Cotejo entre “Os Lusíadas” e a “Mensagem” Fernando Pessoa

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A excelente obra “Os Lusíadas” de Luís de Camões, avulta como uma das principais epopéias clássica. Está divididos em dez cantos, cada um deles com um número variável de estrofes, que, no total, somam 1102. Essas estrofes são todas oitavas de decassílabos heróicos, obedecendo ao esquema rimático "abababcc" (rimas cruzadas, nos seis primeiros versos, e emparelhada, nos dois últimos).       

Já na obra “Mensagem” do escritor Fernando Pessoa, os textos que compõem distribuem-se em grupos e subgrupos, obedecendo a um plano cuidadosamente estabelecido. Fernando Pessoa fez, portanto, a sua leitura de Os Lusíadas e compôs sua Mensagem à luz de século.           

A diferença está no fato de Os Lusíadas serem, pela forma, que não só pela substância, uma epopéia clássica, narração onde se enlaçam a viagem de Vasco da Gama, a comédia dos deuses e a História de Portugal, mediante alternâncias e discursos dentro do discurso, uns retrospectivos, outros prospectivos, enquanto a Mensagem integra, como se sabe, 44 poesias breves, datadas de várias épocas e arrumadas em três partes principais: Brasão, Mar Português e O Encoberto. A primeira e a terceira partes ainda estão subdivididas: a primeira em Os Campos, Os Castelos, As Quinas, A Coroa e O Timbre, reproduzindo assim os elementos da bandeira nacional; a terceira os Símbolos, Os Avisos e Os Tempos.            Assim o objetivo de Camões na sua obra era enaltecer o povo português e não apenas um dos seus representantes mais ilustres. Não podia por isso limitar a matéria épica à viagem de Vasco da Gama. Tinha que introduzir na narrativa todas aquelas figuraras e acontecimentos que, no seu conjunto, afirmavam o valor dos portugos acontecimentos posteriores á viagem de Vasco da Gama não podiam ser introduzidos na narrativa como fatos históricos. Para isso, Camões recorreu a profecia colocada na boca de Júpiter, Adamastor e Thétis,           

Os poemas de Camões e de Fernando Pessoa sobre Portugal situam-se respectivamente no início e na fase terminal do longo processo de dissolução do império. Daí notáveis diferenças, a par de afinidades sensíveis. Ao gizar a Mensagem, não só Fernando Pessoa tinha Os Lusíadas no âmbito das suas referências culturais.Ambos se mostram impregnados duma concepção mística e missionante da História portuguesa. D. Sebastião, em Os Lusíadas, é um enviado de Deus incumbido de alargar a Cristandade: Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande (I, 6). Na Mensagem, Portugal é um instrumento de Deus, a História pátria obedece a um plano oculto, os heróis cumprem um destino que os ultrapassa: Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal ,A mão que ergueu o facho que luziu,  Foi Deus a alma e o corpo de Portugal , Da mão que o conduziu.         

Se, no Os Lusíadas, o nosso país é qual cume da cabeça , Da Europa, na Mensagem, em descrição semelhante, Portugal é o seu rosto, e a diferença reside na personificação da Europa, figura feminina, de olhos negros, românticos cabelos, o rosto apoiado na mão direita, atitude estática, pensativa           

Tanto Camões como Pessoa, cantores da pátria, são poetas da ausência. Poetas do que foi ou do que poderá vir a ser. Dum amor que ou se refugia na memória ou, revigorado, se traduz na vibração de um apelo. Mas as situações divergem, um intervalo multissecular tinha de separá-los. No Camões épico predomina o elemento viril - a viagem, a aventura, o risco. Tradicionalmente, a mulher é a que fica, esperando, imóvel, na felicidade e no sonho do regresso: como Pessoa e as figuras em que se desdobra, de olhos fitos no indefinido. Homem de ação, e não só de inteligência, Camões ainda conheceu o império no concreto da sua grandeza e das suas misérias, era-lhe fácil ainda ter esperança, o D. Sebastião a quem se dirige é um jovem de carne e osso, vale a pena mostrar-se, exibir os seus préstimos, para que o Rei o distinga, confie nele, se lance na conquista do Norte de África levando-o consigo.

Outro império terreno ainda parece possível, como a pressaga mente vaticina, o próprio Velho do Restelo sanciona a aventura, e Camões prepara-se para cantar a nova empresa. O D. Sebastião da Mensagem, elaborado longamente pelo sebastianismo e pela humilhação, esse é o Encoberto, o Desejado, uma sombra, um mito. Pessoa sobrevive na aridez dos «dias vácuos», já lhe faltam razões para acreditar, o seu desejo está no limite, calcinado pela espera de quatro séculos. Refaz o trajeto camoniano da evocação para a invocação. Mas, perante o Rei ausente, que talvez nunca mais regresse da sua ilha encantada, é como se fosse o menino órfão, abandonado, que, na desolação da sua própria intimidade, dirige à mãe uma derradeira súplica: Screvo meu livro à beira-mágoa.  Meu coração não tem que ter.  Ah, quanto quererás, voltando, / Fazer minha esperança amor? / Da névoa e da saudade quando?  Quando, meu Sonho e meu Senhor? (iIII Os Avisos).

O seu enorme anseio tornou-se insuportável, só pela palavra poética ilude o silêncio, o vazio. Em Camões, põem-se no mesmo plano a memória e a esperança. Em Pessoa, não, porque o objeto da esperança se transferiu para o sonho, a utopia, e daí uma concepção diferente de heroísmo. Pessoa identifica-se com os heróis da Mensagem, ou neles se desdobra, num processo lírico-dramático. O amor da pátria converte-se numa atitude metafísica definível pela decepção do real, pelo anelo absoluto, por uma loucura consciente, pela busca do que não existe, pela demanda que só tem finalidade em si própria, porque atingir é estagnar, ser vencido. Esta, na Mensagem, a lição do Encoberto. Revivendo a fé no Quinto Império, Pessoa inventou uma razão de ser, um destino, fugindo à angústia dum quotidiano absurdo.           

O assunto da Mensagem não são os portugueses ou eventos concretos, mas a essência de Portugal e a sua missão por cumprir.           

Tanto Camões como Pessoa usam o processo da descrição sucessiva, fragmentária, de figuras-padrão.Observemos, por exemplo, a figura de Viriato no poema camoniano: «Este que vês, pastor já foi de gado;  Viriato sabemos que se chama,  Destro na lança mais que no cajado; /Injuriada tem de Roma a fama,  Vencedor invencível, afamado:  Não têm com ele, não, nem ter puderam  O primor que com Pirro já tiveram (VIII, 6). E ponhamos, em confronto, a composição intitulada Viriato na Mensagem: Se a alma que sente e faz conheceSó porque lembra o que esqueceu,Vivemos, raça, porque houvesseMemória em nós do instinto teu.Nação porque reincarnaste,Povo porque ressuscitouOu tu, ou o de que eras a haste -Assim se Portugal formou.Teu ser é como aquela friaLuz que precede a madrugada,E é já o ir a haver o diaNa antemanhã, confuso nada.          

Em Camões, temos tão-só a descrição laudatória; em Pessoa, Viriato não é já um herói confinado no seu tempo, encarna um momento da vida de uma nação, o momento da gestação latente; prefigura o que havia de vir, é o sinal dum plano que tinha de cumprir-se. O indivíduo apaga-se em favor do ente metafísico chamado Portugal.            

Sem dúvida, na segunda parte da Mensagem, «Mar Português», perpassa um sopro épico, exalta-se o esforço heróico dos Portugueses no domínio dos mares, Pessoa dá, por vezes, a réplica a Os Lusíadas.         

A atitude típica dos heróis da Mensagem é contemplativa e expectante: olham o indefinido, concentram-se na febre do além que o poeta encarna nos versos admiráveis de A Noite: Com fixos olhos rasos de ânsia / Fitando a proibida azul distância. Depressa esta atitude significa uma ânsia metafísica, a busca duma Índia que não há. A primeira grande missão cometida por Deus a Portugal, desvendar o mundo, chegou ao seu termo: Cumpriu-se o mar, e o Império se desfez - diz Pessoa em O Infante. Então qual o destino nacional que vem anunciar?

Que sentido tem o verso Senhor, falta cumprir-se Portugal? A inspiração da Mensagem, como foi lembrado, é ocultista, e o Império entrevisto no futuro uma aventura do espírito, viagem sem fronteiras ou limitações movida pelo amor do diverso e uma constante inquietação. Quando muito um império da língua portuguesa, superior por natureza ao império terreno, obscuro e carnal que o tempo destruiu. Na terceira parte do livro, o lema Pax in excelsis e a despedida, Valete, Fratres, sugerem um projeto de fraternidade universal entre os homens.      

Talvez o que se aponta seja, na verdade, a utopia, e por isso o elogio do herói, ao contrário do que sucede no Os Lusíadas, redunda no elogio da loucura, - essa loucura de sinal positivo sem a qual o homem não passa de besta sadia, essa loucura que nos salva da metade de nada em que viver é morrer.         

Em contraste com o realismo de Os Lusíadas (ou do que realista em Camões se pretende), a Mensagem reage pela altiva rejeição a um real oco, absurdo, intolerável, propondo-nos em seu lugar a única coisa que vale a pena: o imaginário.  

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