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Página 1 de 2 1) A OBRA: FICÇÃO E CONFISSÃO Antônio Cândido Este grande livro é curto, direto e bruto. Poucos, como ele, serào tào honestos nos meios empregados e tão despidos de recursos; e esta força parece provir da unidade violenta que o autor lhe imprimiu. Os personagens e as coisas surgem nele como meras modalidades do narrador, Paulo Honório, ante cuja personalidade dominadora se amesquinham, frágeis e distantes. Mas Paulo Honório, por sua vez, é modalidade duma força que o transcende e em função da qual vive: o sentimento de propriedade. E o romance é, mais que um estudo analítico, verdadeira patogênese destesentimento. De guia de cego, filho de pais incógnitos, criado pela preta Margarida, Paulo Honório se elevou a grande fazendeiro, respeitado e temido, graças à tenacidade infatigável com que manobrou a vida, pi£ando escrúpulos e visando o alvo por todos os meios. ''O meu fito na vida foi apossar-me das terras de S. Bemardo, construir esta casa, plantar algodào, plantar mamona, levantar a serraria e o descaroçador, introduzir nestas breilhas a pomicultura e a avicultura, adquirir um rebanho bovino regular." É um verdadeiro homem de propriedade, gente para a qual o mundo se divide em dois grupos: os eleitos, que têm e respeitam os bens materiais; os réprobos, que não os têm ou não os respeitam. Daí resultam uma ética, uma estética e até uma metafísica. De fato nào é à toa que um homem transforma o ganho em verdadeira ascese, em questão definitiva de vida ou morte. "A princípio o capital se desviava de mim, e persegui-o sem descanso, viajando pelo sertào, negociando com redes, gado, imagens, rosários, miudezas, ganhando aqui, perdendo ali, marchando no fiado, assinando letras, realizando operaçòes embrulhadíssimas. Sofri sede e fome, dormi na areia dds rios secos, briguei com gente que fala aos berros e efetuei transaçòes de armas engatilhadas." O pròximo lhe interessa na medida em que está ligado aos seus negòcios, e na ética dos números não há lugar para'ó luxo do desinteresse. ' "(...) espemeei nas unhas do Pereira, que me levou músculo e nervo, aquele malvado. Depois, vinguei-me: hipotecou-me a propriedade e tomei-lhe tudo, deixei-o de tanga." "(...) levei Padilha para a cidade, vigiei-o durante a noite. No outro dia cedo, ele meteu o rabo na ratoeira e assinøu a escritura. Deduzi a dívida, os juros, o preço da casa, e entreguei-lhe sete contos quinhentos é cinqüenta mil-réis. Nào tive remorsos." Uma só vez age em obediência ao sentimento de gratidào, recolhendo a negra que o alimentou na infância e que ama com a espécie de ternura de que é capaz. Ainda aí, porém, as relaçòes afetivas só se concretizam numericamente: "A velha Margarjda mora aqui em S. Bernardo, numa casinha limpa, e ninguém a incomoda. Custa~me dez mil~réis por semana, quantia suficiente para compensar o bocado que me deu." Com o mesmo utilitarismo estreito analisa a sua conduta: "A verdade é que nunca soube quais foram os meus atos bons e quais foram os maus. Fiz coisas boas que me trouxeram prejujzo; fiz coisas ruins que me deram lucro." Até quando escreve, a sua estética é a da poupança: "É o processo que adoto: extrajo dos acontecimentos algumas parcelas; o resto é bagaço." Fora das atitudes consistentes em adquirir ou conservar bens materiais, nào apenas o senso moral, mas o próprio entendimento baralha e não funciona. A aquisição e transformação da fazenda S. Bernardo leva, todavia, o instinto de posse a complicar-se em Paulo Honório, com um arraigado sentimento patriarcal, naturalmente desenvolvido - tanto é verdade que os modos de ser dependem em boa parte das relações com as coisas. ''Amanheci um dia pensando em casar.'' (...) Nào que estivesse amando, pois nào me ocupo com amores, devem ter notado, e sempre me pareceu que mulher é um bicho esquisito, difícil de governar (...) O que sentia era desejo de preparar um herdeiro para as terras de S. Bemardo."
A partir desse momento, instalam-se na sua vida os fermentos de negação do instinto de propriedade, cujo desenvolvimento constitui o drama do livro. Com efeito, o patriarca à busca de herdeiro termina apaixonado, casando por amor; e o amor, em vez de dar a demão final na luta pelos bens, se revela, de início, incompatível com eles. Para adaptar-se, teria sido necessário a Paulo Honório uma reeducaçào afetiva impossível à sua mentalidade, formada e deformada.. O sentimento de propriedade, acarretando o de segregação para com os homens, separa, porque dá nascimento ao medo de perdê-la e às relaçòes de concorrência. O amor, pelo contrário, unifica e totaliza. Madalena, a mulher, - humanitária, màos-abertas - nào concebç a vida como relação de possuidor e coísa possuída. Daí o horror com que Paulo Honório vai percebendo a sua fraternidade, o sentimento incompreensível de participar na vida dos desvalidos, para ele simples autômatos, peças da engrenagem rural. Quando casa, aos quarenta e cinco anos, já o ofício criou nele as paixòes correspondentes, que o modelaram na inteireza do egoísmo. ''Conheci que Madalena era boa em demasia, mas não conheci tudo duma vez. Ela se revefou pouco a pouco, e nunca se revelou inteiramente. A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste."
A bondade humanitária de Madalena ameaça a hierarquia fundamental da propriedade e a couraça moral com que foi possível obtê-la. O conflito se instala em Paulo Honório, que reage contra a dissolução sutil da sua dureza. "Descobri nela manifestaçòes de ternura que me sensibilizaram (...) As amabilidàdes de Madalena surpreenderam-me. Esmolagrande."
"Percebi depois que eram apenas vestigios da bondade que havia nela para todos os viventes." A solução do conflito é o ciúme, que mata a mulher. Até entào, ninguém fazia sombra a Paulo Honório; agora, eis que alguém vai destruindo a sua soberania; alguém brotado da necessidade patriarcal de preservar a propriedade no tempo, e que ameaça perdê-la. O senhor de S. Bernardo reage pelo ciúme, expansão natural do seu temperamento forte e, ainda, forma ora disfarçada, ora ostensiva, do mesmo senso de exdusivismo que o dirige na posse dos bens materiais. Ciúme que aparece, às vezes, como eco de costumes primitivos, de velhos raptos tribais, de casamentos por compra a referverem no sangue. Nessa luta, porém, não hà vencedores. Acuada, brutalizada, Madalena se suicida. Paulo Honório, vitorioso, de uma vitória que não esperava e não queria, sente, no admiràvel capítulo XXXVI, a inutilidade do esforço violento da sua vida. ''Sou um homem arrasado (...) Nada disso me traria satisfação (...) Quanto às vantagens restantes - casas, terras, móveis, semoventes, consideraçào de politicos etc. - é preciso convir em que tudo està fora de mim. Julgo que me desnorteei numa errada (...) Estraguei minha vida estupidamente (...) Madalena entrou aqui cheia de bons sentimentos e bons propósitos. Os sentimentos e os propósitos esbarraram com a minha brutalidade e o meu egoismo." Portanto, ao contràrio de Caetés, que se horizontaliza na mediania dos personagens, São Bernardo é centralizado pela erupçào duma personalidade forte e esta, a seu turno, pela tirania de um sentimento dominante. Como um herói de Balzac, Paulo Honório corporifica uma paixão, de que tudo mais, até o ciúme, não passa de variante. Em Caetés, qualquer um poderia ter agido como João Valério, na mesma mediocridade de sentimento e atitude. Ninguém, em São Bernardo, poderia agir como Paulo Honório, pois ninguém possui a flama interior, graças à qual pode sobrepor-se à adversidade. Vencendo a vida, porém, ficou de certo modo vencido por ela; imprimindo-lhe a sua marca, ela o inabilitou para as aventuras da afetividade e do lazer. Neste estudo patológico de um sentimento, Graciliano Ramos - juntando mais um dado à psicologia materialista esposada em Caetés - parte do pressuposto de que a maneira de viver condiciona o modo de ser e de pensar. "Creio que nem sempre fui egoista e brutal. A profissão é que me deu qualidades tão ruins. E a desconfiança terrivel que me aponta inimigos em toda a partel A desconfiança é também uma conseqüência da profissào."
Não se trata, evidentemente, do resultado mecânico de certas relaçòes econômicas. Uma profissão, ou ocupaçào qualquer, é um todo complexo, integrado por certos impulsos e concepçòes que ultrapassam o objetivo econômico. E este todo complexo - como aprendemos nos romances de Balzac - vai tecendo em torno da pessoa um casulo de atitudes e convicçòes que se apresentam, finalmente, como a própria personalidade. Em Paulo Honó- rio, o sentimento de propriedade, mais que simples instinto de posse, é uma disposição total do espírito, uma atitude complexa diante das coisas. Por isso engloba todo o seu modo de ser, colorindo as próprias relaçòes afetivas. Colorindo e deformando. Uma personalidade forte, nucleada por paixão duradoura, - avareza, paternidade, ambição, crueldade - tende a extremar-se, em detrimento do equilíbrio do espírito. "Foi este modo de vida que me inutilizou. Sou um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes os nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes." O seu caso é dramático porque há fissuras de sensibilidade que a vida não conseguiu tapar, e por elas perietra uma ternura engasgada e insuficiente, incompativel com a dureza em que se encouraçou. Dai a angústia desse homem de propriedade, cujos sentimentos eram relativamente bons quando escapavam à sua tirania, e descobre em si mesmo estranhas sementes de moleza e lirismo, que é preciso abafar a todo custo. "Emoçòes indefiniveis me agitam - inquietação terrivel, desejo doido de voltar, de tagarelar novamente com Madalena, como faziamos todos os dias, a esta hora. Saudade? Não, não é isto: é antes desespero, raiva, um peso enorme no coração." Sendo romance de sentimentos fortes, São Bernardo é também um romance forte como estrutura psicológica e literária. Longe de amolecer a inteireza brutal do temperamento e do caráter de Paulo Honório nos dissolventes sutis da análise, apresenta-o com a maior secura, extraindo a sua verdade interior dos atos, das situaçòes em que participa. E a concentração no tema da vontade de dominio permite dar-lhe um ritmo psicológico definido e relativamente sitnples nas linhas gerais, a despeito da profundidade hu mana que se desprende. Dois movimentos o integram: um, a violência do protagonista contra homens e coisas; outro, a violência contra ele próprio. Da primeira, resulta S. Bernardo-fazenda, que se incorpora ao seu próprio ser, como atributo penosamente elaborado; da segunda, resulta S. Bernardo-livro-de-recordaçòes, que assinala a desintegração da sua pujança. De ambos, nasce a derrota, o traçado da incapacidade afetiva.O primeiro movimento ganha corpo na volúpia da construão material em que se realiza enquanto homem, acrescentando a si os bens em que lhe parece residir o bem supremo; e, por meio dé enumerações curtas e precisas, grava no leitor a paisagem humanizada, os elementos que lhe juntou pelo trabalho: o açude com as plantas aquáticas, o descaroçador e a serraria, movidos com a energia fornecida por ele; as culturas bem tratadas, o gado de raça. Tudo, numa palavra, que, vindo sobrepor-se à fazenda decadente que soube arrebatar aos maus proprietários, perpassa discreta mas necessariamente em cada página, como suporte do seu modo de ser e legitimação dos seus atos. Por isso justificaram-se ai liquidaçòes sumárias de vizinhos incômodos, a corrupçào de funcionários e jornalistas, a brutalização dos subordinados.
"Uma fazenda como SãoBlemardo era diferente." Não se podia comparar a qualquer outra empresa, pois era o prolongamento dele próprio; concretizava a sua vitòria sobre homens e obstáculos de vário porte, reduzidos, superados ou esmagados. E assim percebemos o papel da violência, que voltada para fora é vontade e constròi destruindo. Mas vimos que a este primeiro movimento se entrelaça outro: voltada para dentro, a violência é dissoluçào, e destròi construindo. Caracteriza-se efetivamente pela volúpia do aniquilamento espiritual, pelo cultivo implacável do ciúme, que nào é senào uma forma de exprimir a vontade de poderio e recusat o abrandamento da rigidez. Certa "... tarde, no escritório, uma idéia indeterminada saltou-me na cabeça, esteve por lá um instante quebrando louça e deu'o fora. Quando tentei agarrá-la, ia longe." O fato é que consegue agarrá-la, plantando-a dolorosamente no pensamento e dela extraindo a causa final da sua desgraça. Nesse processo de autodevoramento pelo ciúme, e a dúvidaanula a construção anterior, percebe a vacuidade das realizaçòes materiais, nega o próprio ser, que elas condicionam. Intervém então o elemento inesperado: Paulo Honório sente uma necessidade nova, - escrever - e dela surge uma nova construção: o livro em que conta a sua derrota. Por ele, obtém uma visào ordenada das coisas e de si; no momento em que se conhece pela narrativa, destrói-se enquanto homem de propriedade, mas constrói com o testemunho da sua dor a obra que redime. E a inteligência se elabora nos destroços da vontade. O próprio estilo, graças à secura e violência dos períodos curtos, em que a expressão densa e cortante é penosamente obtida, parece indicar essa passagem da vontade de construir à vontade de analisar, resultando um livro direto e sem subterfúgio, honesto ao modo de um caderno de notas.
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