Resumo Macau - Paulo Henriques Britto

Resumo do Livro Macau de Paulo Henriques Britto.

Resumo Macau - Paulo Henriques Britto
Macau

Lançado em 2003 pela Cia das Letras, o livro Macau sugere, na superfície luminosa de sua capa, na portabilidade do seu projeto gráfico, o que aguarda o senhor leitor hipócrita e cúmplice do poeta e tradutor Paulo Henriques Brito.

Nada de mergulhos. É na superfície que o real, minúsculo plâncton, se trai.

Esses dois versos - de um dos DEZ SONETÓIDES MANCOS, o VI, mais exatamente - estetizam aquilo que a orelha de Macau entrega: o poeta se alimenta da matéria nossa de cada dia "no cais raso da subjetividade". Também vem da orelha a audição de uma outra senha desta poética que é um elogio à oralidade ao conectar "rigor formal e desordem cotidiana". Essas conexões entre o "raso" - a superfície, a pele - e o que ela capta e fabrica, em termos de forma estética é visível, dentre outros, no cabralino poema V da FISIOLOGIA DA COMPOSIÇÃO:

É preciso que haja uma estrutura,
uma coisa sólida, consistente,
artificial, capaz de ficar
sozinha em pé (não necessariamente
exatamente na vertical), dura

e ao mesmo tempo mais leve que o ar,
senão não sai do chão. E a graça toda
da coisa, é claro, é ela poder voar,
feito um balão de gás, e sem que exploda

Nessa poética onde a "coisa" voa não há sentimento alado nem coração algum explode. Macau é território de quem se contém de forma irônica e humorada. Da leitura de DE VULGARI ELOQUENTIA, por exemplo, emerge a imagem dos ombros drummondianos que eram estetizados como suporte existencial, no tempo em que a vida era uma ordem. Na poética de Paulo Henriques Britto, nenhum "José" "está sem assunto" porque são as palavras - e não os ombros - que suportam o mundo; esse mesmo mundo que o poeta outorga ao desejante leitor, num dos DEZ SONETÓIDES MANCOS, indagando se vai "comer" "aqui e agora" ou prefere "pra viagem". O "sonetóide" parece dialogar com "Cantiga de Enganar", de Claro Enigma, onde o poeta de Itabira aprende a rir e diz: "O mundo não vale o mundo, meu bem".

Humor e ironia dialogam nessa seqüência inicial de textos que inclui BAGATELA PARA A MÃO ESQUERDA e as TRÊS TERCIANAS (principalmente a primeira). A leitura desses poemas sugere ser essa metalinguagem cada vez mais produtiva e humorada, caso o leitor releia alguns dos procedimentos mais caros às poéticas da modernidade que atravessaram o século XX.

Em "Biodiversidade", primeiro texto deste volume, uma "fala esquisita" sugere uma voz "do outro lado da linha formigando de estática". Inscrita num invisível espaço úmido, essa voz possibilita ao leitor a audição de outras vozes que se inscrevem a partir de diferentes espaços, sejam eles a superfície ("só o raso é cool") ou o espaço subjetivo e nominal dessa poética onde "a dor é kitsch" e o que se sente, atropelado. Nesse mesmo "soneto simétrico" que tematiza o corpo e o espaço titular deste "império" sonoro que é Macau, outra voz pode resgatar, entre o amor e o asco, a porção romântica que ronda o leitor de poesia, ao inferir:

Porque nenhum descobridor na história

(e alguém tentou?) jamais se desprendeu
do cais úmido e ínfimo do eu. 

Desse cais, o poeta traduz a afetiva lição do humor e da curva e remete ao mundo sua carta historiando múltiplos espaços e tempos. Diferentemente do poeta aristotélico, sua história não "narra" o futuro de pretérito, mas os vários tempos de que se fazem sua poesia. Principalmente o presente. E mesmo que seu verbo encerre algumas seqüências de mini núcleos temáticos repletos de não e nada e nunca, ele se anuncia prenhe de suportes; porque esse "descobridor" que não se desprende de seu "cais", navega as águas da alteridade "à mercê do latejar de um músculo". Esse latejar traduz uma oralidade cotidiana na qual o leitor deste início de milênio se reconhece muito bem.