Eça - A reconciliação

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EÇA E PORTUGAL:
A RECONCILIAÇÃO EM A CIDADE E AS SERRAS
Introdução
 
Eça de Queiroz, romancista dos mais importantes na literatura portuguesa – e por quê não mundial? -, alcançou tal status por diversos motivos. Um deles é, inegavelmente, seu modo ácido ao retratar sua própria pátria – seus costumes, seus valores, sua elite, seu clero, seu provincianismo. Vários aspectos da sociedade portuguesa da segunda metade do século XIX são atacados ferozmente pelo romancista. Através de suas personagens, Eça expõe suas opiniões de maneira rude e radical. Os primeiros romances do autor demonstram claramente essa revolta contra Portugal, sendo que os principais e mais expressivos deles são O Crime do Padre Amaro (1875), O Primo Basílio (1878) e Os Maias (1888).
Posteriormente, no entanto, Eça passa por uma mudança no tratamento das questões referentes à sua pátria. Fala dela de maneira suave, dando-a  um aspecto calmo e aconchegante. Para PASSONI (1995), é após o romance Os Maias que se encerra a fase de ataques do autor:
 
“Encerra-se aí sua fase combativa, em que a literatura serve como escudo contra instituições, e as palavras são as lanças a serem atiradas com ironia contra Portugal, numa necessidade de denunciar o que havia de pequeno e estagnado em relação a outros países, principalmente europeus” (p.59-60).
 
Adiante, PASSONI continua:
 
“A partir de A Relíquia é possível perceber o início de uma nova fase, uma fase em que o escritor reconsidera sua pátria, abandonando a sátira mordaz com que vinha retratando a vida portuguesa, substituindo-a por uma ternura calma e sincera, quase uma redenção, à maneira de desculpas por ter escrito romances em que denunciava o atraso e o provincianismo da terra” (p.60).
 
Em A Cidade e as Serras, publicado postumamente, em 1901, Eça nos mostra um Portugal novo; desta vez, sua pátria é considerada um lugar onde as pessoas vivem em paz. Serve, aliás, como referência para seu novo foco de crítica: a modernidade. O romancista muda de opinião, passa a ver na vida moderna uma carga de hostilidade, futilidade e falsidade que não existe no modo de vida simples do português. Reanalisa sua até então adorada Paris, que antes servia como modelo de perfeição, e passa a ver nela um lugar cinzento, caótico. Seu refúgio, ou melhor, o refúgio da personagem principal do livro, Jacinto, são as serras portuguesas. Só nelas Jacinto livra-se da tão aclamada cidade, que, na verdade, o enfastia e definha gradativamente.
Temos, assim, um breve perfil da postura queirosiana em relação à sua pátria e o papel que ela representa em sua obra. Resta, agora, fazer uma análise mais aprofundada de alguns fatores fundamentais, tendo como base alguns romances publicados do autor e a sua crítica revelada em suas personagens.
 
 
Eça e Paris
 
Antes de quaisquer observações a respeito do papel representado por Paris na obra queiroziana, bem como em outras obras escritas nas últimas décadas do século XIX, é preciso fazer uma breve descrição da posição que esta cidade ocupava no cenário mundial da época. Paris era o que se pode chamar de “centro do mundo”. Vivia uma ótima fase, tanto econômica como cultural. A moda, os modos, a literatura, a música, enfim, praticamente todas as manifestações sócio-culturais tinham em Paris a principal referência. Os outros países europeus, e alguns americanos, como o Brasil, importavam a cultura parisiense, a fim de serem chics como os franceses. Em suma, o mundo vivia a belle-epóque, e a bela Paris representava o auge da sofisticação.
Eça, ao longo de sua vida e em suas obras, manifestou claramente sua admiração pela superioridade cultural de Paris em relação a Portugal. Em Os Maias, a personagem João da Ega, melhor amigo do protagonista, Carlos Eduardo da Maia, era um homem que buscava as novidades e o conforto franceses, e desprezava, em contrapartida, os velhos costumes portugueses. Eça, através das atitudes de Ega (a semelhança entre os nomes não é mera coincidência: Eça declaradamente se afirma em Ega), deixa clara a sua avidez por uma vida repleta de parisianismos, longe da monotonia e estagnação portuguesas.  Em uma conversa com o velho Afonso da Maia, por exemplo, Ega explica que desistiu de escrever seu livro porque, para ele, não valia a pena escrever numa terra onde só descortinava em torno de si uma “espessa massa de burguezes, amodorrada e crassa, desdenhando a intelligencia, incapaz de se interessar por uma idéa nobre, por uma phrase bem feita” (QUEIROZ, 1888, p.280). Em seguida, continua: “Não vale a pena, snr. Affonso da Maia. N'este paiz, no meio d'esta prodigiosa imbecilidade nacional, o homem de senso e de gosto deve limitar-se a plantar com cuidado os seus legumes” (p.281).
MEDINA (1980, p. 43) faz algumas considerações a respeito deste comentário de João da Ega:
 
“O pensamento mais profundo de João da Ega, (...) não estava porém no paradoxo desenvolvido perante o velho Afonso da Maia. Mais adiante vamos encontrá-lo a expor a Carlos e a Maria Eduarda a necessidade de criar uma revista – que se havia de chamar precisamente Revista de Portugal! – que ‘se dirigisse a literatura, educasse o gosto, elevasse a política, fizesse a civilização e remoçasse o carunchoso Portugal’”.
 
Outras personagens também consideram Portugal um país atrasado e sem civilização, como o sr. Guimarães, tio de Dâmaso:
 
“Mas o snr.Guimarães ainda se apoderou da portinhola para aconselhar ao Ega que fosse a Paris. Agora, que tinham feito amizade, havia de o apresentar a toda aquella gente... E o snr. Ega veria! Não era cá a grande pose portugueza, d'estes imbecis, d'estes pelintras a darem-se ares, torcendo os bigodes. Lá, na primeira nação do mundo, tudo era alegria e fraternidade e espirito a rodos...” (QUEIROZ, 1888, p.457)
 
Esta admiração por Paris, porém, se transforma em repugnância, à medida que Eça percebe que toda sua modernidade é, na realidade, enfadonha e cansativa. Expõe em A Cidade e as Serras uma série de críticas ao modo de vida parisiense, revelando uma nova posição em relação à sua pátria. José Fernandes, o narrador no livro e melhor amigo do protagonista Jacinto, em uma passagem do livro, faz considerações marcantes a respeito da modernidade. Em um momento filosófico, nos altos de Montmartre, faz um longo e amargo discurso ao “Príncipe da Grã-Ventura”, onde deixa clara sua insatisfação para com a cidade de Paris - e tudo o que ela representava:
 
“Para este esvaecimento pois da obra humana, mal ela se contempla de cem metros de altura, arqueja o obreiro humano em tão angustioso esforço? Hem, Jacinto?... Onde estão os teus Armazéns servidos pôr três mil caixeiros? E os Bancos em que retine o ouro universal? E as Bibliotecas atulhadas com o saber dos séculos? Tudo se fundiu numa nódoa parda que suja a Terra. Aos olhos piscos de um Zé Fernandes, logo que ele suba, fumando o seu cigarro, a uma arredada colina – a sublime edificação dos Tempos não é mais que um silencioso monturo da espessura e da cor do pó final. O que será então aos olhos de Deus!” (QUEIROZ, [s.d.], p. 48)
 
Jacinto conclui com uma afirmação que mostra o descontentamento daquele que antes era fascinado pela cidade, gozava de todos os seus artifícios, mas que agora começa a perceber os exageros – e desvantagens - da civilização: “-Sim, é talvez tudo uma ilusão... E a Cidade a maior ilusão!” (p.48). E a filosofia de que “o homem só é superiormente feliz quando é superiormente civilizado” deixa de fazer sentido...
 Em Jacinto, temos o retrato caricaturado de um homem que se decepcionou com a ilusória modernidade, que descobriu que a felicidade não pode ser encontrada no caos da Cidade-Luz, que é necessário retornar às raízes, ao velho Portugal. O mais importante deste homem disfarçado em Jacinto é que ele alcançou tal maturidade que é capaz de encontrar equilíbrio entre o que há de bom no novo e no velho, sem os radicalismos da juvena e o clero
Entre os principais alvos da crítica queiroziana, está a Igreja Católica e as pessoas envolvidas diretamente com ela. Eça não mede palavras ao criticar a religiosidade portuguesa; faz questão de evidenciar a hipocrisia do clero, inclusive através de atos absurdos de algumas personagens. Ao que parece, Eça, em seus romances, buscar expressar sua insatisfação e repugnância para com a Igreja como instituição. Suas personagens clericais ou beatas são sempre hipócritas, criminosas ou então caricatas, nesse caso satirizando aqueles que viviam em função do catolicismo.
Essa postura mostrava, no entanto, uma certa imaturidade do autor ao tratar deste tema. Muitas vezes suas críticas se mostram infundadas. O próprio Eça, em um artigo destinado a prólogo da edição definitiva de O Crime do Padre Amaro, confessa seu desconhecimento em relação a igreja, quando diz:
 
“Quando publiquei pela primeira vez O Crime do Padre Amaro, eu tinha um conhecimento incompleto da província portuguesa, da vida devota, dos motivos e dos modos eclesiásticos.” (apud MELLO, 1945, p. 56)
 
É claro que, mesmo com essa consciência em relação à sua atitude perante a vida religiosa em Portugal, não seria nesse romance que Eça deixaria de criticar ferozmente esses valores. Aliás, é exatamente nesse romance que Eça “derrama seu veneno” sobre o clero português de forma mais letal. O romancista não tem receio algum ao criar uma protagonista clerical de valores distorcidos: Amaro, um jovem pároco hipócrita e oportunista, que rompe com o celibato, engravida uma jovem e não é capaz de assumir seu erro de maneira honrada. Para ele, é muito mais cômodo ter uma amante e continuar tendo suas regalias como pároco do que abrir mão de tudo por um romance. Amaro dá ao filho deste romance proibido um destino trágico – daí o seu grande “crime”.
Além de Amaro, estão presentes no romance outras personagens que servem de canal para as críticas ferrenhas de Eça ao clero: o cônego Dias, a S. Joaneira, o beato Libaninho, entre outros. O cônego Dias, por exemplo, mantinha um caso amoroso com a S. Joaneira, mãe de Amélia, que por sua vez era amante de Amaro:
 
“a S. Joaneira, se não tinha hóspede, dormia só no primeiro andar: o cônego podia então saborear livremente os carinhos da sua velhota; - e Amélia na sua alcova, em cima, era alheia a este ‘conchegozinho’” (QUEIROZ, 1998, p.86).
 
Somente com o passar dos anos é que Eça perceberá que a religiosidade é algo necessário na vida do homem, e passa a tratá-la de maneira suave. Em seus últimos romances, faz diversas menções a Deus, sem o uso de intermediários – os padres e a Igreja – demonstrando uma aparente paz de espírito, ou então tratando estes intermediários de maneira amigável, sem ironias. Não sente mais a necessidade de atacar o clero, pois percebe que, apesar dos problemas que a instituição católica apresenta, a religiosidade pode ser algo bom e tranqüilizador. Eça alcança um estado espiritual elevado, em que aceita a possibilidade de haver pessoas boas e dedicadas no clero. Em A Cidade e as Serras, o Abade é um senhor bondoso, as figuras religiosas não são satirizadas e não há insinuações de hipocrisia ou quaisquer outras alusões negativas à Igreja.
 
 
Considerações Finais
 
À partir destas considerações preliminares, está aberto o caminho para investigações mais aprofundadas a respeito do papel que Portugal representa na obra queiroziana. Torna-se claro, enfim, que se trata de um assunto de suma importância na compreensão da obra deste escritor, que com tanta intensidade demonstrou seus sentimentos para com sua pátria e não teve receio ao mostrá-los tão contraditórios.
Eça usou sua percepção crítica afiada para denunciar os defeitos e atrasos de uma nação que possui um passado histórico de conquistas e inovações. É possível que a insatisfação de Eça tenha se dado exatamente por este motivo – como podia uma nação tão gloriosa estar marginalizada no cenário europeu? Numa atitude de revolta, adotou como modelo a cidade de maior destaque em sua época, a inovadora Paris, que ditava as regras culturais. Via na Cidade-Luz o exemplo de sofisticação, e um homem que não quisesse estar condenado à mesquinharia e sordidez deveria espelhar-se nela. Deixou clara em sua obra a necessidade de seguir os moldes parisienses em detrimentos dos portugueses.
O que Eça não previra é que as vantagens da vida moderna traziam consigo obrigações, relações de aparências, futilidades, concorrências. Viu-se enganado pelo seu objeto de fascínio e usou sua literatura (como de costume) como instrumento para suas críticas. Em A Cidade e as Serras maldisse tudo o que antes adorara – e mostrou que passou a adorar o que antes maldizia. Não mais com a acidez e imaturidade da juventude, mas com a consciência de um homem que já acumulava experiências suficiente para discernir, entre todas as possibilidades que o mundo oferecia, os valores que realmente importavam na vida. Voltou para sua casa e reconciliou-se com seu país: e partiu em paz com ele.
 
Referências
 

MEDINA, João. Eça de Queiroz e a geração de setenta. Lisboa: Moraes Editores, 1980

MELLO, Allyrio de. Eça de Queiroz, o exilado da realidade. Porto: Livraria Tavares Martins, 1945.

PASSONI, Célia A. N. FUVEST 96: literatura / resumos, comentários e textos. São Paulo: Núcleo, 1995.

QUEIROZ, Eça de. A cidade e as serras. 23.ed. Rio de Janeiro: Ediouro [s.d.].

QUEIROZ, Eça de. O Crime do Padre Amaro. 12ª ed., São Paulo: Ática, 1998.

QUEIROZ, Eça de. Os Maias. 1.ed. Porto: Livraria Internacional de Ernesto Chardron, 1888. 2v.

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