Quarup - Antônio Callado (2)

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Edição nº8 - 06/08/99
Quarup
Profa. Esther Rosado
Antônio Callado, 1917-1997
"Nando já a cavalo mal ouvia Manuel Tropeiro. Sentia que vinha vindo a grande visão. Sua deseducação já estava completa. O ar da noite era um escuro éter. A sela do cavalo um alto pico. Da sela Nando abrangia a Mata, o Agreste e sentia na cara o sopro do fim da terra saindo das furnas de rocha quente. E viu: aquele mundo todo com sua cana, suas gentes e seus gados era Francisca molhando os pés na praia e de cabelos ardendo no Sertão.
- Manuel — disse Nando — eu vou para ficar."
Pequena biografia:
Nascido em Niterói no dia 26 de janeiro de 1917, Callado era filho de uma professora e de um médico. O pai foi poeta e jornalista. A mãe o incentivou a ler e a escrever histórias.
Embora cursasse Direito, concluindo o curso em 1939, jamais exerceu a profissão de advogado. Foi jornalista de sucesso, biógrafo, romancista e teatrólogo.
Em 1951, entrava para a literatura com a peça O fígado de Prometeu . Em 1964, após o golpe militar, foi preso e dividiu a mesma cela com Carlos Heitor Cony. Os militares achavam Callado um grande perigo porque ele, como jornalista, sempre se interessara por temas polêmicos: as ligas camponesas de Pernambuco ou a demarcação das terras do Xingu, prometida desde o governo de Getúlio Vargas.
Libertado, em 1968, servindo como correspondente do jornal O Globo, esteve no Vietnã; experiência nasceu o livro Vietnã do Norte. Em 1994 é eleito para a Academia Brasileira de Letras e passa a ocupar a cadeira nº 8, que pertencera a Austregésilo de Athayde. Morreu em janeiro de 1997.
Obra:
Teatro:
O Fígado de Prometeu ( 1951);
A cidade assassinada ( 1954);
Frankel ( 1955);
Pedro Mico ( 1956);
O colar de coral ( 1957);
O tesouro de Chica da Silva ( 1959)
Uma rede para Iemanjá ( 1961);
O tesouro de Chica da Silva ( 1959);
Forró no Engenho Cananéia ( 1964);
A revolta da cachaça ( 1983).
Romance:
Assunção de Salviano ( 1954);
A madona de Cedro ( 1957);
Quarup ( 1967);
Bar Don Juan ( 1971);
Sempreviva ( 1981);
A expedição Montaigne ( 1982);
Reflexos do Baile ( 1976);
Concerto carioca ( 1985);
Memórias de Aldenham House ( 1989);
O homem cordial ( 1994).
Obras diversas:
Esqueleto na Lagoa Verde ( 1953);
Retrato de Portinari ( 1956);
Os Industriais da Seca ( 1959);
Tempo de Arraes ( reportagens, 1964);
Vietnã do Norte ( 1977),
Passaporte sem carimbo ( 1978).
Onde encaixar Quarup?
Numa visão tradicional e cronológica, o romance e o autor devem ser encaixados na Terceira Geração Modernista ( de 45 aos dias atuais).
Em vez de especulação ou intimismo, no entanto, podemos considerar Quarup como "literatura engajada"e de denúncia, tal como a de João Cabral de Melo Neto em seu livro Morte e Vida Severina, também indicado pela Unicamp.
Quarup é antes de tudo uma denúncia, um grito, um alerta. Ou uma bela lição de História do Brasil.
Sobre a obra:
Callado não consta ( ainda!) da maioria das antologias literárias para estudantes do segundo grau e isso é incrível e imperdoável, em se tratando de escritor fundalmentalmente importante na literatura brasileira atual.
Quarup ( 1967) é seu mais conhecido romance, embora o autor sempre tenha declarado que sua preferência pessoal era por Reflexos do Baile ( 1976). No entanto, a crítica é unânime ao apontar Quarup como o mais exemplar entre todos os romances produzidos pelo autor.
Quarup virou filme, em 1989, dirigido por Ruy Guerra, mas nem pode ser comparado ao Quarup-livro, chance perdida pelo cineasta de fazer um grande trabalho a que o romance e Callado faziam jus. Pena.
Foco narrativo:
Quarup possui foco narrativo em terceira pessoa e seu narrador é onisciente, uma vez que penetra o "lado de dentro "de suas personagens, invadindo a intimidade de seus pensamentos, revelando ao leitor o mundo interior de cada uma delas.

"Nando tinha cartas de Francisca à sua espera. Foi tirando dos envelopes as cartas e segurou-as nas palmas abertas como se fossem azulejos. Sua primeira idéia foi colecioná-las em número suficiente para forrar as paredes da casa. Não tanto pela escrita regular em tinta azul no papel branco: o que contava era o cozimento da ternura esmaltando as folhas. ( ... ) "Foge para mim, Nando. Ficar aí é adiar a vida da gente. Principalmente a minha. A nossa... Eles estão facilitando o asilamento e fuga de todos os que estiveram presos. Foge para mim, Nando, eu sei que para você eu valho uma pátria, não valho? " Valia, valia todas as pátrias, valia o risco de uma vida duvidosa na Europa, da procura de sabe Deus que emprego. Tudo era preferível a saber Francisca longe e a chamá-lo com insistência e ignorar esse chamamento. Nando planejou embarcar de navio, mas a Polícia recusou-lhe o passaporte. Estava amarrado ao IPM do PC da Liga. Não podia deixar o país." ( A palavra, Parte V, p. 391)
Observe que o texto acima assinala também a presença do chamado discurso indireto livre, que tem como pressuposto o narrador onisciente em 3ª pessoa ( o trecho está sublinhado).
Nas narrativas onde aparece o discurso indireto livre pode ser verificada uma aproximação intensa entre o discurso do narrador e o fluxo do pensamento da personagem.
O romance está organizado estruturalmente em 7 partes, assim divididas sob a forma de 7 enormes capítulos:
1. O Ossuário;
2. O Éter;
3. A Maçã;
4. A orquídea;
5. A palavra;
6. A praia ; e
7. O mundo de Francisca.
Tempo:
O tempo narrativo, que permeia os 7 capítulos, é o cronológico e as ações acontecem num período de dez anos: inicia-se no governo Getúlio Vargas eleito pelo voto direto , na década de 50 e termina em 1964, em pleno governo militar, logo após a deposição de João Goulart e o início das torturas e perseguições por parte da junta Militar presidida por Castelo Branco.
Esses dez anos são o cenário brutal de um tempo duro para o Brasil, um tempo amargo, difícil , em que os homens, quer das Ligas Camponesas, quer pós golpe militar, tiveram que viver a carne viva de seus sonhos.
Espaço:
Os espaços narrativos são Pernambuco, onde se inicia a ação, Rio de Janeiro, para onde Nando se desloca em busca de ir para o Xingu, e o Xingu esquecido das autoridade, sobretudo Getúlio Vargas, que prometera demarcá-lo.
As sete partes do romance:
1. O ossuário
A personagem protagonista, padre Nando, é apresentada ao leitor no ossuário, enquanto medita no Mosteiro perto do Recife. Lá os frades franciscanos mortos esperam pelo Juízo Final:
"De costas para Nando e muito próximos de Cristo, seis franciscanos imóveis, três de cada lado, cabeças baixas cobertas do capuz. Enfrentavam a lei. E para eles não havia misericórdia. Eram a cabeça de duas filas de monges que aguardavam sua vez no juízo final. Estavam todos imóveis, imóvel estava o Cristo como se de súbito se introduzisse nos trabalhos uma alteração importante. Começara um julgamento sem dúvida mais grave. Era Nando que subia entre as duas filas de franciscanos. Subia. Cresciam diante dos seus olhos a balança, a escala, os cutelos, os duros pratos prontos a reagirem a um frêmito de culpa. Enquadrado, dividido pelas linhas da balança, Cristo crescente para nando caminhante. Cristo duro. Balança ele próprio. Cristo matemata. Nando ultrapassou os que eram julgados diante da balança, ultrapassou a balança, colocou-se ao lado direito do Cristo e mirou em frente. Os capuzes cobriam caveiras e na mão dos frades os rosários se prendiam a metacarpos e falanges. Eram esqueletos de frades em julgamento. Era atoda a imensa cripta em frente, prolongada num corredor que morria em trevas, havia ossos empilhados e prontos a se reorganizarem em esqueletos vestidos de burel mal soasse para cada frade a trombeta da chamada.."
Surpreende-se com a presença de Levindo entre os esqueletos. Ferido na mão por um tiro de rifle dado por um usineiro, o militante político tinha vindo parar no ossuário procurando abrigo:
"- Cuidado, Levindo — disse Nando — Violência é coisa que quem procura encontra sempre.
• Graças a Deus — disse Levindo.
• O tiroteio foi por quê?
• Esse usineiro Zé Quincas, da Usina Estrela, é o mais poderoso e o mais safado de todos eles. Se a gente conseguir curvar essa peste os outros vão ver que a coisa não é mais brincadeira. Eu fui lá com um camponeses que entraram para o sindicato e foram despedidos. Voltei com eles, que queriam desafiar Zé Quincas criando um caso como o de hoje. Fui ajudar eles a fazerem casas nas terras da Usina. Eles têm direitos adquiridos, que diabo.
• Fazerem casa na terra dos outros?
• Toda terra em Pernambuco é dos outros. Eu sabia e os camponeses sabiam que a Polícia, que também é dos outros, acudia logo para desmanchar as choupanas. Dito e feito."
Francisca, noiva de Levindo e moça da classe alta, estudante de pintura, tinha falado na cripta com entusiasmo, estava pretendendo fazer lá uns desenhos nos azulejos que retratavam a vida de Santa Teresa D'Ávila. Nando medica Levindo, fazendo-lhe um curativo na mão.
O narrador antecipa o futuro narrativo nos faz ver que Nando já conhecia Francisca ( "Desde que D. Anselmo lhe dera permissão — mais do que isto, lhe ordenara _ que saísse do Mosteiro, que fizesse relações com gente do mundo, Nando só tinha encontrado uma paz séria e tranqüila em Francisca, noiva de Levindo. O mais era desmembramento, o mundo entrando em filetes de distração por todas as frinchas da fortaleza que ele fora antigamente. A convivência com seus amigos ingleses era, sem dúvida, estimulante mas agora o levava quase ao desespero, de tanto que tirava de dentro de si mesmo.") e nos aponta também o casal "de ingleses", amigos de Nando: Winifred e Leslie, missionários na região. Anglicanos, os dois mudariam também e para sempre o mundo e os conceitos do jovem padre.
No dia seguinte, Francisca aparece no claustro ( ossuário):
"- Já sei. Está espantado de ver uma mulher no claustro.
Francisca brandiu um papel que tinha por baixo da tábua de desenho com o grande pregador de metal de firmar as folhas.
• D. Anselmo me deu um salvo-conduto para desenhar os azulejos de Santa Teresa.
• Ah, muito bem — disse Nando — uma invasão legalizada.
• E pacífica. De mais a mais Teresa de Ávila era uma mulher . Por que há de ficar seqüestrada entre homens? Ou entre santos, se fosse o caso."
É assim que nossa narrativa se inicia. Nando é um jovem padre que, com medo dos apelos do corpo físico, tenta adiar sua ida ao Xingu, a fim de catequizar os índios. Teme os apelos sexuais, a visão das índias nuas e evita dizer a D. Anselmo que se dispõe a estar entre aqueles seres. Não diz os motivos, mas adia a ida.
Através de Levindo e Francisca, por quem descobre estar apaixonado, através, ainda do casal de missionários e da insistência de D. Anselmo para que se aproxime do mundo "lá fora", Nando entra em contato com o mundo exterior e seus inúmeros problemas: o aparecimento das Ligas Camponesas, a violência dos donos da terra e do poder, a miséria e até de um caso de estupro seguido de gravidez e de aborto: Maria do Egito, uma camponesa, é violentada pelo capataz da fazenda; o pai avisa que se houver dentro dela a semente daquele homem, a matará, bem como ao agressor. Grávida, Maria recebe a proteção de Winifred e Lesley que a levam para abortar.
Aos poucos, o padre Nando se instala no mundo. E a fúria da carne e dos desejos lhe sobrevém com força.
Januário, um militante político que pretende arrebanhar os padres a favor da causa dos camponeses , convida Nando a participar de uma reunião da Sociedade dos Plantadores. É a contragosto que Nando vai, mas começa a descobrir o universo circundante, a força dos homens simples e a simpatizar com a causa que defendem.
Nos dias subseqüentes, o padre encontra-se muitas vezes com Francisca: ela mostra a ele uns desenhos dos índios kadiuéu e diz estar disposta a ilustrar um futuro livro que Nando poderia escrever sobre eles, em sua missão no Xingu.
Levindo quer casar-se com Francisca, planeja passar a lua-de-mel no Xingu e é advertido por Winifred que o acusa de tomar decisões unilaterais sobre o casamento. É interessante notar aqui que o narrador supervaloriza as relações que partam do princípio que ambos, no casal, devem tomar, conjuntamente, decisões.
O poder do "comunismo"na região incomoda D. Anselmo que pergunta a Nando sobre o que ele acha do assunto. Nessa ocasião, D. Anselmo relata também que o Major Ibiratinga , fiel da Igreja, anticomunista e fanático pelo catolicismo, tinha pedido a ele a adesão de todos os padres à sua causa . E, ainda, dá a entender a Nando que o major desejava saber quem estava envolvido com os camponeses, sugerindo que se rompessem os segredos da confissão.
Nando se aproxima de Leslie e Winifred. Admira-os pela maneira livre de pensar e julgar o mundo dos homens. Discutem sempre política e religião e se encanta quando Leslie lê para ele trechos do sermão em louvor de Nossa Senhora do Ó.
Maria do Egito torna-se prostituta para grande pesar de Nando que não entende o ocorrido. Levindo, que encontrara emprego para o pai da moça, despedido do antigo engenho, explica ao padre que só filha "moça" pode ficar na casa do pai. As molestadas, portanto, se sentem banidas do contexto social e procuram , invariavelmente, "fazer carreira nos prostíbulos".
Francisca diz ao jovem padre que deverá partir para a Europa, a pedido do pai, a fim de que esqueça de vez Levindo. Antes de partir, nesse mesmo dia, Francisca esboça um retrato de Nando e promete terminá-lo quando, no futuro, ambos se encontrarem no Xingu.
"Estou de partida para a Europa — disse Francisca — Vim lhe dizer adeus.
• De partida para a Europa? — estranhou Nando — Mas assim de repente?
• Uma espécie de trato que fiz com papai, que não gosta da lua-de-mel no Xingu — disse Francisca — Como Levindo vai viajar meses pelo interior do Estado, pela Paraíba e não sei mais onde, em companhia de Januário, eu aproveito este tempo e viajo de novo com papai.
(...)
• A esperança de papai é de que na Europa eu desista de casar com Levindo, que eu encontro algum namorado por lá e esqueça o do Brasil. Ele não sabe como eu sou constante, de amor como de planos."
Aturdido pela partida de Francisca, Nando procura o casal de amigos anglicanos. Mas outra perda se anuncia:
"- Você está certo de que deseja falar mesmo, Nando? Esperamos Winifred e depois saímos para jantar os três, num lugar sossegado. Sabe, Nando, não é só Francisca. Nós também vamos partir em breve. É provável que jamais nos vejamos de novo."
Mais aturdido ainda, o padre confessa-se ao amigo anglicano:
"-Escute, lelie — disse Nando falando de um jato. — Você vai ter a honra duvidosa de ser a única pessoa a saber por que não segui ainda para o Xingu. Nem D. Anselmo sabe. Só você e o meu confessor. Tenho medo de me defrontar com as índias nuas.
• Medo de quê? — disse Leslie.
• Da nudez das índias. Das índias sem roupa.
Nando viu Leslie sem saber em que expressão compor os músculos da cara. Para não sorrir. Para não rir.
• Medo. Certeza de que perco os sentidos. Ou me atiro a elas. Medo. Medo.
Depois de se confessar ao amigo, Nando fica doente, com uma infecção terrível e Leslie acaba por , com a aquiescência de D. Anselmo, para se recuperar em casa. Winifred e ele cuidariam de Nando.
Aos poucos, vai se restabelecendo, e discute com Winifred. Os dias passam e Leslie sai para visitar os camponeses, Nando fica a sós com Winifred que resolve pedir desculpas ao amigo pela forma rude que o tratara durante a discussão:
"A maçaneta da porta girou sem que batessem. Winifred entrou. Fechou a porta apoiando-se contra ela.
-Vim lhe pedir perdão, Nando.
• Ora essa — disse Nando levantando-se. — Amigos são para dizer as coisas.
Winifred aproximou-se dele, sorrindo, braços abertos. Como se fosse me abraçar, ia pensando Nando. Não pensou até o fim porque era. Abraçou-o.Depois de homem, fora de pai e mãe, Nando jamais vira outro rosto tão perto do seu. Winifred passou primeiro as Mãos pelos cabelos de Nando. Depois beijou-o na boca. E boca contra boca até sentir os braços de Nando que a envolviam também. Num relance, diante do abismo que se abria Nando protelou todas as objeções."
E se amaram, Winifred nua na cama, Nando era como se aprendesse a ver uma mulher nua na sua frente. Uma espécie de deusa nórdica, branca, branca, uma amazona, um ser indomável para quem não haveria mistérios, barreiras, proibições, pecados.
Mas Nando pensou em Leslie. E , desesperado, ainda abotoando a batina, pôs a caminhar pela praia. A linda Winifred ensinara a ele o gosto do prazer que o jovem padre jamais experimentara.
Ao chegar no Mosteiro, procura D. Anselmo e anuncia:
"- Venho dizer a Vossa Reverendíssima que estou pronto a partir para o Xingu.
D. Anselmo abriu os braços para o céu e para Nando e bradou com seu vozeirão:
_ Que Deus seja louvado!"

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