Resumo Macunaíma - Mário de Andrade

Resumo do Livro Macunaíma de Mário de Andrade.

Resumo Macunaíma - Mário de Andrade
Macunaíma

Graça Graúna

Do fundo da mata virgem
Ele ri mui gostosamente alto
e diz:
- Ai, que preguiça!
Coisa de sarapantar
os sons e os sentidos
espalham-se
um
três
trezentos
amarelos
brancos
pretos retintos
pícaros/ícaros
Brasil
brazis
crias de um homem submerso.
(Graça Graúna é Maria das Graças Ferreira, professora da Universidade Federal de Pernambuco, e o poema que você acabou de ler está no livro Canto Mestizo, publicado pela Editora Blocos, 1999)

1. Pequena biografia do autor:
"Pronomes? Escrevo brasileiro. Si uso ortografia portuguesa é porque, não alterando o resultado, dá-me uma ortografia."

Mário Raul de Morais Andrade ( SP 1893-1945) foi um grande transgressor de sua época. Não como o anarquista brincalhão e exótico como seu amigo Oswald, mas como aquele que amava seu país, sua cidade, seu povo.
Entre as milhares de histórias sobre o poeta-romancista, uma é real e aponta sua personalidade:
Em 1926, quatro anos depois da SAM, o jornal A Noite inicia, entre os dias 11 a 31 de dezembro, a publicação de uma série de artigos e ensaios sob a égide do que chamou "O mês modernista." Colaboraram para a feitura dos artigos os escritores Mário de Andrade e Sérgio Milliet ( paulistanos); Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade ( pernambucano e mineiro radicados no Rio); no dia 12 de dezembro, antes de iniciar o rol de artigos a ser veiculado pelo jornal, aparece na primeira página a "chamada": "Assim falou o papa do Futurismo _ como Mário de Andrade define a escola que chefia." Mário, funcionário do jornal para artigos esporádicos, respondeu bem humorado:
" Senhor Diretor da A Noite
Dá-se isto: O jornal do senhor, além dos 50 bagarotes que me paga, me gratificou com a Chefia do Modernismo no Brasil.
Ora, eu sou um caipira provinciano, que vendo discurso pela frente, desconfia mesmo e confesso que pra mim toda a importância do nosso negócio está nos 50 bagarotes. Contando que o senhor me pague direitinho não carece vir com lambanças, não; sempre hei de falar que o senhor é um homem às direitas.
Lhe garanto que não sou chefe de coisa nenhuma. Nem de mim! que basta eu enxergar uma morena faceira, pronto: já fico chefiado.
Além disso, estou convencido que pra assumir uma chefia de tanta responsabilidade, carece que o sujeito seja absolutamente irresponsável. E eu não sou.
Té logo.
Mário de Andrade."
A personalidade do escritor modernista pode ser vislumbrada aí, nesta carta brincalhona.
Nascido na Rua Aurora ( "Na rua Aurora eu nasci/ Na aurora da minha vida/ E numa aurora cresci"), teve infância feliz. Cresceu entre irmãos e primos, entre parentes chatos, provinciados, pai meticuloso, organizado, exigente ( esse pai que aparecerá como pessoa temível, "de um bom errado", em "O Peru de Natal", de Contos Novos). Mãe protetora, carinhosa, compreensiva, marcará edipianamente as figuras maternas em Contos Novos e Amar, Verbo Intransitivo.
Apesar de conhecida e respeitada, a família não tinha posses extensas. O pai foi político, deputado e governador de Goiás, professor da Faculdade de Direito de São Paulo; pelo lado materno, havia um orgulho indiscutível: D. Maria Luísa era de ascendência ilustre: bandeirantes paulistanos, família quatrocentona.
Nos primeiros anos de sua vida, o escritor passou-os na Rua Aurora; a família mudou-se posteriormente para o Largo do Paiçandu e depois para Rua Lopes Chaves, onde o escritor passou o resto de sua vida:
"Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado na minha cidade, Saudade.
Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paiçandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça Esqueçam.
No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto Bem juntos.
Escondam no Correio o meu ouvido
Direito, o esquerdo nos telégrafos,
Quero saber da vida alheia, Sereia.
O nariz guardem os rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade. Saudade...
Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O jorlho na Universidade, Saudade...
As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.
( In A Lira Paulistana, 1945)
O adolescente Mário fez o curso secundário no Ginásio Nossa Senhora do Carmo e , posteriormente, diplomou-se pelo Conservatório Dramático e Musical de S.Paulo, onde passou a exercer as funções de Professor de História da Música.
Era um apaixonado pela música, pelo folclore, artes plásticas, "pelas coisas brasileiras".
De 1934 a 37 dirigiu e modificou o Departamento de Cultura da Prefeitura de S. Paulo, fundando a Revista do Arquivo Municipal; de 1938 a 40 lecionou Estética na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Após voltar a S. Paulo, passou a trabalhar no Serviço do Patrimônio Histórico.
Escreveu poemas, romances, crônicas, contos, ensaios, críticas, cartas, teoria literária, crítica sobre artes plásticas. Ele próprio nomeava-se:
Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinqüenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh Pirineus, ôh caiçaras!
Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!
Abraço no meu leito as milhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!
Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinqüenta,
Mas um dia, afinal,eu toparei comigo...
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.
(in Remate de males, 1930)

Estudante, nunca se destacou como um gênio ( afinal, dizem que os gênios jamais se destacam na vida escolar...): notas baixas, reprovações, segundas-épocas. Só se destacava em Língua Portuguesa. Ou seja, cercado de irmãos competentes, era a "ovelha negra da família", o rapaz rebelde, com pensamentos estranhos.
Tal como em "Vestida de Preto"de Contos Novos, Mário começou, de repente, na adolescência, a estudar: no mínimo nove horas por dia, lia tudo: filosofia, literatura. E embora já começasse a gerar sua fama de intelectual, a família nunca deixou de considerar esquisitas suas preferências literárias.
Após a SAM, seu nome começou a projetar-se nacionalmente, o que ocasionava ciúmes no amigo e companheiro Oswald.
Escreveu de maneira incomparável. Era divertido, irônico, mordaz e brincalhão, embora externamente "um caboclo sisudo demais".
Em 22 de fevereiro de 1945, tomava chá com o amigo Luís Saia. De repente, pediu: _"Segure a xícara, que eu não estou me sentindo bem". E caiu para a frente. Estava morto o "pai do Modernismo"no Brasil.
Manuel Bandeira, poeta e amigo, saudou-o com um poema:
A Mário de Andrade Ausente
Anunciaram que você morreu.
Meus olhos, meus ouvidos testemunharam:
A Alma profunda, não.
Por isso não sinto agora a sua falta.
Sei bem que ela virá
( Pela força persuasiva do tempo).
Virá súbito um dia,
Inadvertida para os demais.
Por exemplo assim:
À mesa conversarão de uma coisa e outra,
Uma palavra lançada à toa
Baterá na franja dos lutos de sangue,
Alguém perguntará em que estou pensando,
Sorrirei sem dizer que em você
Profundamente.
Mas agora não sinto a sua falta.
(É sempre assim quando o ausente
Partiu sem se despedir:
Você não se despediu.)
Você não morreu: ausentou-se.
Direi: Faz tempo que ele não escreve.
Irei a São Paulo: você não virá ao meu hotel.
Imaginarei: Está na chacrinha de São Roque.
Saberei que não, você ausentou-se. Para outra vida?
A vida é uma só. A sua continua
Na vida que você viveu.
Por isso não sinto agora a sua falta.
Obra:
Poesia
Há uma gota de sangue em cada poema ( 1917)
Paulicéia Desvairada ( 1922)
Losango Cáqui ( ou Afetos Militares de mistura com os porquês de eu saber alemão ) ( 1926)
Clã do Jabuti ( 1927)
Remate de Males ( 1930)
Poesias ( 1941)
Lira Paulistana ( 1945)
Prosa
Primeiro Andar ( contos, 1926)
Amar, Verbo Intransitivo ( romance, 1927)
Macunaíma , o Herói sem nenhum caráter ( romance, 1928)
Belazarte ( contos , 1934)
Contos novos ( contos, 1947)
Táxi e Crônicas no Diário Nacional ( 1976)
O Turista Aprendiz ( diário de viagem, 1976)
Quatro Pessoas ( notas críticas , 1985)
Ensaios e Cartas, crítica
A Escrava que não era Isaura ( 1925)
Ensaio sobre a música brasileira ( folclore, 1928)
Compêndio da História da música ( 1929)
Modinhas Imperiais ( 1930)
Os filhos da Candinha ( 1943)
O Empalhador de Passarinhos ( 1955)
e pelo menos mais outros 30 livros.

Macunaíma
(Herói sem nenhum caráter)
O romance Macunaíma foi editado em 1928, embora tenha sido escrito em quinze dias, no final de 1926, numa fazenda da família, em Araraquara, interior de São Paulo, para onde o escritor tinha ido passar uns dias. Levou consigo, naquela ocasião, os apontamentos de anos de trabalho e pesquisa sobre folclore brasileiro.
Deitado numa rede, com um caderno no colo e escrevendo a lápis, Mário deu à luz um romance ímpar, revolucionário, a que chamou "Rapsódia"como tipologia.
Rapsódia é o resultado de uma "costura"de lendas e, mal comparando, Homero também fez isso quando "costurou" as lendas dispersas sobre Ulisses , compondo, assim, o primeiro trabalho de fôlego de toda a literatura ocidental, setecentos anos antes de Cristo.
Macunaíma é um romance fundamental do Modernismo brasileiro. Inovador e ousado, é obra para se ler devagar, saboreando cada passagem.
Estruturalmente , o livro está dividido em 17 capítulos, que você vai poder conhecer abaixo, um a um. Antes , no entanto, leia este artigo publicado n'O Estado de São Paulo:
Mário de Andrade, um brincalhão elegante
NORMA COURI
Matava baratas com lança- perfume, chamava as sobrinhas de "minhas titicas de galinha", tinha uma gargalhada estrondosa, vivia fazendo brincadeiras e costumava vestir-se cantando e dançando ao som de um disco na vitrola. Os amigos já sabiam: o telefone tocava, ele dava uma cabeçada. Sempre se esquecia de abaixar a cabeça ao passar disparado pelo lado mais baixo do vão da escada do sobrado da Rua Lopes Chaves, 546, na Barra Funda, onde morou até morrer.
O anedotário em torno de Mário de Andrade não tem fim. Era feio, mas travou uma enorme discussão sobre a beleza.
Não tinha dinheiro, mas era muito elegante, só usava ternos de casimira inglesa ou linho branco, desenhava os próprios robes de seda, usava a loção francesa Rêve Rose e pó de arroz para clarear um pouco a pele mulata ("Eu me sinto branco,/ Só branco/ Em minha alma crivada de raças"). Era capaz de pedir à mãe que cortasse a aba do chapéu até a copa, só para gozar um primo que admirava seu estilo "moderno".
Era ligadíssimo à família. Desenvolveu um tremor nas mãos depois da morte do irmão de 13 anos, Renato - e não pôde mais ser pianista. Morou a vida toda com a mãe e a tia no casarão enfeitado de glicínias. A irmã, Maria de Lurdes Camargo, dizia que ele adorava provocar cenas de ciúmes entre elas. Nenhuma das duas entendia Mário. "Li o seu livro inteiro mas não entendi nada", dizia a tia ao sobrinho. Com a mãe, Mário adiantava-se. Dava um livro e já se desculpava: "Eu lhe dou, mas não leia porque a senhora não vai entender nada." Maria de Lurdes foi sua inspiração para os personagens Maria Luisa de Amar, Verbo Intransitivo, e Isabel, a repressiva tia velha do conto Vestido Preto.
"Gosto mesmo da vida e de tudo o que está dentro dela", escreveu. "Diante da vida eu jamais tenho o prazer dum espetáculo. Eu vivo." E brincava com a morte. "Quando eu morrer quero ficar,/ Não contem aos meus inimigos,/ Sepultado em minha cidade,/ As mãos atirem por aí/ Que desvivam como viveram/ As tripas atirem pro Diabo/ Que o espírito será de Deus/ Adeus."
Cultivava amizades. Gastava tempo com os amigos. Escrevia cartas. Passados quase 104 anos do seu nascimento, a 9 de outubro de 1893, ainda não se parou de publicar as cartas. Destinavam-se a "Anitoca queriquerida", Anita Malfatti - a quem enviou a última carta antes de morrer de enfarte a 25 de fevereiro de 1945. Ou o Manu, "Manu do coração, fui à m... como você mandou, porém fui xingando", escreve a Manuel Bandeira, em homenagem de quem batizou sua máquina de escrever, Manuela. Manu, "o maior amigo, o amigo que eu queria ter a meu lado na hora da minha morte. Hoje não posso mais passar sem ti, só tenho mesmo desejo de ter você perto de mim", escreve em diferente momentos. "Você afinal sou eu mesmo."
Mário escreve a Pedro Nava, Murilo Miranda, Luís Câmara Cascudo, Prudente de Morais - o Prudentinho, Prudêndito ou Pru. Escreve a Carlos Drummond de Andrade, Guilherme Figueiredo, Henriqueta Lisboa, Érico Veríssimo, Villa-Lobos, Murilo Mendes. Ainda há tantas cartas nas gavetas dos amigos que a organizadora do arquivo, Telê Ancona Lopes, lastima: "A correspondência ativa de Mário está espalhada e o cruzamento com as cartas que fazem parte do seu espólio é fundamental para identificar datas, situações, fechar a história."
Não era só gente famosa. Responde com carinho a uma senhora que deseja enviar ovos de pata para sua família. Do exílio carioca, envia cerca de 50 despachos ao secretário José Bento contando minúcias do seu cotidiano: o telhado que precisa ser consertado, os caixotes que vão ser despachados, os livros para desinfetar, a máquina de escrever quebrada. Esse documento do dia-a-dia de Mário vai ser publicado até o final do ano num livro que está sendo organizado por Marcos Antonio de Moraes.
Como seu herói Macunaíma, nunca foi a Europa e das fronteiras do Brasil só se afastou até Bolívia e Peru. No seu exemplar de trabalho, logo abaixo da constatação de Macunaíma de que, por falta de dinheiro, não poderia mais ir para a Europa atrás de Piaimã para buscar sua muiraquitã, escreveu à tinta: "Não! Não vou na Europa não! Sou
americano e meu lugar é na América. A civilização européia decerto esculhamba a inteireza do nosso caráter." Mas, no artigo Paris publicado no Diário de Notícias do Rio em 41, reclamou: "É trágico isso do artista que nunca viu Paris. Vivendo entre artistas e intelectuais, foram incontáveis as vezes que tive de engolir a resposta irretorquível: `Você
nunca foi à Europa'."
Apesar disso, sua correspondência traz selos dos quatro cantos do mundo.Reclamava da birra de Prudente, o neto do presidente, de escrever em francês. Acabou com os minuetos das festas futuristas de Lasar Segall. Fotografava com "codaque". Dizia que havia levado 20 anos para adquirir um estilo em português, "o povo não é estúpido quando diz `vou na escola' ou `me deixa' - lições da "Gramatiquinha" que ele nunca escreveu. O autor de Macunaíma estava enterrado nas raízes do Brasil até o osso indígena, negro, mulato, "brothers of three colors" como diz a crítica ao livro feita pela The New York Times Book Review em 1985.
Era múltiplo. Trezentos. "Eu sou trezentos, sou trezentos e cinqüenta,/ Mas um dia afinal eu toparei comigo."
Escreveu Macunaíma em uma semana, numa chácara. "Como cansa escrever deitado!", diria. "Fiz montões de porcarias que não mostrava a ninguém, porcaria grossa, morte sem piedade", escreveu a Bandeira. Mas junto com Amar, Verbo Intransitivo, Paulicéia Desvairada, O Turista Aprendiz, Dicionário Musical Brasileiro, Será o Benedito!,
os livros, póstumos ou não, de folclore, música, crítica, os estudos - por exemplo, sobre Maria, a mulher brasileira — e a correspondência, produziu o melhor da criação brasileira. Há três anos surpreendeu o Brasil com um romance inacabado, Balança, Trombeta e Battleship, que tem uma história no baú a ser aberto por Telê Ancona Lopes. O título do original, mais enxugado, era De Como Eles Perderam a Virgindade. Censurado no Portugal salazarista de 38, Mário trocou na época por Riacho de Chuva.
Conhecia música a fundo, estudou em conservatório. E artes plásticas - colecionou quadros de Tarsila, Segall, Portinari e um Picasso que uma carta de Tarsila, encontrada agora no baú por Telê Ancona Lopes, revela ser autêntico. Mestre em literatura, folclore. Transitava em todas as áreas, provava o melhor de cada uma. Com esse sôfrego desejo de se comunicar, acabou discutindo sobre tudo, fecundou os melhores, estimulou milhares, jovens escritores, embrião de escritor, escritor maduro. "Horrível", "bom", "lindíssimo", nunca deixava de comentar, nas margens dos originais enviados. Às vezes adorava o que havia odiado antes e assumia: "Desdigo tudo o que escrevi."
Mas as críticas que faz a Bandeira, por exemplo, são distintas das que reserva para Drummond ou Nava. Para Mozart Camargo Guarnieri escreveu: "Você dorme nas formas já feitas. Você dorme nos seus cacoetes" e o compositor considerava Mário um "pai espiritual".
"O ganho me fugia em livros e eu me estrepava em cambalachos financeiros terríveis", escreveu a Bandeira, mas virou efígie de uma cédula na década de 90. Assim mesmo, construiu uma biblioteca de mais de 17 mil volumes. Era escrachado mas virou busto sisudo de bronze na praça da biblioteca. Acertou na vida, acertou na morte: previu que morreria aos 50 anos, morreu com 51. Numa carta para Ribeiro Couto, datada de 1923, ele se autodefiniu como "um sujeito sem vaidades, sem orgulhos, que escreve porque se não escrever explode, mas que não pensa na glória e manda esta à m... e gosta de sorvetes de carrocinha". Ele sabia, "sou um sujeito que vale muito mais que a própria obra", escreveu a Murilo Miranda. E ao mesmo Murilo deixou explícito numa carta "declaro solenemente, em estado de razão perfeita, que quem algum dia publicar as cartas que possuo ou cartas escritas por mim, seja em que intenção for, é f.d.p., infame, canalha e covarde. Não tem noção da própria e alheia dignidade". Mas quem ia acreditar no Mário brincalhão?
( Edição de 5 de julho de 1997)

3. Resumo do livro, os capítulos, um a um

Observação mais que necessária:
As palavras , nos trechos transcritos, obedeceram a formalização dada pelo autor; portanto, não se espante se você encontrar muitas delas apresentando uma grafia diferente da convencionada em língua portuguesa de Portugal ou do Brasil. Mário de Andrade era contra qualquer tipo de correção em seus textos ( "Escrevo brasileiro", afirmava.) e respeitamos o desejo do autor.
Primeiro — Macunaíma
"Ai! que preguiça!"
"No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma."
É assim que nosso herói nos é apresentado pelo narrador em terceira pessoa: uma criança feia, filho do medo e da noite.
Tem mais, observe a caracterização do "herói", tão diferente daquela pretendida, por exemplo, pelo romântico Alencar, mais especificamente Peri, em O Guarani ( 1857):
"Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis anos não falando. Si o incitavam a falar exclamava:
- Ai que preguiça!"
Nada mais dizia; trepado num jirau de paxiúba, olhando o trabalho dos outros e dos irmãos ( Maanape, bem velhinho e Jiguê, na força de homem), seu único divertimento era "decepar cabeça de saúva."
Observe aqui como o autor aproveita na narrativa os ditos populares:
"Vivia deitado mas si punha os olhos em dinheiro, "Macunaíma dandava pra ganhar vintém."
E ainda:
"As mulheres se riam muito simpatizadas, falando que "espinho que pinica, de pequeno já traz ponta."
Gostava de tomar banho no rio, com a família. e mergulhava dando beliscões nas mulheres nuas; quando visitava a maloca,"Macunaíma punha as mãos nas graças dela", se alguma cunhatã se aproximasse dele para acarinhá-lo.
O caráter libidinoso do herói começa a se revelar aí. Mais uma vez você pode compará-lo a Peri, de O Guarani: no livro de Alencar, o herói é construído sob o signo da Beleza, Bondade, Justiça, Fidelidade; aqui, nosso herói vai se revelando aos poucos: preguiçoso, mentiroso contumaz, libidinoso. Enfim: "um herói sem nenhum caráter".
"Quando era pra dormir trepava no macuru pequeninho sempre se esquecendo de mijar. Como a rede da mãe estava por debaixo do berço, o herói mijava quente na velha, espantando os mosquitos bem. Então adormecia sonhando palavras-feias, imoralidades estrambólicas e dava patadas no ar."
Outro aspecto que deve ser notado é sobre a linguagem. Verifique que as palavras usadas pertencem ao uso cotidiano, à linguagem coloquial:
"E pediu pra mãe que largasse da mandioca ralando na cevadeira e levasse ele passear no mato. A mãe não quis porque não podia largar da mandioca não."
"Sofará agüentou a sova sem falar um isto. "

Numa pagelança que houve, Rei Nagô fez um discurso e avisou que "o herói era inteligente".
Macunaíma aporrinhava a mãe todos os dias: queria ir brincar no mato. Ocupada em tecer e em ralar mandioca, a mãe pede à Sofará, mulher de Jiguê, que o leve. E a moça carregou o piá nas costas e quando deitou o curumim nas tiriricas, tajás e trapoerabas , "ele botou corpo num átimo e ficou um príncipe lindo. Andaram por lá muito."
Sofará volta com ele pra maloca, depois que ambos "brincam" muito; ao voltar, em frangalhos, depois de tanto brincar, Sofará sofre uma surra do marido, mas nem se importa. Jiguê ainda não desconfiara de nada ; no outro dia, Sofará, com ar de sonsa e vendo que a sogra estava muito ocupada, disse que "estava às ordens", "e foi no mato com o piá nas costas".
Macunaíma armou um laço armar um laço pra pegar anta e brincaram muito por lá.
Jiguê também armou seu laço, feito com fibra de curauá e, ao chegar em casa, vendo que a mulher nada trabalhara, "Jiguê ficou fulo e antes de catar os carrapatos, bateu nela muito. Sofará agüentou a coça com paciência."
O laço do nosso herói prende a anta e a tribo toda louva a inteligência do piá. E Jiguê, pra se vingar , deu a ele, na repartição da caça, apenas as vísceras. O herói jurou vingança.
Continuava brincando com a cunhada:
"No outro dia pediu pra Sofará que levasse ele passear e ficaram no mato até a boca-da-noite. Nem bem o menino tocou no folhiço e virou um príncipe fogoso. Brincaram. Depois de brincarem três feitas, correram mato fora fazendo festinhas um pro outro. Depois das festinhas de cotucar, fizeram a das cócegas, depois se enterraram na areia, depois se queimaram com fogo de palha, isso foram muitas festinhas. Macunaíma pegou num tronco de copaíba e se escondeu por detrás da piranheira. Quando Sofará veio correndo, ele deu com o pau na cabeça dela. Fez uma brecha que a moça caiu torcendo de riso aos pés dele. Puxou-o por uma perna. Macunaíma gemia de gosto se agarrando no tronco gigante. Então a moça abocanhou o dedão do pé dele e engoliu. Macunaíma chorando de alegria tatuou o corpo dela com o sangue do pé. Depois retesou os músculos, se erguendo num trapézio de cipó e aos pulos atingiu num átimo de segundo o galho mais alto da piranheira. Sofará trepava atrás. O ramo fininho vergou oscilando com o peso do príncipe. Quando a moça chegou também no tope eles brincaram outra vez balanceando no céu. Depois de brincarem Macunaíma quis fazer uma festa em Sofará. Dobrou o corpo todo na violência dum puxão mas não pôde continuar, galho quebrou e ambos despencaram aos emboléus até se esboracharem no chão."
Era assim que brincavam. Ocorre que Jiguê, o marido traído, foi espiar, desconfiado, e viu tudo: transformação do herói e as brincadeiras. teve raiva, bateu em Macunaíma com rabo-de-tatu, "chegou-o com vontade na bunda do herói. O berreiro foi tão imenso que encurtou o tamanhão da noite e muitos pássaros caíram de susto no chão e se transformaram em pedra."
Sofará foi devolvida ao pai, Macunaíma, moído da surra, correu até um cardeiro e comeu a raiz dele todinha: voltou sarado do mato.
Segundo- Maioridade

"- Mãe, eu sonhei que caiu meu dente.
- Isso é morte de parente."
Jiguê se casou de novo, bobo que era; a companheira nova dele se chamava Iriqui. "Ela trazia sempre um ratão vivo escondido na maçaroca dos cabelos e faceirava muito." Pintava os beiços de roxo e depois passava limão-de-caiena por cima e eles ficavam vermelhíssimos; vestia-se com um manto listrado de verde e preto e se perfumava toda de essência de umiri. Ficava linda, ela.
Depois de terem comido anta de Macunaíma, começou uma fome sem fim no mocambo:
"Caça, ninguém não pegava caça mais, nem algum tatu-galinha aparecia!" Tudo porque Manaape matara um boto para comerem. Não havia mais nada pra comer , "nem uma isca de jobá."
O herói inventa histórias, diz que sabe onde tem peixe: "- Junto daquela grota, onde tem dinheiro enterrado enxerguei um despotismo de timbó."
O herói faz feitiços e leva a casa dele e da mãe pra longe, onde havia peixes, comida, muita, bananas. Quando a mãe saiu pra colher bananas, o herói perguntou por que ela colhia tantas assim. Quando soube que era pros manos, resolveu desfazer o feitiço e se pôs , de novo, no meio da fome e da miséria, o que irritou a mãe:
"Então a velha teve uma raiva malvada. Carregou o herói na cintura e partiu. Atravessou o mato e chegou no capoeirão chamado Cafundó do Judas. Andou légua e meia nele, nem se enxergava mato mais (...) A velha botou o curumim no campo onde ele podia crescer mais não e falou:
- Agora vossa mãe vai embora. Tu ficas perdido no coberto e podes crescer mais não."
Apavorou-se, andou desesperado, mas "não chorou mais não. Criou coragem e botou pé na estrada, tremelicando com as perninhas de arco. Vagamundou de déu em déu semana, até que topou com o Currupira moqueando carne, acompanhado do cachorro dele Papamel:
- Meu avô, dá caça pra mim comer?
- Sim, Currupira fez.
Cortou carne da perna moqueou e deu pro menino, perguntando:
-O que você está fazendo na capoeira, rapaiz!
- Passeando.
- Não diga!"
Macunaíma contou ao Currupira que tinha sido castigado pela mãe porque foi malévolo com os manos. Currupira avisou que o herói não era mais um piá, era um rapaz e Macunaíma aproveitou para perguntar se ele sabia o caminho para os mocambos dos Tapanhumas.
"O Currupira estava querendo mas era comer o herói, ensinou falso:
"- Tu vai por aqui, menino-home, vai por aqui, passa pela frente daquele pau, quebra a mão esquerda, vira e volta por debaixo dos meus uaiariquizinês.
Macunaíma foi fazer a volta porém chegado na frente do pau, coçou a perninha e murmurou:
- Ai, que preguiça!...
e seguiu direito."
O Currupira esperou, mas quem disse que Macunaíma fez o caminho ensinado? Era esperto, tinha desconfiado. Currupira montou no veado, que é cavalo dele, fincou o pé na virilha do animal e berrou a todo pulmão, a fim de que a carne, de dentro da barriga do herói, respondesse:
"- Carne de minha perna! carne de minha perna!
Lá dentro da barriga do herói a carne respondeu:
- Que foi?"
Macunaíma vomitou a carne numa poça, e ela "morreu afogada".
Encontrou a cotia farinhando a mandioca, pediu um pouco pra comer, e, como se a cotia perguntasse o que andava fazendo por ali, disse que passeando. E contou pra ela que tinha enganado o Currupira. Recebeu conselho:
"- Culumi faz isso não, meu neto, culumi faz isso não... Vou te igualar o corpo com besunto.
Então pegou na gamela cheia de caldo envenenado de aipim e jogou a lavagem no piá. Macunaíma fastou sarapantado mas só conseguiu livrar a cabeç, todo o resto do corpo se molhou. O herói deu um espirro e botou corpo. Foi desempenando crescendo fortificando e ficou do tamanho dum homem taludo. Porém a cabeça não molhada ficou pra sempre rombuda e com carinha enjoativa de piá..
Macunaíma agradeceu o feito e frechou cantando pro mocambo nativo. A noite vinha besourenta enfiando as formigas na terra e tirando os mosquitos d'água. A velha tapanhumas escutou a voz do filho no longe cinzado e se espantou: Macunaíma apareceu de cara amarrada e falou pra ela:
- Mãe, sonhei que caiu meu dente.
- Isso é morte de parente, comentou a velha.
- Bem que eu sei. A senhora vive mais uma Sol só. Isso mesmo porque me pariu."
Os manos saíram para caçar e pescar no outro dia e Macunaíma brincou com Iriqui. Quando Jiguê chegou, ficou bravo, mas não quis brigar com o irmão, agora homem troncudo. Deu Iriqui para ele e os dois dormiram na rede.
Sem querer, no meio de um passeio, o herói flechou uma viada parida: matou a própria mãe por engano, por brincadeira de Anhangá que a tinha transformado no animal.
Quando o herói voltou da sapituca foi chamar os manos e os três chorando muito passaram a noite de guarda bebendo oloniti e comendo carimã com peixe. Madrugadinha pousaram o corpo da velha numa rede e foram enterrá-la por debaixo duma pedra no lugar chamado Pai da Tocandeira. Manaape, que era um catimbozeiro de marca maior, foi que gravou o epitáfio.
Jejuaram como mandava o preceito e, durante o jejum, o herói se lamentou heroicamente. A barriga da morta inchou tanto que virou um cerro macio.
"Então Macunaíma deu a mão pra Iriqui, Iriquei deu a mão pra Manaape, Manaape deu a mão pra Jiguê e os quatro partiram por esse mundo."
Terceiro — Ci, a mãe do mato
"- Meu filho, cresce depressa pra você ir pra São Paulo ganhar
muito dinheiro."

Andando pelo mundo, estavam os quatro penando com Vei, a Sol, que "esfiapando por entre a folhagem guascava sem parada o lombo dos andarengos. Suavam como numa pagelança em que todos tivessem besuntado o corpo com azeite de piquiá, marchavam. De repente Macunaíma parou riscando a noite do sil6encio com um gesto imenso de alerta. Os outros estacaram. Não se escutava nada porém Macunaíma sussurrou:
- Tem coisa."
E tinha.
Fuçando no mato, Macunaíma topou com Ci dormindo:
"Era Ci, Mãe do Mato. Logo viu pelo peito destro seco dela, que a moça fazia parte dessa tribo de mulheres sozinhas parando lá nas praias da lagoa Espelho da Lua, coada pela Nhamundá. A cunhã era linda com o corpo chupado pelos vícios, colorido com genipapo.
O herói se atirou por cima dela pra brincar. Ci não queria."
Ci pertence à tribo das icamiabas, não gosta de homem. Brigaram. "Foi um pega tremendo. (...) O herói apanhava. (...) A icamiaba não tinha nem um arranhãozinho e cada gesto que fazia era mais sangue no corpo do herói soltando berros formidandos que diminuíam de medo os corpos dos passarinhos. Afinal se vendo nas"amarelas porque não podia mesmo com a icamiaba, o herói deitou fugindo chamando pelos manos:
- Me acudam que sinão eu mato! me acudam que sinão eu mato!"
Perceba que a linguagem alcança níveis muito coloquiais. Mário inicia parágrafos com pronomes oblíquos, usa linguagem oral: "um pega tremendo", "se vendo nas amarelas"...
Ou seja, a linguagem corresponde ao que os modernistas pretendiam como "livre expressão", um dos postulados mais importantes desta escola.
Os manos agarraram Ci, prenderam os braços dela e Jiguê deu-lhe "uma porrada no coco". Quando Ci ficou bem imóvel, Macunaíma brincou com ela."Vieram então muitas jandaias, muitas araras vermelhas, tuins coricas periquitos, muitos papagaios saudar Macunaíma, o novo Imperador do Mato-Virgem."
Os irmãos e a cunhada foram embora. Ci comandava assaltos com outras mulheres e o nosso herói "vivia sossegado". Passava os dias na rede. "De-noite Ci chegava rescendendo resina de pau, sangrando das brigas e trepava na rede que ela mesmo tecera com fios de cabelo. Os dois brincavam e depois ficavam rindo um pro outro.
Ficavam rindo longo tempo, bem juntos. Ci aromava tanto que Macunaíma tinha tonteiras de moleza.
- Puxa como você cheira, benzinho!
que ele murmuriava gozado. E escancarava as narinas mais. Vinha uma tonteira tão macota que o sono principiava pingando das pálpebras dele. Porém a Mãe do Mato inda não estava satisfeita não e com um jeito de rede que enlaçava os dois convidava o companheiro pra mais brinquedo. Morto de soneira, infernizado, Macunaíma brincava pra não desmentir a fama só, porém quando Ci queria rir com ele de satisfação:
- Ai, que preguiça!...
que o herói suspirava enfarado. E dando as costas pra ela adormecia bem. Mas Ci queria brincar inda mais... Convidava convidava... O herói ferrado no sono. Então a Mãe do Mato pegava na txara e cotucava o companheiro. Macunaíma se cordava dando grandes gargalhadas esforcegando de cócegas.
- Faz isso não, oferecida!
- Faço!
- Deixa a gente dormir, meu bem...
-Vamos brincar.
-Ai, que preguiça!...
E brincavam mais outra vez."
Quando Macunaíma bebia muito pejuari, Ci encontrava o Imperador do Mato_Virgem largado, queria brincar mais, mas ele dormia no meio: chumbado de tudo, adormecia feliz, procurando um macio nos cabelos da companheira.
Ci, danada da vida, para animá-lo, "empregava o estratagema sublime. Buscava no mato a folhagem de fogo da urtiga e sapecava com ela uma coça coçadeira no chuí do herói e na nalachítchi dela. Isso Macunaíma ficava que ficava um lião querendo. Ci também. E os dois brincavam que mais brincavam num deboche de ardor prodigioso."
Nas noites de calor, Macunaíma atirava Ci fora da rede. Ela acordava cheia de fúria: "Brincavam assim. E agora despertados inteiramente pelo gozo inventavam artes novas de brincar."
Seis meses depois a Mãe do Mato pariu uma criança encarnada. Saudado por Pastoris de Natal, mulatas, seresteiros, "O pequerrucho tinha a cabeça chata e Macunaíma a achatava mais batendo nela todos os dias e falando pro guri:
- Meu filho, cresce depressa pra você ir pra São Paulo ganhar muito dinheiro."
E todas as icamiabas queriam bem ao menino, nem Tutu Marambá podia com ele. Vieram , de São Paulo, os famosos sapatinhos de lã tricotados por dona Ana Francisca de Almeida Leitão Morais.
Mas chegou a Cobra Preta e tanto chupou o único peito vivo de Ci que não deixou nada de leite, com o peito envenenado. Como não havia quem desse leite pro guri, ele chupou o peito da mãe e morreu envenenado.
Triste , depois do enterro, Ci deu a Macunaíma a sua muiraquitã famosa e subiu ao céu por um cipó. Virou a Beta do Centauro.
"No outro dia quando Macunaíma foi visitar o túmulo do filho viu que nascera do corpo uma plantinha. Trataram dela com muito cuidado e foi o guaraná. Com as frutinhas piladas dessa planta é que a gente cura muita doença e se refresca durante os calorões de Vei, a Sol."
Quarto — Boiúna Luna
"Marvada! que ele gemia..."
Macunaíma padecia de saudades de Ci "pra sempre inesquecível". Fez da muiraquitã um tembetá, colocou-o no beiço inferior furado, chamou os manos, despediu-se das icamiabas e foi embora.
Sempre acompanhado de um séquito de araras vermelhas e jandaias, por toda a parte recebia homenagens como imperador. Com a alma roxa de saudades, exclamava nas noites: "Marvada!" que ele gemia...
Então ficava muito sofrendo, muito! e invocava os deuses bons cantando cânticos de longa duração...
Rudá, Rudá!...
Tu que secas as chuvas,
Faz com que os ventos do oceano
Desembestem por minha terra
Pra que as nuvens vão-se embora
E a minha marvada brilhe
Limpinha e firme no céu!...
Faz com que amansem
Todas as águas dos rios
Pra que eu me banhando neles
Possa brincar com a marvada
Refletida no espelho das águas!...
E chorava, pedindo o consolo dos irmãos que, vendo aquilo, se emocionavam muito também. Pra ele poder dormir, catavam-lhe os carrapatos. No dia seguinte, retomavam a caminhada, Macunaíma sempre seguido das araras e jandaias.
No caminho escutaram um longo lamento de moça. Não era moça, era uma cascata "chorando sem parada". Macunaíma perguntou pra cascata:
"-Que é isso!
- Chouriço!
- Conta o que é.
E a cascata contou o que tinha sucedido a ela."
Aqui, neste romance, tudo é possível. O que você vê agora é o maravilhoso em ação. Os homens podem dialogar com bichos, com cascatas, tal como nas lendas folclóricas de que tanto Mário gostava.
A cascata disse que se chamava Naipi e é filha do tuxaua Mexô-Mexoitiqui, que quer dizer Engatinha-Engatinha. Naipi conta que todos os homens de sua tribo queriam dormir com ela, mas que se recusava a isso, dandi-lhes dentadas e pontapés. E eles iam embora chateados. Mas a tribo de Naipi era escrava do boiúna Capei, que morava em companhia das saúvas.
"Sempre no tempo em que os ipês de beira-rio se amarelavam de flores a boiúna vinha na taba escolher a cunhã virgem que ia dormir com ela na socava cheia de esqueletos.
Quando meu corpo chorou sangue pedindo força de homem para servir, a suinara cantou manhãzinha nas jarinas de meu tejupá, veio Capei e me escolheu. Os ipês de beira-rio relampevam de amarelo e todas as flores caíram nos ombros soluçando do moço Titçatê guerreiro de meu pai."
Titçatê veio de noite procurando Naipi, que o mordeu, mas, enfim, aceitou dormir com ele e depois fugiram juntos da boiúna.
Capei foi buscar a moça na rede, mas só encontrou sangue , gritou , deu um urro, e saiu procurando os dois fugitivos. Prendeu a moça, "fez a sorte do ovo nela"e descobriu que não era mais virgem. Transformou o moço em planta que dá flores roxas e transfornou Naipi em cascata.
Depois de ouvir a queixa da moça, Macunaíma chora e diz:
"- Si... si... si a boiúna aparecesse eu... eu matava ela!"
Nosso herói se assusta quando a boiúna aparece: a boiúna é Capei, saindo da água, com a boca aberta e lançando fora uma nuvem de marimbondos. Mas nosso herói dá um jeito de decepar a cabeça do monstro. Correndo, ele e os manos partiram dali, encontraram o bacharel de Cananéia que falava difícil demais, foram embora. Só então Macunaíma percebeu que tinha perdido o muiraquitã.
A cabeça da boiúna ficara escrava do herói e ia atrás dele onde fosse, podendo virar qualquer coisa. Desprezada por Macunaíma, a cabeça de Capei sobe aos céus com a ajuda das aranhas e vira a Lua:
"- Adeus, meu povo, que vou pro céu!
E foi comendo fio sobessubindo pro campo vasto do céu. Os manos abriram a porta e espiaram. Capei sempre subindo."
Procuraram o muiraquitã por toda a parte; Macunaíma sempre com saudades de Ci. Chorando, sempre exclamava:
"- Qual, manos! Amor primeiro não tem companheiro, não!..."
Um dia, Macunaíma estava rezando pro Negrinho do Pastoreio que, apiedado, mandou o uirapuru contar tudo pro herói: o muiraquitã estava com Venceslau Pietro Pietra, em São Paulo, "a cidade macota lambida pelo igarapé Tietê."
E pra achar o talismã , resolve ir pra São Paulo. Os irmão, sabendo que o herói carecia de proteção, foram com ele.
Quinto — Piaimã
"A inteligência do herói estava muito perturbada."


Observar: aqui, há uma inversão do que chamamos relatos quinhentistas na literatura. Não se trata da visão do branco vendo o índio: é o índio, Macunaíma e irmãos, que vê os brancos.
Macunaíma, Jiguê e Manaape desceram pelo Araguaia, de barco:
"Na frente Macunaíma vinha de pé, carrancudo, procurando no longe a cidade. Matutava matutava roendo os dedos agora cobertos de berrugas de tanto apontarem Ci estrela. Os manos remavam espantando os mosquitos e cada arranco dos remos repercutindo nas duzentas igaras ligadas, despejava uma batelada de bagos na pele do rio, deixando uma esteira de chocolate onde os camuatás pirapitingas dourados piracanjubas uarus-uarás e bacus se regalavam."
Chocolate porque pegaram carona num barco cheio de cacau.
A lenda da formação da etnia nacional está desenvolvida aqui: um dia, Macunaíma cismou de tomar banho, mas tinha medo das piranhas que se comiam até entre si. Então, abicaram a canoa e Macunaíma viu, numa pedra, a marca de um pé gigante, o pé do Sumé, "do tempo em que nadava pregando o evangelho de Jesus pra indiaiada brasileira. Quando o herói saiu do banho estava branco louro e de olhos azuizinhos, água lavara o pretume dele. E ninguém não seria capaz mais de indicar nele um filho da tribo retinta dos Tapanhumas.
Nem bem Jiguê percebeu o milagre, se atirou na marca de pezão do Sumé. Porém a água já estava muito suja da negrura do herói e por mais que Jiguê esfregasse feito maluco atirando água pra todos os lados só conseguiu ficar cor de bronze novo. Macunaíma teve dó e consolou:
- Olhe, mano Jiguê, branco você não ficou não, porém pretume foi-se e antes fanhoso que sem nariz.
Maanape então é que foi se lavar, mas Jiguê esborrifara toda a água encantada para fora da cova. Tinha só um bocado lá no fundo e Maanape conseguiu molhar só a palma dos pés e das mãos. Por isso ficou negro bem filho da tribo das Tapanhumas. Só que as palmas das mãos e dos pés dele são vermelhas por terem se limpado na água santa. Macunaíma teve dó e consolou:
- Não se avexe, mano Maanape, não se avexe não, mais sofreu nosso tio Judas!"
De novo retomaram o caminho. E ao chegarem a SPaulo, Macunaíma soube que teria que trabalhar para viver. Murmurou desolado:
- Ai , que preguiça!...
Ao chegarem em SPaulo, venderam na Bolsa o cacau que traziam, o que lhes rendeu oitenta contos. Foi com este dinheiro que eles passaram a viver.
"E foi uma boca-da-noite frio que os manos toparam com a cidade macota de São Paulo esparramada a beira-rio do igarapé Tietê. primeiro foi a gritaria da papagaiada imperial se despedindo do herói. "
Que mundo de bichos!
As meninas de São Paulo ensinavam aos manos que o sagüi-açu não era sagüi, não, era uma máquina e se chamava elevador... olhar de índios descobrindo a cidade...
As onças pardas eram fordes hupmobiles chevrolés dodges... os tamanduás eram bondes.
"(...) eram caminhões bondes autobondes anúncios-luminosos relógios faróis rádios motocicletas telefones gorjetas postes chaminés... Eram máquinas e tudo na cidade era só máquina! O herói aprendendo calado. De quando em quando estremecia. Voltava a ficar imóvel escutando assuntando maquinando numa cisma assombrada. Tomou-o um respeito cheio de inveja por essa deusa de deveras forçuda, Tupã famanado que os filhos da mandioca chamavam de Máquina, mais cantadeira que a Mãe-D'água, em bulhas de sarapantar.
(...) A máquina não era deus não, nem possuía os distintivos femininos de que o herói gostava tanto. Era feita pelos homens. se mexia com eletricidade com fogo com água com vento com fumo, os homens aproveitando as forças da natureza. Porém Jacaré acreditou? nem o herói!"
Foi morar numa pensão, com os manos. teve escarlatina e , no meio da febre, imaginou se armando de uma garrucha para matar o gigante.
Sarou e foi falar com os Ingleses. Enfezado, Jiguê foi na máquina telefone, ligou pro gigante e xingou a mãe dele.
Sexto — A francesa e o gigante
"Valei-me Nossa Senhora,
Santo Antônio de Nazaré,
A vaca mansa dá leite,
A braba dá si quisé!"
Macunaíma vai procurar Venceslau Pietro Pietra como se fosse uma francesa que queria falar com ele sobre negócios. Combina tudo por telefone. Venceslau aceita, dizendo que poderia ir lá, já que a velha Ceiuci tinha saído com as duas filhas e podiam negociar mais folgado.
Macunaíma pediu para a dona da pensão roupas, batom, perfume, combinação, cinta, pintou os olhos com sombra azul e ficou uma francesa linda demais. Assim, vestido de mulher, foi ao palácio do gigante Piaimã "comedor de gente".
"Lá chegado encontrou o gigante no portão, esperando. Depois de muitos salamaleques Piaimã tirou os carrapatos da francesa e levou-a pra uma alcova lindíssima com esteios de acaricoara e tesouras de itaúba. (...)"
Vonhos, cerâmicas lindas, redes do Maranhão completavam o quadro; bombons e biscoitos finos. Macunaíma, de francesa, gracioso, comeu bem. E foi logo perguntando se o gigante tinha um muiraquitã. Venceslau foi lá dentro, trouxe um caramujo e de dentro tirou retirou o... muiraquitã. A francesa perguntou se queria vender a pedra, o gigante disse que não; perguntou se emprestava a pedra, Venceslau respondeu que emprestada não dava a pedra, não...
Macunaíma descobriu que Piaimã colecionava pedras de todo tamanho, jeito, espécie, preciosas ou não.
"Vai, ele sentou na rede mui rente da francesa, muito! e falou murmuriando que com ele era oito ou oitenta, não vendia não emprestava a pedra, mas porém era capaz de dar... "Conforme..." O gigante estava mas era querendo brincar com a francesa."
Macunaíma disparou, correndo, pelo jardim. Encontrou uma boneca de cera de carnaúba, bem pretinha, numa moita e tascou um tapa nela. Ficou grudado, tascou chutes, se grudou todo. O gigante tirou-o da boneca, colocou no cesto. Por um buraco, Macunaíma foi dando a ele as roupas, anágua, meias. Por fim, colocou o "sim-sinhô"no buraco do cesto; o gigante ficou furioso. Nosso herói fugiu chegou espavorido na pensão.
"Chegou na pensão tomando a bênção de cachorro e chamando gato de tio, só vendo! suando esfolado com fogo nos olhos, botando os bofes pela boca. (...)Descansou. Praque mais pedra que é tão pesado de carregar!... Estendeu os braços com moleza e murmurou:
- Ai! que preguiça!..."
E pensou nas palavras feias que colecionava, inclusive as italianas.
Sétimo — Macumba
"Macunaíma estava muito contrariado."
Nosso herói estava contrariado e inconsolável, tinha decidido que o melhor era matar o gigante, mas tinha força pouca e ficou com muito medo do Piaimã.
"Pois então resolveu tomar um trem e ir no Rio de Janeiro se socorrer e Exu diabo em cuja honra se realizava uma macumba no outro dia.
Era junho e o tempo estava inteiramente frio. A macumba se rezava lá no Mangue no zungu da tia Ciata, feiticeira como não tinha outr, mãe-de-santo famanada e cantadeira ao violão. Às vinte horas Macunaíma chegou na biboca levando debaixo do braço o garrafão de pinga obrigatório. Já tinha muita gente lá, gente direita, gente pobre, advogados garçons pedreiros meia-colheres deputados gatunos, todas essas gentes e a função ia principiando."
A macumba principiou, com negro tocando atabaque, filho de Ogum, bexiguento e tia Ciata convidou:
"- Va- mo sa-ravá!..."
Macunaíma pediu ao Exu que mandasse dar uma surra em Venceslau:
E Macunaíma falou:
- Venho pedir pra meu pai por causa que estou muito contrariado.
- Como se chama? perguntou o Exu.
- Macunaíma, o herói.
- Uhm... o maioral resmungou, nome principiado por Ma tem má-sina...
(...)
Então foi horroroso o que se passou. Exu pegou três pauzinhos de erva-cidreira benta por padre apóstata, jogou pro alto, fez encruzilhada, mandando o eu de Venceslau Pietro Pietra vir dentro dele Exu pra apanhar. Esperou um momento, o eu do gigante veio, entrou dentro da fêmea, e Exu mandou o filho dar a sova no eu que estava encarnado no corpo polaco. O herói pegou uma tranca e chegou-se em Exu com vontade. Deu mais que deu. Exu gritava:
Me espanca devagar
que isto dói dói dói!
Também tenho família
e isto sói, dói, dói!
Enfim roxo de pancada sangrando pelo nariz pela boca pelos ouvidos caiu desmaiando no chão."
E lá na rua Maranhão, onde morava o gigante, estava o maior corre-corre: Venceslau sangrava todo, urrando de dor. Queimado, mordido, o gigante levou a pior na vingança.
Aqui, Mário diz que os macumbeiros, terminada a sessão, foram comemorar. Mas dá a eles nomes de escritores famosos: Jaime Ovalle, Dodô, Manu Bandeira, Raul Bopp.
Oitavo — Vei, a Sol
"Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são!"
Macunaíma foi andando, viu uma árvore e pediu uma fruta. Como se ela não quisesse dar, ele fez uma macumba e todos os frutos caíram no chão e ele comeu bem; a árvore, que se chama Volomã ficou com ódio, pegou o herói pelos pés e atirou-o pra além da baía de Guanabara.
No meio do vôo , o herói dormiu e caiu dormindo embaixo de uma palmeirinha onde se encarapitava um urubu. Urubu fez "necessidades "nele. Triste, Macunaíma pediu à estrela da manhã que o levasse embora, que estava enjoado de viver:
"- Vá tomar banho! ela fez. E foi-se embora.
Assim nasceu a expressão "Vá tomar banho!"que os Brasileiros empregam se referindo a certos imigrantes europeus."
Capei, a Lua, vinha passando e Macunaíma pediu bênção a ela. Pediu que ela o levasse à ilha de Marajó, mas ela sentiu seu cheiro horrível e mandou-o também tomar banho. Macunaíma estava com frio. Mas lá vinha chegando Vei, a Sol. Ela mandou que três filhas suas lavassem o herói, catassem carrapatos nele, limpassem suas unhas. E Macunaíma ficou todo limpinho outra vez.
Vei queria fazê-lo seu genro e ordenou às filhas que caprichassem nos "muitos cafunés e cosquinhas no corpo todo do herói." Macunaíma gostou tanto que adormeceu ali, no quentinho. Aquilo foi bom demais.
Prometeu a Vei que não mexeria mais com mulher alguma, pois a Sol tinha prometido que, caso isso acontecesse, poderia incendiar a Terra. Mas mal Vei e as filhas saíram, nosso herói exclamou:
"- Pois que fogo devore tudo! Macunaíma exclamou. Não sou frouxo agora pra mulher me fazer mal!
E uma luz vasta brilhou no cérebro dele. Se ergueu na jangada e com os braços oscilando por cima da pátria decretou solene:
- POUCA SAÚDE E MUITA SAÚVA, OS MALES DO BRASIL SÃO!"
Topou com uma portuguesa que fora peixeira na terra do cumpadre chegadinho-chegadinho e fizeram amor, os dois. Mas as filhas de Vei o surpreenderam com a portuguesa. Ficaram muito danadas com ele, a mãe também.
Vei revelou ao herói que queria fazê-lo casar com uma das suas filhas, mas que agora, não poderia mais.
E foi embora, levando as filhas.
Macunaíma ., depois de brincar com a portuguesa várias vezes, se cansou e veio pra São Paulo, de volta.
Nono — Carta pras icamiabas
"Nem cinco sóis eram passados que de vós nos partíramos,
quando a mais temerosa desdita pesou sobre nós."

Aqui, há um deboche esplêndido contra os que escreviam conservadoramente, os puristas da língua portuguesa que tanto incomodavam o escritor. A carta às icamiabas destoa de tudo quanto até aqui escreveu o narrador. A linguagem ora lembra Camões ( esse Mário queria ressaltar o quanto os escritores ainda se pautavam pelo Classicismo vernacular, os submissos às regras gramaticais), ora a de Coelho Neto ou Rui Barbosa. Há trechos nitidamente assemelhados a Olavo Bilac, Alberto de Oliveira e outros que eram, até então, considerados "a fina flor"dos intelectuais brasileiros.
Na carta, Macunaíma escreve às icamiabas e conta-lhes sua história de peregrinação atrás da muiraquitã, dos problemas vividos com Venceslau Pietro Pietra. Confessa-se sem dinheiro e pede a elas que enviem ao Imperador o "cacau"de que precisa tanto. Descreve, ainda, São Paulo, seus hábitos e costumes.
Veja os trechos:
"Às mui queridas súbditas nossas, Senhoras Amazonas.
Trinta de Maio de Mil Novecentos e vinte e Seis, São Paulo.
Senhoras:
Não pouco vos surpreenderá, por certo, o endereço e a literatura desta missiva. Cumpre-vos, entretanto, iniciar estas linhas de saudades e muito amor, com desagradável nov. É bem verdade que na cidade de São Paulo — a maior do universo, no dizer de seus prolixos habitantes — não sois conhecidas por "icamiabas", vos espúria, sinão pelo apelativo de Amazonas; e de vós, se afirma, cavalgardes ginetes belígeros e virdes da Hélade clássica; e assim sois chamadas. Muito nos pesou a nós, Imperator vosso, tais dislales da erudição porém heis de convir conosco que, assim, ficais mais heróicas e mais conspícuas, tocadas por essa plátina respeitável da tradição e da pureza antiga.
(...)
Nem cinco sóis eram passados que de vós nos partíramos, quando a mais temerosa desdita pesou sobre nós. Por uma bela noite dos idos de maio do ano translato, perdíamos a muiraquitã; que outrem grafara muraquitã, e, alguns doutos, ciosos de timologias esdrúxulas, ortografam muyrakitan e até mesmo muraquéitã, não sorriais! Haveis de saber que este vocábulo, tão familiar às vossas trompas de Eustáquio, é quase desconhecido por aqui. (...)
Apenas alguns "sujeitos de importância em virtude e letras", como já dizia o bom velhinho e clássico frei Luís de Sousa, citado pelo doutor Rui Barbosa, ainda sobre as muiraquitãs projetam as suas luzes, para aquilatá-las de medíocre valia, originárias da Ásia, e não de vossos dedos, violentos no polir.
Estávamos ainda abatido por termos perdido a nossa muiraquitã, em forma de sáurio, quando talvez por algum influxo metapsíquico, ou, qui lo sá, provocado por algum libido saudoso, como explica o sábio tudesco, doutor Sigmundo Freud ( lede Fróide), se nos deparou em sonho um arcanjo maravilhoso. Por ele soubemos que o talismã perdido estava nas diletas mãos do doutor Venceslau Pietro Pietra, súbdito do Vice-Reinado do Peru, e de origem francamente florentina, como os Cavalcantis de Pernambuco. E como o doutor demorasse na ilustre cidade anchietana, sem demora nos partimos para cá, em busca do velocino roubado.
(...)
Porque, súbditas dilectas, é incontestável que Nós, Imperator vossa, nos achamos em precária condição. O tesouro que daí trouxemos, foi-nos de mister convertê-lo em moeda corrente do país; e tal conversão muito nos há dificultado o mantenimento, devido às oscilações do câmbio do Câmbio e à baixa do cacau.
Sabereis mais que as donas de cá não se derribam a pauladas, nem brincam por brincar, gratuitamente, senão que às chuvas do vil metal, repuxos brasonados de champagne, e uns monstros comestíveis, a que, vulgarmente, dão o nome de lagostas. E que monstros encantados, senhoras Amazonas!!!
(...)Ainda lhes difere o físico, tanto ou quanto monstruoso, bem que de amável monstruosidade, por terem elas o cérebro nas partes pudendas, e como tão bem se diz em linguagem madrigalesca, o coração nas mãos.
(...) Por iss e para eterna lembrança destes paulistas, que são a única gente útil do país, e por isso chamados de Locomotivas, nos temos ao trabalho de metrificarmos um dístico, em que se encerram os segredos de tanta desgraça:
"POUCA SAÚDE E MUITA SAÚDE, OS MALES DO BRASIL SÃO."
Este dístico é que houvemos por bem escrevermos no livro de Visitantes Ilustres do Instituto Butantã, quando foi da nossa visita a esse estabelecimento famoso na Europa.
(...) Com pouco o vosso abstêmio Imperador se contenta; si não puderdes enviar duzentas igaras cheias de bagos de cacau, mandai cem, ou menos, cinqüenta!
Recebei a bênção do vosso Imperador e mais saúde e fraternidade. Acatai com respeito e obediência estas mal traçadas linhas; e, principalmente, não os esqueçais das alvíçaras e das polonesas, de que muito hemos mister.
Ci guarde Vossas Excelências,
Macunaíma
Imperator.
Décimo- Pauí-Pódole
"Macunaíma estava muito contrariado com aquele chove-não-molha."
Este capítulo — como frisa o título — dá ressalto à lenda da formação do Cruzeiro do Sul, mito indígena denominado Mauai-Pódole.
Depois da sova na macumba, o gigante Venceslau ficara muito doente, com o corpo todo moído, envolvido em algodão. Esperto, guardara a muiraquitã no caramujo bem debaixo dele. Nosso herói estava contrariado com aquilo tudo e pediu pouso na pensão do índio Antônio, sonhando novas vinganças. A mulher do índio, Mãe de Deus, foi visitar o herói que agora estava derreado na rede e o batizou numa religião — Caraimonhaga — que fazia furor no sertão baiano.
"Macunaíma aproveitava a espera se aperfeiçoando nas duas línguas da terra, o brasileiro falado e o português escrito."
Comemorava-se o Cruzeiro do Sul e Macunaíma , assistindo discursos, disse que não era Cruzeiro do Sul coisa nenhuma, que aquilo lá a história do Pai do Mutum. Todo mundo ouviu assombrado e acreditou na lenda que o herói contou, lenda denominada Pauí Pódole.
Décimo primeiro — A velha Ceiuci
"Quando a vontade de chorar parou, Macunaíma afastou os
mosquitos e quis espairecer."
Depois de passar a noite brincando com a dona da pensão, "o herói acordou muito constipado. Era porque apesar do calorão da noite ele dormira de roupa com medo da Caruviana que pega indivíduo dormindo nu." Ainda estava feliz com o sucesso de seu discurso de véspera e convidou os manos para saírem com ele a fim de caçar.
Chegando ao Bosque da Saúde, botou fogo no mato e esperou que algum veado mateiro saísse. Do fogo, só saíram dois ratos chamuscados, que ele comeu sem repartir com os manos. Voltou para a pensão.
"Lá chegado ajuntou os vizinhos, criados e a patroa cunhãs datilógrafos estudantes empregados-públicos, muitos empregados-públicos! todos esses vizinhos e contou pra eles que tinha ido caçar na feira do Arouche e matara dois...
- ... mateiros, não eram viados não, dois viados catingueiros que comi com os manos. Até vinha trazendo um naco pra vocês mas porém escorreguei na esquina, caí e derrubei o embrulho e cachorro comeu tudo."
Mas os manos, quando chegaram, desmentiram tudo e os vizinhos entraram no quarto do herói, pedindo satisfação.
Ele diz que mentiu:
"- Mas praque você mentiu, herói!
- Não foi por querer não... quis contar o que tinha sucedido pra gente e quando reparei estava mentindo..."
Daí, pegou um ganzá e cantou até que chorou muito, com saudades de Ci. Os manos choraram com ele. E quando a vontade de chorar já tinha passado, resolveu ligar para Venceslau e desacatá-lo. Mas o telefone estava com defeito.
Resolveram matar um tapir em frente à Bolsa de Valores, mas o povo ficou revoltado. Chegou a polícia e prendeu Macunaíma. O povo se revoltou:
"Um fazendeiro estava disposto a fazer discurso insultando a Polícia. (...) Formou-se um furdunço temível. Então Macunaíma se aproveitou da trapalhada e pernas praquê vos quero! Vinha um bonde na carreira badalando. Mcunaíma pongou o bonde e foi ver como passava o gigante."
Estava fazendo um calor enorme e o gigante, a velha Ceiuci e as duas filhas estavam sentados na calçada, tomando a fresca. Um Chuvisco tentava afastá-los de lá. Chuvisco desafiou Macunaíma, e Macunaíma foi lá, xingar Venceslau.
Mas o gigante não teve medo das palavras feias e pediu à velha que guardasse algumas que não sabiam, só para ensinar para as filhas.
O herói foi pescar, mas não tinha os apetrechos. Voltou para a pensão e falou pra Maanape: Vamos tomar o anzol do Inglês! Tomaram e foram pescar mais adiante. Mas a velha Ceiuci o pescou numa tarrafa e levou-o para as filhas. A mais velha tinha se encantado com outro moço pescado e a mais nova propôs três adivinhas. Se Macunaíma acertasse, ela o deixaria ir embora:
"- Vou dizer três adivinhas, si você descobre, te deixo fugir. O que é que é: É comprido roliço e perfurado, entra duro e sai mole, satisfaz o gosto da gente e não é palavra indecente?
- Ah, isso é indecência sim!
- Bobo! é macarrão!
- Ahnn... é mesmo! ... Engraçado, não?
- Agora o que é que é: Qual o lugar onde as mulheres têm cabelo mais crespinho?
- Oh, que bom! isso eu sei! é aí!
- Cachorro! É na África, sabe!
- Me mostra, por favor!
- Agora é a última vez. Diga o que que é:
"Mano, vamos fazer
Aquilo que Deus consente:
Ajuntar pêlo com pêlo,
Deixar o pelado dentro."
E Macunaíma:
- Ara! Também isso quem não sabe! Mas cá pra nós que ninguém nos ouça, você é bem senvergonha, dona!
- Descobriu. Não é dormir ajuntando os pêlos das pestanas e deixando o olho pelado dentro que você está imaginando?"
E advertindo o herói de que seria expulsa, solta-o.
A velha gulosa também foi expulsa do Brasil, mas voltou porque Venceslau era homem de grande influência.
Décimo segundo- Tequeteque, chupinzão e a injustiça dos homens
"Virou a cara pro canto e principiou falando bocagens."
Macunaíma acordou "febrento", tinha delirado a noite inteira e sonhado com navio. A dona da pensou imaginou tratar-se de viagem. Macunaíma queria insultar a mãe de Venceslau, mas o telefone de novo não funcionou.
O herói sentia um "calorão coçado"no corpo e uma moleza esquisita. Era sarampão. Um curandeiro fez rezas e numa semana "já estava descascando"o sarampão de Macunaíma.
Então, se levantou e foi ver o que estava acontecendo com Venceslau:
"Não tinha ninguém no palácio e a copeira do vizinho contou que Piaimã com toda a família fora na Europa descansar da sova. Macunaíma perdeu todo o requebrado e se contrariou bem. Brincou com a copeira muito aluado e voltou macambúzio pra pensão. Maanape e Jiguê encontraram o herói na porta da rua e perguntaram pra ele:
- Quem matou seu cachorrinho, meus cuidados?
Então Macunaíma contou o sucedido e principiou chorando. Os manos ficaram tristes de ver o herói assim e levaram ele pra visitar o leprosário de Guapira, porém Mcunaíma estava muito contrariado e o passeio não teve graça nenhuma."
Na pensão Jiguê falou que eles também podiam ir pra Europa, atrás de Venceslau e da muiraquitã, mas Maanape achou por bem que Macunaíma conseguisse uma bolsa de estudos e, como pianista, fosse sozinho. Mas a bolsa não saiu e o herói resolveu passear pelo Brasil com os irmãos.
Durante uma semana, passearam. depois, voltaram e foram jogar o jogo do bicho.
Saiu pra passear e encontrou um macaco que comia coquinhos; o macaco disse pra Macunaíma que comesse os próprios coquinhos, o herói acreditou, pegou um paralelepípedo, matou nos testículos e caiu morto.
Levado para a pensão, o cadáver é revivido por Maanape, que era feiticeiro. Macunaíma levantou-se, tomou uma talagada de pinga, pediu palpite pro mano feiticeiro e saiu. No fim da tarde, descobriram que tinham acertado no jogo do bicho.
Décimo terceiro- A piolhenta do Jiguê
"- Desarrolha a garrafa pra gente beber."
No outro dia, por causa do machucado nos testículos, Macunaím amanheceu com uma "grosseira pelo corpo todo". Era erisipela, doença comprida que custa muito para sarar. Ficou uma semana inteira de cama e a dona da pensão levava pra ele o jornal O Estado de São Paulo. Macunaíma gastava o dia lendo anúncios sobre remédios para erisipela.
Macunaíma foi passear e viu um vapor chegando, resolveu se despedir e ir atrás do Pietra. Mas mal sentou no navio, foi todo mordido por mosquitos e voltou a erisipela. Teve febre e voltou para a pensão.
Jigu6e arranjou uma nova mulher, "fez ela engolir três bagos de chumbo pra não ter filhose os dois dormiram na rede. Jiguê tinha se amulherado. Ele era muito valente."
Macunaíma namorou a companheiro de Jiguê também. Quando ela ia à feira comprar macaxeira, saía atrás e ambos ficavam por aí, brincando. O nome dela era Suzi.
"De-noite quando Jiguê queria pular na rede a companheira dele principiava gemendo, falando que estava empanzinada de tanto engolir caroço de pitomba. Era só pra Jiguê não brincar com ela. Jiguê teve raiva.
No outro dia ela foi na feira e assobiou o foxtrote da moda. Macunaíma saiu atrás. Jiguê era muito valente. Pegou uma mirassanga enorme e foi devagarinho atrás deles. Procurou procurou e encontrou Suzi com Macunaíma de mãos dadas no Jardim da Luz. Já estavam se rindo um para o outro. Jiguê desceu a mirassanga nos dois, levou a companheira pra pensão e deixou o mano fatigado na beira da lagoa entre cisnes."
Mas Macunaíma inventava jeitos de brincar com a companheira do irmão: escondia-se no quarto onde Jiguê trancava a companheira, inventava que existiam muitas pacas e tatus pra caçar — cotia não! — e ia brincar com Suzi. Jigu6e pegou os dois e mandou a companheira embora de vez, ela, que tinha muitos piolhos na cabeça.
Jigu6e e Maanape sabiam que o irmão não tinha nenhum caráter e o levaram, pra se distrair, pra passear de automóvel.
Décimo quarto — Muiraquitã
"Então a carrapatada caiu no chão por encanto e foi-se embora.
Carrapato já foi gente que nem nós..."
Maanape avisa o herói que os jornais anunciavam a volta do gigante. Macunaíma foi buscar uma peroba no mato e ficou cheio de carrapatos.
"- Ara, carrapatos! vão embora, pessoal. Não devo nada pra vocês, não!
Então a carrapatada caiu no chão por encanto e foi-se embora. Carrapato já foi gente que nem nós..."
Ficou de tocaia na casa do gigante, até que entrou. Deu um jeito esperto em tudo e espetou com espinhos o gigante que balançava num cipó. O sangue espirrado foi cair na panela em que a velha caapora, mulher dele, cozinhava.
"Balançou até o gigante ficar bem tonto e então deu um arranco fortíssimo na japecanga. Era porque tinha comido cobra e estava furibundo. Venceslau Pietro Pietra caiu no buraco berrando cantando:
- Lem lem lem... si desta escapar, nunca mais como ninguém!
Enxergava a macarronada fumegando lá em baixo e berrou pra ela.
- Afasta que vos engulo!
Porém jacaré fastou? nem tacho! O gigante caiu na macarronada fervendo e subiu no ar um cheiro tão forte de couro cozido que matou todos os ticoticos da cidade e o herói teve uma sapituca. Piaimã se debateu muito e já estava morre-não-morre. Num esforço gigantesco inda se ergueu no fundo do tacho. Afastou os macarrões que corriam na cara dele, revirou os olhos pro alto, lambeu a bigodeira:
- Falta queijo! exclamou...
E faleceu.
Este foi o fim de Venceslau Pietro Pietra que era o gigante Piaimã comedor de gente."
Macunaíma pegou a muiraquitã e voltou de bonde pra pensão.
Décimo quinto — A pacuera de Oibê
"Então os três manos voltaram pra querência deles."
Voltaram, os três manos, pra o lugar de onde vieram.
"Quando atravessaram o pico do Jaraguá Macunaíma virou pra trás contemplando a cidade macota de São paulo. Maginou sorumbático muito tempo e no fim sacudiu a cabeça murmurando:
- Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são...
Enxugou a lágrima, consertou o beicinho tremendo."
Macunaíma gastara o dinheiro comprando tudo o que mais queria em São Paulo: "Estavam ali com ele o revólver Smith-Wesson o relógio Pathek e o casal de galinha Legorne." E do beiço pendia o muiraquitã. Jigu6e e Maanape desciam o Araguaia na canoa, sentindo que os três eram marupiaras outra vez. Jiguê reencontrou Iriqui e Macunaíma deu de cara com uma linda princesa que tinha sido transformada num pé de carambola.
Faz uma mágica, ela retorna à forma antiga, quer brincar com ela e nem pode porque ambos são perseguidos pelo minhocão Oibê. Finalmente, livres de Oibê, os dois podem brincar à vontade. Jiguê desconfiou que o mano novamente queria brincar com Iriqui, mas não:
"E foi brincar com a princesa. Iriqui ficou triste triste, bem triste, chamou seis araras canindés e subiu com elas pro céu, chorando luz virada numa estrela."
Décimo sexto — Uraricoera
"Ara... que preguiça..."
Macunaíma amanheceu com febre e Maanape até achou que ele estava tuberculoso. Mas não era, era laringite "que toda a gente carrega de São Paulo." Macunaíma teve impaludismo.
Chegam ao Uraricoera e ao chegar a um lugar chamado Pai da Tocandeira reconhece as malocas de sua antiga tribo, agora todas arruinadas, abandonadas. Os peixes estão cada vez mais raros e uma espécie de sombra que traz a lepra acaba devorando os irmãos e a princesa.
Instala sua rende entre dois cajueiros e passa os dias ali, chateado e sem ter pra quem contar seus causos a não ser para um papagaio que é através de quem seus feitos se espalham.
Décimo sétimo — Ursa Maior
"Estava muito contrariado porque não compreendia o silêncio."

Um dia, contrariado por tanto silêncio, Macunaíma volta à tapera onde tinha nascido, vivido, onde a mãe e os irmãos tinham morrido. Tomado pelo impaludismo, nem tem coragem pra construir uma choça pequena, ali amarrou a rede, por ali ficou.
Um dia, acordou com a impressão de que uma moça fazia carinhos e cosquinhas nele. Era a vingança da Vei, a Sol. Ele ensina pro papagaio a falar:
"Muita saúva e pouca saúde, os males do Brasil são!"
"Macunaíma dava uma grande gargalhada e coçava a cabeça cheia de pixilinga que é piolho-de-galinha. Então o papagaio repetia o caso aprendido na véspera e Macunaíma se orgulhava de tantas glórias passadas. Dava entusiasmo nele e se punha cantando pro aruaí outro caso mais pançudo. E assim todos os dias."
Janeiro tinha chegado e Macuaíma acordou tarde com o pio agourento do tincuã. Fazia um calorão enorme e, depois da impressão de cócegas no corpo, pensou que há muito tempo não brincava:
"Água fria diz que é bom pra espantar vontades... O herói escorregou da rede (...) e foi tomar banho num descendo até o vale de Lágrimas foi tomar banho num sacado perto que os repiquetes do tempo-das-águas tinham virado num lagoão."
E encontrou a Uiara que o convidou para brincar no fundo da lagoa. Quando ele voltou, estava mutilado pelas piranhas, sem o beiço e sem o talismã. procurou e achou todas as partes, mas a muiraquitã, não.
"Gritava:
- Lembrança! lembrança da minha marvada! não vejo nem ela nem você nem nada!
E pulava mais. As lágrimas pingavam dos olhinhos azuis dele sobre as florzinhas brancas do campo. As florzinhas tingiram de azul e foram os miosótis. O herói não podia mais, parou. Cruzou os braços num desespero tão heróico que tudo se alargou no espaço pra conter o silêncio daquele penas. Só um mosquitinho raquitininho infernizava inda mais a disgra do herói, zumbindo fininho: "Vim di Minas... vim di minas..."
Pediu a Capei que o levasse embora. Escreveu numa pedra "Não vim no mundo pra ser pedra." ditado tupi, que revela muito bem a personalidade de Mário de Andrade...
Com uma perda perdida, nunca mais encontrada, pede a Pauí-Pódole, o Cruzeiro do Sul, para que faça um feitiço. Ele o transforma na Constelação ursa Maior:
"A Ursa Maior é Macunaíma. É mesmo o herói capenga que de tanto penar na terra sem saúde e com muita saúva, se aborreceu de tudo, foi-se embora e banza solitário no campo vasto do céu."
Epílogo
"Acabou a história e morreu a vitória."
É assim que o narrador termina a sua história, não há ninguém mais por lá, na tribo das Tapanhumas.
O papagaio que ouviu tudo de Macunaíma, contou tudo pro homem, antes de voar para Lisboa:
"Tudo ele contou pro homem e depois abriu asa rumo de Lisboa. E o homem sou eu, minha gente, eu que fiquei pra vos contar a história. Por isso que vim aqui. Me acocorei em riba destas folhas, catei meus carrapatos, ponteei na violinha e em toque rasgado botei a boca no mundo cantando na fala impura as frases e os casos de Macunaíma, herói da nossa gente.
Tem mais não."