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São Bernardo - Graciliano Ramos (2) Imprimir E-mail
Escrito por SOS Estudante.com   
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São Bernardo - Graciliano Ramos (2)
Página 2

Aqui não há mais, como em Caetés, influências diretoras, jeito de exercício. Há um processo estilístico em maturidade, revelando o grande escritor na plenitude dos recursos. A aprendizagem laboriosa do volume anterior deu todos os frutos: narração, diálogo e monólogo fundem-se numa peça harmoniosa e sem lacunas, onde cada palavra ou conceito, obtidos nas altas temperaturas da inspiração e lavrados pelo senso artístico, perfazem a unidade inimitável, cujo efeito sobre nós procuramos inutilmente explicar. Veja-se um exemplo desta síntese, em que sentimos a presença, não mais separável, dos elementos apontados em Caetés: caracterização do personagem pelo exterior; progressão psicológica do diálogo, obtida por notaçòes breves e certeiras; conhecimento do espírito pela situação:
- "Por que foi esse atraso, seu Ribeiro? Doença?
O velho esfregou as suíças, angustiado;
- Não senhor. É que há uma diferença nas somas. Desde ontem procuro fazer a conferência, mas nào posso.
- Por quê, seu Ribeiro?
E ele calado.
- Está bem. Ponha um cartaz ali na porta proibindo a entrada às pessoas que não tiverem negócio. Aqui trabalha-se. Um cartaz com letras bem grandes. Todas as pessoas, ouviu. Sem exceção.
- Isso é comigo? disse D. Glória esticando-se.
- Prepare logo o cartaz, seu Ribeiro.
- Perguntei se era comigo, tornou D. Glória diminuindo um pouco.
- Ora, minha senhora, é com toda a gente. Se eu digo que nào há exceção, não há exceção.
- Vim falar com minha sobrinha, balbuciou D. Glória reduzindo-se ao volume ordinário."
Caso elucidativo é o da paisagem. Não há em São Bernardo uma única descrição, no sentido romântico e naturalista, em que o escritor procura fazer efeito, encaixando no texto, periodicamente, visòes ou arrolamentos da natureza e das coisas. No entanto, surgem a cada passo a terra vermelha, em lama ou poeira; o verde das plantas; o relevo; as estaçòes; as obras do trabalho humano: e tudo forma enquadramento constante, discretamente ie ferido, com um senso de oportunidade que, tirando o caráter de tema, dá significado, incorporando o ambiente ao ritmo psicológico da narrativa. Esse livro breve e severo çleixa no leitor impressòes admiráveis.
"Casou-nos o padre Silvestre, na capela de S. Bernardo, diante do altar de S. Pedro.
Estàvamos em fim de janeiro. Os paus-d'arco, floridos, salpicavam a mata de pontos amarelos; de manhà a serra cachimbava; o riacho, depois das últimas trovoadas, cantava grosso, bancando rio, e a cascata em que se despenha, antes de entrar no açude, enfeitavase de espuma.
Quando viu os arames da iluminaçào, o telefone, os mòveis, vários trastes de metal, que Maria das Dores conservava areados, brilhando, D. Glória confessou que a vida ali era suportàvel.
- Eu não dizia?
Ofereci-lhe um quarto no lado esquerdo da casa, por detrás do escritório, com janela para o muro da igreja, vermelho. O muro está hoje esverdeado pelas águas da chuva, mas naquele tempo era novo e cor de carne crua. Eu e Madalena ficamos no lado direito - e da nossa varanda avistávamos o algodoal, o prado, o descaroçador com a serraria e a estrada, que se torce contornando um morro."
Se a percepção literária do mundo sensível aparece aqui refinada, é igualmente notável o progresso verificado nos mecanismos do monòlogo interior, gênese dos sentimentos e evocaçào da experiência vivida. A narrativa áspera de um homem que se fez na brutalidade e hesita ante a confissão vai aos poucos ganhando contornos mais macios, adentrando-se na pesquisa do pròprio espírito, até atingir uma eloqüência pungente, embora freada pelo pudor e a inabilidade em se exprimir de todo, tão habilmente elaborada pelo autor. O capítulo XXXI, em que desfecha não apenas o seu drama íntimo, mas o da pobre Madalena, que se mata, é porventura o encontro ideal das linhas de construção da narrativa -
desde o amadurecimento da autoconsciência até a primeira noção do seu fracasso humano, numa seqüênéia admirável em que se vêm unir a paisagem e a rotina de trabalho na fazenda; o significado latente do diálogo, as entrelinhas cheias de ecos e premoniçòes. E o capítulo XIX - um dos mais belos trechos da nossa prosa contemporânea - pode citar-se como ponto alto daquela mistura de realidade presente e representação evocativa, que vimos esboçar-se em Caetés e, surgindo tão depuradas nesta història rude, mostram que o autor conseguiu inscrevê-la na categoria pouco acessível das obras-primas.

2. DOIS ESTUDOS FUNDAMENTAIS

NARRATIVA E BUSCA
João Luiz Lafetá


Após a morte de Madalena, Paulo Honório tenta retomar o ritmo anterior de sua vida, lançando-se ao trabalho, mas logo esfria o entusiasmo, e a lembrança da mulher morta impõe-se ao seu espírito, Entediado, vagueia pela casa de forma inconseqüente, sem saber direito o que fazer, perdido em "intermináveis passeios, de um lado para o outro". Um a um os moradores mais chegados vão abandonando-oi D. Glória, depois Seu Ribeiro, e enfim o Padilha - o Luís Padilha que era a imagem completa da submissão e da subserviência e que desaparece para juntar-se aos revolucionários.
Com a revolução, o mundo de Paulo Honório descaminha de forma definitiva: "O mundo que me cercava ia-se tornando um horrível estrupício, E o outro, grande, era uma balbúrdia, uma confusão dos demônios, estrupício muito maior". A vitória da revolução traz-lhe problemas com a propriedade. Reacendem-se antigas questões de limites, seu crédito é cortado, os preços dos produtos caem, S. Bernardo transforma-se numa fazenda abandonada. Os amigos, que o freqüentavam regularmente, são obrigados a afastaj-se, e ele fica sozinho, com seus intermináveis passeios. É, enfim, o mundo à revelia, fora de seu controle. "E os meus passos me levavam para os quartos, como se procurassem alguém.'' Nesta última frase do capítulo 35 o estilo revela a impotência do herói, A sinédoque se engasta na estrutura ação/personagem, mostrando que o comando dos atos foi perdido por Paulo Honório: não é ele quem anda em quarto, mas são suas pernas que o levam. O desnorteamento é paralelo à perda do mando. Entramos agora numa outra etapa, a vida atual de Paulo Honório. Em contraste com a narrativa do passado, o tempo que se instala agora traz problemas diferentes e, em conseqüência, provoca modificações no conteúdo e na composição do livro. Embora o romance mantenha do começo ao fim uma extraordinária unidade estilística (muito visível em vários planos, da escolha do léxico à construção sintática das frases), sua composição geral se altera levemente, o bastante, entretanto, para imprimir a São Bernardo. Uma dimensão nova.
A duplicidade temporal - existem representados o tempo do enunciado (os eventos que ocorreram na vida de Paulo Honório) e o tempo da enunciação (o momento em que se escreve o livro) - está,ligada ao problema do ponto de vista narrativo. O romance é narrado em primeira pessoa, por um eu-protagonista que, distanciado no tempo, abrange com o olhár toda sua vida e procura recapitulá-la, contando-a para si e para nós, leitores. É este distanciamento que lhe dá uma pseudo-onisciência, concomitante à existência do olhar abrangente, capaz de determinar os momentos importantes de sua evolução. Este procedimento é responsável por boa parte da objetividade que, como vimos, ressuma por toda a narrativa. Não é, entretanto, o único responsável, pois a objetividade nasce - como também já vimos - da atitude que caracteriza o narrador em face de tudo que lhe acontece. Na verdade, existe uma conjugação funcional dos dois procedimentos: o conhecimen,to amplo dado pelo distanciamento temporal funde-se à caracterização do personagem-narrador e os dois juntos criam a postura objetiva que dá o tom do romance, Neste momento, todavia, entramos no presente da enunciação e o distanciamento desaparece. Por outro lado, o caráter ativo de Paulo Honório está emperrado, paralisado pela derrota definitiva que foi a morte de Madalena, É forçoso que os procedimentos técnicos se modifiquem e a narrativa ganhe uma textura diferente, A linguagem seca do tempo do enunciado cede lugar à lamentação elegíaca do tempo da enunciação, e o ritmo rápido da narrativa é substituído pelos compassos mais lentos de uma reflexão problematizada, difícil e tortuosa: "Aqui sentado à mesa da sala de jantar, fumando cachimbo e bebendo café, suspendo às vezes o trabalho moroso, olho a folhagem das laranjeiras que a noite enegrece, digo a mim mesmo que esta pena é um objeto pesado, Não estou acostumado a pensar, levanto-me, chego à janela que deita para a horta".
A verdadeira busca começa onde termina a vida de Paulo Honório. A busca verdadeira, entenda-se, a procura dos verdadeiros e autênticos valores que deveriam reger as relações entre os homens. A vida terminou, o romance começa. O romance, segundo Lukács, é a história da busca de valores autênticos por um personagem problemático, dentro de um universo vazio e degradado, no qual desapareceu a imanência do sentido à vida, Ora, só neste instante o herói se torna problemático, o universo surge conio vazio e degradado, o sentido da vida desaparece. Antes, Paulo Honório fora um personagem coeso e forte, movendo-se em um mundo de objetivos claros e (ainda que ilusório) repleto de significado:
a propriedade. O suicídio de Madalena desmascara a falsidade do sentido e problematiza tudo. Agir para quê? - pergunta-se ele. "Nesse movimento e nesse rumor haveria muito choro e muita praga."
Paulo Honório abandona a açâo e volta-se sobre si mesmo, buscando na memóría de sua vida o ponto em que se desnorteou, "numa errada", Nesse debruçar-se, o estilo se tinge de lirismo e a objetividade épica fica abalada. É preciso assinalar que o fato de o romance estar narrado na primeira pessoa não é gratuito nem inconseqüente, mas deixa suas marcas na composição da narrativa. O estatuto do "narrador onisciente'' (intruso ou não) difere sensi
velmente dessa posição aqui adotada, na qual um eu-protagonista, aproveitando-se da distância, nos conta sua história. Não que seja impossível falar de si mesmo com objetividade (na medida em que possa existir realmente objetividade) - coisa que Paulo Honório demonstra, aliás, de forma cabal no decorrer do livro. Mas, no instante em que o tempo da enunciação começa a ser representado, notamos imediatamente a infiltração dos signos da subjetividade, a irrupção do monólogo interior, o abalo do ponto de vista pseudo-onisciente. Esse processo se instala um pouco antes, no decorrer mesmo do tempo do enunciado, quando o ciúme retira a segurança do narrador e o faz duvidar do que vê: "Será? Não será?" Ou mais adiante, no capítulo 29: ''Os meus olhos me enganavam. Mas se os olhos me enganavam, em que me havia de fiar então?" É certo que permanecem no romance, muito bem delimitdos, Os dois níveis de representação, e o leitor percebe de maneira clara o que é real e o que é deformação provocada pelo ciúme. São Bernardo mantém sempre uma objetividade que o torna diferente de certos romances contemporâneos, nos quais os planos da memória, da imaginação e da realidade se confundem e se embaralham. Nem por isso, entretanto, a objetividade deixa de ser questionada de várias maneiras. Uma delas é a marcação do tempo, que vimos atrás ser feita de forma obsessiva e precisa, e que agora parece escapar ao domínio do narrador: ''Uma pancada no relógio da sala de jantar. Que horas seriam? Meia? uma? uma e meia? ou metade de qualquer outra hora? (...) Segunda pancada no relógio. Uma hora? uma e meia? Só vendo. (... ) Ah, sim, ver as horas. Empurrava a porta, atravessava o corredor, entrava na sala de jantar. Sempre era alguma coisa saber as horas''. Se a capacidade de controlar o tempo estava ligada atrás à capacidade de ação e domínio, neste momento a incerteza simboliza a impotência e insegurança a que está reduzido o narrador. Simboliza, em última análise, sua oscilação diante do mundo que já não pode reduzir à objetividade da medida exata, que já não pode controlar. Mas a subjetividade penetra mesmo, de forma avassaladora, quando começa a ser apresentado o tempo da enuciação, o instante em que Paulo Honório escreve. O belíssimo capítulo dezenove, colocado no centro do romance, embaralha de fato consciência e realidade, memória e presente, objetividade e su.bjetividade. Como afirma Lukács, a mais humilhante impotência da subjetividade manifesta-se menos no combate contra estruturas sociais vazias do que no fato de ela estar sem forças diante do curso inerte e contínuo da duração. Paulo Honório escreve seu livro e busca o sentido de sua vida. Através da escritura faz emergir um mundo reificado e cruel, repleto de corujas que piam agourentas, de rios cheios, atoleiros e "uma figura de lobisomem''. O que surge é afinal o seu retrato: penetrando dentro de si mesmo arranca um mundo de pesadelos terríveis, de signos da deformação e da monstruosidade. Um mundo objetivamente real acaba revelando-se, através da subjetividade. Mas é, por outro lado, um mundo alheio a Paulo Honório, um universo que anda indiferente à sua vontade. O tempo histórico continua a decorrer, à sua revelia: "O que não percebo é o tique-taque do relógio. Que horas são? Não posso ver o mostrador assim às escuras. Quando me sentei aqui, ouviam-se as pancadas do pêndulo, ouviam-se muito bem. Seria conveniente dar corda ao relógio, mas não consigo mexer-me".
A objetividade da representação é atingida pela subjetividade do narrador, mas ambas acabam interpenetrando-se, compondo uma unidade dialética. O sujeito poético, que se emancipa das convenções da representação objetiva, confessa ao mesmo tempo a própria impotência, a prepotência do mundo reificado que volta a apresentar-se no meio do monólogo. O recurso ao monólogo interior, portanto, ajuda a compor a busca de Paulo Honório. E é através dela que surge o mundo de S. Bernardo, São Bernardo romance, tentativa de encontrar o sentido perdido e encontro final e trágico consigo mesmo e com a solidão: "E vou ficar às escuras, até não sei que hora, até que, morto de fadiga, encoste a cabeça à mesa e descanse uns minutos". Com estas palavras, o romance se fecha, mostrando a vitória da reificação e a derrota total do herói, que é incapaz de mexer-se, modificar-se. Penso em outro personagem, de outro romance: “Ah, o que eu não entendo, isso é que é chama de me matar... -me lembrei dessas palavras. Mas palavras que, em outra ocasião, quem tinha falado era Zé Bebelo, mesmo".
fonte: Resumo do livro São Bernado da coleção Objetivo.
PS.: Pedimos desculpas pelos erros de ortografia, pois esse resumo foi scaneado.

 
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