Resumo José Matias - Eça de Queirós

Resumo do Livro José Matias de Eça de Queirós.

Resumo José Matias - Eça de Queirós
José Matias

QUEIRÓS, Eça de. José Matias. Posfácio e fixação de texto de Sérgio Nazar David. Rio de

Janeiro: 7 Letras, 2006.

O conto “José Matias”, do escritor português Eça de Queirós, veio a lume pela primeira vez em Portugal em 1897, pela Revista Moderna. Após a morte do escritor, em1900, o conto foi novamente publicado em uma edição póstuma intitulada Contos, em 1902, na qual se reuniu outros textos deste gênero, tais como “Singularidades de uma rapariga loura”, “Civilização”, “O tesouro” e “O suave milagre”. Outras edições coletivas dos contos de Eça foram publicadas, no Brasil e em Portugal, e, via de regra, sempre contaram com a presença de “José Matias”, a indicar sua importância no conjunto dos contos ecianos.

Recentemente, “José Matias” mereceu uma edição individual. O conto foi publicado pela Editora 7 Letras, na coleção 7 Letras no Bolso, com texto fixado por Sérgio Nazar David, professor de Literatura Portuguesa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, que estabeleceu o texto do conto a partir da publicação deste na Revista Moderna, de 1897, portanto, a partir do primeiro registro impresso do texto. Esta edição de bolso traz um pequeno estudo do professor Sérgio Nazar David e reafirma a importância que as narrativas queirosianas ocupam no âmbito acadêmico brasileiro, revelando o papel fundamental que Eça exerceu e ainda exerce na formação do leitor no Brasil.

A história do conto gira em torno do amor de José Matias por Elisa, amor este que o protagonista insiste em idealizar e colocar acima das convenções terrenas. O perfil físico de Elisa, delicado e belo, personifica perfeitamente a aura de mulher romântica, motivo crucial para José Matias elevá-la ao plano das idéias, ao amor perfeito platônico. O interessante neste enredo é que nem Elisa, nem as outras personagens que fazem parte da história, a exemplo do narrador filósofo, compreendem os motivos que levaram José Matias a rejeitar o amor de uma mulher no auge de sua beleza física.

A renúncia ao desejo e à posse do corpo de Elisa causa polêmicas no meio em que vive, porém, é este desapego à matéria, transitória e perecível, que alimenta o ideal de amor de José Matias. Mesmo quando Elisa torna-se viúva pela segunda vez e mantém um amante para saciar os seus desejos primários, José Matias não se arrisca a se envolver carnalmente com ela, contentando-se apenas em admirar a sua beleza à distância, num misto de devoção e respeito castos. O leitor sente-se impelido a acompanhar esta relação um tanto transgressora e excêntrica. Ao colocá-la no plano da imaginação pura, o protagonista distancia-se dos protótipos comuns de relacionamentos que visam, acima de tudo, a união carnal e cotidiana entre dois seres. Perfeito amante espiritual, José Matias renuncia a um amor terreno para elevá-lo ao nível da contemplação límpida e desinteressada.

Ao investir em um amor contemplativo e ideal, a renúncia de possuir o outro se torna evidente na personalidade de José Matias. Isto porque a concretização do desejo implicaria em assumir uma rotina pautada em obrigações de vária ordem, desgastando um sentimento puro, que se sublima no plano das idéias e no ideal nobre do amor que se contenta com o ver. Assim, tendo em conta a transitoriedade da existência humana, José Matias escolhe abster-se das paixões vulgares, renunciando à posse de um corpo também passageiro e frágil, escolha esta que é, de certa forma, incompreendida por todos os que com ele convivem.

Olhares contemporâneos para a obra queirosiana – e “José Matias” é um bom exemplo – fazem emergir um escritor oitocentista que não ficou limitado aos estreitos horizontes e dogmas positivistas, nem circunscritos ao gênero por excelência do XIX, o romance. Percebe-se, através de sua obra e da vasta bibliografia crítica sobre ela, um intelectual que transitou por diversas formas literárias, tais como crônicas, hagiografias, contos, epistolografias e relatos de viagem; bem como um pensador que, embora comungando das diretrizes da “Nova Idéia”, não se restringiu a ela.

Um dos méritos de uma edição como esta é a de divulgar para um público maior e extra-muros acadêmicos um tipo de produção literária eciana que é pouco conhecida por seus leitores e ainda pouco estudada pelos críticos do escritor português, devido, principalmente, a grande popularidade de seus romances. Assim, a divulgação do conto “José Matias” reflete a pluralidade da obra de Eça de Queirós, que merece ser reconhecido também por exímio contista, assim como seu contemporâneo brasileiro Machado de Assis.

Outro valor desta edição relaciona-se à nossa realidade de sociedade do século XXI, bem diferente daquela a que Eça pertencia. O conto, por sua concisão, corresponde melhor às exigências do mercado contemporâneo e conseqüentemente de um leitor que tem à sua frente uma gama de outras possibilidades de leitura rápida e acessível. Longe de subestimar a qualidade dos romances queirosianos, deve-se salientar, no entanto, que o leitor pósmoderno, em pleno século XXI, mostrar-se-á mais disponível a ler narrativas curtas, como o conto, do que um longo romance do século XIX. Desta forma, a edição de bolso do conto “José Matias” guarda alguns méritos: primeiro, o preço acessível, o que sempre estimula o aumento do círculo de leitores; segundo, a fidedignidade do texto, com que se preocupou o professor Sérgio Nazar David; por fim, o possibilitar o acesso fácil a um texto que é um ótimo introdutor à leitura da obra de Eça de Queirós.