Agosto - Rubem Fonseca

 Agosto (Rubem Fonseca )

Introdução

Embora o estudo que vamos apresentar possa subsidiar a compreensão do livro de Rubem Fonseca, Agosto é um romance que deve ser lido na íntegra. Este trabalho pretende ser tão-somente um aperitivo (ou a sobremesa) do grande banquete, que é ler esse romance.

José Rubem Fonseca, mineiro de Juiz de Fora (1925), é hoje um escritor consagrado, destacando-se como contista, romancista e roteirista de cinema.

Entre seus livro de contos, merecem referência Os primeiros (1963), A coleira do cão (1965), Lúcia MacCartney (1967), Feliz ano novo (1975) e  O cobrador (1979) e, entre os romances, sobressaem O caso Morel (1973), A grande arte (1983), Bufo e Spallanzani (1986) e Vastas emoções e pensamentos imperfeitos (1988).

Publicado em 1990, Agosto, pela segunda vez indicado para o vestibular, é um romance que funde ficção e história real, tendo-se transformado também numa bem sucedida minissérie de televisão.

Aliás, com esses mesmos ingredientes, tem feito grande sucesso também Hilda Furacão, de Roberto Drummond. O mesmo ocorreu com outro grande romance da literatura brasileira – Incidente em Antares -, de Érico Veríssimo, também filmado, no qual igualmente se misturam ficção e história.

Embora tenha sido recebido com ressalvas por alguns escritores, Agosto apresenta uma trama bem urdida, que prende o leitor do princípio ao fim, e constitui “uma das melhores obras de nosso tempo” e “o melhor livro de Rubem Fonseca”, como reconhece o jornalista e escritor Fernando Morais, na “orelha” do romance:

(...) Minuciosa pesquisa história e um talento que consegue o prodígio de superar as obras anteriores de Rubem Fonseca produziram um livro eletrizante. Como se tivesse diante dos olhos os melhores momentos de Costa Gravas, o leitor é guiado pela mão do autor a caminhar pela emoção de cada hora dos vinte e quatro dias de agosto de 1954: a câmera vai mostrando sucessivamente um xadrez entupido de presos comuns num distrito policial, uma melancólica reunião de Vargas com seu estado-maior no Palácio do Catete, o general Castelo Branco e o Marechal Mascarenhas de Morais tentando conter a fúria da UDN.

“Agosto” tece com brilho singular a fusão entre ficção e história rela. Juntos, bicheiros, mães-de-santo, brigadeiros golpistas, pistoleiros de aluguel e políticos corrompidos magnetizam de tal maneira o leitor que às vezes fica difícil saber onde termina a História do Brasil e onde começa o romance. “Agosto” será consagrado, sem a mais  remota sombra de dúvida, como uma das melhores obras de nosso tempo. E como o melhor livro de Rubem Fonseca.

Contexto Histórico

Já no primeiro capítulo do romance, o leitor depara com os fatos e as personagens que vão constituir o núcleo do livro: o assassinato de um empresário, a ser desvendado pelo delegado Alberto Mattos (no plano ficcional) e a trama urdida por Gregório Fortunato para assassinar o jornalista Carlos Lacerda (no plano histórico).

Para que se tenha uma idéia dos fatos históricos, que giram em torno do presidente Getúlio Vargas, vamos relacionar abaixo os acontecimentos ocorridos no mês de agosto de 1957, tendo como base a exposição de Thomas Skidmore apresentada em Brasil, de Getúlio a Castelo.

1º de agosto: Gregório Fortunato articula com Climério, membro da guarda pessoal do presidente Getúlio Vargas, o atentado contra o “Corvo”, o jornalista Carlos Lacerda, oposicionista ferrenho ao presidente da República.

2 de agosto: O presidente vai ao jóquei assistir ao grande prêmio e é vaiado por algumas pessoas das tribunas especiais. Das galerias populares não vieram vaias assim como também não vieram aplausos. Esse fato  poderia já estar demonstrando o desgaste da imagem do presidente junto à opinião pública.

5 de agosto: Ocorre o atentado contra Carlos Lacerda na rua Tonelero. No fracasso  atentado, morre o major da Aeronáutica Rubem Vaz, que servia de guarda-costas ao jornalista.

O fato repercute como uma bomba na imprensa, nos meios políticos  e militares. Os ministros militares perdem sua ascendência às tropas e ocorrem públicas manifestações de  indisciplina. Carlos Lacerda foi no pé e começa a usar sua conhecida habilidade oratória e jornalística para jogar as forças Armadas contra o governo.

6 de agosto: Getúlio Vargas compreende a gravidade do fato e se reconhece como a maior vítima. Determinou a seu Ministro da Justiça, Tancredo Neves, que apurasse, com todo o rigor, as responsabilidades do atentado. Numa tentativa de mostrar sua disposição, designa um promotor público ligado à oposição para acompanhar, junto ao Ministro da Aeronáutica, o inquérito policial-militar.

7 de agosto: è preso o motorista de táxi Nélson Raimundo, que aponta Climério como mandante do atentado.

8 de agosto: O presidente dissolve a guarda pessoal.

9 de agosto: Instala-se o clima golpista; deputados como Afonso Arinos e Aliomar Balieiro defendem a deposição de Vargas.

10 de agosto: As pressões da UDN fazem eco nas Forças Armadas, e Eduardo Gomes e outros oficiais da Aeronáutica pregam a deposição do presidente.

11 de agosto: O Ministro da Guerra, Zenóbio da Costa, renuncia, pressionado por militares da oposição, liderados por Eduardo Gomes.

12 de agosto: Getúlio viaja a Belo Horizonte para inaugurar, com o governador Juscelino Kubtscheck a Siderúrgica Mannesmann. Fez um discurso em que repudia a campanha sórdida e difamatória de que é o alvo e evoca os princípios as legalidade que seus opositores estariam atropelando.

Oficiais da Aeronáutica fazem da base do Galeão a sede do IPM que tentava apurar o atentado da rua Tonelero. Parte da imprensa lançou a alcunha de “República do Galeão” para o grupo militar  do IMP, militares golpistas e politiqueiros, que escondiam da imprensa e da opinião pública as verdadeiras conclusões do inquérito.

13 de agosto: Alcino, jagunço de Tenório Cavalcanti, foi preso depois de espetacular operação de busca na zona rural na baixada fluminense, uma autêntica operação de guerra. No Galeão, ele confessa que fora o autor do atentado a mando de Climério.

Afonso Arinos volta a discursar na Câmara exigindo a deposição de Vargas. No discurso, lança a patética expressão “mar de lama”, que estaria sob o palácio do Catete.

15 de agosto: É preso o chefe da guarda pessoal do presidente, Gregório Fortunato. Chefes militares se pronunciam pela renúncia de Getúlio  Vargas.

17 de agosto: O deputado mineiro Gustavo Capanema faz discurso em defesa do presidente e de sua família. Denúncia a instigação ao golpe feita pela UDN, que tentava jogar com as forças Armadas.

18 de agosto: Alcino, o matador de aluguel, reitera sua confissão anterior Gregório Fortunato.

19 de agosto: Manuel Vargas, filho do presidente é acusado de corrupção.

21 de agosto: O vice-presidente Café Filho, que era alvo especial da tentativa da UDN de fomentar uma cisão dentro do governo, sugeriu a Getúlio que ambos renunciassem, deixando que o Congresso elegesse um sucessor inteiro para o restante do mandato presidencial. Getúlio recusou-se dizendo a Café Filho que só deixaria o palácio no final do mandato ou, antes, morto.

22 de agosto: O Marechal Mascarenhas de Morais é convencido pelo Brigadeiro Eduardo Gomes a levar para o presidente uma exigência de renúncia feita pelos brigadeiros. Ao receber o documento, Getúlio o repete prontamente.

23 de agosto: Vinte e sete generais que se autodenominavam nacionalistas lançam o “Manifesto à Nação”, exigindo a renúncia de Getúlio Vargas. Nesse documento, declaravam que  a “corrupção criminosa” que envolvia o presidente havia comprometido “a autoridade moral” indispensável ao seu governo. Almirantes e brigadeiros aderem ao Manifesto.

O ministro Zenóbio da Costa tenta ainda organizar uma resistência dentro do Exército ao clima golpista, mas, depois de uma reunião com os militares, convence-se que a deposição de Vargas era inevitável e definida.

Getúlio não se rende ao ultimato dos militares e emite uma nota desafiadora: “Se vêm para me depor, encontrarão meu cadáver.”

O presidente manteve a palavra. Não hesitando um só momento acerca de sua defesa final contra seus inimigos, apontou cuidadosamente a arma contra o coração e apertou o gatilho. Sua família e seus ajudantes precipitaram-se para o aposento, mas já encontraram o presidente morto. Oswaldo Aranha, companheiro de tantas batalhas no passado, prorrompeu em lágrimas.

Uma inflamada carta-suicídio, supostamente deixada por Getúlio, foi imediatamente entregue os jornais. Denunciava que “uma campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se às dos grupos nacionais”, tentando bloquear o “regime de proteção ao trabalho”, as limitações dos lucros excessivos e as propostas de criar a Petrobrás e a Eletrobrás.

Transcrevemos a seguir a carta-testamento:

Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim.

Não me acusam, insultam, não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci, iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei der lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente.

Assumi o governo dentro da espiral inflacionária que  destruía os valores de trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.

Tenho lutado mês a mês, dia-a-dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis a minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá  a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com perdão. E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate.

Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra  a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâncias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.

Carta-testamento

De Getúlio Vargas

24 de agosto de 1954

Como se vê, participaram do romance algumas figuras da história do Brasil, em que sobressaem o presidente Getúlio Vargas, Carlos Lacerda e Gregório Fortunato.

A seguir, relacionamos essas e outras figuras históricas que se destacam no livro:

1)     Getúlio Vargas: conhecido como “o pai dos pobres”, o velho caudilho aparece na obra com o mesmo caráter ambíguo que tem na história: ora é visto como vítima, ora é acusado de ser o responsável por toda a crise e pelo caos político que se instalou no país.

2)     Gregório Fortunato: chefe da guarda pessoal de Getúlio Vargas, o “Anjo Negro”, estava disposto até à morte para defender o presidente. Foi mandante do fracassado atentado a Carlos Lacerda, em que acabou morrendo o oficial da Aeronáutica, fato que desestabilizou completamente o governo e acirrou a oposição e as Forças Armadas, dando origem ao clima de golpe.

3)     Carlos Lacerda: jornalista, grande orador e radical opositor ao governo Vargas e ao bloco governista. Conseguiu transformar o golpe contra ele em trunfo político, o que lhe possibilitou jogar as Forças Armadas contra o velho presidente.

4)     Climério: membro da guarda pessoal do presidente, incumbido por Gregório Fortunato a contratar o assassino que atentaria contra Lacerda, o matador Alcino, que acaba fracassando.

5)     Nélson: motorista de táxi que participa da tentativa de assassinato de Carlos Lacerda. Foi quem revelou toda a trama aos oficiais da Aeronáutica que comandavam o inquérito policial-militar.

6)     Alcino: Contratado para matar Lacerda, erra o alvo, o que acaba provocando as complicações políticas que culminaram com  o suicídio de Getúlio.

7)     Alzira e Lutero Vargas: filhos de Getúlio Vargas. Ela é muito ligada ao pai, a quem tem muito carinho; ele, deputado, é acusado de ser o mandante do atentado contra Lacerda.

Nesta relação de personagens históricas, podem entrar alguns tipos que aparecem com o nome ligeiramente modificado, como é o caso de Vitor Freitas, senador corrupto e homossexual, Eusébio de Andrade, Ilídio e Moscoso, contraventores do jogo do bicho.

Organização Estrutural do Romance

1)  Ação – Paralela aos fatos históricos e entrelaçada com eles, corre, no plano da ficção, a trama policialesca, que tem como protagonista o comissário Alberto Mattos.

Tudo gira em torno do assassinato do industrial Gomes Aguiar, sócio de Pedro Lomagno na Cemtex.

Para investigar o crime, ocorrido em circunstâncias misteriosas, é indicado o delegado Mattos, que tem como única pista um anel que traz “F” gravado no seu interior.

Perpassada de suspense, a ação ficcional do romance é constantemente entrecortada pela trama para assassinar o jornalista Carlos Lacerda., o que acontece nos últimos dias do governo do presidente Getúlio Vargas.

Na “orelha” do romance (edição de 1990 de Companhia das Letras), Fernando Morais resume assim a ação central de Agosto:

Na madrugada de 1º de agosto de 1954, um empresário é brutalmente assassinato no quarto de seu luxuoso duplex no Rio de Janeiro.

Aos poucos quilômetros dali, o tenente Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal do presidente Getúlio Vargas, começa a arquitetar outro crime: o atentado contra jornalista Carlos Lacerda, que terminaria vinte dias depois, na maior tragédia política do Brasil. Depressivo e incorruptível, atormentado por uma úlcera gástrica e por duas namoradas, um delegado de polícia sai obsessivamente atrás de uma pista: a mão negra que armou os pistoleiros do atentado da rua Tonelero pode ser a mesma que matou o milionário na cama.

2)  Personagens – Complementando essa teia ficcional, a seguir apresentamos as principais personagens que participaram dessa trama policialesca:

a)     Alberto Mattos: íntegro, esse delegado é um solitário defensor da honestidade e da justiça, valores que defende e pratica contra interesses e ações de seus colegas na delegada. Na narrativa, esse comissário de policia intrépido é um importante elo entre a narrativa ficcional e a narrativa histórica.

Relativamente culto, amante da ópera, sofre de uma terrível úlcera estomacal e está dividido entre duas mulheres: Alice, uma namorada antiga com problemas psiquiátricos que retorna à sua vida depois de muitos anos; e Salete, a linda parceira que divide seu amor com Mattos e com um milionário, Luiz Magalhães.

b)     Pedro Lomagno: homem rico e inescrupuloso, casado com Alice, e sócio da Cemtex, juntamente com o industrial assassinado, Gomes Aguiar. É amante da mulher do sócio, Luciana, mulher fútil da alta sociedade, e amigo do treinador de boxe Chicão, assassino do industrial, do porteiro do edifício e do comissário Mattos e sua companheira Salete. Todos esses crimes foram a mando de Lomagno.

c)     Pádua: colega de Mattos na delegacia de polícia. Não tem qualquer escrúpulo quanto a recorrer a métodos extremos para defender seus próprios interesses. Apesar de ter diferenças profundas com Mattos, respeita-o como o único policial honesto da delegacia.

d)     Além desses, poderíamos citar o Turco Velho, matador de aluguel, contratado para assassinar Mattos e acaba sendo morto por Pádua, e Ramos, o delegado corrupto, que recebe propinas dos contraventores do jogo do bicho.

3)  Tempo e lugar

O cenário da ação do romance, como já ficou explícito, é o Rio de Janeiro, então capital da República e foco das tensões políticas, onde imperam a violência, a corrupção, o luxo e a miséria.

Longe de ser o cartão postal do Brasil, o Rio de Janeiro do romance transita entre o sombrio de uma delegacia abarrotada de presos, os apartamentos e palacetes luxuosos onde se tramam os grandes crimes e o clima de agonia e tensão do palácio do Catete. O espaço está em consonância plena com a atmosfera de tensão e casos que vive a sociedade brasileira.

O tempo focalizado é o mês de agosto de 1954.

É interessante observar que, ao montar o romance em 26 capítulos, em que cada um corresponde a um dia do mês retratado, o tempo flui cronologicamente, como se fosse um diário.

4) Foco narrativo

Como convém a um romance dessa natureza, a narrativa é feita na terceira pessoa por um narrador que se revela frio e impessoal, o que combina bem com o caráter policialesco do romance.

Tal como  num filme, a narrativa é freqüentemente interrompida através de cortes típicos de uma produção cinematográfica.

Estilo/Linguagem

Agosto é um livro que se insere na pós-modernidade, sobressaindo nele alguns aspectos de linguagem que merecem destaque.

1)     Com o objetivo de adequar a linguagem às personagens, o autor usa, sobretudo nos diálogos, modismos próprios da língua coloquial falada no Brasil. É freqüente o uso de próclise inicial, emprego de “ter” por “haver quando impessoal, falta de uniformidade no uso do imperativo, etc:

“Chefe, não se preocupe. Deixa comigo.”

“Me prepara um chimarrão bem quente.”

“Pra você não ver meu retrato, está muito feio”.

“Tem mais alguém doente aí?”

2)     Entretanto, além desses coloquialismos, percebem-se, no romance, vários níveis de linguagem, que combinam com as diversas situações e tipos focalizados. Assim é que, na narrativa, são freqüentes gírias, palavrões, e mesmo linguagem técnica dos laudos policiais e a erudita dos barrocos discursos políticos.

3)     Com freqüência, recriando textos históricos como pronunciamentos, discursos, documentos e registros da época de Getúlio, o autor usa o recurso da intertextualidade, que consiste, como se sabe, na inserção de trechos, citações ou referências no texto que o autor está construindo.

4)     O clima de suspense perpassa o livro do começo ao fim. O autor sabe criar esse clima, que é uma técnica para segurar o leitor. Aliado aos freqüentes cortes, esse recurso confere ao romance uma feição cinematográfica.

5)     Destaque igualmente merece a erudição revelada pelo autor sobretudo quando faz referência ao mundo do cinema, da pintura e da música.

6)     Os diálogos no livro não vêm indicados pelo tradicional travessão, como é de praxe no discurso direto. O autor prefere usar aspas para indicar as falas de suas personagens, o que não deixa de ser um traço da literatura comtenporânea: inovar, fazer diferente.

Aspectos Temáticos Marcantes

Ao término da leitura de um livro como Agosto, além do prazer estético que se degusta em suas páginas, algumas questões de ordem temática expostas pelo romance podem ser apresentadas.

1)     Em primeiro lugar, ao focalizar um período expressivo da história do Brasil, a obra mostra um momento de transição de nossa frágil democracia, em que avulta a figura de Carlos Lacerda, representante maior da ideologia udenista e das classes abastadas.

2)     Ao retratar um momento agônico da trajetória  política de Getúlio Vargas, o ex-ditador do Estado Novo nos é apresentado com uma imagem simpática e carismática. Seu suicídio, um gesto altaneiro e abnegado como se vê na carta-testamento , é bem uma resposta heróica  a seus inimigos e faz crescer a sua imagem de figura carismática perante os pobres e humildes que ele defende.

3)     A morte de Getúlio é muito semelhante à do comissário Mattos, pois ambos fariam grandes interesses, colocando em risco acordos, negócios e negociatas. Nesse sentido, o romance expõe, de forma contundente, de um lado, o submundo da política e da polícia, às voltas com subornos e corrupção; e, de outro, as mazelas que configuram os integrantes da alta sociedade marcada por traições e futilidades.

4)     Nesse contexto, insere-se o papel um tanto quanto bisbilhoteiro da imprensa, servindo ora a uns, ora a outros, que divide e mobiliza a opinião pública. Por certo, com notícias sencionalistas, que carecem de consistência, a imprensa está longe do seu objetivo maior; que é o de informar de modo isento.

5)     Apresentado como palco de tantas patifarias, o Rio de Janeiro, cidade maravilhosa de tantos encantos, revela-se como lugar marcado pela violência, pela miséria e por conflitos de toda ordem.

6)     Nesse cenário de caos que envolve a narrativa em suas duas faces, a história e  a ficcional, a morte parece ser a solução inevitável. Assim como a de Getúlio consternou a nação, a morte de Mattos consternou a todos os seus colegas, que se sentiram sempre ameaçados pela inflexibilidade de seu caráter.

 

Breves Reflexões acerca de Agosto

(livro de Rubem Fonseca)

Elaborado pela Profa. Maria Barjute S.  A. Bacha

1.  Um  Perfil para Rubem Fonseca

Ao noticiar o lançamento de Agosto, em outubro de 1990, o jornal Folha de São Paulo publicou um interessante artigo sobre o autor desse romance.

Leia, com atenção, o texto.

“(Tudo o que eu tenho a dizer está nos meus livros), costuma dizer José Rubem Fonseca. Esquivo a repórteres, não dá entrevistas e faz questão de que sua biografia permaneça sob a cortina de fumaça do anedotário. Nasceu em Juiz de Fora (MG), em 11 de maio 1925. É casado há 36 anos com Théa e tem três filhos: José Henrique, 26, José Alberto, 33, e Maria Bia, 35.

Antes de se dedicar à literatura, Zé Rubem (como é tratado pelos íntimos) teve vários trabalhos. Vendeu gravatas como camelô nas ruas do centro do Rio de Janeiro. Foi delegado de polícia, o que lhe permitiu conhecer o submundo do crime do Rio nos anos 50 e 60. Estudou administração de Empresas e Direito nos Estados Unidos. Foi funcionário da Light e professor da Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio no Rio. Em 1967, foi o primeiro a escrever críticas de cinema na revista “Veja”.

Escreve desde 1953, mas só publicou o primeiro livro dez anos depois: “Os Prisioneiros, um volume de contos. Outros dez livros – cinco romances e cinco volumes de contos – foram escritos por ele entre 1965 e 1989.

Entre seus hábitos estão ouvir rock, ler sobre todos os assuntos o tempo todo dormir pouco. É torcedor do Vasco da Gama. Adora forma física. Faz Cooper diário na praia do Leblon”.

2.  A Trajetória Literária do Autor

Apontado como um dos escritores que mais vende livros, no Brasil, Rubem Fonseca distingue-se no panorama da nossa atual produção literária como um grande prosador.

Voltado, basicamente, para a exploração do universo urbano, ele traz para as suas obras problemas que dizem respeito a violência social, a cultura de massas, o saber popular, o papel da arte no mundo contemporâneo etc.

Fazendo uso de uma linguagem que passa pelo tom da denúncia e da ironia, ele oferece contos e romances que perseguem um estilo fácil, conciso que agrada um número significativo de leitores.

Premiado pela crítica, censurado pela ditadura militar dos anos 70, consagrado pelo público e com obras traduzidas para diferentes países, Rubem Fonseca é, sem dúvida, um escritor de sucesso.

Veja, a seguir, os títulos dos seus livros.

Os Prisioneiros – contos (1963);

Lúcia MacCartney – contos (1969);

A Coleira do Cão – contos (1965/1969);

O Caso Morel – romance (1973);

O Homem de Fevereiro ou Março – contos (1974);

Feliz Ano Novo – contos (1975);

O Cobrador – contos (1979);

A Grande Arte – romance (1983);

Bufo e Spallanzani – romance (1985);

Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos – romance (1988);

Agosto – romance (1990).

3.  Agosto: Entre os Leitores e a Crítica

Quando a imprensa brasileira noticiou o lançamento do romance Agosto, de Rubem Fonseca, ela criou grandes expectativas em torno da publicação.

Ao divulgar que o livro aborda a “era Vargas”, focaliza o suicídio de Getúlio e volta-se especificamente, para o ano de 1954, a imprensa despertou a curiosidade de muitos leitores. Estudiosos de História, de Literatura, pesquisadores de Ciências Políticas, intelectuais, remanescentes do Getulismo, saudosistas e especuladores do nosso passado recente do romance às livrarias.

Os editores, por sua vez, apostaram no sucesso absoluto de Agosto. Na época,  a Folha de São Paulo noticiou que os responsáveis pela edição do texto de Fonseca esperavam vender setecentos volumes por dia, em cada livraria do País. Por tal motivo, gastavam, na época, milhões em campanhas de divulgação da obra.

Depois  de chegar às mãos dos leitores e da crítica, o romance ganha uma posição ambígua e, hoje, tem sido objeto de constantes polêmicas e freqüentes discussões.

Referindo-se à obra de Rubem Fonseca, o jornalista e escritor Fernando Morais, em tom elogioso, afirma:

(...) “Minuciosa pesquisa histórica em um talento que consegue o prodígio de superar as obras anteriores de Rubem Fonseca produziram um livro eletrizante. Como se tivesse diante dos olhos os melhores momentos de Costa Gravas, o leitor é guiado pela mão do autor  a caminhar pela emoção de cada hora dos vinte e quatro dias de agosto de 1954: a câmara vai mostrando sucessivamente um xadrez entupido de presos comuns num distrito policial, uma melancólica  reunião de Vargas com seu estado-maior no Palácio co Catete, o general Castelo Branco e o Marechal Mascarenhas de Morais tentando conter a fúria da UDN.

“Agosto” tece com brilho singular a fusão entre ficção e história real. Juntos, bicheiros, mães-de-santo, brigadeiros golpistas, pistoleiros de aluguel e políticos corrompidos magnetizam de tal maneira o leitor que às vezes fica difícil saber onde termina a História do Brasil e onde começa o romance. “Agosto” será consagrado, sem a mais remota de dúvida, como uma das melhores obras de nosso tempo.

E como o melhor livro de Rubem Fonseca.”

Assumindo posição contrária, Rinaldo Gama, na revista Veja, evidencia a “repetição de truques” como uma “fórmula desgastada” mas usada pelo autor de Agosto.

“A exemplo do último, do penúltima e do antepenúltimo livro do escritor, Agosto mistura suspense com erudição para tratar, desta vez, das agruras de um comissário de polícia e do terremoto político que se abateu sobre o Brasil no ano de 1954, mais exatamente naquele que foi o último mês de vida do presidente Getúlio Vargas. Isso pode deslumbrar os incautos – os que nunca leram os romances de Rubem Fonseca  ou jamais folhearam, Poe exemplo, O Nome da Rosa ou O Pêndulo de Foucault, do italiano Umberto Eco. Para os aficcionados pela obra de Fonseca, porém, Agosto soará como a repetição de uma fórmula, com seus evidentes sinais de desgaste. O que não quer dizer que será abominado. O mesmo desejo que move os telespectadores a assistir regularmente à mesma história, contada da mesma maneira, nas telenovelas, pode levar um leitor a adquirir o novo Rubem Fonseca – sem que isso signifique perda de tempo. Ninguém pode ser condenado por querer distrair-se, afinal, nem só de obras geniais vive a literatura – embora só com elas avance.”

Elogiado ou criticado, Agosto é um título da literatura brasileira que tem, hoje, uma posição de destaque nas listas de vendagem. Competindo com obras de pouco ou nenhum valor estético, é um livro que está em evidência. Embora não agrade a todos, ele desperta a curiosidade de muitos, em um só país que não tem o hábito da literatura. E esse motivo é suficientemente grande para que o romance de Fonseca ganhe maior atenção.

4.  Algumas Reflexões Acerca da História

Tecendo algumas ligeiras considerações sobre Agosto, Darcy Ribeiro, renomado cientista político, antropólogo e escritor, afirma:

“O romance Agosto é o último gesto de servidão de Rubem Fonseca a seu amo Gallotti, o testa-de-fero da Light. Não esclarece o único ponto decisivo do drama sobre o qual devia e podia depor que seria nos dizer a quem interessava a deposição de Getúlio Vargas. Não há dúvida que a grande interessada era Light para impedir que Getúlio consumasse a criação da Eletrobrás. Jango achava que foi a Light que patrocinou a campanha de difamação e armou a trama que resultou no suicídio. Seria apenas ridícula se não fosse afrontosa sua atribuição da autoria da Carta Testamento a um oficial da Aeronáutica. A Carta que é o mais alto documento da história brasileira é também magistralmente escrita.”

Disposto a questionar a imprecisão histórica da obra de Rubem Fonseca, é ainda Darcy Ribeiro quem nos lembra de alguns episódios históricos do ano de 1954.

Nas páginas do livro Aos Trancos e Barrancos, ele registra:

“Abril. Getúlio envia mensagem ao Congresso propondo a criação da Eletrobrás.

. Lacerda passa a andar custodiado por oficiais da Aeronáutica, como o major Vaz – que morreu – e Veloso, Burnier, Lameirão e outros, que se ofereceram espontaneamente para protegê-lo, dizendo: “Se lhe acontecer alguma coisa, vai ser apenas mais um jornalista morto no Brasil, e isto continua como está, daí para pior. Se o senhor andar sempre com um de nós e nos acontecer alguma coisa, será um acontecimento de maior gravidade.”

Maio. Em discurso no Dia do Trabalhador, Getúlio anuncia o aumento de 100% no salário mínimo e elogia Jango como incansável amigo e defensor dos trabalhadores. Entusiasmado, o velho Getúlio cai na subversão, dizendo aos trabalhadores: “Há um direito de que ninguém vos pode privar: o direito de voto. E pelo voto podeis não só defender os vossos interesses, como influir no próprio destino da nação. Como cidadãos, a vossa vontade pesará nas urnas. Como classe, podeis imprimir ao vosso sufrágio a força decisória do número. Constituís a maioria. Hoje, estais com o governo. Amanhã, sereis governo.”

Era a guerra. A reação interna e a internacional se juntam contra esse ex-ditador fascista que adere à democracia e chama o povo a passar as instituições a limpo, através do voto.

Agosto – 5. Carlos Lacerda é vítima de um atentado em que morre o Major Rubens Vaz, da Aeronáutica, que lhe servia de guarda-costas. Ele é ferido num pé. Segue-se enorme exaltação militar, expressa, primeiro, em manifestações públicas indisciplina e, depois, na criação de uma Comissão Militar de Inquérito  entregue à Aeronáutica que, naqueles dias, espumava de ódio.

Agosto – 6. Getúlio compreende que o atentado, de fato, era contra ele e comenta: o tiro que matou o major Vaz me acertou pelas costas. Determina, a seguir, a Tancredo Neves, Ministro da Justiça, que apure as responsabilidades pela deplorável ocorrência e designa um promotor público da oposição para, junto do Ministro da Aeronáutica, acompanhar o inquérito. Manda, ainda, dar todas as facilidades para a  comissão, a fim de apurar culpas seja de quem fosse, inclusive de  membros de sua família.

Agosto – 7. Nelson Raimundo incrimina na política militar Climério, membro da guarda presidencial, como responsável pelo atentado.

Agosto – 8. Getúlio dissolve a sua guarda presidencial de oitenta e três homens.

Agosto – 9. Aliomar Baleeiro e Afonso defendem, na Câmara dos Deputados, a deposição de Getúlio Vargas.

Agosto – 10. Eduardo Gomes e vários oficiais da FAB exigem a deposição de Getúlio.

Agosto – 11. Zenóbio da Costa, Ministro da Guerra, recebe quatro chefes militares de oposição – Eduardo Gomes, Juarez Távora, Renato Guilhobel e Caiado de Castro – que o pressionam para retirar o apoio do Exército a Getúlio, forçando-o à renúncia.

Agosto  - 12. Getúlio inaugura em Belo Horizonte, com Juscelino Kubitschek, a Usina da Manesmann. No discurso, refere-se à campanha de mentiras e calúnias de que é vítima e reitera que representa no   governo o princípio da legalidade constitucional, que lhe cabe preservar e defender.

. Oficiais da Aeronáutica fazem da Base Aérea do Galeão a sede do IOM que investiga o atentado. Era uma força Armada – aliás, a mais politiqueira e subversiva delas – contra o Governo. A República do Galeão contra a República Brasileira.

Agosto – 13. Alcino, jagunço de Tenório Cavalcanti – deputado da UDN -, confessa  na base do Galeão que matou o major Vaz e feriu Lacerda a mando de Climério.

. Afonso Arinos, em discurso patético na Câmara, declara que, frente ao mar de lama e de sangue que saía dos porões do Catete, Getúlio teria de renunciar. Quase toda a imprensa, liderada pelo jornal de Lacerda, entra na campanha de ataque ao Governo, exigindo a renúncia de Getúlio. Até os comunistas engrossam o vozerio da direita exaltada.

Agosto – 15. Gregório Fortunato, ex-chefe  da guarda presidencial, é preso na República do Galeão. Sucedem-se os pronunciamentos de oficiais das três Forças Armadas, exigindo a renúncia de Getúlio.

Agosto – 16. O Ministro da Aeronáutica renúncia.

Agosto – 17. Gustavo Capanema levanta a voz na Câmara dos Deputados  para defender a família Vargas. Declara que a exigência de  renúncia não é do povo brasileiro, mas sim de um partido político, cujos líderes instigam as Forças Armadas ao golpismo.

Agosto – 18. Alcino, o assassino do major, preso na base do Galeão, retifica sua comissão anterior, admitindo que foi contratado por Gregório, no único encontro que teve com ele, para assassinar  Lacerda.

Agosto – 19. Manuel Vargas, filho de Getúlio, é acusado de realizar transações irregulares com Gregório.

Agosto – 20. Café Filho, vice-presidente, sugere ao Ministro da guerra e, depois, ao próprio Getúlio, como solução para a crise, que ambos, presidente e vice-presidente, renunciem, entregando o governo a Carlos Luz, presidente da Câmara dos Deputados.É a solução sonhada por Lacerda.

Agosto – 21. Unidades das três Forças Armadas entram em prontidão. A tensão se eleva.

Agosto – 22. Eduardo Gomes convence o marechal Mascarenhas de Morais a levar a Getúlio uma exigência de renúncia feita pelos brigadeiros. Getúlio repele, dizendo: “Não pratiquei nenhum crime, portanto não aceito essa imposição. Daqui só saio morto. Estou muito velho para ser desmoralizado e já não tenho razões para temer a morte”.

. Getúlio recebe Jesus Soares Pereira, que foi comunicar o início, pela Petrobrás, das perfurações da plataforma submarina na Baía de Todos os Santos.

Agosto – 23. Almirantes aderem à exigência dos brigadeiros. Começa a circular um Manifesto de Generais do Exército, solidarizando-se, eles também, com os almirantes e brigadeiros.

11 horas da noite. Zenóbio, Ministro da Guerra, em face do manifesto, adere à conspiração e pronome pressionar o presidente a licenciar-se.

12 horas da noite. Zenóbio leva a Getúlio o manifesto e sugere o seu licenciamento.

Agosto – 24 – 1 hora da madrugada. Getúlio entrega a Jango sua Carta-testamento, recomendado: “Toma, Jango. Guarda contigo para ler em casa. Vai hoje mesmo para o Rio Grande. Depois de mim, eles vão cair sobre ti”.

3 horas da madrugada. Reunião ministerial com a presença da filha de Getúlio, Alzira, do irmão, Lutero, e outros familiares. Zenóbio declara que poderia resistir, mas que isso “custaria sangue, muito sangue”. Guilhobel informa que os almirantes estão solidários com os brigadeiros. Epaminondas adianta que a situação na Aeronáutica é incontrolável. Todos os ministros civis falam no mesmo tom, recomendando a licença. Só Tancredo Neves se insurge, exigindo que os chefes militares garantam o governo e defendam a legalidade. Alzira Vargas interrompe a reunião e desmente o Ministro da Guerra, dizendo que seus trinta e três generais eram treze, todos sem comando. Seu marido, Amaral Peixoto, intervém para ponderar, com apoio de José Américo e Oswaldo Aranha, que, para ele, a saída conciliatória é a licença. Só Tancredo, uma vez mais, se insurge. Getúlio encera a reunião declarando que apresentará seu pedido de licença se os ministros militares  garantirem a ordem pública. Caso contrário, diz Getúlio, “os revoltosos encontrarão aqui no palácio o meu cadáver.”

6 horas – Chegam ao palácio, notícias de que o IPM do Galeão exige a presença de Benjamim Vargas, o “Beijo”, para depor. Getúlio ordena que o irmão só faça declarações em palácio.

6:30 horas. Zenóbio confabula com os oficiais sublevados, propondo licenciamento em lugar da renúncia. Eles exigem a renúncia definitiva.

7 horas. Chega ao Catete o ultimato dos generais.

4:45 horas Getúlio pede a Beijo que verifique em suas fontes de informações se o ultimato é verdadeiro.

8 horas. Getúlio, no quarto, de pijama, ordena ao camareiro que o deixe sozinho. Quer descansar.

8:30 horas. Getúlio arrebenta o coração com uma bala.

9 horas. É lida na Rádio Nacional a Carta-testamento, que passa a constituir, desde então, o manifesto político do Brasil. Você precisa ter essa carta. Ler e meditar sobre ela, para agir. Com esse fim é que eu o produzo a seguir:

‘Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenariam-se e novamente se desencadeiam sobre mim.

Não me acusam, insultam, não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de  lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da  revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente.

Assumi o governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores de trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentávamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos  obrigados a ceder.

Tenho lutado mês a mês, dia-a-dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue.

Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.

Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada pra a resistência. Ao ódio respondo com perdão. E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje  me liberto para ávida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate.

Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.

Carta-testamento

De Getúlio Vargas

24 de agosto de 1954”

Para além das paixões  e dos partidarismos, Darcy Ribeiro se esquece de dois importantes aspectos ao criticar, negativamente, a obra de Fonseca.

O primeiro relaciona-se com a própria concepção moderna de História que admite para um mesmo episódio a pluralidade de versões.

Já  o segundo aspecto diz respeito ao próprio compromisso ficção com a verdade. O texto literário – esse é o caso de Agosto – não precisa de prender-se aos documentos, aos registros, a precisão de dados.

Explorando a História como suporte, o romance transforma a exatidão em sugestão; a verdade perde terreno para a verossimilhança; a certeza dos fatos é ficcionalizada, fingida, representada; é criação e ilusão.

5.    A Trama e as Idéias

Ao entrelaçar episódios da História do Brasil com a morte de um industrial, Rubem Fonseca faz a composição do romance Agosto.

De início, sabemos que Gomes Aguiar, um bem sucedido industrial, sócio da CEMTEX, fora assassinado em sua residência em circunstâncias misteriosas.

Eleito para investigar esse crime, Alberto Mattos, comissário de polícia, tem apenas um única pista: um anel com a letra “F” gravada.

Promovendo cortes e alternando cenas, o narrador focaliza aqueles que articulam o atentado contra o jornalista Carlos Lacerda, responsável pela “Tribuna da Imprensa”. Porta-voz dos ideais da UDN, Lacerda é alvo de desafetos daqueles que apoiam Getúlio.

Disposto a levar em frente as suas investigações, Mattos  percorre um labirinto de enganos sucessivos e  acaba associando a letra “F”, gravada no interior do anel, ao nome de Gregório Fortunato, o Anjo Negro, chefe da guarda presidencial.

“No Palácio da Guerra, o general Zenóbio, herói da FEB e Ministro da Guerra, declarou estar plenamente satisfeito com a conduta das tropas da Vila Militar, que permaneciam de prontidão para garantia do regime e da Constituição, a rádio Globo notícia idêntica, também chamando Zenóbio de herói da FEB, fora publicada naquele dia pela Última Hora. O governo decidira impedir a divulgação de notícias alarmistas. As emissoras de rádio noticiavam os acontecimentos controlados pela polícia.” (p312)

Um clima de tensão, de angústia atinge todos os níveis. No âmbito particular, por exemplo, Mattos sente fortes dores de  estômago, Alice quase ateia fogo no apartamento do Comissário ao sofrer uma crise de nervos enquanto o Chefe das forças Armadas sugere, a renúncia de Getúlio.

Nesse contexto, a morte surge como uma saída inevitável. Ela parece ser a solução para  o caos instaurado no país. No plano político, Getúlio suicida-se e provoca a comoção nacional. Logo depois, o assassinato de Mattos é motivo de consternação de seus companheiros.

Assim , o fio condutor da trama policialesca é o mesmo que reconstrói a história  dos últimos dias de Vargas.

O desfilar incessante de episódios desenha o perfil de um país que vive sob o signo do caos. Enquanto o suborno é prática constante no cotidiano da sociedade civil, a corrupção e o protecionismo econômico se fazem presentes nas esferas do poder.

“Toda delegacia tinha um tira que recebia dinheiro dos bicheiros da jurisdição para distribuir com os colegas. Esse policial era conhecido como “apanhador”. O dinheiro dos bicheiros – o levado- variava de acordo com o movimento dos pontos e a ganância dos delegados.” (p.11)

“Nenhum deles queria sacrificar a vidinha confortável que levavam à custa do presidente, bebendo uísque nas boates e andando com putas” (...) “Todos haviam enriquecido no governo” (...) (p.13)

A imprensa, ora a serviço de uns, ora a serviço de outros, divide e mobiliza a opinião pública, de forma sensacionalista. Pouco crítica e sem nenhum distanciamento dos fatos, ela é a via de denúncia ou alvo de censura.

Sugerindo o fim do caos, a volta ao equilíbrio, o narrador nos informa que a cidade tivera um dia tranqüilo, o comércio e o cinema funcionaram normalmente.

Cidade maravilhosa para os estrangeiros, lugar de violência,  miséria e instabilidade política para os brasileiros, o Rio é o núcleo dos conflitos nacionais.

Nesse sentido, a obra de Fonseca nos oferece uma oportunidade de reflexão. Reduzidos a objetos do poder, peças no jogo de disputas, indagamos qual é a lição que nos deixa essa experiência histórica.

6.  As Personagens

Depois de fazer uma extensa pesquisa bibliográfica, Rubem Fonseca constrói as personagens do romance Agosto.

A literatura da obra permite afirmar que algumas dessas personagens foram recortadas das páginas da nossa História e inseridas no texto de ficção. Outras, também extraídas da nossa historiografia, sofreram algumas alterações; ao longo do livro tiveram o seu nome ou os seus dados biográficos modificados. Já o terceiro grupo, reúne personagens que são resultantes da criação do autor.

Com o objetivo de facilitar o estudo de um número significativo de figurantes, optamos por organizar as personagens em grupos distintos.

O Primeiro Grupo:

Construído por dez personagens, aproximadamente, esse grupo está envolvido, de uma forma direta ou indireta, com a morte do industrial.

Vejamos, a seguir, as características ou funções básicas de cada um de seus integrantes.

.Alberto Mattos: comissário de polícia, ele trabalha em uma delegacia do Rio de Janeiro e procura, a todo custo, manter fidelidade aos seus princípios de honestidade e justiça. Além disso, cultiva o gosto pela música erudita e dá provas de ter um grau de informação elevado.

Encarregado de investigar o assassinato do industrial, ele, no plano narrativo, funde os episódios de caráter histórico com os de caráter ficcional.

É portador de uma úlcera e, antes de trata-la, acaba sendo assassinado. De início, apresenta-se dividido entre duas namoradas e, com o tempo, opta por Salete.

.Salete: mulher de corpo muito bem feito, ela é vaidosa e está presa aos modismos. Inicialmente, mantém uma relação amorosa com Mattos, o  sujeito que Lea admira, e outra com Luiz Magalhães – um homem rico. No final do romance, é assassinada no apartamento do comissário.

.Alice: amiga namorada de Mattos, é insegura e sofre de problemas psiquiátricos. Movida pelo interesse financeiro, casa-se com Pedro Lomagno mas não é feliz.

.Pedro Lomagno: amigo de Gomes Aguiar e sócio de Cemtex.

É amante de Luciana, apesar de ser casado com Alice. Mantém, ainda, uma relação de amizade com Chicão – o assassino do industrial.

.Luciana: casada com Gomes Aguiar, ela é amante de Pedro Lomagno. Presa aos valores da alta sociedade, é uma mulher que preenche a sua vida com atividades de menor importância.

.Gomes Aguiar: industrial e um dos sócios da Cemtex, morre assassinado. Das circunstâncias que envolvem a sua morte, a polícia encontra um anel que funciona como pista para a investigação.

.Pádua: colega de Mattos na delegacia, encarna a figura de um malandro e faz um tipo bastante vulgar.

.Ramos: delegado corrupto, recebe dinheiro dos bicheiros.

.Turco Velho: contratado para assassinar Mattos, acaba sendo morto por Pádua.

.O Segundo Grupo:

Constituído, basicamente, por políticos e gente do governo, esse grupo está envolvido com as questões referentes ao poder da época.

.Senador Freitas: político nordestino e homossexual inescrupuloso. Procura obter benefícios fazendo uso do cargo que ocupa.

.Clemente: amigo do senador, é bisbilhoteiro e se ocupa de ouvir as conversas dos outros.

.Gregório Fortunato: chefe da guarda presidencial, ele é chamado de “Anjo Negro”. Sua posição ao lado de Vargas é de vigilância e sempre dá provas de disposição para defender o presidente. É o responsável pelo atentado contra Lacerda.

.Climério: membro da guarda presidencial, ele contrata “alguém” para matar Lacerda: seus planos fracassam, ele foge mas é capturado.

.Alcino: matador contratado para atirar em Lacerda. Por ter errado o alvo, acaba provocando complicações políticas que levaram Getúlio ao suicídio.

.Nelson: motorista de táxi que ajuda Climério e Alcino no atentado da rua Toneleiros. Conta, posteriormente, tudo o que sabe para os membros da República do Galeão.

.Alzira Vargas: filha de Getúlio, é carinhosa e atenciosa para com o pai.

.Lutero Vargas: filho de Getúlio, é deputado e acusado de ser o mandante do atentado contra Lacerda.

.Getúlio Vargas: focalizado durante os últimos dias de seu segundo mandato  na presidência da república; ele é tido como o “pai dos trabalhadores e dos pobres”. Ideológico do paternalismo nacional, é alvo de tramas, intrigas, ora é visto como vítima, ora é acusado de responsável por toda a crise brasileira.

Notamos ainda, a presença de muitos outros figurantes que atuam não só na história do poder como também estão envolvidos com a trama policialesca. A título de informação, lembramos os nomes de:

.Idélio: o bicheiro que pretendia matar Mattos;

.Mãe Ingrácia: a macumbeira procurava por Salete;

.Sebastiana, mãe de Salete; Tancredo Neves, Castelo Branco, Filinto Mulher etc. e tantos outros que formam um grande painel da sociedade brasileira da época.

7.  O tempo e o Espaço

Para situar a sua ação romanesca, Rubem Fonseca divide a narrativa em vinte e seis capítulos. Cada um desses capítulos corresponde a um dia do mês de agosto de 1954.

O cenário eleito é o Rio de Janeiro. Destruída dos atributos que lhe conferem o título de “cidade maravilhosa” ou “cartão postal do Brasil”, a capital da república é um ponto de tensão.

Por ali circulam autoridades políticas, militares, jornalistas, policiais, criminosas, bicheiros, prostitutas e os mais diversos tipos sociais.

Nessa perspectiva, a cidade é o espaço ideal para as tramas, a corrupção, a violência, o luxo e a miséria de uma sociedade em crise.

Deslizando por diferentes situações, o narrador acompanha os movimentos de suas personagens e, atento, descreve o Palácio do Catete. Minucioso, visita o local onde Lacerda sofrera o atentado e não deixa de apontar a sede do jornal “Tribuna da Imprensa”.

Focalizando o espaço da marginalidade, retrata a delegacia onde trabalha Mattos, o comissário que quer fazer cumprir a ordem, a justiça e a lei. Não se esquiva de retratar, também, o apartamento do policial, com seu móveis simples mas confortáveis. Lugar de descanso, aconchego, intimidade e música, o apartamento do comissário transforma-se em palco de violência quando ele, ali, é assassinado na companhia da namorada.

8.  O Foco Narrativo

Centrado na terceira pessoa do singular, o narrador do romance Agosto distingue-se pela impessoalidade.

Funcionando como uma câmara cinematográfica, pode ser associado com a imagem de um olho. E como tal, articula a trama, instaura o impacto, promove cortes, com o objetivo de provocar suspense no leitor.

Atenta, focaliza com precisão alguns detalhes. Com apuro, registra a reação das personagens diante dos problemas por elas vivenciados.

Lembrando o procedimento policialesco, o narrador da obra de Fonseca colocar-se frio, neutro e distante da matéria investigada.

9.A Linguagem

A Linguagem do romance Agosto pode ser identificada como aquela que traz a marca da modernidade.

Distanciada das regras que orientaram os nossos escritores tradicionais, ela distancia-se do preceitos apregoados pelos nossos primeiros modernistas e distingue-se pela liberdade de expressão.

Fácil, claro e conciso, o vocabulário não se orienta pelo uso abundante de adjetivos; explora-se o vigor dos substantivos, sem que apresentar dificuldades para o leitor.

Conferindo maior grau de verossimilhança para as  personagens, Fonseca busca, em diferentes recursos lingüísticos, uma forma adequada de expressão. Assim, encontraremos nas falas dos que pertencem ao universo policialesco, o emprego de expressões técnicas entrecortadas por gírias e coloquialismos.

A título de ilustração, veja os exemplos:

“A cafetina deu o serviço?”

“Não.”

“Não disse nada?”

“Nada. Vai em frente” – (p.80)

“O sangue do lençol não é o mesmo da vítima. O da vítima é AB, RH negativo. O do lençol é A, RH positivo. Provavelmente do criminoso. A vítima tinha sangue na boca, que não era dela” (...) (p.80)

“Havia dois fios de cabelo no sabonete que recolhemos no Box.

Pelo exame da medula e da pigmentação do córtex, concluímos não serem do morto.” (p.80.81)

“Agora enfia esses lenços na boca desse puto”.(p.348)

As figuras políticas, por sua vez, também ganham uma dicção própria. Veja os trechos abaixo representados:

“E o senhor,  general Caiado? Quero a sua opinião’, disse Vargas.

‘Presidente. Não aceite nenhuma imposição. Sou favorável à resistência armada. O Exército, mesmo dividido, como  alega o senhor ministro, impedirá qualquer sublevação’.

‘Se o senhor me disser o nome do regimento que vai resistir, eu, com a devida permissão do senhor presidente, lhe darei o seu comando’, disse Zenóbio”. (p.318-319)

Não podemos deixar se salientar, na obra de Fonseca, a presença do recurso intertxtual. A recriação de textos históricos como pronunciamentos, discursos, documentos e registros da época de Vargas é, sem dúvida alguma, um dos traços principais de Agosto.

Além disso, o autor reproveita ditos populares, insere, no romance, criações de obras literárias, faz referências ao universo do cinema, da pintura e do teatro.

Veja, logo abaixo, alguns fragmentos que exemplificacaram a intertextualidade.

“O corcunda é que sabe como se deita”. (p.32)

“Não foi ao chá no Monte Líbano, em benefício da Sociedade dos Maronistas, com desfile de modelos de Elza Haouche, a modista cujos vestidos ela mais apreciava, mesmo sabendo que Mário Mascarenhas, seu músico favorito, acompanhado de mais quinze acordeonistas, tocaria, no desfile, músicas clássicas e  folclóricas. Deixou de ir assistir ao filme ‘Mogambo’, com Clark Gable e Ava Gardner”, (...)

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