Resumo Madame Pommery - Hilário Tácito

Resumo do Livro Madame Pommery de Hilário Tácito.

Resumo Madame Pommery - Hilário Tácito
Madame Pommery

"Não suporto, nem por idéia, que se possa algum dia taxar de romance, novela ou conto, uma história verdadeira que, por amor da verdade, tanto trabalho me custou: vigílias sobre desconformes documentos, peregrinações e inquéritos aborrecidos. Pois bem sei que similhantes afrontas são o prêmio de quantos se aventuram por mares nunca dantes navegados." 

1. Quase-biografia de um quase-desconhecido: 
Quem é, afinal, Hilário Tácito, autor de Madame Pommery, autor bissexto, pouquíssimas obras publicadas, engenheiro de profissão? 
Anote: Hilário Tácito chamava-se, na verdade, José Maria de Toledo Malta, era engenheiro conceituado em São Paulo, mas nascera em Araraquara, interior do estado, no dia 27 de março de 1885. Morreu em 1951, quando tinha 66 anos, na capital paulista. 
Era engenheiro civil formado em 1908 pela Escola Politécnica de São Paulo e seu primeiro trabalho foi na Companhia Mogiana de Estrada de Ferro, em Campinas. Nomeado, em 1911, engenheiro da Repartição de Águas e Esgotos de São Paulo, na 1 a. Seção Técnica, passou a ocupar, logo depois, para o Escritório Técnico, aposentando-se em 1942. 
Era um especialista em cimento armado, tendo projetado uma rede de irrigação para a cidade ( o Observatório da Água Branca, a Ponte sobre o rio Tamanduateí, o Reservatório da Lapa e mais a Barragem Pedro Beicht); após aposentar-se, abriu um escritório de consultoria sobre emprego de cimento armado e foi responsável por inúmeros edifícios construídos em São Paulo dos anos 30 e 40, entre eles o Edifício Martinelli. 
Enxadrista, amigo de Lobato, trabalhou com ele na redação da Revista do Brasil, de propriedade do escritor. 
Autor de inúmeras obras sobre a utilização de cimento armado na construção civil, Toledo Malta publicou um único romance, Madame Pommery, em 1920, pela Revista do Brasil. 

2. Uma obra pré-modernista: 
O autor deve ser inserido no Pré-Modernismo, fase de transição entre o final do Realismo e do Naturalismo brasileiros e o Modernismo iniciado em 1922. Madame Pommery apareceu em 1920 e, como anotou Wilson Martins, crítico literário, 
"é um romance de maus costumes, inspirado na prostituição elegante de São Paulo (...) é um romance local e datado, mas, ainda assim, curioso como documento social e salutar como obra de desmistificação, mais novela picaresca que romance, no sentido comumente aceito da palavra." 

Pré-Modernismo é escola literária? 
Bem, a resposta é não; trata-se de denominação genérica que abriga, entre os anos de 1902 e 1922 um conjunto de produção de alguns autores: na prosa, Euclides da Cunha ( Os Sertões, em 1902, marcam o início dessa transição), Lima Barreto, Graça Aranha e Monteiro Lobato; na poesia, Augusto dos Anjos. 
Para Alfredo Bosi, em sua História Concisa da Literatura Brasileira, "Creio que se pode chamar pré-modernista ( no sentido forte de premonição dos temas vivos em 22) tudo o que, nas primeiras décadas do século, problematiza a nossa realidade social e cultural." 
Inserido historicamente num tempo de grandes transformações sócio-político-culturais da Primeira República, o Pré-Modernismo abriga desde os problemas relativos à imigração, dos negros e da industrialização, até os impasses políticos do poder; além disso, é preciso observar também que uma primeira Grande Guerra aparecerá de permeio, o que afeto a relação do homem com o mundo, consigo próprio e com a própria literatura. 

É nesse período, chamado "belle epoque", que o homem brasileiro tomará consciência plena da transformação do país: o Brasil velho vai se aproximar da modernidade e cria-se, sobretudo em São Paulo, a concepção do "novo": de um lado a burguesia agro-pecuária, industrial poderosa, do outro o proletariado. Há luxo e refinamento, mas há pobreza e desigualdade. 
Madame Pommery foi, quando publicado, um romance de grande sucesso, exaustivamente lido e comentado; no entanto, poucos anos depois, caiu no mais absoluto esquecimento, só sendo revisitado no início desta década, quando um grupo de estudiosos da linguagem e Teoria Literária ligado à Universidade de Campinas. 
Leia abaixo alguns trechos do artigo de Júlio Castañon Guimarães, usado como Introdução no romance que ora analisamos, 5 a. edição, editado pela Fundação Casa de Rui Barbosa e Editora da Unicamp, em 1997: 
"No caso de Madame Pommery, vale, porém, lembrar o depoimento de Leo Vaz, quando diz que o romance de Hilário Tácito "foi, ao tempo, um dos mais rumorosos sucessos de livraria"da Editora de Monteiro Lobato, não só pelo seu caráter de sátira, mas também pelo seu estilo. Lawrence Hallewell também se refere ao romance como "História picaresca de uma elegante prostituta judia dentro da haute-bourgeoisie de São Paulo, dizendo ainda que o "livro pretendia ser uma sátira, mas marcou sua passagem como um grande succès de scandale". 

De um lado, estão as referências ao sucesso momentâneo do livro, embora Tristão de Ataíde comente que, "em São Paulo, em torno dele, se a muralha de silêncio". Comentário que não contradita as outras referências: ao escândalo se teria respondido com o silêncio. O certo , porém, é que ao longo de sete décadas o sucesso esmaeceu e o romance alcança agora apenas sua quarta edição, tendo havido também uma adaptação teatral. De outro lado, o sucesso ligava-se ao aspecto documental ( irreverente) do romance, não deixando provavelmente de ser levado em conta o estilo (revelador do autor culto e de prestígio intelectual). Mas a significação e a eficácia da conjunção desse estilo e desse aspecto documental só mais tarde seriam devidamente explicitadas. Madame Pommery é sobretudo encarado como documental quando o classificam como romance de costumes de modo expresso ou com uma qualificação que já acentua a mescla da ireverência e do estilo culto, o que se verifica quando se fala de "maus costumes". Para Wilson Martins, Madame Pommery é um 
romance de maus costumes, inspirado na prostituição elegante de São Paulo e no qual não é difícil perceber a influência de José Agudo, tanto nas qualidades e defeitos quanto no tipo de observação e nas intenções satíricas ( Toledo Malta era Hilário Tácito assim como José Agudo era o Juvenal Paulista). Madame Pommery é um romance local e datado, mas, ainda assim, curioso como documento social e salutar como obra de desmistificação, mais novela picaresca que romance, no sentido comumente aceito da palavra. 
(...) Mais do que o aspecto "curioso"e de "desmistificação"( o que ainda se inclui no caráter documental), pede atenção o que é apontado pelo crítico quando diz que se trata mais de "novela picaresca"que de "romance". Está aí, efetivamente, um dos problemas centrais postos pela obra de Hilário Tácito. Sob o signo da ironia a lógica do avesso, nas palavras de seu autor -, Madame Pommery é um romance que cria cenas de grande humor, não apenas pelas situações a que expõe seus personagens, mas sobretudo pelas situações a que expõe a própria narrativa. 

De modo insistente, o narrador de Madame Pommery faz duas afirmações: tudo o que narra é pura realidade; o texto diante do leitor é uma crônica ( história) e não um romance ( ficção), embora a veracidade já seja ironizada no nome do alegre historiador ( Hilário Tácito). De fato, não se pode negar o lado autenticamente documental, sendo possível até identificar o que foi despistado com trocas de nomes ( mas nem por isso se deve procurar ler a obra como uma romance à clef, mesmo porque o desvendamento de certas identidades hoje pouco ou nada significaria). Isto credencia a crônica. Ao mesmo tempo a narrativa desvia-se com freqüência do relato proposto e incorpora variadas digressões, inclusive aquelas, já referidas, em que se aborda a condição dessa narrativa. Na maioria das vezes, as digressões são citações literárias de natureza erudita em apoio a comentários de caráter histórico, sociológico e psicológico. Madame Pommery configura-se, assim, como um ( romance-) ensaio ( de costumes). 
(...) Aceito como relato de costumes, Madame Pommery, no entanto, sempre suscita uma certa oscilação no tocante à sua definição: "história picaresca", "pretendia ser uma sátira", "intenções satíricas", "mais novela picaresca que romance"etc. O artigo com que Tristão de Ataíde recebeu o romance de Hilário Tácito intitula-se diretamente "Sátira". O crítico atenta de modo especial para a questão do gênero, dedicando-se a tratar o romance segundo sua maior ou menor adequação à classificação de sátira: 

Mas o livro do Sr. Hilário Tácito não é um romance. Todo romance é, por definição, uma obra autônoma e de ficção. E nem um nem outro caráter distingue este volume. Será, talvez, como quer o autor, uma crônica histórica , sui generis... uma sátira de costumes. 
(...) Mário Chamie, em artigo incluído em A Linguagem Virtual, chama a atenção para a importância de Madame Pommery em diversos níveis. Atenta para o problema do gênero e para o fato de o romance incorporar citações e valer-se da linguagem erudita, concluindo: "Aí começa a sua sabida contradição, que é a sua maneira de ser satírico. Ali começa a paródia, que é a sua maneira de pôr em crise os gêneros literários e um linguajar que não acompanha mais a dinâmica dos tempos novos. Além das questões fomais, Mário Chamie salienta também a nova temática de Madame Pommery: "Penso que Hilário Tácito é o nosso primeiro escritor a lançar as coordenadas básicas de uma literatura cujo centro de interesse crítico passou a ser a aristocracia rural paulista em estado de desagregação." 
(in Madame Pommery, Hilário Tácito, 5a. Edição, Ed. da Unicamp/Fund. Casa de R. Barbosa, 1997, p. 13 e ss.) 

3. Estrutura do romance: 
Madame Pommery está composto por 8 capítulos contados por um narrador atento, satírico e irremediavelmente debochado que, ao iniciar seu romance , escreve um prefácio assemelhado ao de Memórias Póstumas de Brás Cubas: cheio de ironia. São Paulo é a Botocúndia, cidade que está se industrializando e que precisa sair da mesmice. Para tanto, vai contar com o trabalho de Madame Pommery, uma prostituta de origem judaico-polonesa que chega a São Paulo e funda ali um prostíbulo freqüentado por coronéis, políticos e intelectuais, ensinando a todos a beber champanha. 
O tempo narrativo da obra é o início do século XX e das grandes transformações sociais naquela capital. O espaço é São Paulo. 
O livro está dividido em oito capítulos e tem seqüência temporal, com flash-backs como cortes que nos remetem a um tempo anterior ao da ação. 

4. Os capítulos um a um: 
Prefácio: 
Madame Pommery 
Crônica muito verídica e memória filosófica de sua vida 
Feitos e gestos mais notáveis nesta cidade de São Paulo

Com o perfunctório esboço biográfico em que pela primeira vez se registram as lendas e anedotas mais abonadas sobre o nascimento, infância e educação da mesma conspícua senhora; 
baseada em documentos inéditos, memórias próprias e no testemunho respeitável de várias pessoas abalizadas que mais se avantajaram no seu trato e intimidade; 
obra necessária ao perfeito entendimento de muitos fatos particulares, assim políticos como sociais, que resultariam, sem ela, de impenetrável obscuridade para o futuro historiador, e, por isso, 
dedicada ao Instituto Histórico e Geográfico, à Academia Paulista de Letras, à Sociedade Eugênica e mais associações pensantes de São Paulo; 
composta por Hilário Tácito (natural da Botocúndia) em 1919.

Primeiro Capítulo: 
Em que trata o autor da história e dos motivos que teve para escrever. 
Usando uma ironia tão aguda e demolidora quanto à de Machado de Assis em Memórias póstumas de Brás Cubas, o narrador nos apresenta o livro e as suas finalidades: 
"Cousa nova há de parecer a muita gente que este livro, cujo propósito declarado é narrar a vida de uma personagem tão principal como Mme. Pommery, logo no começo se extravie do seu reto caminho, trocando assunto de tamanho momento por outro apagado e tão pouco interessante, como seja a personalidade incógnita do autor. " 
Vai mais longe na ironia ferina, e nos faz lembrar Brás Cubas outra vez quando o narrador ressalta o valor de seu trabalho, de si mesmo e daquilo que se propõe produzir antes mesmo que nos apresente à personagem principal, promovendo sua auto-valorização: 
"É verdade, conquanto nem todos os saibam, que Jesus, filho de Siraque, também começa nas Escrituras tratando de si próprio. Mas este escriba era um simples tradutor; ao passo que eu, por ser autor, sou muito mais do que ele. Donde decorre a superioridade deste livro sobre o Eclesiástico da Bíblia." 

Adverte-nos que não pertence à "classe de peralvilhos das letras, que ao desejo insensato de parecer originais tudo sacrificam: o bom-senso, a compostura e até a decência. São , estas, qualidades, ao contrário, que, juntamente com a simplicidade e a clareza, sei estimar acima de quaisquer outras." 
Promete endereçar correspondência ao Secretário do Interior, a fim de que as regras de boa conduta que aqui apresente sejam adotadas em nossas escolas públicas. 

E garante: 
"Convençam-se todos. Este livro é um livro honesto e de boa-fé. Se eu quisesse, ter-lhe-ia dado aquela epígrafe de Montaigne: "C'est icy un livre de bonne foy, lecteur." Não lha dei porque não quis, porque embico com epígrafes e, também, porque já esperava, de princípio, que havia de fazer mais tarde esta citação; e sou grande inimigo de repetir coisas que já disse. Se, entretanto, o leitor achar nisso conveniência ou mérito, não lhe vedo inscrevê-la agora no frontispício, com a condição de que a copiará muito exatamente e sem trocar a ortografia." 

Convém observar aqui que o narrador subestima a capacidade intelectual do leitor, tal como o faz Brás Cubas no seu Prólogo. Da mesma forma que Machado, também em função metalingüística, conversa com os leitores, embora os subestime logo de início ao recomendar que, numa frase tão simples, em francês, não haja erro de ortografia se se pretender copiar a citação de Montaigne no frontispício da obra. ressalta, no entanto, ainda que satiricamente, a sua pretensa humildade. Observe: 
"Com isso depara-se-me a ocasião de observar que a boa-fé, o amor à sinceridade, é o que me leva a tratar de minha humilde pessoa neste capítulo inicial. Pois não quisera, por maneira nenhuma, inculcar-me por outrem, diverso do que sou naturalmente; e preciso provar, de certo modo, que não careço por completo daquelas qualidades, tais, que façam de mim um cronista não desproporcionado para registrar as altas e maravilhosas aventuras de Mme. Pommery." 
E, por fim, como narrador, declara: 
"E sou tal, em suma, que Mm. Pommery não achará razões maiores para se envergonhar do seu cronista." 

Segundo capítulo: 
De como era a cidade de São Paulo e das graves incongruências que na mesma se notavam no tempo em que chegou Mme. Pommery. 
O narrador reafirma que obra destinada a uma celebridade evidente deve ser escrita com o auxílio de método científico. Faz comentários de como certos autores empolam seu estilo e de como, "Hoje em dia, querem-se os fatos logicamente ligados uns aos outros e o conjunto deles enraizado fortemente na terra, donde surgem; de maneira que, da sua perfeita urdidura e apoio natural, resulte, não algum cipoal inextricável, de galhos ressequidos, mas uma árvore cheia de vida, com seus ramos, flores e frutos. " 

A observação não passa de fina ironia, vez que o estilo do narrador é cheio de tortuosos descaminhos, citações e aproximações. 
Mas é neste capítulo também que o narrador nos apresenta, em definitivo, a Mme. Pommery: 
"Mme. Pommery desembarcou um belo dia em São Paulo, com as suas roliças enxúndias, quatro cançonetas realejadas, um fato de toureador e dois baús. Começou pobremente. Depois cresceu e se multiplicou; granjeou fortuna, importância e honrosa fama, alargando-se cada vez mais por toda a terra seduzida o insidioso influxo de sua personalidade. 

Ora, é claro que eu não poderei contar inteligentemente o que na cidade de São Paulo Mme. Pommery tem obrado, sem dizer: 1o.) o que fez Mme. Pommery em relação a São Paulo; 2o.) o que São Paulo fez a Mm. Pommery." 
Roga ao Conselheiro Acácio (!) que o valha e põe-se a observar que "naquele tempo era tudo diferente"; e afirma que toda a mocidade boêmia, libertina, elegante ou perdulária se reunia no Cassino todas as noites. 
Os fuxicos envolvem o Sequeirinha , que recebia uma fortuna incalculável de mesada e a gastava inteira com "aquela bêbada". 

E anuncia: 
"Andavam as cousas assim, nesta lástima, quando aportou Pommery por estas bandas." 
O café estava em crise, não havia muito dinheiro, mas Pommery, ainda em início de carreira, começava a ganhar dinheiro com a prostituição, o que escandalizava os moralistas. 
Os rapazes tomavam cereja, desabituados da champanha que era considerada cara; mas Madame Pommery via essas coisas e meditava, tentando achar um jeito de modificar os costumes da época. 
No Hotel dos Estrangeiros, Pommery começara tristemente: dançava, cantava, dizia bobagens, mas tinha 35 anos... No início, sequer conseguia um "pato"que lhe pagasse comida, ficava solitária. 

Observava coisas disparatadas, costumes nem um pouco refinados. Um dia, 
"Às quatro da manhã subiu para o quarto, como quem sobe numa nuvem. E o salão em peso, homens e mulheres, acompanhavam-na e bebiam champanha. Mme Pommery subia pelas escadas acima cavalgando no bojo de uma colossal garrafa de champanha, carregada sobre os ombros dos homens, encasacados, vergados e sorridentes. A garrafa monstruosa despejava champanha às espadanas. Inumeráveis raparigas, belas, alegres, seminuas, enchiam, dançando, as taças de cristal fino; bebiam como bêbadas, e com trejeitos lascivos, com brejeiras negaças, levavam-nas aos lábios sôfregos dos heróicos porta-garrafas." 
Era apenas um sonho e Pommery vomitou cerveja Antarctica... 
Mas era supersticiosa e se pôs a pensar o que teria sido aquele sonho, achando que o seu lugar era ali, e que iria mudar aqueles hábitos rudes dos homens de São Paulo.

Terceiro Capítulo 
Em que o autor se empenha grandemente para responder a estas perguntas : - Quem é Mme. Pommery? Donde veio? Por que veio? E onde a lenda supre a história. 
Após fazer devaneios entre Homero, Virgílio , Flaubert, Sêneca e outros, o narrador diz que admira Montaigne: 
"Demais tenho a coragem de afirmar não é difícil descobrir em quase todos os autores de obras célebres, um gravíssimo defeito que, nesta minha, eu pretendo evitar. E vem a ser, justamente, o que tenho notado naquele hexâmetro de Virgílio com que este capítulo começa: "Sunt lacrimae rerum..." 
E vai revelar uma coisa interessante aos leitores: 
"Mme. Pommery existe, de verdade, em carne e osso? 
(...) 
Seja, pois, Mme Pommery um símbolo, se o quiserem; que o não posso vedar. Mas, por amor da verdade, eterna e intangível, fica estabelecido este ponto: - que Mme. Pommery vive e respira, tão real e efetivamente como eu, que escrevo, e o leitor, que me lê, apenas com muito mais apetite e fôlego. " 
Se Madame Pommery respira, se existe em carne e osso, o narrador nos observa que convém, então, falar sobre as suas origens: 
"Pouco, quase nada, se conhece da fase pré-histórica de Mme. Pommery. 
Duas nações, a Espanha cavalheiresca e a Polônia das baladas, disputam-se a glória de ter lhe sido o berço. Pois parece averiguado que seu pai foi um polaco israelita de nome Ivã Pomerikowsky, de profissão lambe-feras num circo de ciganos. Sua mãe era espanhola. Chamava-se Consuelo Sánchez e foi noviça em um convento de Córdoba, torrão natal de todos os Sánchez, descendentes, não de

Sancho Pança, como talvez inculcasse o nome, mas daquele famoso casuísta, o padre Tomás Sánchez , autor do escabrosíssimo tratado De Matrimônio." 
Informa, então, que a noviça, neta de tal padre, saía do convento para ver novenas quando encontrou o lambe-feras. Ambos se apaixonaram: 
"Uma bela madrugada, abalaram de Córdoba os ciganos e o polaco juntamente. Sóror Consuelo, nesse dia, não compareceu no coro ao toque de matinas. Sua cela amanheceu deserta. Procuraram-na em vão, por toda a parte." 
Nasceu Pommery e, por causa da vida nômade de levavam, veio ao mundo em lugar incerto, mas entre Córdoba e Cracóvia. 
Deram-lhe o nome de Ida Pomerikowsky mas, aos três anos, a mãe , não aguentando mais o pai e sua lascívia, fugiu com um toureador de Barcelona. 
"A influência materna sobre Mme. Pommery limita-se, por conseguinte, aos caracteres contraditórios que lhe infundiu a hereditariedade: disposições para a disciplina ( resíduo atávico de clausuras antepassadas) e taras patológicas de insofrível concupiscência. 

A parte do pai, judeu polaco, é bem mais considerável. Transmitiu-lhe o nariz adunco, estigma da raça e, concomitantemente, o gosto das finanças, a cupidez e o faro mercantil. Além disso, educava-a." 
O judeu arranjara para Ida , como preceptora, uma cigana maduraça que o consolava da viuvez. 
Aos 15 anos, Ida sabia ler a "buena dicha", lidava com ursos e sapateva, tocando pandeiro e castanholas. Além do que, cantava canções. 
A cigana Zoraida se encarregada de educação de Ida, tornando-a muito desejável. Na cabeça do pai ia se formando uma idéia baseada nos versículos do Êxodo: 
"Se desonrar alguém alguma virgem, lhe dará um dote e casará com ela. 
Se o pai da virgem não quiser o casamento, pagará ao pai tanto dinheiro quanto às virgens se costuma dar a título de dote. ( Ex. XXI, 16, 17)" 
E encontrou em Praga um "estuprador"idôneo, ricaço e mulherengo, que se enamorou da donzela. Por isso, o "dote"foi estabelecido em nove mil coroas. Pagamento à vista e de uma vez. 
Porém, Ida conhecia bem o pai e, também, porque era astuta, imaginou que o preço de sua pureza pertencia a ela, não ao pai: 
"Com esta lógica precoce e grande velhacaria, dispôs as cousas de maneira que ela própria recebeu as nove mil coroas, abotoando-se com o cheque." 

Subornou a cigana Zoraida e, nessa mesma noite, rasparam-se do quarto enquanto o pai dormia. 
Ivã descabelou-se, ficou irado e nunca mais pôde esquecer-se da traição das duas. Por isso transformou-se num grande domador... 
Ida estreou na prostituição itinerante, "Peregrinou por cidades e nações de toda a Europa, a negociar os beijos e os sorrisos, com a mesma finura e com o mesmo talento que revelara a princípio." 
Nada se sabe sobre os dramas e as paixões dessa época. 
"Ignora-se, ainda, quando e por que motivos começou a apelidar-se de Madame Pommery. É provável que se trate de uma alcunha, proveniente da predileção pelo champanha Pommery." 
Aos 34 anos estava devastada. 
Mas encontrou um marujo normando chamado Mr. Defer, do cargueiro Bonne Chance, e veio "fazer a América". Para tanto, seduziu o pobre marujo.

Quarto Capítulo 
Da chegada, com uma notável descoberta de Mme. Pommery, e do que primeiro passou na Terra do Café. 
O narrador fala com o leitor, observa que há vários tipos de leitor: 
"Têm asas: pertencem ao gênero dos leitores- pássaros. Outros, e são estes os do segundo grupo, parece que têm o cérebro composto, à maneira do estômago dos dromedários, dos búfalos, e dos carneiros. O que receberam pela primeira vez tornam a remoer e a reengolir segunda e terceira; e isso justamente em horas de maior descanso. São os leitores ruminantes. Mas é ocioso acrescentar que esta minha classificação, conquanto zoológica, não implica de maneira nenhuma inúteis distinções entre bípedes e quadrúpedes." 
Uma explicação pessoal 
Aqui, o narrador dirige-se diretamente ao leitor e até propõe que sejam francos um com o outro. 

"Há uma hora, pelo menos, que o venho entretendo com esta Crônica Verídica de Mme. Pommery. Imagina que não dei fé dos seus espantos, dos seus esgares de reprovação, diante do meu insólito posto que engenhosíssimo processo de escrever a História? As minhas digressões escandalizam-no, bem o vejo. 
(...) Ora , se o leitor deseja ir comigo até o cabo, é urgente que deixemos, duma vez por todas, esses modos contrafeitos. Nada de caretas! Sejamos francos, com lealdade e camaradagem . Por isso, proponho-lhe desde já, uma espécie de acordo mútuo. Eu reclamo e exijo liberdade plena de escrever segundo o meu sistema e o meu modo. O leitor, por seu lado, quando não queira acompanhar-me em todas essas divagações por veredas laterais, não tem mais que me largar sozinho nelas e seguir direito e por alto o fio da narração. E afianço-lhe que nos encontraremos sempre na estrada principal, após ligeiro apartamento; pois não há um só capítulo deste livro em que não estejam pontualmente relatadas todas as coisas que promete." 
Anuncia que está no IV capítulo e que Madame Pommery não só nasceu, mas cresceu... chegou a Santos, "mais do que isso: já subiu a serra... já está aqui... já está em São Paulo! ..." 

Continua falando ao leitor: 
"Sim, senhores! Mme. Pommery está em São Paulo! 
Agora hão de querer que eu lhes explique por que razão Mme. Pommery desembarcou em santos, e não no Rio de Janeiro, ou em Montevidéu, ou em Buenos Aires; visto que a qualquer destes destinos lhe dava igual direito o seu contrato de navegação e comércio com o imediato do Bonne Chance." 
E avisa que o Acaso trouxe a frota de Cabral ao descobrimento do Brasil, da mesma maneira que trouxe Pommery para o desembarque em Santos. 
"(...) e há de ver claramente que, se Cabral arribou na Enseada de Santa Cruz e Mme. Pommery desembarcou em Santos, foi porque Cabral era um homem-bólido, como Madame Pommery é uma mulher-meteoro, ambos arremessados, ambos arremessados a estas plagas por mão da Divina Providência. Cabral, por ser necessário aos destinos do Brasil; Mme. Pommery, porque não era menos necessária aos destinos de São Paulo. 
(...) 
Parece acaso. Mas era destino. 
(...) 
Bonne Chance ( Sorte Boa, e nome de cargueiro) era um nome profético. Mme. Pommery teve boa sorte. Isto é, a sorte veio depois; mas começou pelo navio. Era preciso que o navio tocasse em Santos. Tocou. Era preciso que parasse. Parou. Parou dois dias. Carregou café e bananas para a República Argentina. Descarregou quinze pipas de vinho Bordeaux, sardinhas, bacalhau, dois mil volumes de Zola, sebo, quarenta caixas de champanha e Mme. Pommery." 

Um dia, enquanto esperavam no restaurante, viu Zoraida. 
"A Zoraida ( porque era ela, nem mais nem menos) jantava maritalmente, do outro lado do salão, com um sujeito de barbicha, amarelento e muito chupado. Trazia, ela, na cabeça, um chapéu verde com duas plumas para a direita, uma verde, outra vermelha; da outra banda tinha fitas vermelhas e verdes, uvas e cerejas. Vestia uma espécie de saco de seda roxa, à moda do diretório, com a cintura à base dos seios, largos e pendentes. Muito decotada. Braços despidos. Nos dedos, nos punhos, no pescoço, nas orelhas, vistosa exibição de jóias de todo o feitio, com pedras enormes, azuis, vermelhas, verdes, brancas, amarelas, faiscantes à luz elétrica. A cara pouco mudara: cara morena de cigana. A grande novidade estava na burlesca sisudez com que se aplicava ao papel de dama respeitável, na presença do consorte presuntivo." 
Mas Zoraida, quando a viu, fechou em copas e "entrincheirou-se por trás da compostura grave. Voltou-lhe a face. E comeu uma batata." 

Assim que o casal saiu, chamaram o garçon que lhes informou tratar-se o casal de gente de São Paulo, "coronel Pacheco Isidro e sua senhora." 
O "coronel"interessou a Madame Pommery. Desquitou-se de Mr. Defer e já no dia seguinte estava de mala e cuia indo para São Paulo. Imaginava escrever a Zoraida, dizer que estava com saudades e, depois, caso isso não desse certo, chantagearia o coronel e Zoraida, porque ambos pertenciam à alta sociedade e tinham dinheiro. 
Mas a reputação de ambos era tão sólida quanto a fortuna do coronel; mas pensava em vingar-se da petulância e do insulto que Zoraida lhe fizera. 
"Havia de se vingar da petulância de Zoraida, suplantá-la com o seu triunfo, que previa grande e não remoto: 
Con arte y con engaño 
Vivo la mitad del año; 
Y con engaño y arte 
Vivo la otra parte.

Quinto Capítulo 
De como Mme. Pommery deu novos fundamentos à vida airada paulistana, revelando engenho arguto e vastíssima sabedoria. 
O narrador nos confessa que se arrepende "de todo o trabalho desta crônica." Diz que, chegado a este ponto, sente-se inclinado a rasgar o que produziu, mas não o faz em virtude do editor tê-lo pago adiantado. 
"Não suporto, nem por idéia, que se possa algum dia taxar de romance, novela ou conto, uma história verdadeira que, por amor da verdade, tanto trabalho me custou: vigílias sobre desconformes documentos, peregrinações e inu'qeritos aborrecidos. Pois bem sei que similhantes afrontas são o prêmio de quantos se aventuram por mares nunca dantes navegados." 
Fazendo devaneios, o narrador põe-se a imaginar o que o leitor comum pensaria. Entre estas coisas, descobre que ele, para acreditar na crônica que agora escreve quer datas: "- Se fosse verdade tinha datas ( objetam-me os sisudos); acompanhava as datas, Pois, onde já se viu crônica sem datas?" 

Mais devaneios... o narrador fala sobre Heródoto, romanos e gregos. 
Pára por instantes para dizer do seu estilo e acaba por observar que o Padre Manuel da Nóbrega pedira a D. João III, cinqüenta anos após a descoberta do Brasil, que para cá mandasse mulheres, "ainda que fossem erradas. Vieram muitas, e erradíssimas. Casaram-se com a gente principal; e corrigiram-se." 
Mme. Pommery procurava um sócio. Imaginou que Pinto Gouveia, comissário de café, sujeito de sessenta anos, comerciante; por esse tempo, havia também o Dr. Filipe Mangancha, tesoureiro da Companhia Paulista de Teatros e Passatempos e havia mais: o bacharel Romeu de Camarinhas, almoxarife da Intendência. 
Mme. Pommery tinha clientes e devotos, apesar da gordura e de ser "outoniça". 
Um dia, tendo saído com Pinto Gouveia e lhe contado as maravilhas do que pretendia abrindo uma casa noturna, com champanha, refinamentos, e, por fim, desejando um sócio, Pinto Gouveia pediu a ela uma "amostra dessas maravilhas"e foram dormir juntos. 
Não se sabe o que fez Pommery naquela madrugada: 

"O fato averiguado é que Pinto Gouveia, no dia seguinte, não foi a Santos como de costume. Tinha dores nas cadeiras, o estômago às avessas e uma sede inextinguível. 
Mme. Pommery levantou-se, ao contrário, lépida e contente. E a primeira cousa que fez foi examinar à luz do dia o cheque sobre o London Bank que tamanha luta lhe custara. 
Estava ali, finalmente, todo o seu futuro... Ergueu-se num salto; segurou com as mãos trêmulas o papel e correu para a janela, em camisa de dormir e pés descalços." 
Mas ficou indignada: 
"Qué grande pícaro, miserable!" 
O cheque era só de seis contos, em vez de dez... 
Mas estava de tal modo concebido o plano de Pommery que ela o pôs imediatamente em ação e na rua D. João nasceu... Au Paradis Retrouvé. Pinto Gouveia nunca participou dos lucros, nem jamais recebeu juros de Mme. Pommery. Quando lhe deu os seis contos, acreditou que pudesse formar, com ela, uma espécie de lar "com uma esposa interina para todos os dias, amante efetiva para quando o desejasse." 
Mas não era assim que ela vira o tal empréstimo; outros homens mais fortes que ele tinham sucumbido à mesma intenção sem que nada conseguissem. 
Pommery jamais lhe foi grata. 
Antes, cobrou-lhe direitinho uma conta "arredondada" de seis mil réis, ao cabo de poucos meses, acumulada das noites em que ele, a um canto, bebida champanha, aperitivos, licores... e pedia charutos. Mme. Pommery cobrou-lhe até sua "pensão"...

Sexto Capítulo 
Da ordem que guardava Mme. Pommery no amanho de sua casa, regência das alunas e edificação dos visitantes. 
Após muitos devaneios em que coteja Aníbal e Júlio César , Paris e o Paraíso Reencontrado de Pommery e observa que: 
"O objetivo de Mme. Pommery nunca foi, como bem se imagina, estabelecer no instinto da honra os fundamentos da virtude. O seu intento, conforme o plano exposto a Pinto Gouveia e seguido à risca no Paradis, era mais prático e muito menos idealista: - nobilitar a profissão de marafona, para assim granjear importância e lucro, ou, antes, lucro e importância, na ordem lógica e natural com que estas duas cousas se sucedem. 
O exemplo de Zoraida, a lembrança da cena no Hotel do Parque, não lhe saíam do pensamento, aguilhoando o seu desejo de vingar o desaforo e de quebrar a empáfia da cigana, que lhe ensinara cançonetas e queria agora estadear de grande dama, ao lado de Pacheco Isidro." 

Madame Pommery ia ficando rica, vendendo, está claro, suas champanhas falsas e seus licores idem, mas a seriedade com que se impunha no negócio dava-lhe o crédito de verdadeiro tudo o que fizesse; no entanto, se o Paraíso tinha um aspecto de pardieiro pelo lado de fora, também não era lá essas coisas por dentro... 
Pois assim foi: Pommery fazia o "comércio da carne" com desembaraço: eram seis as "alunas"do seu colégio. 
"Madame Pommery, como solícita matrona em noite de sarau, andava de uma mesa para outra, bebia aqui, gracejava acolá, empenhando sorrisos, galanteios e ademanes, como se as alunas e clientes fossem convidados que ela timbrasse em mimosear. A necessidade de bebericar champanha em todas as companhias ensinara-lhe uma traça muito graciosa e fina, como tudo o que seu engenho realizava, graças à qual podia encher e esvaziar copos e mais copos até depois de alvorecer, sem prejuízo da lucidez indispensável para a constante vigilância e superintendência da função." 
Várias pessoas famosas freqüentavam o salão de Pommery, entre elas o médico Dr. Mangancha, que um dia apalpu o ventre de Pommery, entre a virilha e o umbigo, e ela, dando um grito enorme, parou de vez todas as danças daquela noite. O negócio ia crescendo, com muitos clientes e belos hábitos, que até peça de teatro improvisava-se. 

Sétimo Capítulo 
Do grandioso aumento em breve granjeado por Mme. Pommery na cidade de São Paulo e da notável influência política e social que sobre a mesma exercitou. 
O narrador pergunta aos leitores se ainda se lembram do Sequeirinha: 
"Faço esta pergunta somente aos meus leitores e não aos que o conheceram de olho, na fase antepommerydiana da nossa história; pois uma cousa é ter visto o personagem, e outra e ler-lhe o nome impresso em algum livro. Quem conheceu o Sequeirinha, o maior estróina, o peralta mais casquilho no tempo das cervejadas, não lhe esquecerá nunca o jeito, nem a fama escandalosa das suas dissipações com o mulherio. Mas o que não o conheceram pessoalmente podem ter esquecido que ele já figurou uma vez nestas mesmas páginas, onde poucas pessoas se nomeiam." 
É apenas um comentário para introduzir uma série de outros que culminam com o fato de que Pommery era muito cuidadosa para estar continuamente alerta contra "essa praga dos gigolôs". 
E de novo dá-se a devaneios, antes de dizer "ou estranhar como escandalosa, a influência de Mme. Pommery sobre a sociedade paulistana. 

"E os hóspedes felizardos de Mme. Pommery começaram logo a assinalar-se na sociedade de São Paulo por qualidades tão apreciáveis como as que distinguiam os nobres comensais de Mlle. de Lenclos. Notava-se neles um certo olhar despejado, um desgarre satisfeito, umas posturas derramadas, um conjunto de maneiras do mais distinto modernismo, que denunciavam de longe a escola do Paradis. Estas maneiras variavam com o tempo, com as modas e as cançonetas em vigor. " 
Nesse tempo "Os rapazes da melhor moda e de melhores roupas, ostentavam com orgulho amostras de familiaridade com as alunas do Paradis, prestigiadas altamente pela taxa centesimal. Era o melhor meio de revelar hábitos de vida noturna fidalgos e invejáveis e, ao mesmo tempo, a certidão e a prova de autenticidade daquele feitio paradisíaco de linguagem, de gestos e de vestuário que os sublimava e distinguia entre toda a sociedade." 
No entanto, há sempre os que são moralistas em demasia: num Carnaval onde 50 prostitutas paulistanas brincavam, um jornalista pedia providência da Polícia da capital: 
"A Polícia acudiu correndo. Inteirou-se da novidade; e a primeira cousa que fez foi trancafiar na enxovia umas cinqüenta michelas bêbadas que vagabundeavam por betesgas. Depois fulminou regulamentos, proibições e providências, que a imprensa e a burguesia aplaudiram entusiasmadas. 

Andou bem a polícia? Tem razão a burguesia? 
- Pode ser. Mas, por mim, estou convicto que a tolerância paradisíaca da sociedade paulistana devia ser olhada com certo respeito, com admiração, e até com simpatia. Nem careço de argumentos para provar, com abundância de razões, que o gesto incriminado se apadrinha na lição da História, no bom-gosto, na cultura e... na moral cristão autêntica!" 
O narrador pede que o leitor não se escandalize ( outra vez?) e que não jogue fora o livro que ele escreve. Diz que prostitutas são parte do aprendizado cristão e que recebem muitos nomes: concelheira, faniqueira, cantoneira, miseráveis, michela, rascoa, patrajona, desaforadas, loureira, madalena, horizontal, interessantes, sereia, hetera, cortesã, ruinosa, magnifíca. E dispara: 
"Que vem a ser mundana, afinal de contas? 
Será, porventura, um ente pernicioso com os estigmas do crime, passível de penas perante a lei? 
- Claro está que não é nada disso. A mundana é apenas uma mulher em antagonismo com a instituição social da Família. Nada mais. Tachada de uma ignomínia convencionalmente indelével, a sua carreira é uma fatalidade. Nada mais lhe resta, dado uma vez o traiçoeiro escorregão, senão prosseguir no declive começado. 
- Esta a lei, imposta às frágeis filhas de Eva pelo orgulho estúpido dos homens. Mas é evidente que é uma lei sem fundamento, quer moral, quer natural. É simplesmente iníquo pretender sujeitar a honra das mulheres a uma regra de costumes forjada pelos homens, sem participação nem conhecimento delas; pois que fariam as mulheres se legislassem para os homens? " 
Em meio às suas divagações, aparece um tal de Justiniano Sacramento que, funcionário de Pacheco Isidro, ganha pouco e comparece sempre ao bordel, prestigiando as "meninas". Por intervenção de Pommery, acaba sendo promovido a chefe da da terceira seção de Taxas e Impostos. 

Oitavo Capítulo 
De como bruscamente Mme. Pommery se aposentou, apesar do muito que ainda era lícito esperar da sua provecta atividade. Com alguns presságios feleizes aventurados pelo autor. 
"As biografias de pessoas célebres terminam geralmente pela morte do personagem. Nisto, como em tantas outras cousas, a história de Mme. Pommery se desvia da rotina acostumada, porque não pára em morte, mas em vida; e em vida nova, e mais gloriosa." 
Pommery não morreu, ressuscitou, e começou uma nova vida, tal como uma lagarta que se enrola num casulo para de lá sair mariposa. Vendeu o Paradis Retrouvé, o que afigurou-se para algumas pessoas como um ato de insanidade "O que seria do Paradis, sem Mme. Pommery?" 
Todos os atos de Pommery, no entanto, tinham sido levados por um simples motivo: 
"O desprezo de Zoraida tinha-a penetrado até os ossos, como a chuva em terra seca. Daí lhe germinaram todos os planos e invenções, cuja origem e cujo fim era o desejo de suplantar a antiga preceptora, que aqui se estadeva, cheia de empáfia, como Exma. Sra. D. Zoraida, no palácio de Pacheco Isidro." 
Pommery tinha fortuna, certo prestígio social, traquejo com os homens e mulheres, mas faltava-lhe duas coisas: arranjar um marido e entrar para a sociedade de São Paulo. A história termina em aberto, com indicações de que Pommery sair-se-á muito bem. Observe isso: 

"Por esta razão, e porque não sou profeta, não tenho culpa nenhuma se a narração fica suspensa. Pois eu até daria uma garrafa de champanha para poder continuar este capítulo, pelo menos, até a primeira apresentação de Mme. Pommery no baile do Electro Club, em companhia do esposo, o Conde X ou o Barão Z... Mas não posso. Apenas me consolo com o presságio da festa, que há de ser das mais brilhantes, com uma vitória definitiva de Mme. Pommery, a qual passará entre alas de sorrisos e amáveis demonstrações... 
E só se pode prever um sentimento discordante nesse concerto de simpatias. Simples desafinação da moralidade anacrônica. 
Porque a Exma. Sra. D. Zoraida Pacheco Isidro, assistindo à consagração dessa rascoa aventureira... com toda a certeza que há de torcer o focinho.