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Dois Irmãos - Resumo Completo Imprimir E-mail
Escrito por Sofia Stephanie   


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Extensivo - Literatura

RESUMO DOIS IRMÃOS


Amazonense de Manaus Milton Hatoum nasceu em
Manaus, em 1952. É professor de Literatura na Universidade
Federal do Amazonas.

Primeira obra

Milton estreou na literatura em 1989, com o romance
Relato de um certo Oriente. O livro recebeu, da Academia
Brasileira de Letras, o prêmio Jabuti de melhor romance e foi
publicado nos Estados Unidos e em vários países da
Europa.

"Lecionei, escrevi e publiquei artigos e contos, dei
várias conferências no Brasil e no exterior. Meu primeiro
romance levou-me para muitos lugares. Foi o meu tapete
mágico."

Jabuti de 2000

Com o romance Dois irmãos, Milton ganhou o prêmio
Jabuti de 2000, da Academia Brasileira de letras, prova de
que sua literatura tem o aval do público e da crítica.

Influências do passado

Vários escritores estimularam a literatura de Milton
Hatoum. Entre eles, Jorge Luis Borges, William Faulkner,
Flaubert, Conrad, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, os
relatos das Mil e uma Noites. "Leio os bons livros, os textos
que podem enriquecer meu trabalho. Já não perco mais
tempo com leituras amenas."

Professor da Universidade do Amazonas

Desde 1984, Milton Hatoum é professor de literatura da
Universidade Federal do Amazonas. Há dois anos e meio
(desde 1008), mora em S. Paulo, onde escreve uma tese de
doutorado na USP. Além das aulas de literatura, ocupa o
tempo escrevendo e publicando artigos, resenhas, ensaios.

Relato de um certo Oriente:

Oito anos de maturação

"Demorei muito para publicar meu primeiro romance.
Entre escrever e publicar foram sete ou oito anos! Tive sorte,
porque o texto da orelha do livro é assinado por Davi
Arrigucci Jr, um dos maiores críticos literários do País. A
editora ajudou muito, e os leitores e a crítica gostaram.
Depois vieram o prêmio Jabuti (melhor romance) e as
traduções. Mas nada disso veio assim, de graça. Ainda me
lembro das inúmeras versões e correções que eu fazia, aí
em Manaus, onde morava no conjunto Castelo Branco, no
Parque 10. Aquela trabalheira toda parecia não ter fim."

Dois irmãos:

trabalho árduo com a linguagem

"Quando escrevi o Dois irmãos, foi a mesma coisa
(muitos anos de trabalho). Para escrever um romance, é
preciso ter muita paciência, e entregar-se a um trabalho
árduo com a linguagem. Isso serve para qualquer arte, mas
a literatura lida com a palavra e, no caso do romance, com
as técnicas e estratégias narrativas."

Cronologia dos principais
Romances Modernistas

1928 -A Bagaceira, de José Américo de Almeida.
1930 -O Quinze, de Rachel de Queiroz.
1931 -O País do Carnaval, de Jorge Amado.
1931 -Oscarina, de Marques Rebelo.
1932 -Menino de Engenho, de José Lins do Rego.
1932 -Clarissa, de Érico Veríssimo.
1933 -Caetés, de Graciliano Ramos.
1934 -São Bernardo, de Graciliano Ramos.
1935 -Jubiabá, de Jorge Amado.
1935 -Fronteira, de Cornélio Pena.
1936 -Angústia, de Graciliano Ramos.
1937 -Capitães da Areia, de Jorge Amado.
1937 -O Amanuense Belmiro, de Cyro dos Anjos.
1938 -Vidas Secas, de Graciliano Ramos.
1938 -Olhai os Lírios do Campo, de Érico Veríssimo.
1938 -A Estrela Sobe, de Marques Rebelo.
1943 -A Quadragésima Porta, de José Geraldo Vieira.
1943 -Fogo Morto, de José Lins do Rego.
1944 -Perto do Coração Selvagem, de Clarice Lispector.
1954 -A Menina Morta, de Cornélio Pena.
1956 -Montanha, de Cyro dos Anjos.
1956 -Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa.
1959 -Crônica da Casa Assassinada, de Lúcio Cardoso.
1960 -Laços de Família, de Clarice Lispector.
1961 -A Maçã no Escuro, de Clarice Lispector.
1969 - Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, de


Clarice Lispector.

1977 -A Hora da Estrela, de Clarice Lispector.

1989 -Relato de um certo Oriente, de Milton Hatoum.

2000 -Dois irmãos, de Milton Hatoum.

DADOS TÉCNICOS DA OBRA

GÊNERO

ROMANCE DE COSTUMES - Dois irmãos é um
romance de costumes. Por causa do ambiente em que a
história transcorre, pode também ser classificado de
romance citadino ou urbano.

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TÍTULO

GÊMEOS IDÊNTICOS - O título da obra faz referência
às duas personagens principais, Yaqub e Omar, irmãos
gêmeos, idênticos no físico, mas opostos nas atitudes e no
caráter. Movidos pela rivalidade, vão destruindo as relações
pessoais e familiares, semeando discórdia, inveja, vingança
e ódio.

DIVISÃO DA OBRA

DOZE CAPÍTULOS - Dois irmãos é romance dividido
em 12 capítulos (sem títulos), com um pequeno preâmbulo
que, aguçando a curiosidade do leitor, relata cenas do fim da
história.

ESCOLA LITERÁRIA

LITERATURA CONTEMPORÂNEA - Dois irmãos foi
publicado em 2000; pertence, pois, ao Modernismo
brasileiro. É obra da literatura contemporânea, do Pós-
Modernismo como querem alguns, seguindo a linha da
literatura que valoriza a linguagem simples, mas com
elevado grau de arte e de correção gramatical.

CENÁRIO

MANAUS - O cenário principal do livro é a cidade de
Manaus, valorizando o porto dos Remédios, o Centro, os
bairros e as praças mais antigos, com especial destaque
para as atividades do comércio.

LÍBANO - O autor faz referência ao sul do Líbano, de
onde provieram os chefes de família e para onde foi Yaqub
contra sua vontade.

SÃO PAULO - A cidade de São Paulo também é
cenário de referência: lá, Yakub formou-se em Engenharia,
constituiu família e fixou residência.

TEMÁTICA

CASA DEMOLIDA - O tema principal do romance é o
drama familiar demolindo as vidas e, por conseqüência, o
lar. O enredo é centrado na história de dois irmãos gêmeos -
Yaqub e Omar - e suas relações com a mãe, o pai e a irmã.
Moram na mesma casa Domingas, empregada da família, e

o filho dela (que, mais tarde, se torna o narrador), um
menino cuja infância é moldada justamente por esta
condição: ser o filho da empregada.
AMOR INCESTUOSO -Apesar de não está escrito
com todas as letras, deduz-se que o amor doentio da mãe
(Zana) pelo filho mais novo (Omar) tem muito de incesto: ela

o quer só para si, ignorando, a partir de certo momento, a
relação com o próprio marido. Na mesma linha, classifica-se
o amor de Rânia pelos irmãos gêmeos.
FOCO NARRATIVO

NARRADOR-PERSONAGEM- A história é narrada na
primeira pessoa, mas o narrador não é o herói principal.
Nael (o nome só é revelado quase no fim da história) valeu-
se do que viu, do que ouviu e, principalmente, do que lhe
contaram sobre a família de que fez parte. A função do
narrador é olhar para o passado e tentar juntar pedaços do
que lhe foram contando até formar a história como um todo.

LINGUAGEM

FRASES CURTAS - Para narrar, Milton Hatoum vale-
se das frases curtas, ligeiras, com pouca fantasia ou
adjetivação, imprimindo clareza e sobriedade. O vocabulário

é comum, condizendo com a literatura contemporânea. Isso
garante inteira identidade entre o autor e o leitor.

CORREÇÃO GRAMATICAL - No plano artístico, a
linguagem de Milton Hatoum exibe simplicidade e correção
gramatical, elevando o texto à condição de obra de arte.

TEMPO

PRESENTE x PASSADO - A narrativa começa na
década de 1920 e, aos saltos, chega aos anos 60. A história
começa pelo fim: narra-se, antes do primeiro capítulo, a
morte de Zana, mãe dos gêmeos. O narrador viveu, viu e
ouviu todos os acontecimentos. Uns trinta anos depois,
resolveu pôr no papel os fragmentos que lhe vinham à
memória. A oscilação entre presente e passado é recurso
comum na narrativa.

PERSONAGENS

PLANAS, LINEARES - As personagens criadas por
Milton Hatoum, em Dois irmãos, são todas planas, lineares
ou estereotipadas, isto é, não evoluem psicologicamente
nem mudam de caráter ou de personalidade.

GALERIA - Vamos à galeria de personagens do livro
com suas respectivas características e/ou atuação.

Zana

Mãe dos gêmeos Yaqub e Omar; esposa de Halim. O
romance começa com a descrição da morte de Zana. Era
filha de Galib, dono do restaurante Biblos. À medida que a
história evolui, ela vai-se mostrando dominadora, moldando

o destino do marido e dos filhos.
Halim

Pai dos gêmeos Yaqub e Omar; esposo de Zana.
Quando jovem, era mascate nas ruas de Manaus. Melhorou
de vida ao casar-se com Zana. Aos poucos, foi perdendo o
amor da esposa para o Caçula (Omar), o gêmeo que
nasceu logo depois de Yaqub.

Yaqub

É um dos heróis da história. Rapaz vistoso e alto, rosto
anguloso, olhos castanhos e graúdos, cabelo ondulado e
preto. Aos treze anos, foi mandado para o sul do Líbano,
tentativa dos pais de separá-lo de Omar, seu irmão gêmeo.
Voltou para o Brasil, tornou-se engenheiro e casou-se com
Lívia.

Omar

O outro herói da história. Tem os mesmos traços
físicos do irmão, mas caráter e comportamento opostos.
Desde criança, mostrava-se mais arrojado e corajoso. Com

o excesso de proteção da mãe, tornou-se vadio e arqui-rival
do pai e do irmão gêmeo.
Lívia

Moça que provocou a primeira briga séria entre os
gêmeos. Por causa dela, Omar cortou a face de Yaqub com
uma garrafa quebrada. Lívia foi embora para São Paulo e,
às escondidas, casou-se com Yaqub.

Galib

Pai de Zana. Tinha um restaurante no térreo da própria
casa. Quando a filha se casou com Halim, voltou para o
Líbano e lá morreu.


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Abbas

Poeta boêmio que ajudou Halim, por meio de versos, a
conquistar Zana.

Domingas

Órfã que veio do interior trazida por uma freira.
Enfrentou dois anos de orfanato. Depois, foi morar na casa
de Halim e Zana, tornando-se empregada. Mãe de Nael, o
narrador da história. O próprio narrador diz que Domingas
não teve a liberdade de escolher nada na vida.

Irmã Damasceno

Alta, carrancuda, toda de preto, palmatória na mão,
amedrontava a todos no orfanato. Foi quem doou Domingas
ao casal Halim e Zana.

Estelita

Estilista rica, vizinha de Salim, esposa de Abelardo. De
vez em quando, batia no marido por causa da irmã dela.
Atazanava a vida do narrador, arranjando coisas para ele
fazer, embora tivesse um batalhão de serventes.

Abelardo

Esposo de Estelita. Quando era castigado pela esposa,
ficava no aposento dos macacos, fora de casa.

Talib

Vizinho e amigo de Halim e Zana. Tinha duas filhas
muito bonitas: Zahia e Nahda. Quando era flagrado em
cenas libidinosas com alguma caboclinha, apanhava das
filhas.

Dália

Dançarina que conquistou o coração de Omar. Zana,
por intermédio do narrador, fez que ela desaparecesse.

Zanuri

Ganhava dinheiro para vigiar e delatar casais
apaixonados. Trabalhou para Zana, vigiando Omar.

Adamor, o Perna-de-Sapo

Tinha faro especial para encontrar coisas (e pessoas)
perdidas. Foi quem localizou Omar quando este sumiu com
a Pau-Mulato.

Pau-Mulato

Mulher alta, forte, bem escura, por quem Omar se
apaixonou e com quem fugiu de casa. O romance foi
desfeito por Zana, e o Caçula voltou a ser mimado pela mãe
e pela irmã.

Prof. Antenor Laval

Professor de Francês no Liceu Rui Barbosa (Galinheiro
dos Vândalos). Foi preso em praça pública pelos soldados
do Exército e morto dois dias depois. Além de professor, era
poeta e crítico ferrenho da política.

Nael

Narrador-personagem. Filho de Domingas, empregada
da família. O nome aparece quase no fim da história. Ele

próprio não tem certeza, mas tudo indica que o pai dele é
Yaqub.

Bolislau

Professor do colégio dos padres que Omar agrediu
com um soco no queixo e um chute no saco.

Dois irmãos

A MORTE DE ZANA -O romance começa com
alguém descrevendo a morte de Zana. Antes de morrer, ela
delirava pela casa, chegava a ver o marido e o pai andando
pela casa: "Eles andam por aqui, meu pai e Halim vieram me
visitar... eles estão nesta casa". Acreditava também que o
filho caçula iria voltar: "Sei que um dia ele vai voltar". O
narrador não quis vê-la morrer. Mas contaram-lhe que ela,
antes da morte, ergueu a cabeça e perguntou em árabe:
"Meus filhos já fizeram as pazes?"

1

A VOLTA DE YAQUB -Yaqub chegou do Líbano. O
pai foi buscá-lo no Rio de Janeiro. Não era mais o menino,
mas o rapaz que passara cinco dos seus dezoito anos no sul
do Líbano.

O encontro de pai e filho foi emocionante. O pai falou
da penúria em Manaus por causa da guerra. No farnel do
filho, não havia roupa, nem presente.

Em plena Cinelândia, Halim viu o filho virar-se para
uma parede e mijar. O pai reclamou, mas Yaqub não
entendeu, ou fingiu que não entendeu.

A SEPARAÇÃO -Yaqub e Omar eram gêmeos
idênticos. Omar nasceu um pouquinho depois. Até treze
anos, viveram na mesma casa. A idéia de Halim era mandar
os dois filhos para o sul do Líbano, mas a esposa, Zana,
persuadiu o marido a mandar apenas Yaqub. Assim, durante
anos, Omar foi tratado como filho único.

VIAGEM E SERMÃO - Na viagem de volta a Manaus,
Halim fez um longo sermão sobre educação doméstica: que
não se deve mijar na rua, nem comer como uma anta, nem
cuspir no chão. O filho concordava, a cabeça baixa,
vomitando de vez em quando.

REENCONTRO COM A MÃE -No aeroporto de
Manaus, o reencontro com a mãe chamou a atenção de
todos. Era como se a mãe recuperasse uma parte da própria
vida: "o gêmeo que se ausentara por capricho ou teimosia
de Halim."

LEMBRANÇAS DE YAQUB -No caminho do
aeroporto para casa, Yaqub dava asas às lembranças. "Ele
e o irmão entravam correndo na casa, zigue-zagueavam
pelo quintal, caçavam calangos com uma baladeira. Quando
chovia, os dois trepavam na seringueira do quintal da casa,
e o Caçula trepava mais alto, se arriscava, mangava do
irmão, que se equilibrava no meio da árvore, escondido na
folhagem, agarrado ao galho mais grosso, tremendo de
me-do, temendo perder o equilíbrio."

IGUAIS E DIFERENTES -Yaqub vai relembrando a
infância. Ele e Omar, embora tivessem o mesmo físico, eram
bem diferentes. O caçula era corajoso, brigão, audacioso.
Corria descalço, sem medo de queimar os pés, saltava para
pegar a linha ou a rabiola de um papagaio, soltando um grito
de guerra e mostrando as mãos estriadas. "Yaqub recuava
ao ver as mãos do irmão cheias de sangue, cortadas pelo
vidro do cerol."


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CARNAVAL E TRAGÉDIA -Veio à lembrança de
Yaqub o baile de Carnaval no casarão de Sultana Benemou.
"Seria a primeira noite de Lívia na festa dos adultos, a
primeira noite que ele, Yaqub, viu-a com os lábios pintados".
Yaqub tinha treze anos. Lívia, da mesma idade, já parecia
adulta. Quando ia aproximar-se dela, Zana ordenou: "Leva
tua irmã para casa. Podes voltar depois". Ele obedeceu.
Quando Zânia dormiu, "voltou correndo ao casarão dos
Benemou." A cena que viu deixou-o trêmulo: Lívia e Omar
dançavam num canto da sala. "Dançavam quietos,
enroscados, movidos por um ritmo só deles, que não era
carnavalesco." Dois meses depois, ele e o irmão estavam
separados. Nunca entendeu "por que ele, e não o irmão,
viajou para o Líbano dois meses depois."

CHEGADA AO LAR -Já em casa, Yaqub abraçou
longamente a irmã, agora moça completa, e dedicou uma
atenção especial a Domingas. "Ele observou os desenhos
de sua infância colados na parede: as casas, os edifícios e
as pontes coloridas, e viu o lápis de sua primeira caligrafia e

o caderno amarelado que Domingas guardara e agora lhe
entregava como se ela fosse sua mãe e não a em-pregada."
FACE A FACE COM O IRMÃO -A recepção entre os
gêmeos foi fria. Omar chegou quase à meia-noite. Apesar do
incentivo, os dois trocaram apenas um tímido aperto de
mãos.

A HISTÓRIA DA CICATRIZ -Um narrador ainda não
identificado fala da cicatriz no rosto de Yaqub. "Foi
Domingas quem me contou a história da cicatriz". Depois do
Carnaval, os gêmeos foram com Domingas à casa dos
Reinoso: iam passar a tarde lá, atraídos pela notícia de um
cinematógrafo ambulante. Lívia dava confiança aos dois, e
Omar ficou enciumado. Depois do baile de Carnaval, o
Caçula achava que Lívia estava comprometida com ele.
Quando o filme ia começar, Yaqub reservou uma cadeira
para Lívia. Omar desaprovou o gesto polido com o olhar. A
sala ficou escura, e as cenas em preto-e-branco surgiram da
escuridão. Uns vinte minutos depois, a projeção foi
interrompida. Quando alguém abriu uma janela, "a platéia viu
os lábios de Lívia grudados no rosto de Yaqub. Depois, o
barulho de cadeiras atiradas no chão e o estouro de uma
garrafa estilhaçada, e a estocada certeira, rápida e furiosa
do Caçula. O silêncio durou uns segundos. E então o grito
de pânico de Lívia ao olhar o rosto rasgado de Yaqub. O
Caçula, apoiado na parede branca, ofegava, o caco de vidro
escuro na mão direita, o olhar aceso no rosto
ensangüentado do irmão." Vieram, depois, os apelidos:
"Cara de lacrau", "bochecha de foice." Yaqub engolia os
insultos, não reagia. "Então Halim decidiu: a viagem, a
separação. A distância que promete apagar o ódio, o ciúme
e o ato que os engendrou."

ADAPTAÇÃO -Depois de voltar do Líbano, Yaqub
tentou recuperar o tempo perdido. Era tímido, tinha vergonha
de falar (trocava o pê pelo bê), era alvo de chacota dos
colegas e de certos mestres que o tinham como um rapaz
rude, esquisito: vaso mal moldado.

OLHAR SEDUTOR -Yaqub despertava desejo nas
mulheres. Tinha olhar de conquistador. Domingas também
se deixava encantar por aquele olhar. Dizia: "Esse gêmeo
tem olhão de boto; se deixar, ele leva todo mundo para o
fundo do rio".

UM MATEMÁTICO -Na escola, Yaqub sobressaía-se
em Matemática. "O que lhe faltava no manejo do idioma
sobrava-lhe no poder de abstrair, calcular, operar com
números." Logo ganhou gosto pelo jogo de xadrez.

JUVENTUDE ESQUISITA -Yaqub passava "dias e
noites no quarto, em total isolamento. A mãe e o pai não
entendiam por que ele renunciava à juventude, ao barulho
festivo e às serenatas que povoavam de sons as noites de
Manaus.

ATITUDES OPOSTAS -Enquanto Yaqub ganhava
fama de estudioso e esquisitão, Omar "gazeava lições de
latim, subornava porteiros sisudos do colégio dos padres e
saía para a noite, fardado, transgressor dos pés ao gogó,
rondando os salões da Maloca dos Barés, do Acapulco, do
Cheik Clube, do Shangri-Lá."

LUTA VÃ -O pai não sabia o que fazer diante de um
filho que chegava, todas as noites, ébrio. Ameaça castigo,
dava o exemplo do outro filho, mas nada adiantava. Omar foi
reprovado dois anos seguidos no colégio dos padres.

EXPULSO DO COLÉGIO - No dia em que foi expulso,
Omar "gritou várias vezes na presença do pai, desafiando-o,
rasgando a farda azul, a voz impertinente dizendo: "Acertei
em cheio o professor de matemática, o mestre do teu filho
querido, o que só tem cabeça".

GALINHEIRO DOS VÂNDALOS -"O Caçula, expulso
pelos padres, só encontrou abrigo numa escola de Manaus
onde eu estudaria anos depois. O nome do colégio era
pomposo -Liceu Rui Barbosa, o Águia de Haia -, mas o
apelido era bem menos edificante: Galinheiro dos Vândalos."

SOCO NO QUEIXO E CHUTE NO SACO - No
Galinheiro dos Vândalos, "o Caçula não escondia de
ninguém a versão verdadeira: o padre polonês que o
humilhou só podia tomar sopa, nunca mais ia mastigar
comida." Chamava-se Bolislau, gigante de tez vermelha,
carnadura atlética, olhos de castigador que procura cobaia.
Fez uma pergunta dificílima para Omar, e em resposta ao
silêncio do aluno, zombou. "O Caçula se levantou, caminhou
para o quadro-negro, parou cabisbaixo diante do gigante
Bolislau, deu-lhe um soco no queixo e um chute no saco".

IDENTIDADE DO NARRADOR -Aqui, o narrador
começa a aparecer mais nitidamente. "Quando ele (Yaqub)
viajou para São Paulo, eu tinha uns quatro anos de idade,
mas a roupa dele me esperou crescer e foi se ajustando ao
meu corpo; as calças, frouxas, pareciam sacos; e os
sapatos, que mais tarde ficaram um pouco apertados,
entravam meio na marra nos pés: em parte por teimosia, e
muito por necessidade."

PARTIDA PARA SÃO PAULO -Terminados os
estudos no colégio dos padres, Yaqub decidiu: ia embora
para São Paulo, seguir sua vocação para os números. O
colégio preparou-lhe homenagens.

LÍVIA REAPARECE -No dia da partida, Lívia
reapareceu. Arrastou Yaqub para o quintal, depois os dois
sumiram no mato. Como demorassem, Domingas foi atrás.
"Estavam espichados no mato, e Yaqub acariciava o ventre
e os seios da mulher, adiando a despedida."

MARCAS DO AMOR -Depois do encontro com Lívia,
"Yaqub entrou sozinho na sala, o pescoço com arranhões e
marcas de mordidas, a expressão ainda incendiada. Viajou
assim mesmo: a roupa amarrotada, o rosto úmido, o cabelo
aninhando talos, folhinhas e fios de cabelo amarelados.
Viajou calado. Deixou na casa a lembrança forte de duas
cenas ousadas: o desfile com farda de gala e o encontro
com a mulher que ele amava."

2


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HALIM E GALIB - O pai de Zana, Galib, inaugurou o
restaurante Biblos no térreo da própria casa. O próprio Galib,
ajudado pela filha, levava comida à mesa dos fregueses:
mascateiros, comandantes de embarcação, regatões,
trabalhadores do Manaus Harbour; imigrantes libaneses,
sírios e judeus marroquinos que moravam na praça Nossa
Senhora dos Remédios e nos quarteirões que a rodeavam.
Halim começou a freqüentar o restaurante menos pela
comida e mais para apreciar a beleza de Zana. "Passou
meses assim: sozinho num canto da sala, agitado ao ver a
filha de Galib, acompanhando com o olhar os passos da
gazela."

O EFEITO DOS GAZAIS -Halim estava apaixonado
por Zana, mas era tímido, não tinha coragem de lhe fazer
uma declaração de amor. Pediu ajuda a Abbas, um poeta
boêmio. Nasceu, então, a idéia de conquistá-la com um
poema. Abbas compôs um gazal, espécie de poema
amoroso, e Halim, encharcado de vinho, recitou-o a Zana
dentro do restaurante cheio de gente. Dois meses depois,
estavam casados. Tudo isso Halim contou ao narrador.

INTRIGAS -Houve muitas intrigas para atrapalhar o
namoro de Zana e Halim. Galib não se intrometia, e Zana
ganhava liberdade para decidir sozinha. Terminaram
casando-se na Igreja dos Remédios.

SOB O COMANDO DE ZANA - Depois de casados,
Zana dava as ordens, tomava as decisões. Halim vivia para
satisfazê-la, para adorá-la, para fazê-la feliz. Ele parecia
passivo, "mas era um demônio na cama e na rede. Ele me
contou cenas de amor com a maior naturalidade, a voz
pastosa, pausada, a expressão libidinosa no rosto estriado,
molhado de suor".

A MORTE DE GALIB -Logo depois de casados, Zana
sugeriu ao pai "que viajasse para o Líbano, revisse os
parentes, a terra, tudo. Era o que Galib queria ouvir. E partiu,
a bordo do Hildebrand, um colosso de navio que tantos
imigrantes trouxe para a Amazônia." Em Biblos, dormindo na
casa perto do mar, Galib morreu. Quando Zana soube,
trancou-se no quarto do pai. Depois balbuciou para o
esposo: "Agora sou órfã de pai e mãe. Quero filhos, pelo
menos três".

CARTA DE YAQUB -No fim de cada mês, Halim e
Zana recebiam uma carta de Yaqub. Para espantar a
tristeza, "Halim convidava os vizinhos e a leitura era pretexto
para um jantar festivo. Sem festa, Zana ficaria deprimida,
pensando no frio que o filho sentia".

YAQUB PROFESSOR -Seis meses depois, Yaqub
tornou-se professor de Matemática em São Paulo. Tempos
depois, informou seu ingresso na Universidade de São
Paulo: ia ser engenheiro. "Os pais mandaram-lhe dinheiro e
um telegrama; ele agradeceu as belas palavras e devolveu o
dinheiro. Entenderam que o filho nunca mais precisaria de
um vintém. Mesmo se precisasse, não lhes pediria."

YAQUB OFICIAL DO EXÉRCITO - "Cresci vendo as
fotos de Yaqub e ouvindo a mãe dele ler suas cartas. Numa
das fotos, posou com a farda do Exército; outra vez uma
espada, só que agora a arma de dois gumes dava mais
poder ao corpo do oficial da reserva. Durante anos, essa
imagem do galã fardado me impressionou. Um oficial do
Exército, e futuro engenheiro da Escola Politécnica..."

A SITUAÇÃO DE OMAR -Omar levava a vida "entre
a inércia da ressaca e a euforia da farra noturna." Não
participava da leitura das cartas mandadas pelo irmão,
ignorava o oficial da reserva e futuro politécnico.

COMO SURGIU DOMINGAS -Antes dos filhos, Halim
e Zana receberam de uma freira uma indiazinha. Parecia
uma menina de boas maneiras e bom humor: nem
melancólica, nem apresentada. Durante um tempinho, ela
nos deu um trabalho danado, mas Zana gostou dela. As
duas rezavam juntas as orações que uma aprendeu em
Biblos e a outra no orfanato das freiras, aqui em Manaus."

O NASCIMENTO DOS GÊMEOS -Halim não queria
filhos. Temia que eles atrapalhassem a tara que sentia por
Zana. "Yaqub e Omar nasceram dois anos depois da
chegada de Domingas à casa." Daí em diante, acabou-se o
sossego de Halim: à medida que os meninos cresciam, ia
perdendo terreno no coração da esposa.

O NASCIMENTO DE RÂNIA -Quando Rânia nasceu,
Halim já se tinha conformado com a intromissão dos filhos
na sua vida íntima. Fez o papel de pai: brincou com eles,
levou-os para passeios. Mas nunca aprovou o excesso de
mimo que Zana dispensava ao caçula.

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ANGÚSTIAS DO NARRADOR -Neste capítulo, o
narrador questiona o seu próprio passado. Fica-se sabendo
que ele é filho de Domingas. E o pai? "Anos depois,
desconfiei: um dos gêmeos era meu pai. Domingas
disfarçava quando eu tocava no assunto; deixava-me cheio
de dúvida, talvez pensando que um dia eu pudesse
descobrir a verdade. Eu sofria com o silêncio dela".

ORIGENS DE DOMINGAS -Domingas era órfã. Por
isso, foi trazida do interior por uma freira para um orfanato
de Manaus. Ali aprendeu a rezar e a escrever,
experimentando a palmatória da irmã Damasceno. Saiu do
internato para viver na casa de Zana e Halim. "Viu os
gêmeos nascerem, cuidou do Yaqub, brincaram juntinhos...

VIAGEM A ACAJATUBA -O narrador e Domingas
fizeram uma única viagem de barco juntos: foram a
Acajatuba, vila natal de Domingas. Na volta, um temporal
provocou pânico e vômitos, aumentando a tristeza dela. Por
alguma razão, ela não falava nos gêmeos, muito menos em
Yaqub. E isso aumentava as desconfianças do narrador.

MENINO DE RECADOS - O narrador tinha total
liberdade na casa de Halim e Zana. Dificilmente se sentava
à mesa com os donos da casa, mas alimentava-se da
mesma comida, andava por todos os ambientes, eles não se
importavam. Os vizinhos, por meio de Zana, pediam-lhe
favores: que fosse ali, acolá, ele ia. Às vezes, nem
agradeciam nem davam dinheiro para o transporte.

A PIOR VIZINHA -A pior vizinha do narrador era
Estelita Reinoso. Vivia pedindo a Zana que mandasse o filho
da Domingas fazer isso ou aquilo. Demorou, mas um dia o
narrador deu o seu grito de independência: não serviria mais
de mensageiro para Estelita. Halim concordou com ele.

AS FILHAS DE TALIB -Eram duas, cada uma mais
bonita que a outra: Zahia e Nahda, a primeira mais
assanhada que a segunda. O narrador, quando ia à casa de
Talib, faltava engolir Zahia com os olhos. "Talib me tacava
uma cacholeta: "Queres engolir minha filha, seu safado?" Eu
ficava acabrunhado, Zahia dava uma risada. Não perdia uma
noite em que elas dançavam em casa, onde eram rivais de
Rânia e rebolavam como nunca."

SURRA NO PAI -Certa vez, as filhas de Talib
flagraram-no com uma cunhã atrás do balcão da Taberna
Flores do Minho. Ele não esperava por isso, não acreditava


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que as filhas voltariam mais cedo da escola. "Deram uma
sova no pai, nós ouvíamos os urros do viúvo ecoando no
quarteirão, e quando me aproximei da casa eu o vi deitado
na sala, escorjado sob os braços roliços e rijos das filhas, a
voz de súplica repetindo: "Só estava me divertindo um
pouquinho, filhas...".

ATRITOS COM OMAR -Omar discriminava o
narrador. "Um dia, eu estava almoçando quando ele se
aproximou e deu a ordem: que eu saísse, fosse comer na
cozinha. Halim estava por perto, me disse: "Não, come aí
mesmo, essa mesa é de todos nós". O Caçula bufava,
depois se vingava de mim.

VONTADE DE FUGIR - As pressões sobre o narrador
eram muitas. Omar, quando chegava bêbado, desrespeitava
Domingas. O narrador pulava sobre ele e levava safanões e
pesadas. Halim defendia-o, mas Zana ficava do lado do filho
e contra o filho da empregada. A idéia de fugir não lhe saía
da cabeça.

ALÉM DOS LIMITES -Omar chegava bêbado todas
as noites e dava trabalho para a mãe e para Domingas.
Certa noite entrou em casa com uma moça do cortiço da rua
dos fundos, irmã do Calisto. Fizeram uma festinha a dois. De
manhãzinha, Halim viu o filho e a moça, nus, dormindo no
sofá cinzento. Depois que a moça se vestiu e saiu, ele "se
aproximou do filho, que fingia dormir, ergueu-o pelo cabelo,
arrastou-o até a borda da mesa e então eu vi o Omar , já
homem feito, levar uma bofetada, uma só, a mãozona do pai
girando e caindo pesada como um remo no rosto do filho."

YAQUB CASADO -Yaqub, quando foi casar-se,
noticiou o evento apenas com um telegrama. Não revelou o
nome da mulher. "Zana mordeu os lábios. Para ela, um filho
casado era um filho perdido ou seqüestrado. Fingiu-se
desinteressada do nome da nora e cercou ainda mais o
Caçula, que ela atraía para si como um imenso ímã atrai
limalhas."

RÂNIA -Rânia, aos poucos, tornou-se arredia,
retraída, enclausurada. Depois das oito horas da noite,
resguardava-se do mundo. Não saía: não ia ao cinema, às
praças, às casas vizinhas. Ninguém sabia por quê. Com o
tempo, tornou-se ótima negociante, uma vendedora arguta.
Rasgava as cartas de todos os pretendentes. Só se
mostrava numa única noite do ano: no aniversário da mãe.

OMAR E DÁLIA -Tudo aconteceu no aniversário de
Zana. Omar apareceu com uma mulher nunca vista por ali.
Chamava-se Dália e tinha uma beleza incomum. Tão logo a
viram, mãe, filha e as duas Talib ficaram enciumadas. Rânia,
humilhada, nem esperou o momento do parabéns: retirou-se
para o quarto sem os costumeiros elogios de outros anos.
As Talib dançaram, mas tiveram os movimentos sensuais
obscurecidos pela dança inesperada de Dália, com direito a
beijo teatral de Omar no final. Zana não quis parabéns, não
se importou com o bolo. Todos se retiraram, e as duas rivais
começaram a recolher as coisas da mesa. Omar estava
deitado na rede, lá fora. De repente, Zana cochichou alguma
coisa no ouvido de Dália. Foi a gota d`água. Ela se retirou
batendo a porta, e Omar foi atrás dela.

PLANO DE ZANA -Para separa Omar de Dália, Zana
tentou convencer o filho doutor a hospedar o filho farrista.
"Ele quer se enganchar com uma sirigaita da Maloca, uma
dançarina que se exibiu na noite do meu aniversário. Se ele
não passar um tempo em São Paulo, vai abandonar tudo: os
estudos, a casa, a família", escreveu ao engenheiro. Mas
Yaqub negou abrigo ao irmão: não ia permitir que o irmão
dormisse sob o seu teto. "Que ele encontre o caminho dele,
mas longe de mim, muito longe da minha seara."

VINGANÇA DE ZANA - Por intermédio do narrador,
Zana ofertou dinheiro às tias de Dália, e a moça
desapareceu de Manaus. "Dália sumiu da Maloca dos Barés,
da casa na Vila Saturnino, da cidade. Só assim o caçula
retornou ao lar: sem camisa e bêbado.

VIAGEM PARA SÃO PAULO -Omar foi obrigado a
viajar para São Paulo. "Ele viajou dando coices no ar,
rebelde, enraivecido. Foram seis meses de quietude na
casa, de alívio para Halim. Os livros do Caçula, romances e
poemas que ele lia na rede, caíram nas minhas mãos. Os
livros, os cadernos, as canetas, tudo, menos o quarto, que
era só dele, só para ele."

DOMINGAS SAUDOSA -Domingas, todos os dias,
limpava os quartos vazios dos gêmeos. Detinha-se em
ambos, admirando o excesso de trastes de um e a falta de
objetos supérfluos de outro. O narrador achava que a mãe
admirava aquele contraste.

O NARRADOR NO GALINHEIRO -Graças à ajuda de
Halim, o narrador ingressou no Galinheiro dos Vândalos. "No
liceu havia vestígios do Caçula: ex-namoradas, histórias de
algazarra, de cenas heróicas, duelos, desafios. Nas paredes
do banheiro havia inscrições de sua autoria. Por onde
passava, deixava um gesto ousado, de valentia, ou um
epigrama qualquer, palavras de humor e ironia."

OMAR SUMIU? -Este capítulo termina com o
desaparecimento de Omar da pensão onde morava, em São
Paulo. Depois de comprovar que o irmão desaparecera
misteriosamente, Yaqub decidiu não informar logo os
familiares de Manaus. Havia a esperança de que ele
reaparecesse de repente.

5

VISITA DE YAQUB - Pela primeira vez, desde que se
fora para São Paulo, Yaqub vinha visitar a família. Quando o
narrador soube que ele ia chegar, sentiu uma coisa
estranha. Se ele fosse seu pai, então seria filho de um
homem quase perfeito. Foram quatro dias de visita que
aumentaram as dúvidas do narrador. Ele e Yaqub
passearam pela cidade, visitaram lugares que acendiam a
memória do visitante, mas ele nada de substancial revelou
sobre o relacionamento com Domingas.

A VERDADE SOBRE OMAR - Yaqub não contou a
verdade para todos. Contou-a só para o pai, sentados à
mesa de um boteco. "O Caçula enviou o primeiro cartão-
postal de Miami; depois enviou outros, de Tampa, Mobile e
Nova Orleans, contando suas farras e peripécias em cada
cidade. Yaqub rasgara todos os postais menos um, que
entregou ao pai: "Queridos mano e cunhada, Louisiana é a
América em estado bruto e mesmo brutal, e o Mississipi é o
Amazonas desta paragem. Por que não dão uma voltinha
por aqui? Mesmo selvagem, Louisiana é mais civilizada que
vocês dois juntos. Se vierem, tratem de pintar o cabelo de
loiro, assim vão ser superiores em tudo. Mano, a tua mulher,
que já foi bonita, pode rejuvenescer com o cabelo dourado.
E tu podes enriquecer muito, aqui na América. Abraços do
mano e cunhado Omar".

FUGA ESPETACULAR -Omar roubara o passaporte
do irmão, roupas e algum dinheiro (oitocentos e vinte
dólares) e partira para os Estados Unidos. Quem facilitou a
entrada do irmão em casa foi a empregada. Mais ainda:
Omar descobriu que a esposa secreta do irmão era Lívia,
aquela que provocara a primeira briga séria entre os
gêmeos. Aproveitou a ausência do irmão e desenhou
obscenidades no álbum de casamento.


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A AJUDA DE YAQUB -Em São Paulo, as coisas
melhoraram muito para Yaqub. Ele mandou móveis novos
para os pais e dinheiro para reformar a casa e a loja. O
narrador e Rânia participaram ativamente das reformas,
trabalhando de verdade. "Depois da reforma, Rânia tomou
mais gosto pela loja. Mandava e desmandava, cuidava do
caixa, do estoque e das dívidas dos caloteiros. Acabou de
vez com a venda a fiado, "uma filantropia que não combina
com o comércio".

INDIFERENÇA DE OMAR -Omar mostrava-se
indiferente à revolução que o dinheiro do irmão vinha
operando na casa e nos negócios dos pais. Continuava
boêmio e malandro, tendo a ajuda velada da mãe.

MUDANÇA BRUSCA - Omar, misteriosamente,
mudou de vida: dormia regularmente, acordava cedo e ia
trabalhar. Bem vestido, ganhou ares de executivo. A
mudança provocou comentários e desconfianças em casa e
fora ela. Alguns apostavam em amor novo. A mãe dele não
acreditava na hipótese. O Caçula dizia que estava
trabalhando num banco britânico.

MÃE-DETETIVE -Zana, desconfiada do
comportamento de Omar, partiu para a pesquisa. O emprego
no banco era uma farsa. O inglês com quem o filho andava,
um contrabandista. E havia uma mulher. Com a ajuda de
Zanuri, a mãe descobriu tudo. Ela tinha o apelido de Pau-
Mulato porque era grande e escura.

DESPEDIDA GROSSEIRA -Omar preparou-se para
deixar a casa dos pais e viver com a Pau-Mulato. A
despedida foi agressiva: "A senhora tem o outro filho, que só
dá gosto e tem bom posto. Agora é a minha vez de viver...
Eu e a minha mulher, longe da senhora..." Ergueu a cabeça
e gritou para o pai: "Longe do senhor também, longe dessa
casa... de todos. Não venham atrás de mim, não adianta...".

HALIM x AZAZ - Azaz, um desocupado, andou
espalhando calúnias sobre Halim: que ele tinha filhos com as
índias, com a de casa (referia-se a Domingas) e com outras.
Halim marcou um duelo em praça pública -era moda na
época. A luta foi sangrenta: Azaz com uma navalha, Halim
com uma corrente. Os dois saíram feridos, mas Halim
venceu.

BUSCA INCESSANTE -Omar e a Pau-Mulato
sumiram de vez. Primeiro, a procura da mãe; depois, de
Halim. Todos os esforços fracassaram. O casal
desapareceu. O faro do Perna-de-Sapo desfez o mistério.
Os dois moravam em um barquinho, no porto da Escadaria,
viviam da pesca e dos donativos dos ribeirinhos. "Ela, a Pau-
Mulato, dando uma de cartomante, lendo a mão calosa dos
ribeirinhos, recebendo farinha e moedas em troca de
destinos fantasiosos."

FÚRIA DE OMAR -Quando Omar descobriu que o
pai, por meio do Perna-de-Sapo, conseguiu localizá-lo, ficou
furioso. Com uma corrente nas mãos, destruiu espelhos,
quebrou móveis, rasgou fotografias. Acusava o pai e mãe de
culpados. Halim não estava em casa. Omar xingou a mãe, a
irmã, o narrador (filho duma égua, interesseiro, puxa-saco de
Halim). O narrador, já adulto, preparou-se para uma briga de
vida ou morte, mas Omar foi amolecendo até ser totalmente
dominado por Zana.

DESABAFO DE HALIM -Halim desabafou todas as
mágoas ao narrador. Punha a culpa de tudo que aconteceu
à esposa. Zana, aos poucos, foi dominando Omar, sugando-
lhe alma e coração, deixando-o dependente dela. Até o amor
pelo marido e os momentos de prazer foram substituídos por

essa atenção doentia dedicada ao Caçula. Omar tornara-se,
com o passar do tempo, o arqui-rival de Halim.

RESUMO PARTE II

7

PRISÃO E MORTE DE LAVAL -O professor Laval
(poeta cujos versos estavam espalhados pelas mãos dos
alunos do Liceu Rui Barbosa) foi preso por soldados do
Exército em plena praça pública. "Foi humilhado no centro
da praça das Acácias, esbofeteado como se fosse um cão
vadio à mercê da sanha de uma gangue feroz". Dois dias
depois, o professor estava morto.

O RETORNO INESPERADO DE YAQUB -Sem
prévio aviso, Yaqub retornou a Manaus. Domingas foi
acolhê-lo e, na visão do narrador, o abraço entre os dois foi

o mais demorado daquela casa. Ele estava expansivo, cheio
de intimidades com Domingas, e várias vezes pronunciou o
nome do narrador.
DOIS DOENTES: ATENÇÕES DIVIDIDAS -Omar e o
narrador adoeceram a um só tempo por causa da morte do
professor Laval. Zana dedicou atenções ao Caçula;
Domingas, Yaqub e Halim ficaram à cabeceira do narrador
que, naquela época, alcançava a maioridade. Quando a
doença cedeu, Yaqub já tinha viajado para São Paulo.

RÂNIA E O NARRADOR -Certo sábado, Rânia
convocou o narrador para uma faxina geral no depósito da
loja. Ele atendeu prontamente. Coisas velhas pertencentes
ao pai foram jogadas fora. "Ela agia com uma determinação
feroz, consciente de que estava enterrando um passado." Já
era tarde da noite, e os dois continuavam trabalhando.
"Quando Rânia se curvou para abrir uma caixa de lençóis, vi
os seios dela, morenos e suados, soltos na blusa branca
sem mangas. Rânia demorou nessa posição, e eu fiquei
paralisado ao vê-Ia assim, recurvada, os ombros, os seios e
os braços nus. Quando ela se ergueu, me olhou por uns
segundos. Os lábios se moveram e a voz manhosa
sussurrou, lentamente: "Vamos parar?". Ela ofegava. E não
se esquivou do meu corpo nem evitou meu abraço, meus
afagos, os beijos que eu desejava fazia tanto tempo. Pediu
que eu apagasse a luz, e passamos horas juntos naquele
suadouro. Aquela noite foi uma das mais desejadas da
minha vida."

OMAR COM GONORRÉIA - O caçula agora
demonstrava traços de sandice. Passava os dias no quintal,
catando folhas e frutas podres, podando galhos de árvores,
arrancando ervas-daninhas. Certa vez, quando foi urinar,
soltou urros aterradores. Descobriram que estava com
gonorréia.

OS PASSEIOS DE HALIM -Halim saía por aí, sem
rumo certo, andando de rua em rua, de bar em bar, e o
narrador tinha que lhe seguir os passos a pedido de Zana.
Halim não se escondia: queria apenas andar. Quando
voltava, contava histórias desencontradas: confundia quem
se mudara com quem já morrera.

A MORTE DE HALIM -Os passeios eram rotineiros,
mas Halim sempre voltava para casa. Numa noite de
dezembro, véspera de Natal, ele sumiu de verdade. O
narrador esgotou todas as opções para encontrá-lo e voltou
sozinho. Naquela noite, ninguém dormiu, todos preocupados
com o sumiço de Halim. De manhã cedo, ele estava no sofá
da sala, "calado, para sempre". A reação mais estranha
diante do morto foi de Omar. Gritava com o pai, queria
enfrentá-lo, humilhava-o com palavras, o dedo em riste


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apontado para o rosto do morto. O narrador teve que
arrastar o filho possesso para o quintal.

8

O APARECIMENTO DE ROCHIRAM -Omar
apareceu em casa com um indiano. Chamava-se Rochiram.
Dizia-se construtor de hotéis pelo mundo. Domingas
antipatizou com ele à primeira vista. Zana, aos poucos, foi
ficando íntima do amigo do filho.

CARTA PEDINDO PERDÃO -Zana viu no indiano a
oportunidade de aproximar os dois gêmeos. Era o que ela
mais queria na vida. Rochiram ia construir um hotel, Yaqub
podia participar do projeto e Omar ajudá-lo-ia. Por
intermédio do narrador, fez uma carta para o filho de São
Paulo: pedia-lhe perdão e compreensão. Queria que ele
fizesse as pazes com Omar. A resposta veio, mas não
deixou Zana animada. Yaqub interessou-se pela construção
do hotel, mas não se mostrou interessado em fazer as pazes
com Omar. Quando o caçula soube do plano, ficou colérico.

A AGRESSÃO DE OMAR -Yaqub retornou a
Manaus, mas ficou hospedado em um hotel. Certo dia, foi a
casa rever Domingas e o narrador. Omar voltou de repente
e, sem aviso, começou a esmurrar o rosto de Yaqub e a dar-
lhe chutes. O narrador interveio, mas não conseguiu evitar a
agressão. Antes de sair, Omar rasgou o projeto que o irmão
deixou sobre a mesa.

O ESTRAGO DA AGRESSÃO -Domingas
acompanhou Yaqub até o hospital. "Disse que o estado de
Yaqub não era grave: a mão esquerda, sim, em frangalhos,
dois dedos fraturados. Ia perder uns três dentes, o rosto
estava irreconhecível, ele sentia dores terríveis nas costas e
nos ombros. Pedira a Domingas que calasse o bico, que
inventasse, dissesse a Zana: "O teu filho teve de viajar às
pressas para São Paulo".

9

CENAS DO PASSADO - Domingas resolve contar ao
narrador detalhes do nascimento dele. "Quando tu
nasceste", ela disse, "seu Halim me ajudou, não quis me
tirar da casa... Me prometeu que ias estudar. Tu eras neto
dele, não ia te deixar na rua. Ele foi ao teu batismo, só ele
me acompanhou. E ainda me pediu para escolher teu nome.
Nael, ele me disse, o nome do pai dele. Eu achava um nome
estranho, mas ele queria muito, eu deixei..." Domingas
revelou ao filho que, numa determinada noite, Omar chegara
bêbado, entrara no quarto dela e estuprara-a.

A SEMIDEMÊNCIA DE ZANA -Depois que Omar
sumiu, Zana passou a confundir as coisas. Vivia uma
semidemência de dar tristeza. Desafiava os amigos,
incitava-os a ir procurar o seu Caçula.

A MORTE DE DOMINGAS -Certa vez, a mãe do
narrador não estava no quarto. Ele foi encontrá-la no quarto
de Omar, embrulhada com a própria rede. "Vi o corpo que
oscilava lentamente, comecei a chorar. Sentei no chão ao
lado dela e fiquei ali, aturdido, sufocado. Durante o tempo
que a contemplei, no vaivém da rede, rememorei as noites
que dormimos abraçados no mesmo quartinho que fedia a
barata." O corpo de Domingas foi enterrado ao lado do de
Halim, no jazigo da família.

10

O AMOR PELA CASA -Rânia comprou um bangalô
em um dos bairros ao norte de Manaus. Zana resistiu:
"nunca sairia da casa dela, nem morta deixaria as plantas, a

sala com o altar da santa, o passeio matutino pelo quintal.
Não queria abandonar o bairro, a rua, a paisagem que
contemplava do balcão do quarto. Quando Rânia chegava
da loja, a mãe se precipitava em dizer: "Podes ir para o teu
bangalô, eu não arredo pé daqui".

MUDANÇA DEFINITIVA -Um dia, Rânia partiu,
"deixou a casa e seu quarto. Toda manhã, a caminho da rua
dos Barés, visitava a mãe. Dizia-lhe: "O bangalô está um
brinco, mama. O teu quarto é o mais espaçoso, tem um
quintalzinho para os animais, as plantas, e uma varandinha
para estender a rede...".

AS CONFISSÕES DE ZANA -Agora, moravam no
casarão apenas o narrador e Zana. Ela, aos poucos, foi-lhe
confidenciando segredos que poucos sabiam. Antes de vir
para o Brasil, o nome dela era Zeina. Às vezes, delirava,
falando do filho ausente: "Por que essa demora, querido?
Por quê? Os outros já foram embora, agora só estamos nós
em casa, nós dois...".

A PERDA DA CASA -Rochiram reapareceu e fez a
proposta final: "a dívida dos dois irmãos em troca da casa de
Zana. No entanto, surpreendeu-se quando ele acrescentou:
"Seu irmão, o engenheiro, está plenamente de acordo". As
coisas foram tiradas, e a casa ficou vazia. Zana mudou-se
para o bangalô da filha, e o narrador ficou sozinho.

ADEUS TRISTE -Zana, braço engessado, voltou à
casa vazia onde restava apenas o narrador. A filha trouxe-a,
pedindo a Nael que cuidasse dela na sua ausência. Nael
distraiu-se, e Zana sumiu. Encontraram-na deitada no
galinheiro, o braço doente meio arroxeado. Foi uma luta para
colocá-la num carro: não queria abandonar a casa. "Ela
chorou, como se sentisse uma dor terrível. Nunca mais
voltou. Deitou-se em outro quarto, longe do porto, no lar que
não era para ela."

MORTE DE ZANA -"Depois eu soube da hemorragia
interna, e ainda a visitei numa clínica no bairro de Rânia. Ela
me reconheceu, ficou me olhando. Então soprou nomes e
palavras em árabe que eu conhecia: a vida, Halim, meus
filhos, Omar. Notei no seu rosto o esforço, a força para
murmurar uma frase em português, como se a partir daquele
momento apenas a língua materna fosse sobreviver. Mas
quando Zana procurou minhas mãos, conseguiu balbuciar:
Nael... querido..."

11

CASA ROCHIRAM -O casarão foi reformado e
descaracterizado. A noite de inauguração da Casa Rochiram
"foi uma festa de estrondo, e na rua uma fila de carros pretos
despejava políticos e militares de alta patente. Diz que veio
gente importante de Brasília e de outras cidades, íntimos de
Rochiram."

HERANÇA PARA NAEL -"No projeto da reforma, o
arquiteto deixou uma passagem lateral, um corredorzinho
que conduz aos fundos da casa. A área que me coube,
pequena, colada ao cortiço, é este quadrado no quintal. `Tua
herança`, murmurou Rânia."

PERSEGUIÇÃO A OMAR -"Rânia, aos poucos, foi
descobrindo que o irmão distante havia calculado o
momento adequado para agir. Yaqub esperou a mãe morrer.
Então, com truz de pantera, atacou." Omar tentava fugir ao
cerco da justiça e ia contraindo dívidas para a irmã pagar.
Até que sumiu de vez.


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REENCONTRO COM OMAR -Depois de muitas
buscas vãs, Rânia avistou Omar na praça das Acácias.
"Ficou paralisada. Estava magro, meio amarelão, barba de
uma semana, o cabelo crespo com jeito de juba. Os braços
cheios de arranhões, a testa avolumada por calombos. Os
olhos fundos e acesos davam a impressão de um ser à
deriva, mesmo sem ter perdido totalmente a vontade ou a
força de recuperar uma coisa perdida."

PRISÃO VIOLENTA -"Rânia não teve tempo de se
aproximar dele." Ouviu estampidos, viu pessoas correrem:
eram três policiais, e logo cinco, muitos. Uma caçada. Viu o
Caçula levar uma coronhada no rosto, cair de costas e ser
arrastado até a viatura. "Rânia correu ao encontro do irmão,
viu no rosto dele um fio vermelho e grosso que a água não
apagava. Discutiu com os policiais, quis saber aonde iam
levá-lo, foi repelida brutalmente. No presídio, ele passou
algumas semanas incomunicável."

A CONDENAÇÃO -"Omar foi condenado a dois anos
e sete meses de reclusão. Não podia sair, não teve direito à
liberdade condicional. "Só osso e pelanca... Meu irmão não
parece humano", contou Rânia, chorando.

ROMPIMENTO COM YAQUB -Rânia escreveu a
Yaqub para dizer-lhe o que ninguém ousara dizer. "Lembroulhe
que a vingança é mais patética do que o perdão. Já não
se vingara ao soterrar o sonho da mãe? Escreveu que ele,
Yaqub, o ressentido, o rejeitado, era também o mais bruto, o
mais violento, e por isso podia ser julgado. Ameaçou
desprezá-lo para sempre, queimar todas as suas fotografias
e devolver as jóias e roupas que ganhara, caso ele não
renunciasse à perseguição de Omar. Cumpriu à risca as
ameaças, porque Yaqub calculou que o silêncio seria mais
eficaz do que uma resposta escrita."

NAEL SOZINHO -O narrador afastou-se de Rânia.
"Eu não queria. Gostava dela, era atraído pelo contraste de
uma mulher assim, tão humana e tão fora do mundo, tão
etérea e tão ambiciosa ao mesmo tempo. As lembranças da
noite que passamos juntos, o ardor daquele encontro ainda
me davam arrepios. Mas ela se ressentiu de mim, ofendeu-
se com a minha omissão, com o meu desprezo pelo irmão
encarcerado. No fundo, sabia o que eu remoía, o que me
comia por dentro. Devia ter conhecimento do que Omar
fizera com a minha mãe, de todos os agravos a nós dois.
Parei de trabalhar com ela, nunca mais escrevi cartas
comerciais, nem saí correndo para limpar boca-de-lobo,
empilhar caixas, vender coisas de porta em porta. Me
distanciei do mundo das mercadorias, que não era o meu,
nunca tinha sido."

OMAR LIVRE -"Omar deixou o presídio um pouco
antes de cumprir a pena. Saiu à custa dos níqueis
acumulados por Rânia. Talib o encontrou uma vez, e diz que
só falava na mãe. Chorou, com desespero, quando o viúvo
quis acompanhá-lo até o cemitério para visitar o túmulo de
Zana."

TENTATIVAS INÚTEIS - Rânia fez de tudo para se
aproximar de Omar, mas ele fugia da irmã e de todos os
vizinhos. "Durante uns meses ainda foi visto aqui e ali,
perambulando à noite pela cidade. Os malabarismos que
Rânia fez para enviar-lhe dinheiro, tentando atraí-lo,
reconquistá-lo. Sonhava com a presença do irmão em sua
casa, o quarto onde a mãe dormira seria destinado a ele."

AS CARTAS DE YAQUB PARA NAEL -As cartas de
Yaqub nunca falavam de Omar e de Rânia. Cobravam a
visita de Nael a São Paulo. "Por mais de vinte anos adiei a
visita. Não quis ver o mar tão prometido. Lembrava -ainda

me lembro -dos poucos momentos em que eu e Yaqub
estivemos juntos, da presença dele no meu quarto, quando
adoeci. Mas bem antes de sua morte, há uns cinco ou seis
anos, a vontade de me distanciar dos dois irmãos foi muito
mais forte do que essas lembranças."

PATERNIDADE -"Hoje, penso: sou e não sou filho de
Yaqub, e talvez ele tenha compartilhado comigo essa
dúvida. O que Halim havia desejado com tanto ardor, os dois
irmãos realizaram: nenhum teve filhos. Alguns dos nossos
desejos só se cumprem no outro, os pesadelos pertencem a
nós mesmos."

ÚLTIMO ENCONTRO -Depois que Omar saiu do
presídio, houve um último encontro entre ele e Nael, o
narrador. O Caçula foi procurá-lo no quartinho, o mesmo
quarto dos fundos da casa de outrora. "Omar veio
avançando, os pés descalços no aguaçal. Um homem de
meia-idade, o Caçula. E já quase velho. Ele me encarou. Eu
esperei. Queria que ele confessasse a desonra, a
humilhação. Uma palavra bastava, uma só. O perdão."

"Omar titubeou. Olhou para mim, emudecido. Assim
ficou por um tempo, o olhar cortando a chuva e a janela,
para além de qualquer ângulo ou ponto fixo. Era um olhar à
deriva. Depois recuou lentamente, deu as costas e foi
embora."

 
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