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Resumo com exercicios....
"Escrita
em 1937, a obra Sagarana foi submetida a um concurso literário (Prêmio
Graça Aranha, da Editora José Olympio) em que ficou em segundo lugar. O
autor usou o pseudônimo de Viator que, em latim, significa viandante. A
obra trazia quinhentas páginas. Com o tempo, foi reduzida para cerca de
trezentas e publicada em 1946."
Sagarana Guimarães Rosa
Escrita
em 1937, a obra Sagarana foi submetida a um concurso literário (Prêmio
Graça Aranha, da Editora José Olympio) em que ficou em segundo lugar. O
autor usou o pseudônimo de Viator que, em latim, significa viandante. A
obra trazia quinhentas páginas. Com o tempo, foi reduzida para cerca de
trezentas e publicada em 1946.
O título é um hibridismo (união
de dois radicais de línguas distintas): saga, de origem germânica,
significa "canto heróico" e rana, de origem indígena, quer dizer "à
maneira de" ou "espécie de".
As estórias desembocam sempre numa
alegoria, e o desenrolar dos fatos prende-se a um sentido ou "moral", à
maneira das fábulas. As epígrafes, que encabeçam cada conto, condensam
sugestivamente a narrativa e são tomadas da tradição mineira, dos
provérbios e cantigas do sertão.
A obra começa com uma epígrafe,
extraída de uma quadra de desafio, que sintetiza os elementos centrais
da obra - Minas Gerais, sertão, bois, vaqueiros e jagunços, o bem e o
mal:
"Lá em cima daquela serra, passa boi, passa boiada, passa gente ruim e boa, passa a minha namorada".
Sagarana compõe-se de nove contos:
1-O Burrinho Pedrês 2-A Volta do Marido Pródigo 3-Sarapalha 4-O Duelo 5-Minha gente 6-São Marcos 7-Corpo Fechado 8-Conversa de bois 9-A hora e vez de Augusto Matraga O Burrinho Pedrês (Sagarana) Guimarães Rosa Do Stockler Vestibulares* Sete-de-Ouros,
um burrinho já idoso, é escolhido para servir de montaria num
transporte de gado. Um dos vaqueiros, Silvino, está com ódio de Badu,
que anda namorando a moça de quem Silvino gosta. Corre o boato, entre
os vaqueiros, de que Silvino pretende vingar-se do rival. De fato,
Silvino atiça um touro e o faz investir contra Badu que, porém,
consegue dominá-lo. Os vaqueiros continuam murmurando que Silvino vai
matar Badu. A caminho de volta, este, bêbado, é o último a sair do bar
e tem de montar no burro. Anoitece e Silvino revela a seu irmão o plano
de morte. Contudo, na travessia do Córrego da Fome, que pela cheia
transformara-se em rio perigoso, vaqueiros e cavalos se afogam.
Salvam-se apenas Badu e Francolim, um montado e outro pendurado no rabo
do burrinho.
Sete-de-Ouros, burro velho e desacreditado,
personifica a cautela, a prudência e a muito mineira noção de que não
vale a pena lutar contra a correnteza, se o que se pretende é a
travessia. Sete-de-Ouros - no jogo de truco, de "manilha velha" é a
manilha mais baixa, após a espadilha, o sete-de-copas e o zape.
"Macho"
é mulo, mu, muar - o burrinho Sete-de-Ouros, protagonista da história.
"Carregado de algodão" simboliza o peso da vida, o trabalho do
burrinho, e metaforiza a carga dos homens, o peso do mundo, como fardos
de algodão. "Preguntei: p'ra donde ia?" - a forma arcaica do verbo
perguntar sugere a indagação permanente dos homens, sábios e filósofos:
para quê?, por quê?, de onde?, para onde?. "P'ra rodar o mutirão" alude
ao esforço coletivo, ao dever de solidariedade que o burrinho cumprirá
na sua hora e na sua vez.
Nos contos, novelas e romance de
Guimarães Rosa, há sempre um momento crucial, uma "hora e vez", uma
"travessia", ápice da existência, resumo de seu sentido: "...a estória
de um burrinho, como a história de um homem grande, é bem dada no
resumo de um só dia de sua vida."
Em Sagarana renasce o anônimo
"contador de estórias", o homem-coletivo que se enraíza nos rapsodos
gregos e nas canções de gesta medievais. Desde o início do conto (Era
um burrinho pedrês...) esboça-se claramente a atitude ingênua e
espontânea da "palavra lúdica", que não aprisiona o falar nos limites
rígidos do individualismo, mas se identifica com a palavra anônima e
coletiva.
Seja pela fórmula lingüística caracterizadora da
narrativa elementar, da fábula, da lenda (Era um burrinho...), tempo e
modo verbais que, de imediato, tiram à narrativa o caráter de coisa
datada, para projetarem na esfera intemporal do universo de ficção;
seja pela mescla de precisão e imprecisão documental no registro do
espaço (vindo de Passa-Tempo, Conceição do Serro, ou não sei onde no
sertão); seja pela dimensão antropomórfica (forma humana) que é dada à
personagem central, o "burrinho-gente", e que situa a narrativa na
fronteira entre o real e o mágico; seja pela funcionalidade das
cantigas inseridas no fluxo narrativo, tudo isso e muito mais nos
revela, no universo da palavra rosiana, a presença do "homo ludens"
(homem lúdico), descompromissado com as estruturas convencionais do
pensamento lógico. A Volta do Marido Pródigo (Sagarana) Guimarães Rosa Do Stockler Vestibulares* Lalino,
um mulato muito vivo, ajudante numa construção de estrada, não gosta do
trabalho. Abandona sua mulher e o meio rural para procurar na capital a
felicidade com que sonha: bonitas mulheres à vontade, iguais às que
vira em revistas. Depois de algum tempo, cansa-se e fica com saudades:
volta. Mas sua mulher, Maria Rita, agora vive com outro. Lalino quer
ganhar de volta a consideração do povo e a mulher. Oferece-se uma
oportunidade: cooperar como cabo eleitoral do Major, com vistas a
ganhar as eleições próximas. Graças a uma série de artimanhas que, no
primeiro momento, parecem ser desastrosas para a política do Major, mas
que na verdade são intrigas muito hábeis contra o adversário político,
Lalino garante o sucesso eleitoral do patrão. Reconcilia-se com a
mulher, Maria Rita, que nunca o deixara de amar. A narrativa
aproxima-se das novelas picarescas e é um retrato bem-humorado das
oscilações interesseiras das convicções políticas do interior.
Novamente
temos um burrinho, animal que, como os bois e cavalos, é presença
obrigatória nos contos de Sagarana, que a crítica define como um
verdadeiro "tratado de bovinologia". Esses animais são humanizados e
alegorizam a própria condição humana. Sarapalha (Sagarana) Guimarães Rosa Do Stockler Vestibulares* Primo
Ribeiro e primo Argemiro, ambos estão com malária, são os únicos
habitantes do vau de Sarapalha, lugar dizimado pela epidemia e
abandonado pelos demais moradores. Sujeitos a periódicos ataques de
febre, cada vez mais sérios, esperam a morte. Saudosamente, evocam a
lembrança da bela Luísa, mulher de primo Ribeiro que, ao manifestar-se
a malária, tinha-o abandonado por causa de outro. Argemiro, que deseja
morrer de consciência tranqüila, confessa ao primo que a sua mudança
para a casa de Ribeiro foi motivada pela atração que sentia por Luísa.
Ribeiro reage amargamente e se mostra implacável: manda Argemiro embora
na hora em que começa a agonia.
A seguinte epígrafe, como em
todos os contos de Sagarana, condensa o significado do texto em
questão: "Coitado de quem namora!". Argemiro, maleitoso e agonizante, é
expulso por ter se apaixonado pela mulher de seu primo. A linguagem do
conto acompanha o clima de desgraça e doença, os momentos de tremedeira
e desvario dos dois maleitosos, compondo um quadro profundo e sensível
da psicologia dos vencidos pela desolação, dos efeitos morais e sociais
da maleita.
Em suas andanças, como médico, pelo sertão de Minas,
Guimarães Rosa aprofundou seu contato com o homem primitivo, quase
pré-histórico das Gerais, enquanto ia estudando idiomas: francês,
inglês, italiano, espanhol, russo, húngaro, grego, latim... Da fusão da
oralidade, da fala com a pesquisa do idioma, nasce a linguagem de Rosa
- linguagem do sertão e do mundo. O Duelo (Sagarana) Guimarães Rosa Do Stockler Vestibulares* O
capiau Turíbio Todo testemunha a traição de sua mulher com o ex-militar
Cassiano Gomes, e faz planos de vingança. Todavia, a bala destinada a
matar Cassiano (de costas) não acerta o adúltero, mas sim seu irmão,
inocente. Cassiano põe-se a perseguir Turíbio para vingar o assassínio
do irmão. Turíbio refugia-se no sertão, acossado por Cassiano. Durante
meses trava-se uma luta aferrada, em que cada um é ao mesmo tempo
perseguidor e perseguido. Algumas vezes os duelistas se desencontram
por um fio. Cassiano cai gravemente doente, mas antes de morrer, ajuda
com generosidade um capiau que vive na miséria, chamado Vinte-e-Um.
Turíbio, ao saber da morte do adversário, fica contente e põe-se a
caminho de volta para sua mulher. Vinte-e-Um, porém, o identifica e
mata, cumprindo assim a vingança que prometera a Cassiano.
O
conto pode ser lido como uma alegoria da fatalidade, de inexorabilidade
do destino humano. Enquanto os homens se perdem na busca de seus
objetivos, de um fim, algo superior dispõe o contrário, o imprevisto. Minha Gente (Sagarana) Guimarães Rosa Do Stockler Vestinulares* O
conto serve de pretexto para a documentação dos costumes e dos
infortúnios da vida da roça. Estrutura-se como uma espécie de paródia,
meio sentimental e meio irônica, das estórias de amor com final feliz.
O
narrador-personagem, um moço, está de visita na fazenda do tio,
empenhado em ganhar as eleições locais. O moço se apaixona por Maria
Irma, sua prima, e lhe faz uma declaração, a qual ela não corresponde.
Um dia, ela recebe a visita de Ramiro, noivo de outra moça, segundo ela
diz, e o moço fica com ciúmes. Para atrair o amor de Maria Irma, ele
finge namorar uma moça da fazenda vizinha. Porém, o plano falha - tendo
como efeito secundário, não calculado, a vitória do tio nas eleições -
e o moço deixa a fazenda. Na visita seguinte, Maria Irma apresenta-lhe
Armanda. É amor à primeira vista; ele se casa com a moça, e Maria Irma,
por sua vez, se casa com Ramiro Gouveia, "dos Gouveias de Brejaúba, no
Todo-Fim-É-Bom".
Como numa novela, há várias intrigas, episódios
e personagens secundários. Numa dessas intrigas, Bento Porfírio comete
adultério com a de-Lourdes, casada com Alexandre, o Xandrão Cabaça, que
acaba matando o rival. Há, de permeio, o episódio da eleição e da
vitória de Emílio do Nascimento, tio do narrador-personagem, pelo
partido João-de-Barro, e que serve de pretexto para a retratação das
astúcias e intrigas da política interiorana de Minas. Outras
personagens se entrecruzam: Santana, o inspetor de ensino e jogador de
xadrez; José Malvino, guia e mateiro, conhecedor da natureza e dos
costumes do sertão; o Moleque Nicanor, menino da fazenda e que, com
oito anos, já sabe pegar, em campo aberto, qualquer montaria, sem
cabresto nem milho, só com a esperteza de sua cor e tamanho. Surgem
outras personagens como: Bilica, Agripino e tio Ludovico. A ação se
passa no Saco-do-Sumidouro, entre fazendas e pesqueiros: o Pau-Preto, o
Touno-Tombo, até as Três Barras.
Nesse conto, o
narrador-personagem, que não se identifica nominalmente, impregna sua
narrativa de forte dose de lirismo. Observe também os processos de
(re)invenção de palavras: por aglutinação (milmalditas) e por
justaposição (até-as-pedras-se-encontram).
Repare, também nas
siglas C3BR (cavalo três bispos de rei), P4D (peão quatro de dama),
(P)4BD (peão quatro bispo de dama) e P3CD (peão três cavalos da dama).
Elas designam, de modo cifrado, os movimentos das peças ou sua posição
no tabuleiro de xadrez. São Marcos (Sagarana) Guimarães Rosa Do Stockler Vestibulares* 6 - São Marcos José
(Izé), o narrador, médico novo, récem-chegado no Calango-Frito, embora
supersticioso, não acredita em feitiçaria e vive caçoando de um
curandeiro e feiticeiro local - o João Mangolô, cuja cafua vive repleta
de clientes de suas rezas, despachos, mandingas e simpatias. Muitos
outros no Calango-Frito estavam envolvidos com todo o tipo de
bruxarias; Nhá Tolentina, já muito rica e considerada por seus
despachos; Dona Cesária, que atuava em calungas de cera, e até o menino
Deolindinho obteve feitiço contra os coques do professor.
Certo
domingo, o narrador (Izé), a caminho de suas visitas ao mato das Três
Águas, passa rente à cafua de João Mangolô e, como sempre, zomba do
curandeiro e o insulta sem motivo.
Em outra ocasião, a
caminho-do-mato, onde se entretinha na contemplação da natureza, de
seus mínimos movimentos, dos bichos, árvores e flores, encontrou-se com
Aurísio Manquitola e se entreteve com os casos dos terríveis efeitos e
poderes da oração mágica de São Marcos, que o narrador também conhecia.
A longa prosa com Aurísio envolveu também outros circunstantes: o
Gestal da Gaita, o Compadre Silvério, o Tião Tranjão, o Cypriano, o
Felipe Turco, entre outros, cada qual narrando os seus casos de
feitiçaria.
José embrenha-se de novo no mato, absorto na
contemplação da natureza, recordando o desafio poético travado com
"Quem-Será", que se fazia em meio à natureza, pois os autores, sem se
defrontarem, inscreviam os seus versos nos colmos (gomos) de belíssimos
bambus.
Embora curioso, deixou para a volta a surpresa dos
últimos versos de seu anônimo adversário, para envolver-se cada vez
mais com a poesia da natureza, dos lagos, das flores, das árvores, dos
pássaros, das aranhas, das formigas e das taturanas.
De repente,
sem explicação, fica cego. Fica desesperado. Mas como conhecia a fundo
os ruídos, cheiros e as mínimas vibrações do mato, dos ventos e dos
animais, consegue se orientar. Irritado com a demora da luz, profere,
com raiva, a reza de São Marcos. Tomado de fúria, avança numa só e
precisa direção: a casa de João Mangolô. Vai guiado pelos ruídos e
cheiros que, pouco a pouco, começam a se tornar familiares. Assim,
chega, de súbito, na cafua do João Mangolô, e começa a esganá-lo,
furioso. Nisso, volta a enxergar. O negro velho havia amarrado, por
brincadeira vingativa, uma tira nos olhos de um retrato do narrador,
irreverente e zombador, que não acreditava em feitiçaria, ainda que
fosse supersticioso.
Há, no conto, três fábulas: a do feiticeiro
e das feitiçarias, a do passeio e da natureza e a dos poemas. O
principal ponto de convergência se manifesta na função criativa da
palavra. Nas três fábulas, a palavra é valorizada não pela função
referencial, de indicar seres existentes fora dela, mas enquanto forma
de criação de novas realidades e de conhecimento, que se efetua
principalmente graças ao plano da expressão.
Tanto no poema
quanto na feitiçaria é quase irrisório conhecer o significado das
palavras e enunciados. Este permanece como algo mais intuído que
compreendido. A reza de São Marcos não interessa enquanto significado,
sentido - "é melhor esquecer as palavras" - mas como rito, magia,
iniciação transcendentalista.
Em todas as fábulas processa-se,
assim, uma volta às origens: através da reintegração total dos
sentidos, da aproximação com a natureza, da crença na força da palavra.
Conta-se,
portanto, a história da revelação de um destino que se revela por um
conhecimento estético superior do universo, manifesto na imersão
sensual/sensorial mágica da natureza. A cegueira de Izé é o pretexto
para que o autor faça aflorar outros sentidos, outras potencialidades
do ser, que são, a seu modo, a "hora e vez" do narrador, a sua
"travessia" no mundo do mistério e do encantamento.
Corpo Fechado (Sagarana) Guimarães Rosa Do Stockler Vestibulares* O
narrador, médico em Laginha, vilarejo do interior, é convidado por
Manuel Fulô para ser padrinho de casamento. Manuel detesta qualquer
tipo de trabalho e, enquanto bebem cerveja, divertem-se, ele contando e
o doutor ouvindo as histórias e os casos: do rato que tinha em casa
enjaulado e que estava, por artimanha sua, criando amizade a um gato
rajado; dos valentões do lugar - José Boi, Desidério, Miligido, Dêjo
(Adejalma) e Targino, o mais recente, e que teve a insolência de reunir
seu bando e comer carne com cachaça em frente da igreja, numa
sexta-feira da Paixão; dos ciganos que ele, Manuel Fulô, teria
trapaceado na venda de cavalos; de sua rivalidade com Antonico das
Pedras-Águas, o feiticeiro. Manuel possui uma mula, Beija-Fulô, e
Antonico é dono de uma bela sela mexicana; cada um dos dois gostaria de
adquirir o bem do outro.
Aparece então Targino, o valentão do
lugar, e anuncia, cinicamente, que vai passar a noite, antes do
casamento, com a noiva de Manuel Fulô. Ele fica desesperado; ninguém
pode ajudá-lo, pois Targino domina o lugarejo. Aparece então o
feiticeiro Antonico e propõe um trato a Manuel Fulô: vai "fechar-lhe o
corpo", mas exige em pagamento a mula Beija-Fulô, maior orgulho e
paixão de Manuel. O trato é aceito.
De corpo fechado, Manuel
Fulô enfrenta o bandido Targino e, para espanto de todos, mata-o com
uma faquinha do tamanho de um canivete. O casamento com a das Dor
realiza-se sem problemas e de vez em quando consegue emprestada sua
antiga mulinha Beija-Fulô, para ostentar, à cavaleiro, sua nova
condição de valentão de Laginha.
Conversa de bois (Sagarana) Guimarães Rosa Do Stockler Vestibulares* O
narrador da novela ouviu a tragédia, que vai contar ao leitor, de
Manuel Timborna, que a ouviu da irara Risoleta, testemunha do
acontecido.
Pelo sertão anda um carro de bois: na frente,
Tiãozinho, o menino guia: logo atrás as quatro juntas, com oito bois,
que conversam enquanto puxam a carroça: Buscapé e Namorado, Capitão e
Brabagato, Dançador e Brilhante, Realejo e Canindé; em cima do carro
vai Agenor Soronho. Carregam uma carga de rapadura e, sobre ela,
mal-acomodado e sacolejando, o caixão com um defunto, o pai de
Tiãozinho, ex-guia dos bois do Agenor Soronho.
Tiãozinho vai
chorando: sofre com a morte do pai e com a de Didico, sofre também o
calor, o cansaço e os maus-tratos que recebe do carreiro Agenor, que o
faz sofrer, que aguilhoa brutalmente os bois. Por doença e morte de seu
pai, Tiãozinho ficara totalmente dependente de Agenor Soronho, que
sustenta a família do menino, interessado em se tornar amante da viúva,
com quem mantivera já misteriosas relações, durante a doença do pai de
Tiãozinho.
O boi Brilhante vai contando aos demais a estória do
boi Rodapião, que morreu por assimilar os processos mentais dos homens.
Os bois vão conversando entre si sobre a opressão dos bois pelos homens
e a possibilidade de vencerem sua superioridade. Sentem-se solidários
com o menino.
Ao entardecer, na ladeira do Morro-do-Sabão,
Agenor encontra, espatifado, o carro da Estiva, carreado por João Bala.
Havia caído ao tentar subir a ladeira. Agenor consola o carreiro e, em
seguida, para provar a Tiãozinho que era um carreiro de verdade, escala
a subida em que João Bala fracassara. Sai vitorioso e coloca-se na
dianteira do carro, junto aos bois, e cochila. Os bois percebem que o
"homem-do-pau-comprido-com-marimbondo-na-ponta" está dormindo. Jogam-se
bruscamente para a frente, atropelando-se para derrubar Agenor Soronho,
que cai. A roda do carro passa sobre o seu pescoço, sem que se possa
saber se morreu dormindo ou se acordou para saber que morria.
Retomando,
sob outro prisma, o conto inicial "O Burrinho Pedrês", este "Conversa
de Bois" é uma alegoria sobre a justiça dos animais e a crueldade dos
homens.
A hora e vez de Augusto Matraga (Sagarana) Guimarães Rosa Do Stockler Vestibulares* Narrado
em terceira pessoa, o conto enfatiza duas constantes da vida do sertão:
a violência e o misticismo, na interminável luta do bem e do mal.
Augusto
Esteves, filho do Coronel Afonsão Esteves, das Pindaíbas e do
Saco-da-Embira, conhecido como Nhô Augusto e também como Augusto
Matraga, é o maior valentão do lugar, briga com todo mundo e maltrata
por pura perversidade. Debochado, tira as mulheres e namoradas dos
outros. Não se preocupa com sua mulher, Dona Dionóra, nem com sua
filha, Mimita, nem com sua fazenda, que começa a se arruinar.
Já
em descrédito econômico e político, sobrevém o castigo: sua mulher,
Dionóra, foge com Ovídio Moura levando a filha, e seus bate-paus
(capangas), mal pagos, põem-se a serviço do seu pior inimigo; o Major
Consilva Quim Recadeiro foi quem levou a notícia da defecção dos
capangas. Nhô Augusto resolve ter com eles, antes de matar Dionóra e
Ovídio, mas no caminho é atacado, numa tocaia, por seus inimigos, que o
espancam e o marcam com ferro de gado em brasa. Quase inconsciente, no
momento em que vai ser assassinado, reúne as últimas forças e se atira
no despenhadeiro do rancho do Barranco. Tomam-no por morto. É, contudo,
encontrado por um casal de negros velhos: a mãe Quitéria e o pai
Serapião que tratam de Nhô Augusto, que sara, mas fica com seqüelas
deformantes.
Começa então uma nova vida, no povoado do Tombador,
para onde levou os pretos, seus protetores. Regenera-se e, esperando
obter o céu, leva uma vida de trabalho duro, penitência e reza.
Arrependido de suas maldades, ajuda a todos, e reza com devoção: quer
ir para o céu, "nem que seja a porrete", e sonha com um "Deus
valentão".
Passados seis anos, tem notícias de sua ex-família
através de Tião da Thereza: a esposa, Dona Dionóra, vive feliz com
Ovídio, e vai casar-se com ele; Mimita, sua filha, foi enganada por um
cometa (espécie de caixeiro viajante) e caiu na perdição. Matraga sente
saudades, sofre, mas se resigna.
Certo dia, aparece o Joãozinho
Bem-Bem, jagunço de larga fama, acompanhado de seus capangas: Flosino
Capeta, Tim Tatu-tá-te-vendo, Zeferino, Juruminho e Epifânio. Matraga
hospeda-os com grande dedicação e admira as armas e o bando de
Joãozinho Bem-Bem. Mas se recusa a acompanhar o bando, mesmo convidado
pelo chefe e não aceita qualquer ajuda dos jagunços. Quer mesmo ir para
o céu.
Totalmente recuperado, Matraga despede-se dos velhinhos e
parte, sem destino, num jumento. Chega ao Arraial ao Rala-Coco, onde
reencontra Joãozinho Bem-Bem e seu bando, prestes a executar uma cruel
vingança contra a família de um assassino que fugira. Augusto Matraga
desperta para a sua hora e vez: intervém em nome da justiça, opõe-se ao
chefe do bando, liqüida diversos capangas, tomado de verdadeiro furor.
Bate-se em duelo singular com Joãozinho Bem-Bem. Ambos morrem -
Joãozinho primeiro. Nessa hora, Augusto Matraga é identificado por seu
antigos conhecidos.
Observe a importância do número três durante
toda a narrativa: a personagem principal tem três nomes - Augusto
Matraga, Augusto Esteves e Nhô Augusto - ; os lugares em que
transcorrem as fases de sua vida também são três - Murici, onde vive
inicialmente; o Tombador, onde faz penitência; o Rala-Coco, lugarejo
próximo a Murici, onde encontra sua hora e vez. Além disso, ele também
vive em trios: inicialmente, na praça, ele está com duas prostitutas;
em casa, ele vive com a mulher e a filha; depois de ter sido surrado e
marcado a ferro, vive com um casal de pretos; e, no final, aparece um
último trio: ele, Joãozinho Bem-Bem e o velho a quem protege.
Análise do livro Sagarana Guimarães Rosa Do Stockler Vestibulares* A
obra de Guimarães Rosa apresenta um regionalismo de novo significado: a
fusão entre o real e o mágico, de forma a radicalizar os processos
mentais e verbais inerentes ao contexto fornecedor de matéria-prima,
traz à tona o caráter universal. O folclórico, o pitoresco e o
documental cedem lugar a uma maneira nova de repensar as dimensões da
cultura, flagrada em suas articulações no mundo da linguagem.
Entre
as experiências vividas pelo autor estão as viagens pelo sertão
brasileiro, principalmente o mineiro, acompanhadas pelos famosos
caderninhos de anotações. Neles, Guimarães Rosa registrava palavras e
expressões do povo brasileiro que, mais tarde, transformaria em
metáforas poéticas.
Voltada para as forças virtuais da
linguagem, a escritura de Guimarães Rosa procede abolindo
intencionalmente as barreiras entre narrativa e lírica, revitalizando
recursos da expressão poética: células rítmicas, aliterações,
onomatopéias, rimas internas, elipses, cortes e deslocamentos
sintáticos, vocabulário insólito, com arcaísmos e neologismos,
associações raras, metáforas, anáforas, metonímias, fusão de estilos.
Imerso
na musicalidade da fala sertaneja, o autor procurou fixá-la na melopéia
de um fraseio no qual soam cadências populares e medievais.
O
trabalho com o mito poético é outra característica da obra rosiana.
Segundo o crítico e ensaísta Alfredo Bosi, a "saída" proposta por
Guimarães Rosa para esconjurar o pitoresco e o exótico do regionalismo
deu-se com a entrega amorosa à paisagem e ao mito, reencontrados na
materialidade da linguagem.
Guimarães Rosa tinha plena consciência das dificuldades que seus textos apresentam para o leitor:
"Como
escritor, não posso seguir a receita de Hollywood, segundo a qual é
preciso sempre orientar-se pelo limite mais baixo do entendimento.
Portanto, torno a repetir: não do ponto de vista filológico e sim do
metafísico, no sertão fala-se a língua de Goethe, Dostoievski e
Flaubert, porque o sertão é o terreno da eternidade, da solidão (...).
No sertão, o homem é o eu que ainda não encontrou um tu; por ali os
anjos e o diabo ainda manuseiam a língua".
Portanto, não se
deixe abater, aceite o desafio e lembre-se de que toda essa
inventividade e esse repensar a cultura e a linguagem exigem a
colaboração ativa do leitor, no caso, a sua colaboração.
1. Os temas dos nove contos que compõem a obra Sagarana apresentam: um caráter estritamente regional não só devido à linguagem como também ao espaço; uma visão, acima de tudo, subjetiva sobre os problemas humanos; reflexões de caráter universal o que corrobora a visão rosiana de que o "sertão é o mundo"; um retorno ao antropocentrismo clássico, à erudição realista e ao moralismo humanista de Gil Vicente; a destruição da concepção de que o homem, apesar de tudo, é um ser bom e um retorno ao determinismo naturalista.
2.
O conto serve de pretexto para a documentação dos costumes e dos
infortúnios da vida da roça. Estrutura-se como uma espécie de paródia,
meio sentimental e meio irônica, das estórias de amor com final feliz. Trata-se de: O Burrinho Pedrês Minha Gente Sarapalha São Marcos O Duelo
3.
"-Estou no quase, mano velho... Morro, mas morro na faca do homem mais
maneiro de junta e de mais coragem que eu já conheci!... Eu sempre lhe
disse quem era bom mesmo, mano velho... É só assim que gente como eu
tem licença de morrer... Quero acabar sendo amigos..." Os dois
duelantes revelam uma grandeza humana: a "homência", a valentia e,
mesmo desafetos, admiram-se por isso. O conto em questão é: O Duelo Corpo Fechado A Volta do Marido Pródigo Conversa de Bois A Hora e Vez de Augusto Matraga
4.
A partir da quadra que abre a obra Sagarana (Lá em cima daquela
serra,/passa boi, passa boiada,/ passa gente ruim e boa,/passa a minha
namorada), é possível sintetizar os elementos centrais da obra. São
eles: o sertão, os bois, a morte e a consciência política; o amor, a vida e a morte, a miséria e o racismo; as cidades serranas, a morte, os mistérios do mundo, o retrato da burguesia e a sexualidade; Minas Gerais, o sertão, bois, vaqueiros e jagunços, o bem e o mal; a invenção, o adultério, a poesia, a vida, o amor. |