A Relíquia - Eça de Queiroz

1. Um lembrete: 


Quando analisamos A ilustre casa de Ramires, ainda no livro 1 desta coleção, você pôde encontrar lá todos os dados sobre Eça de Queiroz, o maior escritor realista-naturalista português.
Antes de ler esta análise, convém que você verifique outra vez as características do escritor.

2. Um romance da segunda fase:

O romance que agora passaremos a analisar pertence à segunda fase de Eça, ligada à crítica impiedosa contra a pequena-burguesia portuguesa e ao provincianismo, religiosidade e conservadorismo português.
Releia o trecho abaixo, ele consta de seu livro 1 de análise:
2ª fase ( 1875 a 1887): Aqui encontram-se seus romances realistas-naturalistas. Nela, aparecerão O Crime do Padre Amaro (1875), O Primo Basílio ( 1878), A Relíquia ( 1887), trilogia mais acidamente crítica contra a pequena-burguesia portuguesa. Aderindo à causa republicana, fora de Portugal, pôde criticar largamente as instituições de sua terra e seus inúmeros e intoleráveis vícios: a Monarquia, a Igreja e a burguesia serão atacadas enormemente. Sob a legenda Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia, compõe um painel amplo daquela sociedade que julgava culpada pelo atraso de seu povo: o clero hipócrita, a aristocracia rural acomodada, a burguesia gananciosa, irresponsável e medíocre.

Já sabe o que vai encontrar aqui, então. E desta vez, Eça critica profundamente os costumes do clero, a religiosidade fanática e irresponsável. Tudo isso através de uma crítica ferrenha, que espicaça a alma pequena das criaturas que vivem encasteladas em um mundo sem perspectivas que não sejam as "do lado de lá" da vida.


3. A estrutura do romance:

O romance A Relíquia, publicado em 1887, está dividido em cinco grandes capítulos, todos inominados .
Foco narrativo ou ponto de vista do narrador: em primeira pessoa, narrador-personagem, o narrador é o protagonista.
O espaço é Lisboa e, também, a Terra Santa para onde o narrador se dirige numa viagem patrocinada por Titi.
O tempo : segunda metade do século XIX. O narrador adota o flashback para ir buscar a infância remota, quando fica órfào, isso no início do romance, e depois a vida adulta. Mas utiliza-se de duas datas que podem ser precisadas: 1853, ocasião em que o pai de Teodorico aproxima-se do bispo de Corazim, D. Gaspar, o que lhe vale um bom emprego na Alfândega; e 1875, data em que o narrador empreende viagem à Terra Santa, porque Titi ( a tia do narrador, D. Patrocínio das Neves) queria que ele pudesse ir até lá, respirar os ares santos.
Personagens:
Teodorico, o narrador: órfão mantido por D. Patrocínio, é neto de um padre. Foi criado pela beata Titi depois da morte dos pais. Finge adaptar-se ao conservadorismo beato da casa da tia, cheia de exigências. Mas é leviano e dissoluto, mentiroso e dissimulado.
Titi, a D. Patrocínio das Neves: para ela, tudo o que diz respeito a sexo é pecado. Magra, cara esverdinhada e mãos encarquilhadas, mantém em casa um oratório que possui um altar; gosta da companhia de padres, que recebe todas as noites para o jantar.
Adélia: Amante de Teodorico, troca-o por um homem mais rico e que pode dar-lhe dinheiro. Teodorico apaixona-se por ela; Adélia, no entanto, é uma interesseira.
Casimiro: padre, procurador de Titi, vem sempre jantar com ela. Titi confia nele inteiramente.
Pinheiro: outro padre freqüentador dos jantares oferecidos por Titi. Triste, tem mania de doença e fica examinando sempre a língua no espelho.
Crispim: Amigo de escola de Teodorico, dono de uma rica casa comercial, tem uma irmã solteirona com quem Teodorico se casa para fugir da pobreza.
Topsius: é colega de viagem de Teodorico quando ambos viajam para a Terra Santa. Doutor, pesquisador, ele sabe tudo sobre aquela região. Alemão, alto e magro, trazia sempre os óculos equilibrados na ponta do nariz.
Vicência: criada de Titi; Teodorico gosta de seus braços gordos e branquinhos. Gostava também de seus cuidados e carinhos.
Mary: amante que Teorico arranja quando da viagem à Terra Santa, responsável pelo fato de Titi ter deserdado o sobrinho, por conta de uma camisola de rendas e de certo bilhete que nela havia pregado.


4. Características do romance:

Há, no romance de Eça uma visão pessimista de um Portugal demasiadamente conservador de que Titi é a principal representante; há também uma crítica ferina, contundente e cruel desta mesma sociedade portuguesa, ressaltando-se aí os defeitos do clero, o que já fora anteriormente feito em O Crime do padre Amaro. Desta vez, no entanto, a crítica é muito mais aguda e mostra as criaturas que fariam qualquer coisa por um pouco de dinheiro.

Principalmente neste romance o autor hostiliza os que ostentam o mundo de aparências; a própria D. Patrocínio, tão beata e tão piedosa, mas que, por discordar do modo de viver de um sobrinho "pecador', deixa-o morrer doente, sem atender —lhe os pedidos.



O romance, capítulo por capítulo:

Antes de iniciar o romance há um prólogo em que o narrador anuncia que:
"Decidi compor, nos vagares deste Verão, na minha quinta do Mosteiro ( antigo solar dos condes de Lindoso), as memórias da minha vida — que neste século tão consumido pelas incertezas da Inteligência e tão angustiado pelos tormentos do Dinheiro, encerra, penso eu e pensa meu cunhado Crispim, uma lição lúcida e forte."
Anuncia que em 1875, às vésperas de Santo Antônio, D. Patrocínio das Neves, a Titi, o mandara do Campo de Sant'Ana, onde moravam, em romaria a Jerusalém. "Depois voltei — e uma grande mudança se fez nos meus bens e na minha moral."
O tom do prefácio é irônico, como, aliás, todo o romance o será:
"São estes casos — espaçados e altos numa existência de bacharel como em campo de erva ceifada, fortes e ramalhosos sobreiros cheios de sol e murmúrio — que quero traçar, com sobriedade e com sinceridade, enquanto no meu telhado voam as andorinhas e as moitas de cravos vermelhos perfumam o meu pomar."
Esse tom irônico, quase abusado que usa o narrador, pode ser bem dimensionado quando lemos a crítica que é feita por ele aos costumes, a maneira de ser das pessoas e , sobretudo, à religião que torna os seres fanatizados:
"De resto esse país do Evangelho, que tanto fascina a humanidade sensível, é bem menos interessante que o meu seco e paterno Alentejo: nem me parece que as terras, favorecidas por uma presença messiânica, ganhem jamais em graça ou esplendor. Nunca me foi dado percorrer os Lugares Santos da Índia em que Buda viveu — arvoredos de Migadaia, outeiros de Veluvana, ou esse doce vale de Rajagria, por onde se alongavam os olhos adoráveis do Mestre perfeito, quando um fogo rebentou nos juncais, e Ele ensinou, em singela parábola, como a Ignorância é uma fogueira que devora o homem — alimentada pelas enganosas sensações de Vida, que os sentidos recebem das enganosas aparências do Mundo. Também não visitei a caverna de Hira, nem os devotos areais entre Meca e Medina, que tantas vezes trilhou Maomé, o Profeta Excelente, lento e pensativo sobre o seu dromedário. Mas, desde as figueiras de Betânia até às águas caladas de Galiléia, conheço bem os sítios onde habitou esse outro Intermediário divino, cheio de enternecimento e de sonhos, a quem chamamos Jesus Nosso senhor: - e só neles achei bruteza, secura, sordidez, soledade e entulho."
E continua a fazer seus comentários brincalhões, e anuncia que quem quiser, verdadeiramente, conhecer Jerusalém , há de ler, antes, os sete volumes produzidos por seu amigo alemão Topsius, doutor pela Universidade de Bona e membro do Instituto Imperial de Escavações Históricas: Jerusalém Passeada e Comentada.
E observa que em cada uma das páginas dos sete volumes o doutor Topsius "fala de mim, com admiração e saudade. Denomina-me sempre o ilustre fidalgo lusitano; e a fidalguia de seu camarada."
Revela, ainda, que Topsius se ocupa em dizer sobre dois embrulhos de papel que o acompanharam em toda a viagem. Aqui, o narrador abre a porta para a interpretação de toda a confusão que rege o romance: tais embrulhos foram responsáveis por toda desgraça após a volta de Teodorico; por eles, o rapaz foi deserdado pela Titi.
E continua a discorrer sobre o passeio e os embrulhos, como se para instigar o leitor a desvendar rapidamente o romance e, atrás de certos embrulhos, constatar o recheio que continham.


Primeiro capítulo:

O narrador anuncia que foi seu avô o padre Rufino da Conceição, licenciado em teologia, autor duma devota Vida de Santa Filomena, e prior de Amendoeirinha. o pai do narrador era "afilhado de Nossa Senhora da Assunção, chama-se Rufino da Assunção raposo — e vivia em Évora com a minha avó, Filomena Raposo, por alcunha "A Repolhuda", doceira na Rua do Lagar dos Dízimos. O papá tinha um emprego no Correio, e escrevia por gosto no Farol do Alentejo."
Aparece aqui a primeira data do tempo cronológico: 1853, quando D. Gaspar de Lorena, bispo de Corazim ( na Galiléia), veio passar o S. João em Évora, na casa do cônego, onde o pai do narrador ia tocar violão. Foi entào que o pai de Teodorico publicou no jornal uma crônica ( Pecúlio dos Pregadores), cumprimentando a cidade por dar abrigo a dois ilustres eclesiásticos. Quando D. Gaspar soube que Rufino era "afilhado carnal de Rufino da Conceição", seu velho amigo de bancos escolares, nomeou-o — escandalosamente, como diz o narrador — diretor da Alfândega de Viana.
Rufino conheceu um comendador de Lisboa, G. Godinho, que passava o verão naquele lugar e tinha trazido consigo duas sobrinhas: uma D. Maria do Patrocínio, usava óculos escuros e vinha todas as manhãs, montada num burrinho, assistir às missas; outra D. Rosa, gordinha e trigueira, tocava harpa e sabia versos de amor de cor. Passava, romanticamente horas à beira d'água e fazia raminhos de flores.
Enquanto o doutor Margueride, delegado, e o comendador Godinho jogavam gamão e D. maria do Patrocínio rezava no terraço, Rufino tocava violão para D. Rosa.
Casaram-se:
"Eu nasci numa sexta-feira da Paixão; e a mamã morreu, ao estalarem, na manhã alegre, os foguetes da Aleluia. (...)
Observe que é quase em tom debochado que o narrador anuncia:
"O comendador e D. Maria não voltaram ao Mosteiro. Eu cresci, tive sarampo; o papá engordava; e o seu violão dormia, esquecido ao canto da sala, dentro de um saco de baeta verde. Num julho de grande calor, a minha criada Gervásia vestiu-me o fato pesado de velhudilho; o papá pôs um fumo no chapéu de palha; era o luto do Comendador Godinho, a quem papá muitas vezes chamava, por entre dentes, "malandro".
Depois, numa noite de entrudo, o papá morreu de repente, com uma apoplexia, ao descer a escadaria de pedra da nossa casa, mascarado de urso, para ir ao baile das Senhoras Macedos.
O narrador tinha, então, sete anos. E jura ter visto uma senhora alta e gorda a soluçar diante das manchas de sangue que o papá deixara na escadaria.
Como era costume, as janelas da frente da casa foram fechadas e Gervásia, a criada, cuidou como pôde do menino.
Até que apareceu o Sr. Matias, que veio buscar o garoto:
"Ao lado da cama, risonho e gordo, fazia-me cócegas nos pés com ternura e chamava-me brejeirote. A Gervásia disse-me que era o Sr. Matias, que me ia levar para muito longe, para a casa da tia Patrocínio: e o senhor Matias, com a sua pitada suspensa, olhava espantado para as meias rotas que me calçara a Gervásia. Embrulharam-me no xale-manta cinzento do papá; o João, guarda da Alfândega, trouxe-me ao colo até a porta da rua, onde estava uma liteira com cortinas de oleado."
Foi uma longa viagem e pararam várias vezes para comer e dormir, numa dessas vezes, quando se recolhiam ao quarto, o menino viu uma mulher grande e branca, "com um rumor forte de sedas claras, e espalhando um aroma de almíscar. Era a inglesa do Sr. Barão. No meu leito de ferro, desperto pelo barulho das seges, eu pensava nela, rezando ave-marias. Nunca roçara corpo tão belo, dum perfume tào penetrante: ela era cheia de graça, o Senhor estava com ela, e passava, bendita entre as mulheres, com um rumor de sedas claras..."
Aqui já se pode observar qual será o motivo da perdição de Teodorico, o Raposão no futuro...
Por fim, num domingo de manhã, debaixo de uma chuvinha, "chegamos a um casarão, num largo cheio de lama. O Sr. Matias disse-me que era Lisboa; e abafando-me no seu xale-manta, sentou-me num banco, ao fundo de uma sala úmida, onde havia bagagens e grandes balanças de ferro. (...) Um homem carregou nossos baús, entramos numa sege e eu adormeci sobre o ombro do Sr. Matias. Quando ele me pôs no chào, estávamos num pátio triste, lajeado de pedrinha miúda, com assentos pintados de preto: e na escada uma moça gorda cochichava com um homem de opa escarlate, que trazia ao colo o mealheiro das Almas.
O menino foi levado para dentro, gentilmente conduzido pela mão pelo senhor Matias. Eis o que a lembrança guarda:
"Numa sala forrada de papel escuro, encontramos uma senhora muito alta, muito seca, vestida de preto, com um grilhão de ouro no peito; um lenço roxo, amarrado no queixo, caía-lhe um bioco lúgubre sobre a testa; e no fundo dessa sombra, negrejavam dois óculos defumados. Por detrás dela, na parede, uma imagem de Nossa Senhora das Dores olhava pra mim, com o peito traspassado de espadas.



- Esta é a titi — disse-me o Sr. Matias. — É necessário gostar muito da titi... É necessário dizer sempre sim à titi!
Lentamente, a custo, ela baixou o carão chupado e esverdinhado. Eu senti um beijo vago, duma frialdade de pedra: e logo a titi recuou, enojada.
- Credo, Vicência! Que horror! Acho que lhe puseram azeite no cabelo!
Assustado com o beicinho já a tremer, ergui os olhos para ela, murmurei:
- Sim, titi."
Titi recomendou que o levassem para dentro e o lavassem, verificassem se ele sabia fazer o sinal da cruz.
Começa aqui o caminho de ator de Teodorico, que vai ter que suportar sempre o mau-humor de D. Patrocínio, suas cismas com o pecado.
Nessa mesma noite, Titi apresentou o sobrinho aos padres que frequentavam a casa e cada um deles deu-lhe vagarosamente um beijo. Acharam-no parecido com a mãe, D. Graça, e Titi "suspirou, deu louvores a Nosso Senhor de que eu não tinha nada do Raposo. E o sujeito de grandes colarinhos fechou o livro, fechou a luneta, e timidamente quis saber se eu trazia saudades de Viana. Eu murmurei, atordoado:
- Sim, Titi.
E então o padre mais idoso e nédio chegou-me para os joelhos , recomendou-me que fosse temente a Deus, quietinho em casa, sempre obediente à titi...
- O Teodorico não tem ninguém senão a titi... É necessário dizer sempre sim à titi..."
Mandado para a cozinha, no caminho deslumbrou-o o oratório de cortinas verdes, todo revestido de sedas roxas, santos de marfim e madeira. Nosso Senhor reluzia todo em ouro.
A criada deu-lhe comida e, antes de deitar, fez com que Teodorico ajoelhasse e rezasse pela saúde de D. Patrocínio, pela alma da mãe e por um certo Comendador Godinho, que fora muito bom, santo e rico.
"Apenas completei nove anos, a titi mandou-me fazer camisas, um fato de pano preto, e colocou-me, como interno, no colégio dos Isidoros, então em Santa Izabel."
Lá, Teodorico conheceu Crispim, um pouco mais velho que ele, filho de comerciantes e donos de uma fábrica. Afeiçoaram-se logo, de uma afeição meio esquisita:
"Às vezes agarrava-me o corredor e marcava-me a face, que eu tinha feminina e macia, com beijos devoradores; à noite, na sala de estudo, à mesa onde folheávamos os sonolentos dicionários, passava-me bilhetinhos a lápis, chamando-me seu idolatrado e prometendo-me caixinhas de penas de aço..."
Às quintas-feiras lavavam os pés e o sebento padre Soares vinha, de palito na boca, interrogá-los acerca da religião. E a cada mês a Vicência vinha buscá-lo depois da missa; Titi perguntava-lhe os Mandamentos, fazia-o rezar o Credo e , à noite , nos domingos, vinham jantar com eles os padres:
"O de cabelinho encaracolado era o padre Casimiro, procurador de titi; dava-me abraços risonhos; convidava-me a declinar arbor arboris, currus curri; proclamava-me com afeto "talentaço". E o outro eclesiástico elogiava o colégio dos Isidoros, formosíssimo estabelecimento de educação como não havia nem na Bélgica. Esse chamava-se padre Pinheiro. Cada vez me parecia mais moreno, mais triste. Sempre que passava por diante dum espelho, deitava a língua de fora, e ali se esquecia a esticá-la, a estudá-la, desconfiado e aterrado."
Mal anoitecia, Vicência ia levá-lo de volta ao colégio e contava sobre titi: eram primas, ambas, mas Titi fora buscá-la a um hospital, na Misericórdia, que muito lhe era grata. À porta do colégio, dizia "adeus amorzinho e dava-me um grande beijo. Muitas vezes, de noite, abraçado ao travesseiro, eu pensava na Vicência, e nos braços que lhe vira arregaçados, gordos e brancos como leite. E assim foi nasceu no meu coração, pudicamente, uma paixão pela Vicência."
Aqui, o tempo ganha um impulso rápido até alcançar o presente; é como se fosse uma certa impaciência narrativa que projeta Teodorico, em poucas linhas, para anos à frente:
"Um dia, um rapaz já de buço chamou-me no recreio de lambisgóia. Desafiei-o para as latrinas, ensangüentei-lhe lá a face toda, com um murro bestial. Fui temido. Fumei cigarros. O Crispim saíra dos Isidoros; eu ambicionava saber jogar a espada. E o meu alto amor pela Vicência desapareceu um dia, insensivelmente, como uma flor que se perde na rua.
E os anos assim foram passando: pelas vésperas de Natal acendia-se o braseiro do refeitório, eu envergava o meu casacão forrado de baeta e ornado duma gola de astracã; depois chegavam as andorinhas aos beirais do nosso telhado, e no oratório da titi, em lugar de camélias, vinham braçadas dos primeiros cravos vermelhos perfumar os pés de ouro de Jesus; depois era o tempo dos banhos de mar, e o padre Casimiro mandava à titi um gigo de uvas da sua quinta de Torres... eu comecei a estudar retórica."
E um dia o padre Casimiro anunciou que Teodorico não voltaria mais para os Isidoros, mas que iria fazer os preparatórios ( pré-vestibular) em Coimbra, na casa de um certo doutor Roxo, que era professor de Teologia.
Foi feita a roupa branca de Teodorico, Titi recomendou rezas a S. Luiz Gonzaga, padroeiro da mocidade estudiosa "para que ele conservasse em meu corpo a frescura da castidade, e na minha alma o medo do Senhor."
Teodorico odiou o Dr. Roxo porque sofria na casa dele "vida dura e claustral"; mas o professor morreu e ele se transferiu para a pensão das Pimentas "e conheci logo, sem moderação, todas as independências, e as fortes delícias da vida. Nunca mais rosnei a delambida oração de S.Luiz Gonzaga , nem dobrei o meu joelho viril diante da imagem benta que usava auréola na nuca; embebedei-me com alarido nas Camelas; afirmei minha minha robustez, fartei a carne com saborosos amores no Terreiro da Erva; vadiei ao luar ganindo fados; usava moca; e como a barba me vinha, basta e negra, aceitei com orgulho a alcunha de Raposão. Todos os quinze dias, escrevia à titi, na minha boa letra, uma carta humilde e piedosa, onde lhe contava a severidade dos meus estudos, o recato dos meus hábitos, as copiosas rezas e os rígidos jejuns, os sermões de que me nutria, os doces desagravos ao Coração de Jesus, à tarde, na Sé, e as novenas com que consolava a minha alma em Santa Cruz no remanso dos dias feriados..."
Nas férias, em Lisboa, no entanto, os dias eram dolorosamente longos porque o narrador tinha que se recolher cedo e para tudo pedir servil licença à titi.
Ela lhe perguntava se ele fazia o terço. Continuava aos domingos as partidas: o doutor Margueride, que fora delegado em Viana, e que se torna aos poucos próximo de Raposão. E dele se gabava na frente da titi:
"O nosso Teodorico, D. Patrocínio, é moço para deleitar uma tia... V. Exa., minha rica senhora, tem aqui um Telêmaco..."
Um dia, o doutor Margueride, passeando com ele no Rossio, apresentou-lhe um moço : "o Xavier, teu primo, moço de grandes dotes", que fora protegido do Comendador Godinho e que vivia com uma espanhola, e os três filhos dela, num casebre da Rua da Fé.
Teodorico vai visitá-los e lá encontra miséria: Xavier botava sangue pela boca, Carmem andava em chinelas pela casa, as crianças sofriam. Teodorico promete ao primo falar à Titi sobre seus problemas, interceder por ele em nome de Deus.
Mas não o faz, sabedor do que iria ouvir e dos perigos que isso significava: perder a herança, ser mandado fora da casa.
Em setembro, o primo manda-o chamar: está quase morrendo. Teodorico, contrariado, vai lá e recebe a notícia de que ele havia publicado um anúncio no jornal, para pedir esmolas, e se identificara como sobrinho do rico Comendador Godinho.
Teodorico se enternece, deixa cinco tostões para Carmem e promete falar à titi. Não falou, mas estava por perto quando Titi, lendo o jornal, achou tal anúncio e sussurrou entre dentes:
"Que se agüente...É o que sucede a quem não tem temor a Deus e se mete com bêbadas... Não tivesse comido tudo em relaxações... Cá para mim, homem perdido com saias, homem que anda atrás de saias, acabou... Não tem o perdão de Deus, nem tem o meu! Que padeça, que padeça, que também Nosso Senhor Jesus Cristo padeceu!
Baixei a cabeça , murmurei:
- E ainda n'so não padecemos bastante... Tem a titi razão. Que se não metesse com saias!"
O medo faz com que Teodorico queima as fotos de uma tal Teresa, com quem havia se metido em Coimbra. E não volta à rua da Fé, onde o primo agonizava. Um dia, vencido de remorsos, vai espiar de longe o casebre e um vizinho lhe anuncia que o primo estava internado num hospital.
Encontra o Silvério, amigo de Coimbra e com ele vai a uma casa de mulheres, onde conhece Adélia; vê-lhe os braços brancos e macios, "que entre eles a morte mesma deveria ser deleitosa." Mas era domingo, dia em que D. Patrocínio recebia os eclesiásticos e beatos para o jantar... foi ver Adélia e perdeu a hora. Desesperado, de guarda-chuva em punho e esbaforido, atravessou as vielas aos pulos. Ao chegar, viu titi esverdinhada e brandindo os punhos:
"- Relaxações em minha casa não admito! Quem queiser viver aqui há-de estar às horas que eu marco! Lá deboches e porcarias, não, enquanto eu for viva! E quem não lhe agradar, rua!"
Inventou que estivera no convento da Encarnação, conversando com a irmã de um amigo que ia casar. Pior ainda, titi disse-lhe que da próxima vez ficava na rua feito um cão.
Teodorico pensa em abandonar para sempre aquela casa, a velha medonha; mais tarde, quando D. Patrocínio entrou no oratório, já lá estava Teodorico de joelhos, gemendo e martelando o peito, suplicando ao Cristo de ouro que o perdoasse por ter ofendido Titi.
Encenações...
Observe que o narrador nos conta estas coisas movido por uma ironia brutal, ironia que chega a ser requintada e cruel em demasia.
Formou-se o Teodorico Raposão: de titi ganhou um cavalo e três moedas de mesada, as quais deveria transformar em pratinhas que lançasse sempre como esmola nas bandejas de recolhimento das contribuições.
Ao agradecer, enternecidamente, Raposão beija-lhe a franja do xale. Titi gostou. Disse que fosse com Deus.
"Começou daí, farta e regalada, a minha existência de sobrinho da Sra. D. Patrocínio das Neves. Às oito horas, pontualmente, vestido de preto, ia com a titi à Igreja de Sant'Ana, ouvir a missa do Padre Pinheiro. Depois do almoço, tendo pedido licença à titi, e rezadas no oratório as três Gloria Patri contra as tentações, saía a cavalo, de calça clara. Quase sempre titi me dava alguma incumbência beata: passar em S. Domingos, e dizer oração pelos três mártires do Japão: entrar na Conceição Velha, e fazer o ato de desagravo pelo Sagrado Coração de Jesus..."
O sobrinho receava desagradar-lhe e cumpria o ritual, mas começa a ver Adélia às escondidas, e recebeu dela a permissão de visitá-la: levou-lhe uma caixinha de chocolates atada com uma fita de seda azul.
Enamora-se da moça, a quem dispensaria toda a sua fortuna, caso titi morresse logo.
O narrador nos relata que pegou gosto ao hábito de criticar comportamentos, exagerados decotes, mulheres sem compostura. E nisso era apoiado por titi que mandou fazer uma casaca para o sobrinho, babando de contentamentos por ter junto dela pessoa que detestava imoralidades...
D. Patrocínio tinha raiva de toda e qualquer forma de expressão do amor humano. Se sabia de alguém que amava ou tivera um filho, exibia uma cara de reprovação e invariavelmente exclamava: "Que nojo!"
Diante dela, os amigos da casa jamais mencionavam qualquer ato, situação que envolvesse sentimentos porque ela os reprovava, que não viessem a ela com estas "relaxações"...
As preocupações de Teodorico ganhavam contornos incríveis: para espantar da pele qualquer cheiro de Adélia, costumava levar no bolso bocados de incenso que queimava , ao chegar, na cavalariça deserta. Estava sempre com cheiro de igreja, dizia. E titi reconhecia este cheiro, feliz da vida.
Chegou ao ponto de escrever uma carta a um "amigo"inexistente, "perdê-la"no corredor para que fosse achada por titi; lá dizia que havia brigado com um amigo que o convidara para ir à casa "de desonestas"... esse Raposão! Mas corria à casa de Adélia assim que podia, amaldiçoando titi e seu mau gênio, sua falta de coragem para ser humana.
Um dia, encontra o doutor Margaride e , ao conversarem, fica sabendo que, a despeito de todos os esforços, tem um rival:
" Eu arrisquei outra palavra tímida:
- A titi, é verdade, tem-me amizade.
- A titi tem-lhe amizade — atalhou com a boca cheia o magistrado — e você é o seu único parente... Mas a questão é outra, teodorico. É que você tem um rival.
- Rebento-o! — gritei eu, irresistivelmente, com os olhos em chamas, esmurrando o mármore da mesa.
O moço triste, lá no fundo, ergueu a face de cima do seu capilé. E o Dr. Margueride reprovou com severidade a minha violência.
- Essa expressão é imprópria dum cavalheiro, e dum moço comedido. Em geral não se rebenta ninguém... E além disso o seu rival não é outro, Teodorico, senão Nosso Senhor Jesus Cristo!
Nosso Senhor Jesus cristo? E só compreendi, quando o esclarecido jurisconsulto, já mais calmo, me revelou que a titi, ainda no último ano da minha formatura, tencionava deixar a sua fortuna, terras e prédios, a irmandades da sua simpatia e a padres de sua devoção.
- Estou perdido! — murmurei."
Capaz de tudo para agradar à tia Patrocínio, Raposão freqüenta missas, vai às novenas, gasta o dia percorrendo igrejas. À noite, quando vai à casa de Adélia, está morto de cansaço. E quando ela lhe pede 8 moedas de ouro, ele pede emprestado para lhe dar. Mas um dia, procura-o a amiga de Adélia e conta tudo: ele está sendo enganado, Adelino não era apenas primo, era outro amante.
Discutem, ele vai embora. Mas volta um dia para vê-la e recebe uns xingamentos, entre eles pareceu-lhe ouvir "carola!"
Um dia, durante o jantar com os beatos e eclesiásticos, o doutor Margueride perguntou a Teodorico qual era a sua ambição; respondeu-lhe que era conhecer Paris.
A Titi ficou horrorizada e Raposão desculpou-se dizendo que gostaria de ir às igrejas. Dormiu inquieto, pensando em Adélia. No dia seguinte, padre Casimiro e Titi o esperavam na sala. Ela anuncia que quer um representante de seu sangue para ir, em seu nome, visitar a Terra Santa. A terra Santa!!!
Consolado pelo fato de poder se divertir um pouco, E embarcou no Málaga, com destino à Jerusalém.
Antes, porém, havia se comprometido com algo: trazer da Terra Santa, pisada pelos pés de Jesus, uma relíquia, uma sagrada relíquia para a Titi...
Capítulo 2
"Foi num domingo e dia de São Jerônimo que meus pés latinos pisaram, enfim, o cais de Alexandria, a terra do Oriente, sensual e religiosa. Agradeci ao Senhor da Boa Viagem. E meu companheiro, o ilustre Topsius, doutor alemão pela Universidade de Bona, sócio do Instituto Imperial de Escavações Históricas, murmurou, grave como numa invocação, desdobrando o seu vastíssimo guarda-sol verde:
- Egito! Egito! Eu te saúdo, negro Egito! E que me seja em ti propício o teu deus Ftás, deus das Letras, deus da História, inspirador da obra de arte e da obra de verdade!..."
Ambos se hospedam no Hotel das Pirâmides e lá existe um funcionário português chamado Alpedrinha que facilita a Teodorico o encontro com Maricoquinhas, a Mary, com quem passa dias prazerosos. Mary vai jantar com os dois amigos, todos os dias, no hotel e lá despeja sua erudição sobre ambos, discursando sobre o Egito e suas grandezas.
Mary de cabelos anelados, Mary de corpo branco, Mary por quem Teodorico se apaixona... eram grandes amantes, ele e Mary.
Mas chega o dia de partir para Jerusalém.



"Rebuscando , entre os cobertores revoltos, descobrira uma longa camisa de rendas, com laços de seda clara. Sacudi-a; e espalhava-se um aroma saudosos de violeta e de amor... Ai! era a camisa de dormir da Mary, quente ainda dos meus abraços!
- Pertence à senhora D. Mary! É a tua camisinha, amor! — gemi eu, cruzando os suspensórios.
- A minha luveirinha ergueu-se, trêmula, descorada — e teve um poético rasgo de paixão. Enrolou a sua camisinha, atirou-ma para os braços, tão ardentemente, como se entre as dobras viesse também seu coração.
- Dou-ta, Teodorico! Leva-a, Teodorico! Ainda está amarrotada da nossa ternura!... Leva-a para dormires com ela a teu lado, como se fosse comigo... Espera, espera ainda, amor! Quero pôr-lhe uma palavra, uma dedicatória!"
Como se não houvesse lugar mais na mala, vai levá-la num embrulho redondo, cômodo , de papel pardo. A dedicatória , grudou-a à camisola com um alfinete: "Ao meu Teodorico, meu portuguesinho possante, em lembrança do muito que gozamos!"
E partiram, ele e Topsius, para Jerusalém.
O narrador diz que mal começada a viagem, refugiou-se em seu beliche para esconder a dor que sentia. Enquanto isso, Topsius delirava de alegria e ia enumerando, uma a uma as tradições mais afortunadas daquela terra estranha.
E sonha com ambas as mulheres de sua vida: Adélia e Mary se misturam e onde aparece o Diabo a lhe perguntar se nunca estivera antes na Babilônia: "Aí todas as mulheres, matronas ou donzelas, se vinham um dia prostituir nos bosques sagrados, em honra da deusa Milita.(...) E todas assim esperavam que qualquer, atirando-lhe uma moeda de prata, lhes dissesse: "Em nome de Vênus!"
O diabo pergunta-lhe também se nunca estivera no Egito, ele diz que sim e que lá conhecera Maricocas. O Diabo , então, lhe anuncia que não era Maricocas, era Isis!
Mistura no sonho um encontro com Titi que lhe chama "porco"e que vem espancá-lo com o livro de missas.
Como você pode ver , Freud rolaria alegremente no chão se lesse Eça de Queiroz.
Mas Topsius interrompe-lhe os sonhos para anunciar que estavam chegando à Palestina:
"- Jafa! — gritou-me Topsius, sacudindo o seu cachimbo de louça — Aí tem o D. Raposo a mais antiga cidade da Ásia, a velhíssima Jopé; anterior ao Dilúvio! Tire o barrete, saúde essa anciã dos tempos, cheia de lenda e de história... foi aqui que o borrachíssimo Noé construiu a sua Arca!"
Chegam, finalmente, a Jerusalém e contratam um guia de nome Pote que "depressa organizou a nossa caravana para a cidade do senhor. Um macho levava as bagagens; o arrieiro árabe embrulhado num farrapo azul, era tão airoso e lindo que eu, irresistivelmente e sem cessar, procurava o negro afago do seu olhar de veludo; e, por luxo oriental, como escolta, seguia-nos um beduíno, velho, catarroso, com o albornoz de lã de camelo listrado de cinzento, e uma forte lança ferrugenta toda enfeitada de borlas."
Se você se dispuser a ler o romance, vai verificar que aqui concentram-se os esforços do narrador para descrever o mais perfeitamente possível tudo o que verá. Desde a luminosa meiguice da tarde, até o derramado perfume de jasmins e limoeiros, entre romãzeiras em flor. E as rolas, e a cerveja servida por uma rapariga assemelhada a Raquel ( de Jacó).
O que, no entanto, o irrita é o fato de que centenas de pessoas comercializam "relíquias"de Cristo, desde pedaços de cruz até restos do Santo Sudário.
Acompanhados de Pote, partem no outro dia para ver o Jordão. O letrado Dr. Topsius, a caminho, conta ao Raposão a história de S. João Batista e Herodíades. E nosso narrador banha-se no rio Jordão.
Enquanto Topsius parte para estudar as ruínas de Jericó, Teodorico fica na tenda, tomando café. E vê, à sua frente, uma espécie de arbusto espinhento, o que lhe dá a idéia de levá-lo à tia, sob a forma de coroa de espinhos, à guisa de relíquia de Cristo, do que sobrara de sua coroa de sofrimentos tão intensos.
"É que me encontrava certamente diante duma árvore ilustre! Fora um galho igual ( o nome, talvez) que, arranjado outrora em forma de coroa por um centurião romano da guarniçào de Jerusalém, ornara sarcasticamente, no dia do suplício, a cabeça de um carpinteiro da Galiléia, condenado..."
Pensa em levá-la aTiti e oferecê-la como relíquia suprema. Mas logo lhe ocorre a idéia de que ela poderia ter melhoras no fígado. E sua vida dependia da morte da tia, porque já nào suportava mais aquela criatura:
"Que lhe podia oferecer eu de mais sagrado, mais enternecedor, mais eficaz, rosada manhã de missa?
Mas de repente assaltou-me uma áspera inquietação... E se realmente uma virtude transcendente circulasse nas fibras daquele tronco? E se a titi começasse a melhorar do fígado, a reverdecer, mal eu instalasse no seu oratório, entre lumes e flores, um desses galhos eriçados de espinhos? Oh misérrimo logro!"
Como se interrogasse à árvore e ela não falasse consultou Topsius que lhe explica tratar-se da coroa de injúria, lycium spinosum..."
O narrador conta que sacou de um navalhão sevilhano e decepou um dos galhos. Pote enrolou-o à guisa de coroa de Cristo, embrulhou-o em pano fino que Teodorico lhe ofereceu e guardou-o num pacote feito com papel pardo, dando-lhe um laço com uma fita escarlate.
Capítulo III
Era véspera da Páscoa e Topsius o convida para passá-la na casa de Gamaliel, amigo de Hilel. Observe nesse capítulo que, como lá se comemora a Páscoa, há soldados fantasiados , e todas as pessoas tomam para si personagens bíblicas.
Aliás, todo o capítulo dois e este, devem ser lidos à luz da história bíblica para serem convenientes entendidos.
Chegam caravanas da Judéia e há gente por todos os lados na estrada de Betânia.
"E então avistei, errando por cima dos penedos sobranceiros ao caminho, um homem estranho, bravio, coberto com uma pele de carneiro, que me recordou Elias e todas as cóleras da Escritura; o peito, as pernas pareciam de granito vermelho; por entre a grenha e a barba , rudes, emaranhadas, fazendo-lhe como uma juba feroz, os olhos refulgiam-lhe desvairadamente... Descobriu-nos, e logo, estendendo os braços como quem arremessa pedras, despediu sobre nós todas as maldições do Senhor! Chamou-nos "pagãos", chamou-nos "cães": gritava "malditas sejam as vossas mães, secos sejam os peitos que vos criaram!". Cruéis e cheios de presságios caíam os seus brados do alto das rochas: e , retardado pelos passos lentos da égua, Topsius encolhia-se na capa(...)"
Este capítulo é um delírio.
Pedaço a pedaço, com as pessoas encarnando personagens da época de Cristo, a vida de Rabi Jexua, o Jesus, é reencenada nas ruas. Todo o aparato soa de maneira estranha ao narrador, porque se lhe parece que ele vive aquilo, que foi, repentinamnte, levado às outras épocas:
"Peregrinos correram, erguendo os bastões: e as mulheres saíam das tendas, pálidas, apertando os filhos ao colo. O homem fazia tremer a espada no ar, todo ele tremia também: e outra vez bradou, desoladamente:
- Homens da Galiléia, Rabi Jexua foi preso! Rabi Jexua foi levado para a casa de Hannan, homens de Neftali!"
Tudo parece estupidamente real: acontecimentos, rituais, criaturas e seu destino como se estivesse Teodorico no tempo de Jesus. Uma dor na consciência? Uma maneira de estar ali em lugar de D. Patrocínio? Um delírio ?
Até o jantar em casa Gamaliel é movido a doce piedade diante das dores de Jesus que, solitariamente, cumpre o seu destino.
"Então, ansioso, ergui os olhos... Ergui os olhos para a cruz mais alta, cravada com cunhas numa fenda de rocha. O Rabi agonizava. E aquele corpo que não era de marfim nem de prata, e que arquejava, vivo, quente, quase atado e pregado a um madeiro, com um pano velho na cinta, um travessão passado entre as pernas -—encheu-me de terror e de espanto... O sangue que manchara a madeira nova, enegrecia-lhe as mãos, coalhado em torno aos cravos: os pés quase tocavam o chão, amarrados numa corda grossa, roxos e torcidos de dor. A cabeça, ora escurecida por uma onda de sangue, ora mais lívida que um mármore, rolava dum ombro a outro docemente; e por entre os cabelos emaranhados, que o suor empastara, os olhos esmoreciam, sumidos, apagados — parecendo levar com sua luz, para sempre, toda luz e toda a esperança da terra."
É impressionante aqui a recriação dos momentos da agonia de Cristo, assistida por Topsius e o narrador. José de Arimatéia, os centuriões, o Cristo que agonizava ali, diante da multidão, tudo Eça recompõe com detalhes tão reais e febris que acaba por nos impressionar aos poucos e nos tocar com o ambiente que reinventa, o espaço que reproduz.:
"O corpo branco e forte do rabi tinha a serenidade dum adormecimento: os pés empoeirados, que há pouco a dor torcia dentro das cordas, pendiam agora direitos para o chão, como se o fossem em breve pisar: e a face não se via, tombada para trás molemente por sobre os braços da cruz, toda voltada para o Céu onde ele pusera o seu desejo e o seu reino... Eu olhei também o céu: rebrilhava, sem uma sombra, sem uma nuvem, liso, claro, mudo, muito lato, e cheio de impassibilidade...
- Quem reclamou o corpo deste homem? — gritou, procurando para os lados, o centurião.
- Eu, que o amei em vida! — acudiu José de Ramatha, estendendo por cima da corda o seu pergaminho.
O escravo que esperava junto dele, depôs logo no chão a trouxa de linho e correu para as ruínas do casebre, onde as mulheres choravam entre amendoeiras."
Topsius anuncia que a jornada ao passado acabou, que partem de Jerusalém.
Extenuado, Teodorico dorme ( antes ou depois? O que viu fez parte do sonho que sonhou?) e só acorda quando Pote, em mangas de camisa, traz para ele as botas.
Toma café aliviado, com tapioca que lembra Portugal.
Quarto capítulo
"Ao outro dia, que fora um radioso domingo, levantamos de Jericó as nossas tendas; e caminhando com o Sol para ocidente, pelo vale de Cherith, começamos a romagem de Galiléia.
Mas ou fosse que a consoladora fonte da admiração houvesse secado em mim, ou que a minha alma, arrebatada um momento aos cimos da História e batida aí por ásperas rajadas de emoçào, se não pudesse já aprazer nesses quietos e ermos caminhos da Síria — senti sempre indiferença e cansaço, do país de Efraim ao país de Zebelon."
Rosnando e bocejando, Teodorico atravessou a terra dos prodígios. Pote, sempre atento, mostrou-lhe o chão sagrado onde Jacó tinha adormecido sobre uma rocha e vira a escada que faiscava, por onde vinham à terra os anjos. Nada interessa ao narrador, que boceja.
"Quando chegamos a Nazaré, que aparece na desolação da palestina como um ramalhete pousado na pedra duma sepultura — nem me interessavam as lindas judias, por quem se banhou de ternura o coração de Santo Antonino."
Passam "bem depressa"( e se houvesse a conversão?) a Porta de Damasco; Pote traz consigo o embrulho amarrado com o nastro vermelho e dá notícias de Jerusalém; Topsius conta-lhe que haviam descoberto uma lápide nova durante a romagem que tinham feito à Galiléia.
Mas Teodorico diz estar cheio dessas coisas da religião.
Naquela semana, Raposão encarregou-se de empacotar as relíquias menores que comparara para a tia Patrocínio. E ironiza que as que se vendem na rua vêm de Marselha, em caixotes: rosários, bentinhos, medalhas, escapulários, água do Jordão, pedrinhas da Via Dolorosa, azeitonas do monte Olivete. conchas do Lago de Genesaré, tabuinhas aplainadas por S. José, duas palhinhas do curral onde nasceu Jesus, um pedaço do cântaro com que Maria ia à fonte e uma ferradura do burrinho com que a sagrada família fugiu para o Egito.



Encaixotou também, com delicadeza, a coroa de espinhos que ele mesmo colhera na Terra Santa:
"(...) foi só na véspera de deixarmos Jerusalém que o encaixotei com carinho. Forrei a madeira de chita azul comprada na Via Dolorosa; fiz fofo e doce o fundo do caixote, com uma camada de algodão mais branco que a neve do Carmelo; coloquei dentro o adorável embrulho, sem o remexer, como Topsius o arranjara, no seu papel pardo e no seu nastro vermelho — porque estas mesmas dobras de papel vincado em Jericó, esse mesmo nó do nastro atado junto ao Jordão, teriam para a Sra. D. Patrocínio um insubstituível sabor de devoção... O esguio Topsius considerava estes piedosos aprestos, fumando o seu cachimbo de louça."
Topsius ensina a Teodorico que "As relíquias, D. raposo, não valem pela autenticidade que possuem, mas pela fé que inspiram."
Teodorico, sentado no horto, sonha o futuro: Titi morta, fedendo, ele rico, seu herdeiro, Paris, mulheres, tudo aos seus pés.
Ao saírem do hotel, um negro, funcionário, corre atrás deles e entrega-lhes o que fora esquecido: o pacote com a camisinha de dormir de Mary.
Teodorico se lembra dela com carinho, sabe que a ama, mas que aquele pacote agora é "um fardo impertinente".
O medo de que a tia possa tomar conhecimento dessa paixão expúria o atormenta a ponto de pensar em livrar-se dela: à noite quando estivessem nas montanhas de Judá, longe dos olhos de Pote e de Topsius, ele a arrojaria fora , a um barranco abaixo. Mas numa fonte, quando paravam para dar água aos animais, viu uma pobre mulher chorando. Pediu a Pote que lhe desse uma moeda de prata; à saída, atirou-lhe também o pacote, servisse ele para alguma coisa.
Em Jafat encontrou Alpedrinha, com um turbante bojudo e branco; dá-lhe um abraço. Alpedrinha lhe conta que Maricoquinhas tinha ido para Tebas, no Alto Egito. Que fora acompanhando um italiano de cabelos compridos que fora a Tebas fotografar as ruínas dos palácios. Mary seria fotografada também.
Alpedrinha conta, ainda, que Mary estava apaixonadíssima pelo tal italiano e, diante dos suspiros do amigo, acaba descobrindo que ele também "a petiscara".
"- E ouve lá... Também te chamava "seu portuguesinho valente"?
- Como eu servia aos turcos, chamava-me seu "mourozinho catita". "
Tristes constatações.
E, ao chegar ao Hotel das Pirâmides, despediram-se Topsius e Raposão, aquele prometendo enviar ao amigo os trinta mil-réis que lhe tomara emprestado.
Capítulo cinco
Uma semana depois, chega o Teodorico ao Campo de Sant'Ana:
"Era decerto em mim o deleite de rever, sob aquele céu de Janeiro, tão azul e tão fino, a minha Lisboa, com as suas quietas ruas cor de caliça suja, e aqui e além as tabuinhas verdes descidas nas janelas, como pálpebras pesadas de langor e de sono. Mas era, sobretudo, a certeza da gloriosa mudança, que se fizera na minha fortuna doméstica e na minha influência social.
(...) Saltei, com o caixote da relíquia estreitado ao coração... E ao fundo do pátio triste, lajeado de pedrinha, vi a Sra. Patrocínio das Neves, vestida de sedas negras, toucada de rendas negras, arreganhando no carão lívido, sob os óculos defumados, as dentuças risonhas para mim!
- Oh, titi!
- Oh, menino!
Larguei o caixote santo, caí no seu peito seco; e o cheirinho que vinha dela a rapé, a capela e a formiga, era como a alma esparsa das coisas domésticas que me envolvia para me fazer reentrar na piedosa rotina do lar."
Vicência chorava a um canto, enxugando o olho com a ponta do avental novo; Titi tremeu e segurando o caixote contra o peito, Titi desembestou para o oratório.
Titi foi convencida de abri-lo à noite, pois Teodorico frisou que só deveria abri-lo à noite como havia recomendado certo patriarca de Jerusalém.
E longas foram as horas que se detiveram à mesa para o "jantarinho". Tudo minuciosamente contado por Raposão, que adiava , como que por prazer, a hora de entregar a relíquia à Titi. Ela, por sua vez, ouvindo-lhe as narrativas, estava sem comer, apertando as mãos, suspirando.
Empolgado por tanto zelo de D. Patrocínio, olhando-a de soslaio podia reconhecer-lhe a admiração e o respeito por ele, Teodorico até tirou um cigarro e pôs a fumar regaladamente, o que nunca havia feito antes na frente da odiosa mulher que detestava tabaco, mas, que agora, acercava-se mais e mais do sobrinho para beber-lhe as declarações sobre o passeio.
Raposão pergunta-lhe sobre os amigos ausentes. Casimiro está doente, Negrão quase não vem mais a Lisboa... Ao perceber que Titi poderia recair, negar o amor, quase adoração que sentia por ele, abriu-lhe a mala, disse que poderia vasculhar o que quisesse, que não cometera na viagem nenhum deslize, que era um homem santo. Titi viu uns embrulhos, abriu-os e neles encontrou apenas dois frascos de água santa do Rio Jordão.
À noite, chegaram Justino, o doutor Margueride, o Padre Pinheiro e o Negrão. Tudo se contou novamente, cada passo, cada coisa. Titi, desvairada, havia se grudado à botas do sobrinho, onde ainda havia de existir um pouco de terra de Jerusalém...
Depois, provido de um martelo:
"O oratório resplandecia. As velhas salvas de prata, batidas pelas chamas das velas de cera, punham ao fundo do altar um brilho branco de glória.(...)
Com piedosos cuidados coloquei o caixote na almofada de veludo: vergado, rosnei sobre ele uma Ave, depois erqui a toalha que o cobria, e com ela no braço, tendo escarrado solenemente, falei:
- Titi, meus senhores... Eu nào quis revelar ainda a relíquia que vem aqui no caixotinho, porque assim mo recomendou o Sr. Patriarca de Jerusalém... Agora é que vou dizer... Mas antes de tudo, parece-me bem a pêlo explicar que tudo cá nesta relíquia, papel, nastro, caixotinho, pegros, tudo é santo! Assim, por exemplo, os preguinhos... são da Arca de Noé... (...)
- Tossi, cerrei os olhos:
- É a coroa de espinhos!
Esmagada, com um rouco gemido, a titi aluiu sobre o caixote, enlaçando-o nos braços trêmulos..."
Teodorico oferece a Titi o privilégio de desfazer o laço. Acordada do langor, trêmula e pálida, mas com a gravidade de um pontífice, a titi tomou o embrulho, fez mesura aos santos, colocou-o sobre o altar; devotadamente desatou o nó e:
"... depois, com cuidado, de quem teme magoar um corpo divino, foi desfazendo uma a uma as dobras do papel pardo... Uma brancura de linho apareceu... a titi segurou-a nas pontas dos dedos, repuxou-a bruscamente — e sobre a ara, por entre os santos, em cima das camélias aos pés da cruz — espalhou-se, com laços e rendas, a camisolinha de dormir de Mary!
A camisa de dormir de Mary! Em todo o seu luxo, todo o seu impudor, enxovalhada pelos meus abraços, com cada prega fedendo a pecado! A camisa de dormir de Mary! E pregado nela por um alfinete bem evidente ao clarão das velas, o cartão com a oferta em letra encorpada: - "Ao meu Teodorico, meu portuguesinho possante, em lembrança do muito que gozamos!!"Assinado M.M... A camisa de dormir de Mary!"
Enrolado na cortina, desesperado enquanto ouvia os gritos de que havia profanado o oratório de titi, Teodorico se meteu no quarto. Tudo tinha desmoronado! Vicência veio dizer, pouco depois, que D. Patrocínio pedia que ele se retirasse imediatamente dali e que levasse junto a roupa branca e as suas porcarias... Despedido, escorraçado!
Foi dar a um hotel da Baixa , Hotel da Pomba de Ouro.
Lá encontra um homem que se interessa por suas relíquias de viagem e passa a vendê-las; simulando recebê-las da Terra Santa, começa a ganhar algum dinheiro.
Um dia, uma semana depois de instalado no hotel, Justino vem avisar-lhe a D. Patrocínio morrera e que o deserdara. Para ele, sobrara apenas o óculo que se acha dependurado na sala de jantar...
"Recolhi à Travessa da Palha. E durante horas, em chinelas, com os olhos flamejantes, revolvi o desejo desesperado de ultrajar o cadáver da Titi — cuspindo-lhe sobre o carão lívido, esfuracando, com uma bengala, a podridão do seu ventre. Chamei contra ela todas cóleras da Natureza."
Invocou o Diabo, e planejou quebrar a pedradas o mausoléu que lhe erguessem. E decidiu escrever comunicados aos jornais, contando que ela se prostituíra a um galego, todas as tardes, no sótão, de óculos negro e em fralda!
Os padres receberam a herança e, por ironia, Adélia tornou-se amante de Negrào.
Crispim encontrou o amigo e o acolheu. Casou-o com uma irmã, D. Jesuína: tinha trinta e dois anos e era zarolha...
Ou seja, os vícios humanos, os comportamentos sociais condenáveis, estão todos aí, por conta do magnífico realista-naturalista que é o escritor Eça de Queiroz.

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