Resumo Dicionário de Bolso - Oswald de Andrade

Resumo do Livro Dicionário de Bolso de Oswald de Andrade.

Resumo Dicionário de Bolso - Oswald de Andrade
Dicionário de Bolso

Dicionário de Bolso - Oswald de Andrade

Texto inédito de Oswald de Andrade, escrito ao longo das décadas de 30 e 40, sob a forma de um curioso dicionário, sem ordem muito rígida, exceção talvez de uma vaga cronologia. E´ comparável a uma passagem célebre do Serafim Ponte Grande, que tem o mesmo título e que determinou, aliás, a escolha deste, uma vez que o próprio autor deixou esta lacuna.

Os personagens, os nomes, as citações enfileiradas não se restringem à vida contemporânea nacional. Eles passam, sem cerimônia da Bíblia à Revolução russa, dos filósofos gregos às stars de Hollywood. Impertinentes, corrosivos, sedutores e exasperantes, tudo junto e ao mesmo tempo, os verbetes do Dicionário de Bolso provêm da veia mais autêntica e provocadora de Oswald.

O Dicionário tem um efeito tônico, no mais alto grau, atinge diretamente o público contemporâneo. Não se trata de uma revisão, feita pelo próprio Oswald, das suas posições extremas, uma reconciliação qualquer com os seus antigos ódios, mas a expressão mesma do lado "dragão" do Autor do Manifesto Antropófago.

Por isso, o trabalho de montagem desses inéditos não visou unicamente ao estudioso ou ao especialista. Procurou-se através de uma breve apresentação tornar transparente os mecanismos de criação do texto, a relação com sua época e com o restante da obra de Oswald.

"Atacar com saúde os crepúsculos de uma classe dominante não é de modo algum ser pouco sério. O sarcasmo, a cólera e até o distúrbio são necessidades de ação dignas operações de limpeza, principalmente nas eras de caos, quando a vasa sobe, a subliteratura trona e os poderes infernais se apossam do mundo em clamor". Oswald de Andrade

Tentaremos descrever os mecanismos de criação do Dicionário de bolso de Oswald de Andrade e traçar as redes de ligação com sua época e o restante da obra do escritor. Para contar a história interna de realização dessa obra intrigante e curiosa, denominamos o conjunto de cinco textos que constitui o corpus do Dicionário de A, B, C, D, E e F. Estes originais inéditos, alguns independentes e fora de ordem, estavam fragmentados no meio da papelada desarrumada do autor. Atualmente, encontram-se no Arquivo do escritor depositado no Centro de Documentação do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp.

Do primeiro - o A - manuscrito com nove folhas soltas de um bloco sem pauta, redigido em tinta vermelha, encontramos apenas as folhas 98, 99, 100, 101, 109, 113, 114, 119 e uma folha sem número. Este manuscrito tratou das seguintes personalidades (doze ao todo): Blanqui, Comte, Bebel, Ford, Clóvis Bevilacqua, Gandi, Macdonald, João Alberto, e provavelmente pela definição, porque não há indicação dos nomes, também Engels, João Candido, Carmona e Macedo Soares; sendo que oito deles estão incompletos: Engels, Comte, Ford, Macdonald, Bebel, João Candido, Carmona e Macedo Soares. Talvez este manuscrito tenha sido datilografado na década de 40, resultando no texto denominado nesta introdução de B (até essa época Oswald não batia à máquina seus textos, começou a adotar essa prática quando contratou Maria Antonieta d´Alkimin para copiar o segundo volume do Marco Zero). Esta hipótese se fundamenta no fato de que cinco verbetes existentes no manuscrito A estão contidos no texto B e são absolutamente iguais: a definição integral de Blanqui, os trechos relativos a Engels, Bebel, Comte e João Cândido.

O segundo - o B - texto datilografado, composto de 10 folhas, numeradas de 22 a 31. Trouxe o título, Notas e Informação, a lápis, no início. Duas páginas estão danificadas (rasgadas) na parte superior da folha: a p. 24, prejudicando a leitura das observações sobre Cristo e a p. 25, atingindo a parte inicial relativa a Thomas More. Como dissemos acima apenas cinco verbetes do manuscrito A reapareceram no B (Blanqui, Bebel, Comte, Engels, João Cândido).

Pelo seu caráter de esboço preliminar, sem preocupação lúdica e inventiva de criar, podemos pensar que esse texto foi o ponto de partida para os demais, sobretudo se examinarmos as transformações sofridas pelos verbetes nos demais textos. A leitura dessas primeiras Notas orientou a identificação de dados circunstanciais de época relativos a uma ou outra personalidade menos conhecida e informou o mecanismo usado pelo escritor para construir este Dicionário.

Através desse texto com pequenas correções do Autor a lápis, Oswald desenhou um perfil crítico mais detalhado de vinte e sete nomes: Buda, Confúcio, Aníbal, Eutrópio, Herodes, Cristo, Santo Agostinho, Wiclif, Thomas More, Maquiavel, João Ramalho, Calabar, Cromwel, D'Holbach, Babeuf, Owen, Engels, Blanqui, Comte, Stirner, José do Patrocínio, Floriano, João Cândido, Bebel, Stalin, Trotski, Mussolini.

As correções, os acréscimos e as supressões efetuadas nesse texto foram poucas e insignificantes. Merece destaque apenas uma alusão a Menotti del Picchia, intercalada no meio da definição de Cristo. O seu contexto revelou violenta crítica a todas as tendências da esquerda dissidente do PC - "os confusionistas de qualquer espécie", entre os quais Oswald incluiu o "lacaio Menotti del Picchia".

O trabalho com os verbetes, nesses dois primeiros documentos foi uma primeira tomada de contato com o assunto; organização de dados de pesquisa em torno das personalidades escolhidas, filtrando suas peculiaridades com o objetivo de proceder à redação final elaborada gradativamente nos textos subseqüentes. Nessa pesquisa, tudo leva a crer que Oswald tinha uma idéia previamente formada e procurava elementos para ilustrá-la.

Os verbetes Buda e Confúcio confirmaram isso. Antes da concisão lapidar do texto F - "usina de ópio", todas as observações tentaram justificar a alienação do sincretismo supersticioso provocado pelo "relaxamento da unidade religiosa" e incentivado pelo "imperialismo". Buda foi então o "principal entorpecente religioso das massas asiáticas. Secular amigo de Lao Tsé e Confúcio no avacalhamento histórico dos amarelos" [...]. Para chegar a definição de Confúcio do texto F ("mãe dos confusionistas chineses. Um padre safado a serviço de castas, cerimoniais e imperialismos"), Oswald no manuscrito B recorreu à reprodução de uma história chinesa, narrando a tentativa de Confúcio de pacificar o bandido Tché, praticante do canibalismo. História essa retirada do Manual católico da história das religiões de Leon Wieger e transcrita no n.1, 17 de março 1929, 2ª dentição, da Revista de Antropofagia, sob o título "Confúcio e o antropófago".

Em Eutrópio, Oswald aproveitou para alfinetar a historiografia brasileira, aquela que ensinava a "história de Roma pelas anedotas dos imperadores". Dentro desse espírito crítico não perdeu a oportunidade de apontar os estragos do positivismo na mentalidade do Brasil (verbete Comte) e de criticar a atuação do anarquismo, ao falar de Stirner. A definição de Trotski representou na realidade uma síntese do momento político-nacional na época, da postura política do autor e uma impiedosa condenação do trotiskismo considerado "a gaiola amarela para onde tem que saltar expulsos ou não admitidos no Partido Comunista - os revoltados tímidos, os intelectuais moles, os burgueses só ideologicamente desiludidos".

A sensibilidade embrutecida do político militante e do homem ressentido renegou práticas políticas anteriormente adotadas e também velhas preferências estéticas: "mas os trotskistas brasileiros querem mostrar que se interessam pela soltura preventiva de um pederasta, [o poeta Aragon] em vez de protestar contra a prisão de inúmeros militantes comunistas, detidos de fato pela polícia burguesa brasileira".

Em outras passagens, evidenciou-se a função do manuscrito A e B no trabalho de criação desse Dicionário. Oswald precisou obviamente dessa etapa anterior de aprendizagem. Reuniu detalhes importantes a cada uma das personalidades escolhidas antes de encontrar o resultado aparentemente enigmático e conciso de Babeuf - "guilhotina"; de Robert Owen - "contra-mestre da revolução social". E´ possível ainda avaliar o processo surpreendente da passagem de uma constatação banal sobre a história factual (nesse texto B) para um achado inteligente, incorporando ludicamente a literatura e a história como ocorreu na definição de Cromwel.

O escritor manifestou exaustivamente seu ódio contra a burguesia ou contra a classe dominante. Caso típico das definições de Maquiavel - "Sabido sim, mas safado. Foi o fundador da política científica para uso dos opressores"; de Mussolini, acompanhada de uma longa digressão sobre as artimanhas da burguesia para se manter no poder: "A burguesia, quando se vê perdida eleva ao estado de dependência social o estado de sítio, adota como normais as piores medidas de exceção, apela para a ditadura e declara que uma nova fórmula de "união nacional" elimina e supera a luta de classes".

A forma peculiar de elaboração de outros verbetes nesse manuscrito, serviu também para esclarecer ao leitor as peripécias de alguns heróis do passado escondidas nas condensadas realizações do texto definitivo. Além dos já citados Babeuf e Robert Owen, na definição de João Candido a referência aos incidentes políticos, em conseqüência da revolta dos marinheiros em 1910, no Rio de Janeiro, justificou o achado do texto final - "Nuvem negra no horizonte social do Brasil".

Do terceiro, ou melhor do manuscrito C, redigido a lápis, sobraram 31 folhas soltas, não numeradas de um bloco pequeno (0.16 x 0.17,5) sem pauta. Em alguns trechos a bem desenhada caligrafia oswaldiana excepcionalmente apresentou dificuldades de leitura, além do que, a correção realizada riscando palavras e sobrepondo outras aumentou a ilegibilidade. Oswald começou a numerar os verbetes (quarenta e cinco ao todo) mas não prosseguiu. Sintomaticamente Caim figurou como primeiro verbete nesse manuscrito e no último.

Pedro Eremita ganhou o número 80. Dessa versão numerada restaram apenas as seqüências 01 a 03 (Caim, Noé, Moisés), de 09 a 11 (Platão, Aristóteles, Tibério Graco), de 78 a 80 (Carmona, Judas e Pedro Eremita). Não conteve nenhum verbete proveniente do manuscrito A, mas incorporou três verbetes do texto B, embora com redação totalmente diferente: Robert Owen, Santo Agostinho e Thomas More.

O quarto texto - o D - também autógrafo, redigido a tinta vermelha, em bloco sem pauta (0.16 x 0.22,5) é uma versão mais aprimorada e mais completa. Lamentavelmente incompleto, foram conservadas as folhas numeradas de 5 a 7, 9 a 13, 17 a 28, 30 a 31, 38 a 54, 59 a 64, 66, 69, 72 a 75, perfazendo um total de 64 folhas soltas e 132 verbetes.

A numeração atingindo até a folha 75 deu uma idéia do tamanho do manuscrito se não apresentasse as falhas apontadas. Conteve nove nomes presentes no manuscrito A; do texto B vieram dezenove verbetes; do manuscrito C incorporou vinte e cinco nomes. (Para uma melhor visualização da história dos verbetes elaboramos, em anexo, um quadro completo da presença de cada um nos diferentes textos).

Comparando com os anteriores (A B C), a linguagem do manuscrito D é mais enxuta e trabalhada. Haja visto a configuração dos verbetes sintéticos e elaborados, revelando uma transformação radical, como em Comte, Floriano, José do Patrocínio, João Candido, Mussolini, Francis Bacon.

Dois outros textos datilografados compõem o restante do corpus do Dicionário. De um deles, do E, recuperamos apenas 14 páginas, não numeradas, (algumas folhas sem nenhuma seqüência) com correções a lápis, composto de 92 nomes. Reproduziu seis nomes do manuscrito A; dezesseis do texto B; dezoito do manuscrito C; cinqüenta e dois do manuscrito D.

O comentário de Mauricio de Lacerda foi riscado, algumas observações acrescentadas à mão desapareceram na segunda releitura. Por exemplo, no final do verbete Mário de Andrade, Oswald concluiu a definição com a frase escrita à mão "De resto serve", mais tarde suprimida por um risco vermelho. O comentário "Muito parecido pelas costas com Oscar Wilde" , que integrava o verbete, também foi eliminado a partir dessa redação por um risco a lápis. Paralelo a isso, a expressão "Macunaíma traduzido" presente desde o texto C, foi substituída à mão por "Macunaíma de Conservatório". Nos verbetes Trotskiy e A Camarada Rosa de Luxemburg o autor riscou a lápis a última frase: "Pai e mãe dos onanistas sociais" e "Hoje, por toda a Alemanha, começa a brotar a flor comunista", respectivamente. Na definição de João Cândido, acrescentou a lápis a expressão "social"; da mesma forma procedeu com a palavra universal, em relação a Shakespeare. Em Joseph De Maistre, cuja citação escolhida apareceu no n. 14 da Revista de Antropofagia, em 1929, teve uma leve alteração logo no início: De "Pilar moralista da burguesia católica" [...] passou a "Moralista da burguesia católica" [...].

No verbete Macedo Soares, com nova configuração a partir desse texto, a definição foi inteiramente eliminada, mas sofreu um reparo, a lápis, no momento da revisão "o nosso lamas" e "PEACE CHANCELOR" (reparo eliminado na revisão deste mesmo texto); o comentário sobre George Washington igualmente não foi considerado definitivo. Logo após a definição "Senhor de escravos da Virgínia", o escritor acrescentou a lápis: "e pai da liberdade americana". São Vicente Rao teve suprimido parte do título (São) e ganhou uma frase a mais: "Segurança da lei".

Finalmente o texto F - cento e oitenta e um verbetes - datilografado, numerado de 1 a 21. Apresentou em geral correções do autor, a lápis (preto e lilás), a tinta (preta e verde). Levando em conta os manuscritos anteriores, permaneceram nesse texto: nove verbetes do manuscrito A; dezenove do B; trinta e três do C; cento e sete do D; e oitenta e quatro do E.

Do ponto de vista da redação, os verbetes dos manuscritos A e B reproduzidos foram completamente alterados. Do manuscrito C, nove verbetes tiveram redações absolutamente iguais ao texto em questão: (Olegário Maciel, Moises, Bandeirante, Virgílio, Holofernes, Montaigne, São Cirilo, Pedro Eremita, Judas) outros foram radicalmente modificados como: Cardeal Sebastião Leme, Thomas More, Salomão, Santo Agostinho, São José Crisóstomo, Santo Ambrosio, Catilina, O historiador José, Caim, Moisés, Robert Owen, George Washington, Tibério Graco. Antes de ter sofrido as correções feitas à mão pelo autor, o texto F tinha as mesmas características estilísticas do manuscrito D e do texto E, com exceção dos nomes abaixo citados: Santo Agostinho, O Egiptólogo Ehrmann, Plínio Barreto, O camarada Lozovski, Lindolfo Collor, José Carlos Macedo Soares, Rogerio Bacon, Wiclif, Pontes de Miranda, George Washington, Mário de Andrade, Vicente Rao, Mauricio de Lacerda. Há uma boa relação de nomes ausentes no texto F, que poderiam ser pinçados nos manuscritos anteriores.

Do manuscrito A apenas um: João Alberto; do manuscrito B dois: Buda e Confúcio; do C, nove verbetes, Autor dos Atos dos Apóstolos, Kolontai, Jonas, Josué, Platão, Aristóteles, Ezequiel e Licurgo; do manuscrito D foram levantados treze nomes: Licurgo, Confúcio, Buda, Heródoto, Platão, Diógenes, Cheron de Pelene, Aristóteles, Camões, Getúlio Vargas, Gal. Isidoro, Távora, João Alberto. (ver quadro em anexo).

Alguns verbetes sofreram alterações maiores. Quatro foram riscados: Camarada Lozovski, Plínio Barreto, Lindolfo Color e Paulo Prado. No verbete de Artur Bernardes, Oswald preferiu suprimir a crítica mais contundente: "Assassino do povo e falcatrueiro. Por isso mesmo candidato ao penico ditatorial do Sr. Getúlio Vargas". Como fez no manuscrito anterior, retirou a última frase da definição da Camarada Rosa de Luxembourg e da de Trotski. O acabamento dado para George Washington não contentou o escritor. Em mais uma tentativa de modificação riscou a palavra Virginia do sintagma "Senhor de escravos da Virgínia" e também a lápis fez o seguinte acréscimo: "que proclamou a liberdade dos senhores de escravos".

O verbete Dom Sebastião Leme foi radicalmente modificado. O título sofreu acréscimo e supressão: Cardeal Dom Sebastião. A definição "Paninho de N.S. Jesus Cristo" virou "Leme sem navio". Em João Cândido, como no manuscrito E, acrescentou a palavra "social" - "nuvem negra no horizonte social do Brasil". O verbete Santo Agostinho foi corrigido logo na primeira frase de "Talvez o maior doutor da Igreja" para "Grande doutor da Igreja"; O nome de Francis Bacon, que vinha sendo trocado por Rogério Bacon em todos os manuscritos em que figurou, foi consertado. Oswald a lápis riscou a palavra Rogério e escreveu acima Francis seguido de um ponto de interrogação.

Em algumas definições, interferências de ordem interpretativa quebraram a impersonalidade de determinadas frases como foi o caso do verbete Wiclif. Introduzindo a citação, a expressão "escreveu isto" foi mudada para "escreveu este erro simpático". Antes da última frase - "Leitor pequeno-burguês, não será você?" - Oswald com um lápis lilás observou "Nota". Shelley perdeu o qualificativo de "grande" poeta.

Modificações menos significativas foram anotadas no confronto entre os diferentes manuscritos. Algumas delas estão na linha da tentativa de eliminar as estocadas de ordem pessoal, como a referência "Um prefeito idiota - o Dr. Pires do Rio", presente no verbete Conde Matarazzo simplesmente resumida para "Um prefeito". Na definição de Antonio Conselheiro foi retirado o ataque direto ao Conselheiro Antonio Prado.

Preferiu o escritor centrar sua ironia no Partido Democrático, ganhando o verbete mais concisão e graça. Outras pretenderam sanar equívocos de datilografia, como aconteceu com o verbete João Cândido, uma vez que a expressão social, acrescentada à mão, aparecia desde o manuscrito D. Na releitura Oswald esteve preocupado em limpar o texto, isto é, torná-lo sintético e rápido. Condensou a definição de Ford e modificou o último trecho de "Por essas e outras, é que estamos "fodidos"" para "Nós, por exemplo, estamos "fodidos"".

Já Miguel Costa ganhou uma frase irônica "Dizem que está criando juízo". Da mesma forma José Carlos de Macedo Soares recebeu mais uma definição simpática "Copa de Ouro". Em Pontes de Miranda os acréscimos deram um tom de trocadilho aos qualificativos "tenentes da direita pretendem alcançar a margem esquerda da revolução". Outras modificações menos significativas foram anotadas no confronto entre os diferentes manuscritos.

Comparando todos os manuscritos, podemos fazer um amplo elenco de nomes ausentes no texto F: Jonas, Josué, Licurgo, Confúcio, Buda, Heródoto, Platão, Diógenes, Cheron de Pelene, Aristóteles, Camões, Getúlio Vargas, Gal. Isidoro, Távora, João Alberto, Autor dos Atos dos Apóstolos, Ezequiel, Kolontai. Portanto dezenove nomes, pinçados nos documentos anteriores (A, B, C, D).

No texto B, verbete Trotski, houve uma única referência explícita ao momento em que Oswald escrevia este Dicionário: "fevereiro - março de 32" (certamente época da redação dos quatros primeiros textos). Todavia, a ordem cronológica da elaboração dos textos E e F (provavelmente datados da década de 40) pareceu bastante relativa se pensarmos nas peculiaridades do processo artesanal do escritor que refazia e corrigia os seus trabalhos inúmeras vezes. Pela mudança de lápis e de tinta podemos prever as várias leituras e conseqüentes reparos.

Como o escritor levava bastante tempo para dar por concluído seus escritos, as modificações introduzidas nesses dois textos certamente refletiram novas posturas estéticas, o amadurecimento pessoal do Autor ; a mudança de opinião a respeito de pessoas, inspirada por novas atitudes e posições defendidas na época pelo escritor ou pela figura apreciada, e ainda por desentendimentos pessoais. O caso de Vicente Rao é expressivo. Velho amigo e advogado de Oswald, desde os tempos da "garçonnière" da Líbero Badaró (19l8), Rao na década de 30 tornou-se Ministro da Justiça do Estado Novo.

A frase - "segurança da lei" acrescentada e a retirada do São do título do verbete foi historicamente datada e acompanhou alterações na trajetória político-intelectual do escritor e do antigo colega de Faculdade. Essas correções estão presentes apenas no texto E, sendo assim, este fragmentado manuscrito não deve ser considerado rigidamente anterior ao F. As revisões, os acréscimos confirmam a simultaneidade de realização do E em relação ao F, ou ainda que Oswald fez muitos consertos no texto E, depois de ter concluído o F.

As inúmeras correções permitem ao leitor visualizar a busca consciente e esforçada de um estilo adequado ou de um achado interessante, quer com brincadeiras do tipo mais apreciado pelo escritor - jogos de palavras, trocadilhos - quer pela exploração ou subversão da idéia, da frase alheia, etc. como exemplificam alguns dos verbetes citados: São Tomé - "Visionário que enxergava com os dedos"; Loiola - "Má companhia de Jesus"; Pombal - "Terremoto de Lisboa na Companhia de Jesus"; Mauá - "Maquinista nacional que apitava em inglês", etc.

Um outro aspecto marcante na reescritura oswaldiana diz respeito às reelaborações. A partir da obra construída o autor descobria novos caminhos, apenas riscando palavras, mudando-as de posição ou trocando-as por outras. Encontramos um bom exemplo ao observar as modificações no verbete Dom Sebastião Leme nas cópias E e F, onde o sobrenome do religioso passou a ser peça chave de sua própria definição : "Paninho de N.S. Jesus Cristo". Refeito temos: Cardeal Dom Sebastião: "Leme sem navio".

Ao longo dos manuscritos, o autor foi realizando modificações atenuando comentários maliciosos, críticas fortes ou injustas. Particularmente tentou eliminar as observações ligadas à vida íntima das personalidades enfocadas. Deparamos muitas vezes com comentários mordazes de cunho pessoal riscados (no verbete Mário de Andrade - "de resto serve", "muito parecido de costas com Oscar Wilde") e as observações em torno do nome de Paulo Prado, totalmente eliminada no texto F: "Cocote viajada e lida a serviço do imperialismo inglês".

Procedimento idêntico aconteceu na definição já comentada de Antonio Conselheiro no texto E e na primeira redação do F. Alterado somente na releitura do texto E para a versão da montagem final. Na cópia C, acompanhava o verbete Dom Sebastião Leme (já citado) uma nota de rodapé desaparecida no texto seguinte - o D: "O Dr. Amoroso Lima, dono da fábrica de Toalhas de Paquetá, foi quem descobriu essa intimidade do Cardeal brasileiro com o deus do Corcovado". Apesar de tudo, sobrou uma ou outra crítica mais forte dirigida principalmente a antigos companheiros: Guilherme de Almeida, Menotti del Picchia, etc.

Os verbetes mais curtos se revelaram os mais interessantes. Basicamente sintagmas nominais, sem o tom descritivo, rápidos e irreverentes, são deliciosamente engraçados os comentários sobre Cabral ("o culpado de tudo"), Einstein ("Passa-tempo perdido no espaço-tempo"), Hitler ("Bigodinhos de aço"), Edison ("Lâmpada de ladino"), Mussolini ("Macarronada com sangue"). Verdadeiras máximas, onde a brincadeira surgiu às custas do achado de idéias buscadas na biografia dos próprios personagens em foco; há ainda a possibilidade de algumas citações deslocadas do seu contexto original provocarem o riso, como é o caso da definição encontrada para Laudo de Camargo: "Le cocu magnifique".

Oswald não deixou nenhuma sugestão de título para essa obra inacabada. Não encontramos nenhuma referência a este projeto em particular no conjunto da obra oswaldiana. O título proposto, Dicionário de Bolso, foi inspirado no Serafim Ponte Grande, especialmente no seu secretário José Ramos Pinto Calçudo autor de um dicionário de bolso, "para não confundir nem esquecer as pessoas que conhece ou conheceu".

Oswald e Pinto Calçudo usaram algumas técnicas semelhantes. Ora apelaram para o recurso da manipulação de um verbete em relação ao outro imediatamente anterior ou posterior (ver definições de George Sand e Chopin e a letra H na "literatura de bombordo" do Serafim); ora determinada personalidade foi nomeada exatamente por suas qualidades díspares e distantes, como aconteceu com o vizinho de quarto de Pinto Calçudo o "sábio alemão e massagista" Klober; por exemplo João Ramalho: "pai natural dos paulistas legítimos"; Locke: "Avô liberal dos conservadores modernos".

Não houve um critério explícito por parte de Oswald na escolha dos nomes para compor esse dicionário e também para sua organização. Figuras históricas e bíblicas, nomes ligados à tradição greco-latina, representantes do pensamento universal, políticos, grandes escritores, estrelas de cinema se misturaram desordenamente nas páginas desse dicionário exótico. Curiosamente apenas um nome da vanguarda histórica européia do início do século o amigo e pintor cubista francês Léger. Do Brasil, afora os políticos, um bom número de modernistas e todos definidos pela veia ferina do velho companheiro. Com exceção de três verbetes - O gigante de pedra, o Bandeirante e o Proletário - todos os demais são nomes próprios.

Na definição de certos personagens houve a intenção clara de reavaliar seus papéis, ressuscitando uma antiga obsessão oswaldiana de por os pingos nos is na historiografia brasileira. E para isso escolheu redefinir o papel histórico de alguns mitos: Floriano ("Baleiro da História do Brasil"), Tiradentes ("Pivô da independência nacional") José do Patrocínio ("Negro vendido"). Na realidade Oswald teve o propósito de reescrever sucinta e fragmentariamente a história, a partir de um pequeníssimo dicionário de bolso.

Para este fim, começou o texto por Caim - "o primeiro burguês" - e fechou o círculo concluindo com o Proletário - "quem se revolta afinal e desencadeia no mundo a revolução que o fará coveiro e herdeiro da burguesia". Oswald buscou nessa seleção exemplos de atitudes e de lutadores em prol da melhoria social da humanidade. Traçou os precursores, recortando trechos sobre a justiça social de autoria de membros da Igreja (São Clemente de Alexandria, Santo Agostinho), de escritores (Aristófanes, Shelley), etc. Percorreu em sentido inverso, garimpando ao longo da história as personalidades que inspiraram e apoiaram o surgimento da divisão de classes, da exploração do trabalhador e do homem simples. Nesse aspecto Oswald colocou a religião em lugar de destaque na opressão das massas populares, como vinha fazendo desde os tempos da Antropofagia modernista.

Mesmo se não houvesse uma data precisa em um dos manuscritos que compõem o corpus desse Dicionário, bastaria examinarmos o desfile de nomes e a sua definição para situarmos historicamente essa obra. A série de líderes comunistas e sobretudo o verbete Stalin ("Ponte de aço conduzindo a humanidade ao futuro") é um bom índice de época. O Dicionário é uma obra contemporânea à produção mais engajada do escritor, isto é das peças O rei da vela e O homem e o cavalo.

Época de compromisso político partidário, quando Oswald se empenhava por uma mudança radical da sociedade. Se a participação do escritor na luta política não agradou a seus companheiros de partido, tão pouco essa convivência foi satisfatória em termos de aprimoramento ou avanço de suas propostas estéticas, se compararmos sua produção escrita na década de 20, sobretudo a dupla Miramar / Serafim com A escada e as duas peças citadas. No Dicionário de Bolso, o desequilíbrio se evidencia justamente nas interferências caracterizadas pela impostação séria, didática e militante. No geral, o tom do discurso é bem humorado marcadamente nas passagens mais sucintas, onde predomina a vontade de elaboração da linguagem, retomando a estratégia modernista inclusive a da Revista de Antropofagia de adotar o viés do riso com o intuito de questionar a realidade e discutir problemas sérios.

A idéia dessa obra é imediatamente posterior à Antropofagia, haja visto a recuperação de fragmentos incorporados à revista (Vieira, Joseph de Maistre, etc.). O verbete Vieira foi transposto quase que literalmente do Manifesto Antropófago. Outros parentescos com a produção de vanguarda, além da preferência pelo discurso citacional e aforístico, podem ser traçados. Dentro do projeto de contribuir para reinstaurar uma nova sociedade com bases mais justas, a postura irreverente, iconoclasta e bem humorada das páginas da revista impulsionou mais esta derrubada de mitos, que informaram a civilização burguesa e marcaram o segundo tempo das inovações modernistas: sem esquecer o estético dando maior ênfase às questões ideológicas e sobretudo às discussões nacionais em pauta no momento.

O alvo das estocadas oswaldianas nesse período de militância no Partido Comunista foi obviamente o sistema capitalista. Daí essa tentativa de dicionário na tradição de um Voltaire (Oswald definiu também alguns nomes - José, Moisés, Pedro, Salomão - encontrados no Dicionário Filosófico) de um Ambroise Bierce que no Dicionário do Diabo (The Cynic´s Word Book) critica os costumes contemporâneos, através de uma forma especial de humor negro e de definições aforísticas e epigramáticas.

Por isso, afora os valores culturais burgueses a investida principal se deu contra a propriedade privada, mola propulsora de todos os desequilíbrios sociais e tema recorrente na obra de Oswald, a partir da Antropofagia. Evidentemente que os pólos sustentadores do sistema vigente - a igreja e a política internacional - também não escaparam das pontas das flechadas do antropófago. E para fundamentar sua crítica, há uma seleção datada, diversificada de nomes ligados a esses setores, ao lado de uma gama de filósofos e para nossa surpresa alguns poucos literatos.

No prefácio-manifesto escrito em 1933 para o romance Serafim Ponte Grande (concluído em 1928) Oswald sublinhou os traços anarquistas de sua personalidade: "Do meu fundamental anarquismo jorrava sempre uma fonte sadia, o sarcasmo". As tiradas sarcásticas em cima da burguesia nacional no romance, - "nosso herói tende ao anarquismo enrugado" - aparecem no Dicionário em questão ampliadamente, dirigida ao sistema capitalista, aos seus sequazes e propagandistas.

No dicionário, a ausência dos anarquistas mais ortodoxos foi compensada por uma gama de utopistas com quem Oswald sempre dialogou: Thomas More, Saint-Simon, Fourrier, Giordano Bruno, Marx. Apenas um representante do anarco-individualismo de muitas afinidades com o escritor: Max Stirner - "o pai moderno do anarquismo". Os pensadores anarquistas revelaram ao modernista a possibilidade de aliar a aspiração por um ideal mais humano com sua pesquisa pela liberdade de forma e estilo. Além disso, Oswald se identificou com as manifestações libertárias da mesma forma que as vanguardas, idealizando uma arte símbolo do dinamismo e do poder criador de cada sociedade.

O humor e a agressão verbal aproximam Oswald dicionarista de outros entusiastas do pensamento libertário: os surrealistas. Inclusive a trajetória política de aproximação é idêntico. Os dois líderes da vanguarda artística de seus países, Breton e Oswald, tiveram uma simpatia inicial para com os anarquistas, depois filiaram-se ao Partido Comunista, em seguida romperam com o PC. Todavia permaneceram em ambos os vestígios da linguagem libertária.

Basta examinarmos os "Billets surréalistes" do jornal Libertaire (1951-1953) e os escritos antropofágicos da década de 40. Oswald costumava citar uma passagem célebre do Manifesto do Surrealismo (1924) - "A simples palavra liberdade é tudo o que me exalta ainda" - e era exatamente a busca apaixonada da liberdade o elan impulsionador das ações do surrealista Breton e do antropófago Oswald.

E "liberdade absoluta sem limites" foi também a mola mestra da filosofia libertária. Muito provavelmente nas páginas extraviadas desse Dicionário houvesse um verbete também dedicado a algum surrealista: Péret ou Breton, que como Oswald, eram otimistas, cheios de esperança na eclosão de um mundo livre e harmonioso: uma nova idade humana ou o matriarcado de Pindorama.