Disfluência

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DISFLUÊNCIA: UM MARCADOR CONVERSACIONAL DE PROCESSAMENTO DA INFORMAÇÃO
 
Introdução
            O texto falado difere-se do texto escrito em muitos aspectos. Aquele é marcado por diversos elementos próprios dele, que muitas vezes os interlocutores não percebem durante a conversação, mas que têm presença garantida e papel importante na compreensão da linguagem. Alguns desses elementos são chamados de Marcadores Conversacionais (MCs) e têm função específica.
            Existem MCs de dois tipos: os de interação e os de processamento. Os marcadores conversacionais de interação são produzidos pelo falante e pelo ouvinte, e são sempre “conjunto de partículas, palavras, sintagmas, expressões estereotipadas e orações ou ainda expressões lexicalizadas” (DIONÍSIO, 2000). É o caso de “então”, “né”, “veja bem”, “você não acha?”, “sim”, “claro”, “com certeza”, “ah sim”, “e aí?”, “duvido!”, “mesmo!”, “mhm”, entre diversos outros elementos.
            Já os marcadores conversacionais de processamento são produzidos apenas pelo falante, e refletem uma organização do pensamento – entre eles situam-se as disfluências que, inicialmente, seriam falhas ocorridas durante o processamento da linguagem. Visto que as disfluências desempenham um papel importante na linguagem falada, faz-se necessário um estudo de seus tipos, suas causas, seus efeitos na compreensão das sentenças, enfim, de todos os seus aspectos.
 
Metodologia
            Só há uma forma d se fazer um estudo preciso das disfluências e suas implicações: observando a linguagem falada como ela realmente ocorre, sem induções. Na realização desta pesquisa, o corpus foi recolhido sistematicamente, obedecendo a critérios pré-estabelecidos. A informante, de cuja fala a análise aparece aqui, pertence a uma faixa etária de 36-55 anos, possui curso superior completo (e cursa a segunda graduação) e sempre morou em Belo Horizonte.
            Para este trabalho, foi pedido à informante que falasse por durante uma hora sobre seis temas, com dez minutos para cada um. Foram eles: escola, profissão, religião, família e amor, lazer e Belo Horizonte, respectivamente. Essa fala, que fora preparada pela informante anteriormente, foi gravado em fita DAT no Laboratório de Fonética da Faculdade de Letras (LABFON). A partir da transcrição da fita contendo a gravação do discurso da informante, deu-se início à análise dos dados. Para isso, foram necessárias algumas convenções em relação às notações das disfluências no texto transcrito – era necessário que houvesse uma só maneira de transcrever cada tipo de disfluência.
A análise das disfluências se mostrou complicada, uma vez que elas estão de tal maneira inseridas no texto falado que se torna difícil identificá-las. Portanto, o julgamento dos dados aqui relacionados é questionável. Essa possibilidade era conhecida desde o início das análises e, por este motivo, foi dada a máxima atenção a esse fator; as “possíveis disfluências” eram analisadas em seu contexto, e, dependendo do efeito causado por elas no andamento do discurso, foi decidido se elas deveriam ser classificadas como disfluências ou não.
 
O que são disfluências?
            As disfluências ocorrem por causa de “falhas” no parser, ou seja, no processador da linguagem. Durante o parsing, que é o “processo pelo qual o cérebro humano, ou uma máquina, atribui uma estrutura sintática a uma seqüência de palavras” (FERREIRA & BAILEY, 2004, tradução minha), o parser encontra um problema de processamento, que é caracterizado por pausas, repetições, etc.
            Existem diversos tipos de disfluências. As identificadas neste trabalho foram: Pausa Preenchida; Pausa Vazia; Alongamento; Correção / Truncamento e Repetição.
 
Pausa Preenchida (PP) – As pausas preenchidas são caracterizadas por “eh”, “ah”, “ih” entre palavras ou sentenças. De acordo com o corpus analisado, elas indicam hesitação, dúvida ou reformulação de pensamento.Muitas vezes são inseridas enquanto o parser busca uma palavra indicada para a sentença em produção. A pausa preenchida também é encontrada na transição entre duas sentenças, enquanto o parser formula a sentença seguinte e, em diálogos, pode ser usada para sustentar o turno.
(1)   U insinu públicu hoji... PP ah::: eu diria qui eli ta cada vez pio:::r
(2)   Us professoris di HO:::JI Elis têm muitas vezes um nível PP eh... PIOR
 
Pausa Vazia (PV) – As pausas vazias, como o próprio nome diz, caracterizam-se por uma interrupção no discurso em momentos inapropriados (geralmente no meio das sentenças). Na transcrição analisada, as pausas vazias foram produzidas em grande número, como os resultados mostrarão adiante. Geralmente, têm função semelhante à da pausa preenchida, exceto pela função de manter o turno.
 
(3)   mas di certa manera ela é uma coisa importanti PV ... porque PV ... u alunu PRICI:::AS di um fidibéqui
(4)   você tinha uma responsabilidadi di NOTA uma preocupação PV ... im aprendê alguma coisa
 
Alongamento (A) – O alongamento, enquanto disfluência, é caracterizado pela longa duração de um segmento, geralmente ao final de uma palavra, e indica geralmente reformulação ou hesitação. Aparece muitas vezes no momento de um falante atribuir um adjetivo a uma pessoa ou coisa.
 
(5)   a tecnologia tem evoluídu di uma A manera::: muitu RÁPIDA
(6)   as linguagens qui antis funcionavam quasi A qui::: nu nível da MÁQUINA i você pricisava cunhecê...
 
Repetição (R) – A repetição de uma palavra ou conjunto de palavras indica que o parser está buscando a informação a ser inserida no discurso. Sendo assim, sua função se assemelha à das pausas; no entanto, a repetição demonstra uma maior agilidade e empenho do parser em continuar produzindo a sentença em andamento. Ocorre em grande número em preposições.
 
(7)   você aprendia a::: R a construí
(8)   ispecialmenti depois du final da::: R du final da restrição du mercadu
 
Correção / Truncamento (CT) – As correções ocorrem quando o parser encontra rapidamente um problema na sentença em produção. O falante diz uma palavra ou sentença e, logo em seguida, diz outra, corrigindo a primeira. No caso do truncamento, ao invés de o falante produzir a palavra ou o conjunto delas inteiramente, ele pára “no meio do caminho” e já realiza mudanças no discurso. Ocorre, em alguns contextos, junto com a repetição.
(9) u qui mi iscolheu CT u qui mi fez ISCOLHÊ u cursu di computação ERA a profissão qui eu quiria tê
(10) i acaba... interferinu::: cum a qualidadi (du istudu) CT du INSINU
 
Dados percentuais
            A fim de averiguar a freqüência das disfluências no texto falado, analisaremos agora o número de disfluências ocorrentes em cada um dos temas e, em seguida, nos vinte minutos de fala, correspondentes aos dois temas juntos. Será feito, também, um gráfico ilustrando a proporção entre as disfluências.
 
Primeiro tema – Escola
Número de palavras: 1.476, das quais:
 
Disfluência
Nº de Ocorrência
%
 
 
 
Pausa Preenchida
23
1,55%
Pausa Vazia
63
4,26%
Alongamento
35
2,37%
Repetição
16
1,08%
Correção / Truncamento
50
3,38%
 
 
 
Total
187
12,66%
 
            Com este primeiro quadro, temos uma idéia da freqüência de disfluências cometidas pela falante. Ele demonstra que, das 1.476 palavras produzidas neste tema, 187 apresentavam disfluência, ou seja, 12,66% delas. Além disso, temos uma prévia especifica das disfluências, mostrando que umas ocorrem em maior número que outras. Podemos observar que o discurso da informante contém grande quantidade de pausas vazias e de correções / truncamentos de palavras.
 
 
Segundo Tema – Profissão
Número de palavras: 1.461, das quais:
 
Disfluência
Nº de Ocorrência
%
 
 
 
Pausa Preenchida
20
1,36%
Pausa Vazia
46
3,13%
Alongamento
38
2,60%
Repetição
17
1,16%
Correção / Truncamento
32
2,18%
 
 
 
Total
153
10,43%
 
            Nesse tema, houve uma pequena queda na quantidade total de disfluências. No entanto, essa queda não se mostra significativa, embora aponte para um fator que pode ser de grande importância no estudo das disfluências: o tema. Diferenças no número de disfluências num número semelhante de palavras sugere que, conforme o tema, o falante tende a ter mais ou menos dificuldade em falar, por diversos fatores (emoção, vergonha, orgulho, conhecimento, etc.), o que reflete na capacidade do parser em processar a sentença, ocasionando “falhas”.
 
Total (aproximadamente 20 minutos)
Número de palavras: 2.937, das quais:
 
Disfluência
Nº de Ocorrência
%
 
 
 
Pausa Preenchida
43
1,46%
Pausa Vazia
109
3,71%
Alongamento
73
2,48%
Repetição
33
1,12%
Correção / Truncamento
82
2,77%
 
 
 
Total
340
11,54%
 
            Unindo os dados dos dois quadros, que se mostram bastante semelhantes, chegamos a uma percentagem geral de vinte minutos de fala. A partir dele, temos uma visão mais ampla da ocorrência de disfluências. Também temos uma evidência muito importante para os estudos futuros neste assunto: de acordo com os números apresentados nestas tabelas, a cada 100 palavras retiradas do corpus, de 10 a 12 são disfluentes, e não de 6 a 10, como afirmado por FERREIRA & BAILEY (2004). Estes números nos mostram que as disfluências ocorrem em número considerável no texto falado e, por este motivo, seu estudo merece (e necessita) ser realizado, uma vez que elas têm papel importante na compreensão da linguagem.
      Uma observação foi feita a respeito das pausas vazias: esse tipo de disfluência, que se esperava não ser encontrado em grande quantidade, pois sua ocorrência supostamente seria incômoda, foi a modalidade encontrada em maior número em todos os quadros: 32,05% das disfluências identificadas eram pausas vazias. Em segundo lugar vêm as correções e truncamentos, totalizando 24,11% dos casos. Em seguida, temos o alongamento de segmentos, que constitui 21,47 das disfluências. As pausas preenchidas, cuja expectativa de ocorrência era grande, apareceram em quantidade relativamente pequena nessa informante: 12,64% dos casos. O tipo menos incidente foi a repetição, que totaliza 9,70% do total de disfluências.
 
Problemas na identificação das disfluências
            Os números apresentados nos quadros acima pode apresentar alguns problemas, principalmente em relação às pausas vazias, visto que é difícil distinguir entre uma pausa normal do enunciado, como a utilizada pelo falante para retomar o fôlego ou a equivalente à vírgula do texto escrito, e uma pausa que demonstra disfluência. O critério utilizado na diferenciação dessas pausas foi a análise do local onde as pausas ocorrem: observa-se que pausas “normais” ocorrem apenas no final do enunciado ou dos sintagmas. Observa-se, também, que estas pausas “normais” são perfeitamente aceitáveis para o ouvinte, enquanto as pausas decorrentes de disfluência causam, geralmente, certo incômodo.
            Quanto ao alongamento de vogais (e de algumas consoantes) no discurso, é preciso lembrar que nem sempre sua ocorrência é conseqüência de uma falha do parser, uma vez que utilizamos esse recurso muitas vezes quando queremos enfatizar alguma palavra, ou seja, dar-lhe destaque, indicando sua importância. Isso quer dizer que o alongamento ocorre em pelo menos dois contextos: um, em decorrência de uma dificuldade no processamento da sentença em andamento; outro, como recurso prosódico.
 
Considerações finais
            A partir das informações contidas nesse trabalho, é possível traçar um perfil preliminar do papel das disfluências na compreensão da linguagem humana. Deve-se considerar, no entanto, que muitos outros fatores, não analisados aqui, podem ter papel determinante na ocorrência das disfluências. Entre eles podemos citar: a idade e o sexo dos informantes, a escolaridade, a importância e o conhecimento do assunto para o informante, fatores emocionais, status do relacionamento entre os interlocutores, etc. acredita-se que o número de disfluências no discurso possa variar de acordo com estes fatores, mas é fato que elas estarão sempre presentes na fala, inclusive para auxiliar na compreensão. Elas são de vários tipos e exercem diversas funções, funções estas fundamentais.
            O importante em relação as disfluências é ter em mente que elas são parte integrante da fala e que sua ocorrência não indica nenhum “problema” lingüístico. Não se deve confundi-las então, com casos patológicos, como a gagueira.
            O objetivo maior deste trabalho foi salientar a importância das disfluências na compreensão da linguagem falada. Outros estudos a esse respeito precisam ser iniciados a fim de investigar a fundo esse fenômeno lingüístico.

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