Resumo Morte e Vida Severina - Auto de Natal Pernambucano

Resumo do Livro Morte e Vida Severina - Auto de Natal Pernambucano de João Cabral de Melo Neto.

Resumo Morte e Vida Severina - Auto de Natal Pernambucano
Morte e Vida Severina

DO AUTOR

Tendo estreado em livro em 1942, João Cabral de Melo Neto enquadra-se no que a crítica chama de Geração de 45, um grupo de escritores desligados das inovações estéticas defendidas pelos modernistas de 22, marcada formalmente por apego maior ao rigor formal e ao artesanato poético. No aspecto temático, João Cabral elegeu três preocupações: o Nordeste, com sua sofrida problemática; a Espanha, naquilo que ela tem de semelhante ao Nordeste e a própria poesia, numa ação metalingüística que segue os passos de outros grandes poetas que revelaram a mesma preocupação.

DA OBRA
O subtítulo "Auto de Natal Pernambucano" remete-nos para a tradição medieval ibérica em que a designação "auto" destinava-se a peças de teatro ao gosto tradicional. Os assuntos podiam ser religiosos ou profanos, sérios ou cômicos. Os autos, ao mesmo tempo que divertiam, moralizavam pela sátira de costumes e inculcavam de modo vivo a acessível as verdades da fé. Tais peças foram uma constante na literatura portuguesa e tiveram seu apogeu com o teatro vicentino, no alvorecer do século XVI.
Morte e Vida Severina foi composta a pedido de Maria Clara Machado, especialmente para o teatro. Dividida em dezoito passos, cada um deles narrando partes da grande jornada de um retirante — Severino de Maria — que foge da seca, em busca da vida no litoral. Esses pequenos passos são as cenas de um auto natalino, com a descrição final do nascimento de uma criança, mas entremeados pela morte que é o liame entre uma cena e outra.
Publicado em 1956 e encenado a partir de 1958, o poema-peça teatral tem conseguido repetido sucesso de público e de crítica, sendo inclusive levado ao cinema. Seu conteúdo crítico-social e o fato de uma de suas encenações ter sido musicada por Chico Buarque de Hollanda levaram alguns críticos a rotular o Autor de "engajado", rótulo que ele repele veementemente, a não ser que esse engajamento seja considerado com a própria poesia.

DO TÍTULO
O título engloba a mensagem que perpassa todo o poema. Com a mudança da ordem natural (primeiro a vida e depois a morte) para morte/vida o Autor já antecipa o tipo de vida que pretende descrever: uma vida que coexiste diuturnamente com a morte. As duas mantêm tal simbiose que o adjetivo comum confere-lhes, a ambas, a qualidade de severinas, isto é, de extremado rigor em suas relações com o meio.

RESUMINDO
Na parte inicial, o poema narra a peregrinação do protagonista em sua caminhada ainda no sertão e o seu encontro com a morte em diferentes ocasiões: dois homens carregam um defunto, numa rede, vítima de emboscada; o segundo encontro com a morte dá-se quando o retirante encontra o rio Capibaribe agonizando, intermitente em razão da seca; Severino segue viagem só para se deparar com um velório, onde se cantam as incelências. A partir desse momento, ocorre a reflexão sobre as razões de sua própria vida.
Chegando ao litoral, Severino encontra um lugarejo sem habitantes: todos foram enterrar um trabalhador-defunto — a morte é uma constante também na terra macia da Zona da Mata. No Recife, ouve dois coveiros discutindo sobre como faturar com a morte e aí resolve dar cabo da própria vida, atirando-se no rio.
Tendo desistido de matar-se, Severino encontra-se com o mestre Carpina e indaga dele sobre suas dúvidas existenciais. O mestre diz-lhe do nascimento do filho que, "saltando para dentro da vida" forma uma visão antitética ao quadro permanente da morte. Na visitação ao recém-nascido fica evidente o fito de formar-se um grande arco ligando nascimento e morte e deixando explícito o determinismo social que conduz e conduzirá a todos para um destino irremediável.

CONCLUINDO
O poema marca-se pelo jogo de palavras entre o substantivo Severino e o adjetivo severina, caracterizando a vida e a morte presentes no sertão marcado pelo flagelo da seca. O aspecto social típico do Nordeste, particularmente o problema fundiário, permeia a jornada trágica do protagonista que, na busca da vida, só encontra a morte por onde passa.
Seguindo a tradição medieval, tão presente no Nordeste, o poema é escrito predominantemente em versos redondilhos maiores, com um vocabulário que vai do erudito ao regional sem que, nesse espectro, cause grandes traumas interpretativos.

Autor confessamente adepto do trabalho poético artesanal, João Cabral impõe-se um tema e o explora de todos os ângulos possíveis, a partir de sua experiência pessoal de homem de seu tempo. Nada é fortuito. Nada é improviso. Nada é acaso. A poesia para ele não brota espontaneamente a partir de uma inspiração divina dada a poucos eleitos. Para João Cabral, o trabalho intelectual conjuga-se com a disciplina e com o rigor de quem sabe o que quer e como o quer. O resultado, naturalmente, é um poema equilibrado, harmônico, seco, duro, direto, sem quaisquer concessões a soluções simplistas e/ou emocionais.
Podemos concluir afirmando que se trata de um poema bastante representativo da obra do Autor, do momento e da importância que ela representa para a literatura brasileira.