Abusado - Resumo 2

Resumo: O livro Abusado - O Dono do Morro Dona Marta, de Caco Barcelos consiste num romance de reportagem investigativa, revelando os bastidores da formação de uma quadrilha e suas histórias de guerra, morte, prisões, fugas e traições. Abusado conta a trajetória de Juliano VP - codinome de um conhecido traficante carioca - e seus companheiros de geração. A partir dos relatos de sua adolescência, entrada e ascensão no tráfico de drogas, temos um retrato histórico da ocupação do morro pelo Comando Vermelho, principal facção criminosa no estado, e da implantação de sua cruel disciplina. Ao mesmo tempo, Caco mostra o desenvolvimento da noção de cidadania entre os moradores da Santa Marta, seus esforços e conquistas, como mutirões que levaram água e luza todos os barracos da favela. Mas não deixa de apontar as péssimas condições de higiene, a pobreza, a desesperança e a brutalidade da polícia, que ainda vigoram no morro.

No mesmo ano do lançamento da obra, as professoras de comunicação social da UFPB, Sandra Moura e Nadja Carvalho, organizaram uma coletânea chamada Leituras do Abusado, reunindo onze professores-pesquisadores, filósofos, historiadores, antropólogos, jornalistas e sociólogos conferindo um enfoque transdisciplinar ao livro de Barcelos. O texto que se segue consiste em parte da nossa contribuição para o projeto.

Abertura

Lançamos aqui uma mirada sobre o livro Abusado - O Dono do Morro Dona Marta (Caco Barcelos, 2003), buscando entender a maneira como este escritor-jornalista-repórter se debruça sobre as tramas sociais e políticas que regem a vida dos habitantes desse outro Brasil, dos favelados. Com o pretexto de fazer uma biografia do traficante Marcinho VP (codinome Juliano, no romance), Barcelos mergulha no submundo do crime no Rio de Janeiro, e nos permite perceber que, em meio a uma espécie de guerra no fim do mundo, gangues rivais se digladiam e transgridem a lei de maneira violenta, mas que ali também se realizam processos de formação da identidade, agregação coletiva e laços de sociabilidade.

Em se tratando de identidade e socialização, no Brasil, a televisão contribuiu bastante nesse processo, através de uma espécie de duplicação ou clonagem da realidade cotidiana. Não é preciso ser especialista em mídia para perceber que passamos a coexistir com essa camada midiática radical que nos inspira e nos aspira. Então, o que está em jogo aqui são os estilos de representação dos valores do bem e do mal, as modalidades de identificação e pertencimento. A mídia - como um vetor de publicização da vida cotidiana - têm o poder de formar, informar e transformar, mas também pode deformar os estilos de identidade, subjetividade e sociabilidade. Então, faz-se preciso encontrar as estratégias para entrar e sair dos jogos midiáticos que se infiltraram nos diversos campos da experiência.

Quando a televisão não tem tempo para a uma reflexão, impedindo o encontro-confronto, aproximação e reconhecimento do Outro, a narrativa jornalística, como uma crônica do cotidiano, cria a oportunidade para os exercícios de abstração, contemplação e entendimento dos paradoxos, contradições e complexidades da vida comunitária.

Por este prisma percebemos que o livro Abusado, de Caco Barcelos, se distingue dentre as séries de imagens difundidas pela mídia global - particularmente, dos telejornais, programas de auditórios e talk shows, nas tevês abertas e pagas - que traduz a rotina dos deserdados da terra de maneira estigmatizada. O escritor-jornalista expõe a dura realidade do morro sem véus, sem meias palavras. Logo, instiga o leitor, escrevendo por meio de uma ética jornalística compreensiva, no respeita ao mundo violento dos excluídos.

No caso da biografia de Marcinho V.P, o relato assume significações específicas, pois os traficantes do morro - distintamente dos personagens desviantes de outros períodos históricos (1900, 1930/60/70...) - agenciam as suas máquinas de guerra sem bandeiras, nem ideologias. Eles se movem pela vontade de poder, de dominação e pelas pulsões narcisistas que os levam a ver o mundo como uma extensão de si próprios.

Há sempre um argumento defensor de uma suposta causalidade profunda, inconsciente, faminta e desejante, tentando explicar a brutalidade das gangues e quadrilhas no morro. Em verdade, elas se nutrem do vazio, da falta e das neuroses causadas - também - pelas privações de todas as ordens; é isso - em grande parte - que as impulsiona para a criminalidade. O fato é que as experiências recentes dos narcotraficantes constituem um tipo de transgressão, cuja eficácia funciona em favor do mal, da destruição e da morte.

Elementos para uma sociologia da mídia

No caso do romance Abusado, aqui salta aos olhos uma narrativa que mantém uma certa cumplicidade com o personagem delinqüente e suas gangues. O autor se mostra generoso para com os tipos de fala, com a ginga e a temporalidade do morro, com os dias de festa e de luto, exibindo também as formas de indignação e rebeldia das tribos do morro.

Então, temos aqui um caso em que o jornalista-escritor-reporter, um habitante do asfalto, mergulha na rotina diária da favela, desvendando o que há ali de beleza e horror, as sensações de pertencimento e sensações de medo. O narrador relata os modos de organização e de desordem da favela, um ambiente com suas próprias leis, em que os ``donos do morro'' se julgam no direito de matar ou deixar viver.

Substancialmente, Barcelos investe a sua pesquisa num vigor que lança luz sobre a criação das condições básicas de existência social, incluindo a infraestrutura material que assegura a sobrevivência da tribo, como as redes de água, energia elétrica, esgoto e saneamento. E apresenta também o mundo simbólico do sincretismo religioso (em que católicos, evangélicos e espíritas dividem os espaços da fé), traduz os estilos de sonoridade e musicalidade que concedem o ritmo e o vigor no cotidiano, expõe as redes de parentesco e os regimes de afetividade que enlaçam os seres humanos numa comunidade pobre.

Barcelos fabrica uma denúncia da sociedade, da ética violenta e excludente dos poderosos, dos habitantes do asfalto, sem querer pintar com cores bonitas a vida cotidiana dos traficantes e os outros habitantes do morro.

Trata-se de um romance-jornalístico com rigor na decifração dos traços psicológicos dos personagens, descrevendo as modalidades da ira, do recalque, da vergonha, do desespero e da vingança. E ao mesmo tempo, revela também os sentimentos de orgulho, de vaidade e as atitudes de ironia e subversão num ambiente marcado por uma ordem social injusta e desequilibrada.

Breve digressão em torno do título Abusado

O título chama a atenção pelo desvio ortográfico: a palavra Abusado, grafada com um ``s'' ao contrário, remete ao modo de escrever dos segmentos sociais ágrafos. Tal expediente, se por um lado denota o desejo do autor de simular uma representação fidedigna da linguagem dos habitantes do morro, por outro lado, a grafia de Abusado denuncia um sentido de transgressão à norma (lingüística), algo compactuado com o autor, que respeita tal transgressão (comunicativa) e antecipa toda uma rede de cumplicidades entre o protagonista da trama (o traficante, Juliano/Marcinho VP) e o narrador (o jornalista-escritor-repórter Caco Barcelos). Mas há um nível de significação da palavra Abusado, que se sobressai, designando uma dimensão de excesso, violência e ultrapassagem de todos os limites, afinal os traficantes são criminosos que assumem o ato extremo de matar seus semelhantes.

Contudo, Abusado fala do estado ou da qualidade de alguém irado, rebelde, indignado, o que designa - de algum modo- aquele que se rebela contra as normas, ao estilo de vida convencional, às regras estabelecidas (quando estas lhe parecem arbitrárias e desumanas). Então, abriga também um lado simpático, carismático, sedutor que envolve a imagem dos delinqüentes.

Logo o texto e o contexto de Abusado nos alerta os sentidos para percebermos o modo como uma narrativa pode demonstrar mais ou menos sensibilidade e afinidade com a postura dos fora-da-lei, dos marginalizados, dos ``outsiders''. E, em última instância, como obra literária - virtualmente - o livro Abusado traz consigo a possibilidade de adentrarmos nas misteriosas dobras da alma dos seres humanos. Ali se inscrevem as formas de ternura e brutalidade, o belo e o feio, o sublime e o grotesco da existência. É quase impossível não sentir afeto pelos personagens descritos no romance, por mais que estes sejam letais.

Sem pretendermos antecipar um juízo ético a respeito desta representação jornalístico-literária e suas possíveis emanações de simpatia para com a trajetória dos ``desviantes sociais'', percebemos que Barcelos contorna os trâmites da objetividade jornalística e também que - como na narrativa de Os Sertões (Euclides da Cunha, 1900) - a subjetividade do narrador, do sujeito da enunciação aqui faz parte da interpretação de uma complexidade histórica em que estão imersos os personagens.

A cada década encontramos um repertório importante de narrativas literárias, tematizando as anomias sociais. Assim, Feliz Ano Novo, Pixote, Bicho de Sete Cabeças, Carandiru e Cidade de Deus, entre outros são narrativas que criam as condições de identificação dos leitores com as obras através dos regimes de oralidade e visibilidade que representam, antes mesmo de chegarem ao cinema - tem um poder imenso de promover experiências estéticas, poéticas e catárticas.

O horror difícil de nomear, a dor difícil de traduzir, a solidão difícil de comunicar se projetam por meio das imagens e letras, conduzindo os leitores às regiões abissais do espírito e assim, lhes despertam a percepção para outras visões e experiências do mundo. Assim, apostamos que todos estes discursos (como práticas sócio-culturais) se prestam à formação de uma consciência crítica acerca do nosso contexto sócio-econômico em abismo. O diálogo intertextual e semiótico entre o jornalismo, a literatura, o cinema e a televisão podem nos tornar mais próximos, sensíveis e compreensivos das tramas sociais.

O êxtase e a tirania da publicidade

Optamos por explorar o Abusado, tomando como fio condutor um aspecto fundamental das culturas híbridas neste novo milênio, que consiste na onipresença dos processos midiáticos, pela fabricação e publicização das celebridades através da mídia, principalmente, a televisão.

Então, é nesse contexto que a saga de Juliano (Marcinho V.P.), narrada por Caco Barcelos, ganha novos contornos e significações. Convém perceber que o personagem V.P. assume uma outra corporeidade, um outro significado, na medida em que é imortalizado no romance. Mas tudo isso ainda é pouco, se considerarmos que a sua ``aura'' (ou ``espectro'') se desdobra, se multiplica e se irradia em diversas direções, ao se tornar ``figurinha carimbada'' nos espaços das revistas e dos telejornais. Assim, é necessário compreender o sentido desta biografia, atentando para a complexidade de sentidos, que envolve a imagem do traficante, o papel da mídia e o culto das celebridades.

O fenômeno da fama, das celebridades e dos mitos da sociedade de consumo adquire proporções mais amplas e significativas na dita ``idade mídia'', em que a exposição na tevê consiste numa experiência investida de valores quase ``transcendentais''.

A ética da comunicação - que em seu sentido etimológico se liga às noções de troca, permuta, vinculação e comunidade - tem sido atropelada por um sistema que faz da mídia uma espécie de ``fogueira das vaidades''. É neste sentido que Muniz Sodré critica a mídia (no caso, a televisão), como uma expressão de ``monopólio da fala'' e como uma ``maquina de narciso'' que inibe a fala do Outro, tendendo a dissolver os regimes de solidariedade, pois multiplica os espelhos do Mesmo no imaginário social.

Ou seja, a aparição de Marcinho VP na televisão, nestes termos, já lhe asseguraria um status de celebridade, algo que funciona um habeas corpus, absolvendo-o -simbolicamente - perante a sociedade. E este é um problema antes histórico-cultural do que midiático; então, é aqui que entra a literatura, como uma modalidade da ``grande arte'' mostrando outras corporeidades, novas leituras e textualidades, canais e conexões diversas para instalação do leitor como sujeito crítico, indignado e ativo face aos processos sócio-políticos e culturais.

Para seduzir o público-leitor o autor precisa se embrenhar em meio a essa ``guerra e divisão de linguagens'', que estrutura (e desestrutura) a esfera cultural e que, não escapa ao crivo da mídia.

Logo, para entender a forma e o sentido de um livro como Abusado, é preciso atentar para os fenômenos de midiatização, publicização e glamurização dos personagens e situações. Neste contexto, ser consumista, manter a fama de mal e aparecer nos espaços midiáticos, confere poder e prestígio tanto às pessoas do morro quanto as do asfalto. Mas o capital que compra o status de celebridade para estas últimas advém do narcotráfico, que se realiza através da criminalidade e da violência, então, temos aqui uma conjunção explosiva.

O lado mau e lado bom da banda midiática

Considerando-se os níveis de complexidade cultural da ``idade mídia'', conviria antecipar uma dialética de olho nas relações entre mídia e sociedade. Então, ocorre que os indivíduos, os grupos, as tribos encontram sempre maneiras de ``carnavalizar'' as mensagens veiculadas pela mídia e conferir um novo sentido às imagens midiáticas (inclusive a dos heróis e vilões).

Os excluídos há muito já aprenderam a ``tirar proveito'' das imagens, sons e discursos irradiados pela mídia. Isto se mostra nos estudos de comunicação realizados por uma ``moderna tradição'', que acolhe autores como Umberto Eco, Canclini, Mattelart, Martin-Barbéro (entre outros estudiosos). Estes pesquisadores afirmam o poder do receptor, no processo comunicativo. Reconhecemos que os leitores-telespectadores, como cidadãos, têm sempre maneiras de encontrar as saídas, driblando as adversidades e ressignificando as mensagens de acordo com o seu repertório sócio-cultural.

A ética e a terceira margem do texto jornalístico

Assim, enfatizamos que existem diferentes possibilidades de se ler uma obra como Abusado, mas é preciso prestar atenção para o fato de que o imaginário ocidental é inteiramente atravessado pelas irradiações midiáticas e pelo culto da personalidade. E evidentemente isso é mais forte numa ambiência em que os indivíduos passaram da oralidade às imagens sem passar pelas letras.

Mas, se quisermos analisar o Abusado, considerando o contexto sócio-cultural em que este se insere, não podemos perder de vista o fato de que autor e obra, personagem, ambiência e situação mantêm relações mútuas com os processos midiáticos. Uma antropologia urbana predisposta a contemplar o presente teria que abarcar os domínios da casa, a rua e a mídia; para o melhor e para o pior, esta é a nossa condição pós-moderna.

Neste sentido, seria conveniente relembrarmos que a mídia, no mês de julho de 2003, ocupou grande parte de seus espaços com a notícia do assassinato do traficante Marcinho VP, fonte inspiradora para o romance de Barcelos. O mesmo foi assassinado, por enforcamento, nas dependências do complexo presidiário de Bangu, em que se encontrava detido, após o sucesso de sua ``aparição'', no livro de Barcelos, lançado em maio de 2003. Mas, conviria destacar que este já se tornara famoso nas páginas e telas desde o episódio do videoclipe de Michael Jackson, no Morro Dona Marta.

Os aspectos extra-textuais às vezes são inóqüos e até nocivos, no trabalho de interpretação, mas neste caso, é de bom augúrio, pois a morte de VP, na prisão, pode significar um acerto de contas entre rivais, uma revanche das forças policiais que teriam se vingado do traficante Abusado ou um ato que incorporou a inveja dos companheiros anônimos, irados, sem glamour e sem fama. Mas, não podemos aí deixar de perceber, o resultado de um processo midiático-publicitário que tornou o traficante importante demais.

O ato de dar voz ao criminoso - virtualmente - faz do narrador, o sujeito da enunciação, um cúmplice no assassinato do bandido. E aqui não se trata de forçar uma barra, exagerando na interpretação do fato, mas simplesmente de admitir o poder que a mídia tem de acender e apagar as estrelas (incluindo aqui a o jornalismo investigativo, literatura de massa, o rádio, o cinema, a televisão). Assim, para entender o significado da obra, torna-se oportuno deslocar-se ao seu sentido midiático e cultural, acedendo assim a uma terceira margem do texto jornalístico-literário.

O que está em jogo aqui são as modalidades dos procedimentos éticos que norteiam a mídia, os indivíduos e a vida em comunidade. Relembrando Jean Baudrillard, autor de ``as trocas simbólicas e a morte'' - percebemos que a ``saga'' do Abusado já surge investida numa espécie de ``morte anunciada''. Pois antes do livro, o traficante já havia se tornado uma ``pessoa pública'', ao ter sido exibido nas páginas dos jornais brasileiros, em associação com o cineasta João Moreira Salles. O célebre episódio nos traz elementos para um debate instigante, na medida em que conjuga o traficante e o abastado diretor de cinema, acusado de financiar com uma bolsa de estudos, a ``iniciação literária'' de VP, que - supostamente - escreveria a sua autobiografia. Aliás, este fato é revisitado com esmero por Barcelos, mas caberia aqui sublinhar uma modalidade ética, da parte de Salles, que se investe em nobreza de espírito, consciência e solidariedade, o que - evidentemente - parece estranho numa sociedade cujas regras de funcionamento se baseiam também numa espécie de ``mais-valia afetiva''.

Uma antropológica do cotidiano do morro

A construção jornalística de Barcelos é pródiga na captura do sentido de um universo em que se hibridizam os signos do Brasil oficial, autorizado e instituído com os signos das culturas urbanas, da cultura popular de massa, das culturas periféricas, incluindo suas sonoridades, visibilidades e oralidades, irradiadas também pela mídia. Portanto, inscrevem-se aqui os emblemas da televisão e as falas e gírias urbanas, como a turma da Xuxa, a cocaína afetivamente tratada como Brizola e ``slogans'' como ``o lado bom da vida errada'' - enquanto imagens e jargões que animam a coexistência entre os membros das tribos do morro. É neste contexto que podemos entender a recepção amistosa da gravação do videoclipe com Michael Jackson, na favela. Ou seja, os signos constituintes do imaginário dos jovens conformistas do asfalto reaparecem também no imaginário dos jovens radicais na periferia da sociedade de consumo. Uma tradução do cotidiano do morro sem considerar este aspecto seria incompleta.

E é preciso saber apreciar os aspectos positivos desta questão, pois aqui temos a revelação dos traços de uma carnavalização da rotina comunitária, que desdramatiza a vida e assume uma postura afirmativa, conferindo um sentido mais ativo à existência.

Astuciosamente, o humor e a ironia nas falas e conversações da comunidade (habilmente assimiladas pelo escritor), funcionam como um modo de transcendência ao regime de exclusão e segregação, e - no fim das contas - promovem estilos de coesão e sociabilidade internas.

Então, a literatura de Barcelos, enquanto mídia impressa, pelo viés do chamado jornalismo investigativo, consegue flagrar o universo de Dona Marta em seus abismos sociais, econômicos e culturais, mas mostra também o componente humano, afetivo, gregário. O livro de Barcelos - pela sua própria voz e pelas vozes dos personagens - nos permite enxergar camadas reativas e também camadas afirmativas. De um lado há o jornalista ``global'' com todas as incorporações ideológicas da organização empresarial a que está filiado, do outro lado há o jornalista crítico e perspicaz empenhado no exercício da ética e da responsabilidade.

Em meio a este contexto minado de ambigüidades, em que se entrecruzam traficantes, jornalistas, malandros e celebridades... é preciso ser prudente no ato da leitura.

No morro, há as redes nefastas do crime e da violência do narcotráfico, mas também as redes vitais de integração e sociabilidade que asseguram a sobrevivência das comunidades carentes. Logo, na amplitude da obra (dentro e fora de sua textualidade) há formas ideológicas, estéticas, éticas, sociais e antropológicas que propiciam um conhecimento aproximado das alteridades e complexidades do cotidiano dos indivíduos no Morro da Dona Marta; aí reside a importância de Abusado.

Barcelos lança mão de uma estratégia bem sucedida, utilizada pelos produtores culturais, que consiste em inserir - sistematicamente - os discursos, as práticas e as representações dos excluídos na espessura das corporeidades midiáticas. Assim, entre os fluxos dos meios e das mediações, o livro Abusado consiste num fenômeno midiático (e comunicacional) importante. Sem rancor, nem ressentimento, com perspicácia, humor e ironia, um contingente importante de agentes culturais (intelectuais, jornalistas, escritores, artistas, dramaturgos, cineastas, entre outros) - de modo sensível e inteligente - têm sinalizado um novo sentido à produção cultural brasileira.

Assim, além das repetições, dos clichês e estereótipos da mídia globalizada, encontramos no espaço público algumas diferenças específicas, um amplo repertório comunicante contendo expressões de oralidade, sonoridade e visibilidade intempestivas. Em verdade são ``expressões abusadas'' (críticas, indignadas - e de certo modo - inventivas e transformadoras) que ressignificam a paisagem cotidiana.

Antecedentes das imagens e letras abusadas

Nos anos 60/70, os discursos e práticas dos agentes culturais - fazendo face à ditadura militar - experimentaram o exercício de um ``culto da marginalidade'' como estratégia de enfrentamento a um regime político de exceção. Neste sentido é emblemático o slogan utilizado pelo artista plástico Hélio Oiticica: ``Seja marginal, seja herói!''. Detectamos ali uma certa sensibilidade que - de algum modo - começava a reterritorializar os espaços e tempos do universo cultural brasileiro. Naquela época, durante os chamados ``anos de chumbo'', no Brasil do milagre econômico (e mesmo do pós-milagre) havia uma fé cega nos discursos em favor dos excluídos, dos marginalizados, dos deserdados da terra. Ainda não vivenciávamos a síndrome das balas perdidas, dos assaltos e seqüestros em série, do crime global e dos narcodólares.

Por uma série de motivos de diversas ordens os discursos voluntaristas e engajados arrefeceram, mudaram de forma. Por um lado, as indústrias culturais absorveram estes discursos de transgressão, inverteram os seus sinais, mudando o seu sentido e sua direção. Não obstante, as vozes dos excluídos não tardariam a assumir novas configurações e a se disseminar na cena cultural brasileira. Sem ilusões, sem maquiagem nem meias palavras os discursos dos marginalizados se tornaram mais agressivos, mais virulentos e isto logo se faria sentir nas diferentes formas de representação. Nos jornais da televisão, nas canções populares (o pagode, o funk, o rap), no vestuário (tachas, peircings, moicanos, carecas), nas estruturas sensíveis do cotidiano (gestos, linguagens e comportamento) - principalmente a partir dos anos 80/90 - assistimos as aparições visíveis e sonoras das tribos que, performatizando uma espécie de ``eterno retorno do recalcado'', infiltraram-se através das frestas do cotidiano, criando uma nova ética e estética da vida comunitária.

Os produtos de cultura e de comunicação, como Abusado, que se nutrem da casa, da rua e das vibrações midiáticas, sinalizam os caminhos para uma consciência ética pelo viés das emoções, sensações, afetos e sentimentos. Eles podem nos levar também a discutirmos como os atores sociais (e suas tribos) encontram modos de identificação face às imagens e figuras da violência e do medo. E alertam para as alteridades do medo, pela via da coragem e da esperança, mas também do humor e da ironia. Tudo isso se exibe fartamente nas mídias impressas, visuais e sonoras, exigindo o rigor de novas leituras e interpretações. É nesta direção que poderíamos vislumbrar uma trajetória do romance Abusado, que - virtualmente - se presta às diversas atualizações em cinema, televisão e DVD.

Partimos do pressuposto que neste novo milênio se desenham cartografias urbanas nos permitindo visualizar novos estilos de exclusão e integração social, formas emergentes de identidade e sociabilidade. Tudo isso configura novos desafios e exige novas posturas críticas e compreensivas aptas para decifrar o sentido da nova desordem social brasileira e o lugar dos indivíduos, num ambiente que apesar de caótico e violento não cessa de sinalizar agenciamentos afirmativos. O livro Abusado emana bons presságios, na medida em que decide enfrentar os desafios e assumir uma nova postura face à narração do crime, castigo e seus desdobramentos na cultura das redes.

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