia. Passa a amar todas as mulheres: prostitutas, feias, abandonadas, as que querem se matar. Tenta convencer a todos que devem fazer também isso. É outro tempo, o de provas.
Amaro, um pescador, acredita nas teorias dele.
"É preciso deixar a virtude crescer como uma planta lenta e séria, pensou Nando. Aquela criatura linda e que tanto o atraía era uma queda. Mas durante a queda se descansa. Acumulam-se forças para uma nova escalada. Matando a curiosidade de Cristiana, matava um pouco as saudades de Francisca."
Manuel Tropeiro continuava preso ainda e "não era homem de ter medo de prisão nem de luta." Raimunda, a mulher que Manuel amava, o aguarda. Mas sonha coisas banais, uma casa e um quintal.
Os pais de Amaro, indignados, vão buscar o filho "perdido"por Nando. Eles têm medo das doutrinas do padre e do jeito abusado de viver que ele tem.
Lídia vem visitar Nando, fala que Ramiro foi outra vez em busca de Sônia, perdida para sempre nas florestas do interior do Brasil. E incita Nando a fazer algo para si mesmo. Nando confessa-se sem forças pra fugir, ou realizar coisas importantes. Está alheado do mundo. Lídia quer saber sobre Nando e Francisca:
"- Você , pelo menos, se encontrou mesmo? Ou continua perdido em Francisca?
• Achado é o que você quer dizer.
Lídia suspirou.
• Por falar em achados e perdidos, quem te mandou um grande abraço foi Ramiro. Sai novamente em busca de Sônia."
Nando colocara na cabeça um plano: fazer um jantar para Levindo, para a memória dele. Um grande jantar ao ar livre, com a participação de todos: estudantes, pescadores, camponeses, todos, indistintamente. Manuel Tropeiro estava livre, aproveitavam e comemoravam também.
"- Mas acho que agora posso vir com a tropa de jegues. Quando me soltaram lá no Batalhão o tenente me disse: "Tu não te mete mais noutra que não acontece nada. Mas cuida dos teus burros em vez de virar burro dos outros.". Os outros sendo Seu Otávio, Januário, o senhor mesmo. E aqui está o burro.
• Eu sei que vc não é homem de abandonar a luta — falou Nando — mas acho bom ir devagar, no começo."
E a preparação da casa de Nando para o jantar começa: transformou-a numa réplica da escola onde Francisca ensinava a palavra aos camponeses e deserdados. Mas só havia uma única palavra agora nos cartazes: LEVINDO, VIVA Levindo. E chegou o dia da comemoração. Gente de tudo o que era canto, lado, profissão. Todos para comemorar Levindo, símbolo da luta contra os poderosos.
No meio da festa, aparece a marcha dos "populares", invade a festa e começa uma luta que só termina com a intervenção da Polícia que, aliás, liderava a tal marcha.
Nando é espancado pelo sargento Xiquexique e o soldado Almeirim na areia da praia. Quase que o matam. Mas Cristiana e Margarida, prostitutas convidadas para a festa, seduzem os dois homens que nele batiam.
Manuel e Hosana levam Nando embora dali, Hosana vai hospedá-lo. Quase que os soldados mataram o ex-padre: quebrado, um olho perdido, aviltado fisicamente, Nando era uma espécie de massa disforme que custa muito a se ajeitar de novo na vida. Tinha consciência, o corpo miserável não correspondia a nada. Mas um dia:
"Nando abriu os olhos sob o maracujá alastrado de flores da paixão. Só com as dores maiores numa perna e num olho incandescente. O mais, era o peso do corpo contra a cama, uma medalha de sol na cara, uma grande compressa de sol no ventre, moedinhas de sol por toda a parte. A visão incerta de Nando abrangeu seu próprio corpo envolto em cobertor de algodãozinho escuro e lustroso de manchas amarelas. Reconheceu o leopardo que derrotara o espírito cravando as garras na terra. E sentiu fome. Não de nada. Fome.
Ao seu redor reconheceu os amigos. Cara a cara. Olhos úmidos, azuis de Cristiana, garços de Amaro, negros. Nando esboçou um sorriso, levantou um pouco a mão direita. Mal viu, porém, como todos se precipitavam para beijá-la e como todos choravam de alegria. Mergulhou no seu primeiro sono tranqüilo."
7. O mundo de Francisca
O sofrimento veio depois: dores, impossibilidades, a descoberta do olho perdido:
"Ah, então não tinha aberto os olhos mas um olho só? Nando levou a mão ao rosto, sentiu a venda no olho esquerdo, e uma dor ali. As palavras chegavam aos seus ouvidos direitinho, mas vazavam depois: o que era mesmo que tinham dito? "
Aos poucos se lembrava de tudo. Buscaram o médico que afirma que ficará bom da perna , mas que o olho está definitivamente perdido.
Hosana mostra o segredo do mosteiro para o ex-padre: pintura de cenas sacras agora convertidas em cenas profanas.
Nando decide que vai, com Manuel Tropeiro, participar das guerrilhas. Vai para o Araguaia.
Num domingo de Carnaval, em companhia de Manuel Tropeiro, vai até a casa da praia ver se há correspondência para ele. Há, e de Francisca. Mas um soldado aparece na escuridão: é Almeirim. Aparece outro soldado, mas com a ajuda de Manuel, acabam matando os homens da polícia.
Vão fugir, juntos.
Manuel traz os cavalos...
"Nando já a cavalo mal ouvia Manuel Tropeiro. Sentia que vinha vindo a grande visão. Sua deseducação estava completa. O ar da noite era um escuro éter. A sela do cavalo um alto pico. Da sela, Nando abrangia a Mata, o Agreste e sentia na cara o sopro do fim da terra saindo das furnas de rocha quente. E viu: aquele mundo todo com sua cana, suas gentes e seu gado era Francisca molhando os pés na praia e de cabelos ardendo no Sertào.
• Manuel — disse Nando — eu vou para ficar.
• Assim tenho pedido a Deus que seja a sua resolução.
Já em plena estrada, os cavalos marchadores deixando muito chão para trás. Manuel voltou a falar:
• Tinha carta de Dona Francisca?
• Tinha, Manuel. Mas não é mais preciso. Sabe o que é que eu descobri?
• Diga, seu Nando.
• Que Francisca é apenas o centro de Francisca.
Nando ia dizer mais alguma coisa, mas se calou. Se Manuel não tinha entendido, ia em breve entender por si mesmo. Andavam agora num meio galope, Nando relembrando coisas da vida inteira mas sem sentir nenhuma ligação com os pensamentos e sentimentos que tivera: como homem feito que encontra um dia numa gaveta cadernos de colégio. Estava descontínuo, leve, vivendo de minuto a minuto. Só tinha como sensação de continuidade o fio de ouro de Francisca, assim mesmo porque era um fio fiado com astúcia na trama do mundo a vir. Não vinha propriamente do passado. Bateu alegre no peito com a mão direita, sustentando as rédeas na esquerda.
• Boa essa roupa, Manuel!
Manuel Tropeiro falou com sua ironia sem malícia:
• Com seu perdão, seu Nando, a roupa preta não fez o senhor padre. Esse gibão de couro não vai fazer o senhor cangaceiro, não.
Nando riu:
• Não se assuste, Manuel. Eu agora viro qualquer coisa.
• Eu vou perfilhar o nome de Adolfo para me esconder nele, seu Nando. Não tem um som de gente forte? Adolfo?
• Você é que é mais forte e que vai fazer a força do nome. De qualquer nome.
• Sempre ouvi meu pai falar num tal de Adolfo Meia-Noite, cangaceiro importante — disse Manuel — E o seu nome qual vai ser? Já pensou?
• Já — disse Nando — Meu nome vai ser Levindo.
E Nando viu o fio fagulhar ligeiro entre as patas do cavalo como uma serpente de ouro em relva escura."
Quarup acaba aqui. Preste atenção a esse final, o que justifica também o título da obra: Nando assume, tal como no Quarup indígena, o lugar do herói Levindo. O jantar que ele preparou ela a tal festa que os índios preparam para saudar seus mortos. Foi o que ele fez. Com a participação de todas as "tribos"humanas, tal como no Xingu as tribos, unidas, participam da festa.
Vai, então, no Araguaia, continuar o trabalho de Levindo, fazer jus ao nome do herói. Transformado, é para lá que se dirige, porque lá também, como você sabe, está o coração pulsante do Brasil.

 
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