Resumo Continuando as Histórias de Primeiras Estórias - Guimarães Rosa

Resumo do Livro Continuando as Histórias de Primeiras Estórias - Guimarães Rosa.

Resumo Continuando as Histórias de Primeiras Estórias - Guimarães Rosa
Primeiras Estórias

Guimarães, o Rosa Místico, pertence à terceira geração do Modernismo brasileiro, chamada geração de 45. Nesta geração, encontramos o aperfeiçoamento estético e de linguagem dentro da Literatura Brasileira. Há uma consciência de linguagem profunda. A criação é vista como um processo de construção, um trabalho árduo de linguagem, associado à observação do humano, visto agora de forma universal. Daí se dizer que o regionalismo de Guimarães é universalizante, isto é, não é uma forma regionalizada de mundo: o sertão é o palco que encena os dramas humanos; o sertão é o mundo. Em Guimarães, a procura estética resulta em uma prosa que não é só prosa, é prosa poética, que se define por uma prosa que se utiliza dos procedimentos da poesia, principalmente a sonoridade.

Como entrar no universo de Guimarães Rosa, já falamos um pouco no número anterior. Entretanto, Guimarães é um camaleão, transforma o simples em complexo, o primitivo em matéria humana essencial e mística. Aprofunda o ser, dilacera o rio da existência até extrair da linguagem e do Homem a sua terceira margem, aquela margem das profundezas, em estado bruto, como o seu sertão, contrastando com as margens do lá e cá da superfície. E assim diz Guimarães:
Gostaria de ser um crocodilo vivendo no Rio São Francisco. O crocodilo vem ao mundo como um "magister" da metafísica, pois para ele cada rio é um oceano, um mar de sabedoria, mesmo que chegue a ter cem anos de idade. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como o sofrimento dos homens. Amo ainda uma coisa dos nossos grandes rios: sua eternidade. Sim, rio é uma palavra mágica para conjugar a eternidade.

"PRIMEIRAS ESTÓRIAS", continuando as histórias (ver edição 13 da nave)
SOROCO, SUA MÃE, SUA FILHA
Soroco, homem simples e rude, vivia com sua mãe e sua filha:
"A mãe de Soroco era de idade, com para mais de uns setenta. A filha, ele só tinha aquela. Soroco era viúvo. Afora essas, não se conhecia dele o parente nenhum."
Mãe e filha eram loucas. Soroco tentou ficar com as duas ao seu lado, mas não foi possível. Tomou a decisão mais difícil de sua existência: interná-las. O governo mandaria o trem para levá-las para Barbacena, longe. "Para o pobre, os lugares são mais longe." Soroco deveria encaminhá-las à estação, pois "o trem do sertão passava às 12h45m."

O povo esperava, protegendo-se do sol. "As pessoas não queriam poder ficar se entristecendo, conversavam (...) Sempre chegava mais povo - o movimento." Alguém avisa que Soroco aponta da Rua de Baixo, onde mora. "Soroco estava dando o braço a elas, uma de cada lado." Parecia entrada para um casamento, se na realidade não fosse aquela tristeza tamanha. Soroco estava vestido com sua melhor roupa, mesmo assim maltrapos. Todos diziam palavras que tentavam consolá-lo e ele muito humilde respondia: - "Deus vos pague essa despesa..." Todos compreendiam a atitude de Soroco, pois não havia outro jeito.

Em frente ao trem, a filha de Soroco começa a cantar uma cantiga que ninguém entende. A mãe de Soroco começa a cantar também a cantiga entoada pela moça. Principia o embarque das duas. E o canto ecoa longe. Soroco não espera o trem desaparecer de vez, nem olha, fica de chapéu na mão calado. "De repente, todos gostavam demais de Soroco."
Soroco parecia deixar de existir, entoava no dentro a mesma cantiga das duas. Sem combinação nenhuma, todos de dó de Soroco começaram a entoar a cantiga sem razão que as duas cantavam, bem alto. Todos caminhavam com Soroco, levando-o para sua casa. "Foi o de não mais sair da memória. Foi um caso sem comparação.

A gente estava levando agora o Soroco para a casa dele, de verdade. A gente, com ele, ia até aonde que ia aquela cantiga."

COMENTÁRIOS
Conto narrado em terceira pessoa, mas com a participação ambígua do narrador como personagem. O narrador é um observador dos fatos, mas também faz parte do povo:
"A gente se esfriou (...)" "A gente estava levando agora o Soroco (...)" A estrutura de participação do personagem é ambígua, pois "a gente ", no conto, pode ser a gente, o povo da estação, como também o marcador oral "a gente" enquanto nós.
 
O conto tem uma temática triste, trabalha com o sentido circular de passar a angústia do personagem Soroco com sua solidão e desespero ao ter que deixar ir para longe as únicas pessoas que tem no mundo, ficando mais solitário ainda. Tudo gira em torno da separação, da perda, da ausência e da distância.

A grande temática do conto é a solidariedade. Há a compaixão do povo para com Soroco e sua dor. O povo se solidariza com Soroco. A irracionalidade entoada na cantiga da mãe e da filha loucas realiza o elo de ligação entre as dores de todos os homens. É uma cantiga compreendida só por aqueles que possuem sentimento, a razão de ser do humano. Esta cantiga metaforiza a união entre os homens por meio da solidariedade.

É possível imaginar o sofrimento de Soroco, o vazio dolorido sentido e a profunda solidão na alma. A solidão só não é absoluta, porque existe a solidariedade do povo acalentando seu coração.

Pode-se observar também as sugestões sonoras oferecidas pelo nome do personagem: Soroco - só louco ; Soroco - socorro, como compreensão do forte sentido do contexto do texto. Por outro lado, é interessante perceber a gradação do título, sugerindo a união da família como vagões que se engatam no trem da existência e se desengatam no destino. Cada vagão carrega sua própria solidão e dor, mas forma o trem da solidão e da dor coletivas, na metáfora de uma cantiga.

SEQÜÊNCIA
"Na estrada das Tabocas, uma vaca viajava. Vinha pelo meio do caminho, como uma criatura cristã. A vaquinha vermelha, a cor grossa e afundada(...)" A vaquinha tinha um destino: voltar para o lugar de onde veio, a fazenda Pãodolhão do Major Quitério. Foi vendida juntamente com uma boiada, mas sentia saudade, não conseguiu ficar na fazenda Pedra, cujo dono era seu Rigério. A vaca foge, realizando uma aventura. Já que não tem asas, "deu patas à imaginação", pois só as patas poderiam conduzi-la de volta ao seu destino, concretizar o seu desejo, matar a sua saudade. E a vaquinha vai passando por diversos locais e situações. No encalço da vaquinha fujona, segue um dos filhos do seu Rigério. O único dos filhos que aceitou trazer de volta a vaca, era rapaz, senhor-moço. Para o rapaz, voltar com a vaca fujona era uma questão de brio.
Moço e vaca caminham com um sol grande, com o dia inteiro. O moço vai seguindo a vaca esperta, que o carregava na sua vantagem de estar na frente. A vaquinha cortava caminho, recortava rio e o rapaz se irritava, pensou em desistir, mas era agora uma questão de honra. "Aonde um animal o levava?" "O rapaz - desdobrada vida-se pensou: 'Seja o que seja.' O dia se foi, a noite chegou e a vaca e o rapaz "iam-se, na ceguez da noite -à casa da mãe do breu(...)" "O rapaz: obcego. Sofria como podia, nem podia mais desespero." "Onde e aonde? A vaca, essa, sabia: por amor desses lugares."

"Chegava, chegavam", pois a vaquinha conduzia o rapaz e ela chegou ao destino. "O rapaz e a vaca se entravam pela porteira-mestra dos currais." O rapaz entra na casa do Major Quitério e vê as quatro moças da casa. Uma delas, a segunda da roda "era alta, alva, amável." Tudo mudou. O moço compreendeu e "compreendeu-se". O seu destino estava traçado pela saudade que a vaquinha sentia. O rapaz encontrou o amor na moça que a vaca lhe apresentou.
"E a vaca-vitória, em seus ondes, por seus passos."

COMENTÁRIOS
Na obra de Guimarães, os animais são portadores de sabedoria, são possuidores de transcendência, principalmente o gado. Tal como nas histórias infantis, o animal possui caráter encantatório, mágico. No caso do conto, narrado em terceira pessoa, a vaca possui qualidades humanas: saudade, sabedoria, esperteza, determinação, consciência do destino. Seguindo este raciocínio, não é o homem que tange o animal, mas sim o animal que tange o homem. O destino do homem está nas mãos do animal, pois a vaca vai conduzindo o homem para seu destino, sem que ele perceba ou entenda, só sente medo do desconhecido. A vaca não tem medo, ela domina esses lugares da alma. Tanto que a travessia do rio, isto é, a travessia para que se cumpra o destino, foi difícil para o homem: "E entrou de peito feito.

Àquelas qüilas águas trans-às braças. Era um rio e seu além. Estava já do outro lado." Realizou a travessia proposta pela vaca e encontra o seu destino: "Da vaca, ele a ela diria: - "É sua." Mas parece que não é só essa a compreensão, pois "Suas duas almas se transformaram?" A do moço e a da moça? Ou a fusão da compreensão moço, moça e vaca, como sendo a vaca a geradora do destino de ambos? O destino do homem foi traçado pelo animal, em um final feliz, gerando o sentimento supremo do ser humano: o amor. Portanto, a vitória foi da vaca, que com suas patas e os seus conhecimentos dos longes, conduziu o amor, na seqüência do caminho por ela traçado. E assim é a seqüência do seguir da própria existência.