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A poética da água. Imprimir E-mail
Escrito por Guilherme Vieira Gonçalves da Luz   


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Navegar é preciso. Mas não é fácil.

        Navegar em águas que singularizam o imaginário de um poeta é menos fácil ainda.
          E então, o que dizer de navegar em almas tão profundamente aquáticas como a de Thiago de Mello e a de Federico García Lorca?

          Conceição navegou, por meses e meses, por diferentes águas (ora tenebrosos, negras águas transparentes; ora doces, cristalinas, tranqüilas) e vivenciou a "imagem da descoberta da liberdade".

          Ao estudar a androginia da água (água feminina, maternal, "sustentada na paz da anima" e água que "se masculiniza para penetrar a terra e saciar, assim, seu desejo"), Conceição recorreu à tese junguiana que nos remete ao "androginismo que reside no fundo da alma humana". Além disso, mostrou a ambivalência da água ("que fertiliza, dá vida, mas também afoga, mata"), estabelecendo com o texto de Thiago de Mello e o de García Lorca uma relação dinâmica, recriando o universo aquático desses poetas.

          Como uma bússola, atenta e sensível, Conceição buscou todos os rumos dessas águas e suas múltiplas imagens, fazendo-as fluir, na potencialidade expressiva da palavra, como forma de dessendentar o coração e de lavrar a pele da sensibilidade do leitor/devaneador que sabe entregar-se à leitura desse trabalho, tão consciente e coerentemente construído.

         Conceição ouviu, com os poetas, a "voz da água", devaneou com as canções, desenraizou a palavra fincada junto aos álamos e narcizou o universo poético de Thiago de Mello e García Lorca para que todos os leitores participem da "vontade do belo" e experimentem o impulso maior, "o impulso da verticalidade".

         Conceição, segundo a fenomenologia de Bachelard, soube "ver na água/na alma". E, mais que isso, soube ver na água a alma humana, transformada (ou a transformar-se) pelo poder irreversível da poesia, uma vez que "Renascidas, as palavras sonham, e a água flui".
 
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